domingo, novembro 01, 2026

NOVEMBRO DE TODOS OS SANTOS - 2

NOVEMBRO DA LIBERDADE DE TODOS OS SANTOS Prof. Dr. Severino Vicente da Silva (Biu Vicente) Aposentados da UFPE, Membro da CEHILA, Membro do IHO, Membro IHGP Novembro é um mês interessante porque ele começa qual o dia de Todos os Santos, ou seja, é o nosso dia; é o dia de todos os cidadãos é o dia de todos celebrarmos a vida e é o dia de lembrarmos que temos que continuar dos nossos antecessores preparando o caminho para aqueles que virão depois de nós, porque todos nós somos Santos, todos nós somos convidados a buscar a cidade e a cidade passa pelo caminho também do civismo, do amor à pátria, do amor do próximo, do pensamento da humanidade. Todos os Santos é isso que nós somos, é isso que nós teremos que ser no nosso dia a dia. Na última semana nós tivemos a eleição presidencial no segundo turno dessa eleição que para todos nós foi uma grande alegria, para alguns foi uma surpresa: tenho amigos ou pessoas conhecidas que disseram ser inacreditável e impossível como é que isso teria acontecido? e isso aconteceu porque muitos de nós nunca deixamos de acreditar na nossa força, nós não deixamos de acreditar na nossa capacidade de nos unir, de nos manter fiéis aos nossos ideais e aos interesses da pátria, dos colegas, dos amigos da nação, da humanidade; por isso para alguns de nós não foi surpresa, talvez surpreendeu, ou que tivesse surpreendido o número de votantes. Mas isso se deveu ao retorno da Juventude dos mais velhos a presença daqueles que em meados do século passado elegeram pela primeira vez um operário e que fizeram questão de sair de casa para dar mais um voto, talvez o último de suas vidas, àquele operário que, chegando ao poder, trouxe a lembrança, a saudade, a verdade e o desejo constante de mudança e de alegria. Tudo isso nos faz pensar que devemos nos manter juntos da mesma forma que nos unimos para ganharmos eleição presidencial, para fazermos a maravilhosa virada do segundo turno e derrotarmos desta vez, mais uma vez, o fascismo personalizado nessa família infame que desgastou e que praticamente separou parte do país pois bem, temos que nos manter unidos para evitar o retorno deles, que jamais voltarão essa família, mas o fascismo está sempre presente, como dizia o filósofo, ele tem muitos ovos ele aparece em vários lugares, nós nunca o derrotamos definitivamente. ainda por isso temos que nos manter juntos, temos que manter nossa mobilização, nossos partidos não devem se separar de novo do povo, porque é o povo, sabendo ou não os caminhos, é ele que aponta os caminhos do futuro com o seu trabalho, com a sua pertinácia, com sua capacidade de não se render diante estás dificuldades que a enfrenta no seu dia a dia, e digo isso porque é importante dizer essas coisas no início de novembro. Se aqui Olinda, no dia 10 será celebrada a memória da Proclamação da República, a primeira República ou a primeira vez que se falou a palavra República no Brasil, precisamos lembrar que aquele que falou pela primeira vez em República era dono de escravos, era uma das pessoas que liderava o exército para destruição do Quilombo dos Palmares; mas quis a história, quis o destino que seu grito de República na Câmara municipal de Olinda repercutisse até aos dias de hoje, e a população de Olinda continue lembrando, não tanto dele, mas principalmente da ideia da República, essa ideia que fez gerado uma quantidade de experiências na nossa história, e o dia 10 de novembro está ligado também a uma modificação na República, e uma modificação triste que foi a instalação do Estado Novo, de uma ditadura. Então o 10 de novembro é também em momentos de a gente pensar, que diante dos acontecimentos liderados por Getúlio Vargas naquele 10 de novembro, precisamos estar atentos, porque é a mesma data que celebra a ideia da República lamentavelmente, é também a data que celebra a lembrança de uma ditadura a ditadura do Estado Novo. É por isso que devemos estar mobilizados, é por isso que devemos estar atentos, é por isso que nós não podemos desistir jamais das nossas ideias, dos nossos ideais, do objetivo de criar um mundo livre capaz de abranger toda a humanidade. Então nesse dia de Todos os Santos eu desejo a todos que mantenham a fé, desejo a todos que se mantenham unidos, que nos mantenhamos, e devemos nos manter juntos para juntos estarmos sempre pontos para derrotar os fascismos que serão apresentados no dia a dia. Escrito em primeiro de novembro de 26, em Bultrins, Olinda.

nOVDMBRO DE TODOS OS SANTOS

10 DE NOVEMBRO, UMA TRADIÇÃO CÍVICA Prof. Dr. Severino Vicente da Silva Prof. Aposentado da UFPE Sócio do Instituto Histórico de Olinda - IHO Sócio do Instituto Arqueológico e Histórico de Goiana - IAHGO Membro da Comissão de Estudos de Igreja na América Latina - CEHILA Existem muitas tradições na formação e vida de uma nação; e um país como o Brasil, com populações originárias de regiões e continentes diversos, tem muitas tradições a serem cultivadas. Assim certas datas são escolhidas por lembrarem algum acontecimento, um momento histórico para a classe que está no poder, e são lembrados celebrado e celebrados para manter uma certa tradição, manter a coesão e força do grupo social que esteja no poder. Uma dessas datas, para os brasileiros de Olinda, é o 10 de novembro; data que celebra o momento em que a Câmara Municipal de Olinda, em uma sessão comum, recebeu a palavra de um dos seus vereadores, Bernardo Vieira de Mello, e essa palavra qual que animava os seus colegas e a tornar a cidade de Olinda uma República. Foi esta a primeira vez em que, na história da colônia portuguesa na América, essa colônia que hoje conhecemos com o nome de Brasil, ouviu o pronunciamento de uma autoridade conclamando a formação de uma República, palavra República que tanto nós usamos nos dias de hoje por conta da tradição que nos foi herdada pelas lutas francesas nos séculos XVIII e XIX, nas quais o povo, foi em revolta às ruas, mas já organizado em torno de um partido, o jacobino , e proclamou o que se chamou a primeira República francesa. Outras vieram depois, como resultado da constante luta contra os absolutismos que jamais cansam tentar manter os povos submissos. República não é uma palavra nova no vocabulário político, ela vem sendo utilizada desde a época dos gregos, especialmente a partir do livro de Platão , A REPÚBLICA, naquele livro ele menciona que uma população reunida pode formar uma República, ou seja, um governo em que o povo governe a si mesmo. A palavra República é formada de duas: a palavra RES e a palavra PÚBLICA, ou seja, ela menciona que é o espaço onde vivem as pessoas é uma coisa pública um espaço de todos, com a participação de todos os cidadãos, que fazem súditos da cidade ou Pólis, não de um indivíduo, Quando da transição entre o período Medieval para o Moderno, no tempo que Burckhardt, estudioso da cultura e das artes, chamava de Renascença italiana, viu-se a formação de várias repúblicas, aglomerações políticas que eram governadas não por nobres aristocratas, reis ou pessoas de famílias reais, mas por comerciantes burgueses, por gente que tinha vindo do povo; assim nós tivemos a República de Florença, a República de Gênova, a república de Veneza e várias outras quando Bernardo Vieira de Mello veio a proclamar a República aqui em Olinda. Ele vivia a época do Renascimento, a da Renascença italiana que, embora já tenha chegado quase ao seu término, influenciava aqueles que queriam diminuir a autoridade real. A República na qual pensava Bernardo Vieira de Mello não era uma República como pensaram os franceses 100 anos depois, ele julgava e desejava um governo local nas mãos daqueles que detinham o poder local, ou seja, os grandes proprietários de Terra os proprietár ios de escravos, A palavra República, na mente de Bernardo Vieira de Mello não vinha acompanhada da ideia de Liberdade, da ideia de igualdade, da ideia de fraternidade que formavam a tríplice ideal dos franceses no século XVIII. A República sonhada por Bernardo Vieira de Mello e proclamada há 10/11/1710 não continha a ideia da Liberdade dos escravos, mesmo porque o sargento mor de Olinda, vereador da cidade, fazia parte dos Homens Bons, homens de bens que eram proprietários de escravos, em nenhum momento passava pelo pensamento de Bernardo Vieira de Mello a ideia de libertar os escravos concedendo-lhes a Liberdade. Não devemos esquecer que este Bernardo Vieira de Mello fez parte do exército liderado pelo bandeirante Domingos Jorge Velho que destruiu o Quilombo dos Palmares, a resistência republicana de negros que fugiam da escravidão, sob a liderança de Zumbi dos Palmares. Então, Liberdade e República não eram ideias que se conjugavam no pensamento de Bernardo Vieira de Mello, sendo essa uma razão pela qual os vereadores de Olinda decidiram continuar súditos de sua majestade o rei de Portugal. Devemos ter tudo isso em mente quanto nos reunimos em torno das ruínas dessa casa que foi, em algum momento, a Câmara Municipal de Olinda, que essa comemoração não está ligada a ideia da República que atualmente está presente no pensamento político contemporâneo, a tradição que hoje lembramos e devemos celebrar, é por ter sido ela a primeira das manifestações do poder popular organizado ou de alguém com poder que desejava ser organizado pelos nascido na terra, e o popular aqui significa não a maioria dos habitantes, mas os homens livres especialmente os chamados homens bons ou seja os homens de bens da Capitania de Pernambuco, devemos tomar essa ideia de República e atualiza-la para os nossos dias para os atuais desejos, porque uma tradição se mantém não porque cultiva o que aconteceu mas porque é cultivada naquilo que ela movimenta e indica. O que Bernardo Vieira de Mello, ainda que não quisesse, iniciou foi o movimento em torno do poder político para a população. Os demais membros da Câmara municipal de Olinda não acordaram com as ideias e as pretensões de Bernardo Vieira de Mello que fez essa proclamação durante um conflito entre os interesses de Olinda e os do povoado do Recife que crescia de tal forma que buscava ser também uma cidade reconhecida, uma cidade habitada por mascates, ou seja o chamado GRITO DE REPÚBÚLICA de Olinda foi uma tentativa de evitar o avanço político do povoado do Recife e garantir os privilégios da cidade de Olinda na cobrança de impostos e manutenção dos interesses daqueles que comandavam as cidades. Mas esses interesses também atentavam contra autoridade do rei de Portugal, contra a metrópole, por essa razão os demais vereadores não acataram o que desejava Bernardo Vieira de Mello, uma vez que essa república, implicava a separação de Olinda em relação ao poder metropolitano português. A repressão veio em seguida, algum tempo depois a chegada de um novo governador (Manoel Álvares da Costa) que substituiu aquele aquele que abandonara o governo de Pernambuco. Bernardo Vieira de Mello veio a morrer na prisão e seu corpo desapareceu, após o terremoto em Lisboa de 1750. A data 10 de novembro é importante no sentido que nos lembra uma certa rebeldia de um grupo social proprietário de terras e escravos contra o poder metropolitano, um a quase revolta não bem sucedida, e poder metropolitano continuou submetendo o Brasil sob a sua autoridade Nós devemos manter a tradição Siri na barra a República dando-lhe este esta atualização de quê o Brasil tem que ser governado para todos tem que ser uma República agora envolvendo não os escravos mas os ex- escravos os indígenas aqueles que não conseguiram vamos localização no sistema social por isso devemos dizer viva o 10 de novembro o primeiro grito de República do Brasil vivo 10 de dezembro um momento um grito de Liberdade política

terça-feira, março 03, 2026

ARQUIVO PÚBLICO DE OLINDA

ARQUIVO PÚBLICO DE OLINDA Prof. Severino Vicente – Biu Vicente Um arquivo público deve ser visto como um espaço sagrado onde estão guardadas as informações sobre a vida de nossos ancestrais; foram criados com o intuito de complementar uma das funções de nosso cérebro, a memória, e isso indica que um arquivo é parte de nosso corpo, um dos nossos organismos. Eis uma razão pela qual deve ser cuidado. Estive ontem, dois de março, em uma reunião celebrativa dos quarenta e três anos do Arquivo Público Antonino Guimarães, mais conhecido como Arquivo Público de Olinda. Atualmente ele funciona na antiga residência de Claudino Leal, industrial e investidor que viveu no final do século XIX, e foi diretor da Companhia Santa Tereza, que foi responsável pelo fornecimento de luz e água para a cidade. O Prédio foi tombado pela Prefeitura da cidade, que hoje mal olha para o prédio que está ao seu lado. Infelizmente esse tem sido o comportamento das mais recentes administrações, independente de suas opções político-ideológicas, como se percebe pelas paredes rachadas, pela ausência de computadores e ligações com a rede internacional de comunicação. A ausência de concursos públicos para suprir vagas da aposentadorias, faz o Arquivo depender de apenas dois funcionários, um deles participante da fundação da instituição, e outro às vésperas da aposentadoria. Em Olinda, cidade reconhecida pela UNESCO, por guardar a memória do mundo, as administrações parecem desejar o fim da memória, a impossibilidade de fazer a história. Qual a origem de tal desleixo, de tal desapego por sua história. A resposta mais fácil, e falsa, é lembrar a herança portuguesa, mas desde 1824 decidimos colocar essa herança no lixo. Mais difícil é admitir que os que comandaram a cidade, Pernambuco e o Brasil, não tinham - não têm – interesse em formar uma nação, esta é formada a partir do conhecimento que possue de si mesma, e esse requisito é dado pela história, por seu estudo e reflexão. Mas não permitiram, e continuam não a não permitir, que o povo que forma a nação tenha acesso a uma moradia que lhe permita local para estudo; evitam criar escolas para o povo e não cuidam da formação permanente e séria, para que os professores possam fazer o seu trabalho com qualidade cada vez melhor; criam políticas para evitar a melhoria dos salários, mantendo-os ao nível da escravidão, que ensinam ter acabado no final do século XIX. Essas são as mazelas que pretendem esconder com a destruição do Arquivo Público Antonino Guimarães. No dia 2 de março, eu e vários companheiros, recebemos um certificado de “Amigos do Arquivo”. Fazemos pouco, visitamos o local, damos suporte moral aos que ali trabalham. Tenho levado, quando era professor da UFPE, com os meus e seus recursos, meus alunos do curso de História e outros cursos que me chamaram para ministrar aulas, transferir e fazer nascer novos conhecimentos. Foi sempre uma ação emocionante. Necessário que outra pessoas, mestres, doutores, alunos, gente com ou sem diploma encontre um tempo para nos visitar, nos ajudar a manter viva a história do Olinda, preservada em se Arquivo. E verifique se em sua cidade tem um arquivo. 3 de março,2026, Bultrins, Olinda, dia de São João Brito.

segunda-feira, novembro 24, 2025

Da Poesia de Patativa do Assaré ao Instituto Histórico de Olinda. Severino Vicente da Silva, presidente do IHO. Professor aposentado da UFPE, Ao iniciar sua bela, poética descrição sobre as esperanças e sofrimentos dos nordestinos que, foram tangidos de sua terra materna na seca dos anos 1950, Patativa do Assaré inicia com as esperanças de chuvas nos meses de outubro, novembro e, a partir de dezembro, com a não chegadas das barras de chuva naquele mês, ele conta a busca das águas nas experiências. Mas é o sol queimando a terra que ele deixa após vendê-la por pouco dinheiro ao “feliz fazendeiro”. Então migra para terras estranhas, onde será tratado como “escravo nas terras do Norte e do Sul”. A terra da qual ele se despede é das primeiras, no Brasil, que sofrem as variações climáticas, esse enorme desafio que a humanidade tem que que vencer, mas que os felizes fazendeiros do agronegócio, os donos do capital, pouca importância dá aos sofrimentos de gente que mora na periferia e preferem os manter “como escravos no Norte e no Sul”, como ficou demonstrado nos dias finais e no documento final da COP30, realizada em Belém do Pará. O mês de novembro trouxe a novidade da paz que Trump e Putin desejam para pôr fim a uma guerra invasora Russa sobre a Ucrania, sendo novidade que os ucranianos devem entregar pedaços de suas terras à Rússia, pois se não o fizerem os Estados Unidos da América irão retirar todas as ajudas que atualmente eles dão país limítrofe com a Rússia, o que significa entregar a Ucrania à potência Oriental. Como todas as guerras, esta é uma insanidade, e que sendo organizada por dois dos maiores criminosos de guerra, na atualidade. Mais uma “paz” que sai do gabinete de Trump, o que garante a alegria dos que vendem armas para os beligerantes. Neste lado do globo, Trump iniciou uma guerra “contra o narcotráfico” venezuelano, mas não desenvolve políticas sociais capazes de diminuir o fluxo de drogas para o seu país, e o consumo de drogas dos jovens estadunidenses. Nessa guerra que prepara a invasão da Venezuela, têm-se a maior concentração de barcos, aviões e porta-aviões em mares limítrofes na América Latina que, desde o século XIX, os estadunidenses tratam como seu sítio. Daí a surpresa causada pelo Brasil dirigido por Luiz Inácio da Silva, que é filho de uma mulher que pode até quebrar, mas não se curva, como desejam alguns brasileiros de nome estravagante que, até pouco governavam o Brasil, sequenciando os felizes fazendeiros estabelecidos na Faria Lima, nome tomado emprestado de um brigadeiro. Neste novembro, que tem um dia para que a sociedade brasileira reflita a Consciência Negra, ou seja tome consciência que ela é formada por negros que, escravizados da África, que também foram responsáveis pela criação das riquezas que fizeram felizes os fazendeiros, responsáveis pela abertura de estradas, construção de casas, pontes, igrejas e outros equipamentos que são parte da socialização e formação do Brasil. A sociedade brasileira deve tomar consciência da importância desse grupo formador do povo brasileiro, até mesmo com a doação, quase forçada, de sua carga genética que, junto aos índios e brancos formaram o povo mestiço e alegre que somos. Os “felizes fazendeiros” nos fizeram esquecer isso, perder nossa CONSCIÊNCIA em escolas que, até os dias atuais mantém os modelos do século XIX. Buscando resgatar as raízes e fortalecer a nossa consciência como povo, o Instituto Histórico de Olinda promoveu, com o apoio do IPHAN, da Senadora Tereza Leitão e de vários outros institutos históricos de municípios pernambucanos a exposição OLINDA RUMO AOS QUINHENTOS ANOS, com fotografias de época e atuais, as diversas fases vivida na sua construção, desde a Guerra de Duarte Coelho contra os indígenas Caeté. Como todas as histórias, Olinda Foi feita com suar, risos, lágrimas e sangue. Essas são memórias desse outubro/novembro de 2025. Bultrins, Olinda, 23 de novembro de 2025, dia da Clausura da 3ª sessão do Concílio Vaticano II.

domingo, outubro 12, 2025

ESQUECIMENTO E HISTÓRIA

ESQUECIMENTO E HISTÓRIA DO BRASIL PROF. Severino Biu Vicente da Silva Aposentado da UFPE, presidente do IHO, membro da CHEILA-Brasil, sócio correspondente do IHAGGO, Sócio do IHAGP Sonhamos sim, e não poucas vezes os esquecemos. Alguns desses esquecimentos ocorrem de maneira tão profunda que há os que procurem um especialista para os ouvir. Esses confessionários mais recentes, esse modo de ouvir sem interferência, parece desinibir o dito inconsciente, essa parte do ser que guarda o que se deseja esquecido, mas que se busca, posteriormente, como um possível caminho para a ‘cura’ de desajuste causado pelo esquecimento. É que esquecer parece ser proveitoso naquele instante da tensão que provocou o incidente doloroso, aos poucos ele se mostra danoso por condutas que poderiam ser evitadas caso fossem refletidas e agregadas ao cotidiano. Esses pensamentos são de um leigo que, vez por outra manuseou manuais de área que não é a sua, mas dessas áreas são muitas as lições que completam as observações históricas, como nos esclarece Michel de Foucault e outros grandes historiográficos da segunda metade do século XX. Todas as vezes que, em um botequim, conversa com jornalistas ou colóquio de historiadores, se fala ou se reflete sobre o Brasil, é costumeiro dizer que os brasileiros não cultivamos a nossa memória e que a sua falta é que nos faz retornar aos erros e nos evita a tomar atitudes que possam modificar o quadro, ou quadrado, em que se pôs a sociedade brasileira. Há algumas coisas verosímeis nessa afirmação, mas também nos apresenta um argumento de desalento próprio daqueles que já esquecem que são parte da humanidade, mais especificamente, da sua pequena aldeia. Não é à toa que escutamos brasileiros que não se escutam dizerem: os brasileiros não têm memória; os brasileiros são dessa ou daquela forma. Falam e agem como se fossem marcianos, venusianos. Assim se expressam, pois foi assim que lhes ensinaram nas escolas, no tempo em que a escola era para os poucos da ‘elite’, dos endinheirados, descendentes de escravocratas e continuadores de seus hábitos. Aprenderam dessa forma e, quando escreveram os livros didáticos a serem utilizados nas escolas, retiraram da história o povo, não lhes permitindo terem acesso às informações que aprofundariam a personalidade do povo brasileiro que, a partir desses manuais, parece não existir na realidade. As escolas organizadas por essa ‘elite’ brasileira que não acredita no Brasil, pois se recusa a aceitar não o sonho, mas a realidade que ela existe e foi criada na destruição da memória. Talvez seja essa uma das razões que, à medida que os que eles marginalizaram começam a romper os limites por eles criados, chegando às salas de aulas, eles passaram a diminuir a importância e os salários dos professores. Assim assistimos a eles e seus prepostos, criarem leis que levam ao corte de investimentos sociais – que eles e seus apaniguados chamam de gastos, e ficam a repetir nas imprensa – escrita, falada e visual, o estribilho inferna de “corte de gastos”. Como nos ensina o grande brasileiro Darcy Ribeiro, esse é o projeto deles: não permitir que novas gerações tomem consciência do esquecimentos a que foram submetidos; o projeto é evitar que os pobres, gerados pela sua ânsia descomunal de lucro tenham acesso ao saber, ao conhecimento de seus passado. Estas algumas razões por serem contra os CIEPES e criam enormes dificuldades para o estabelecimento de escola de regime total, o que daria aos professores a oportunidade de criar laços pedagógicos mais permanentes com aqueles que lhes são confiados. E então haveria a possibilidade de realizar o que é o sonho de Paulo Freire, professor perseguido pelas elites, o cultivo da consciência de sua humanidade, de sua participação e responsabilidade na construção da sociedade livre da mentira e do esquecimento. Para terminar essa conversa que já está longa, quero lembrar que, quando fui sequestrado em 1973, juntamente com o professor José Nivaldo Junior, escutei de um dos meus guardiões: por que é que a gente tem que prender tantos professores de história? A imagem negra de Maria, a Senhora Aparecida, apareceu aos pobres no período em que portugueses estavam dando início ao processo de esquecimento do Brasil profundo. Professor Severino Biu Vicente da Silva, no bairro dos Bultrins, Olinda, no dia de Nossa Senhora Aparecida.

domingo, setembro 07, 2025

DATAS CÍVICAS

DATAS CÍVICAS Professor Severino Vicente da Silva – Biu Vicente As datas cívicas servem para promover uma unidade de pensamento e ações de uma população, de uma nação. Os brasileiros escolheram o dia Sete de Setembro para celebrar a sua separação do Império português, e então celebramos a Independência do Brasil, em torno de ato que teria sido protagonizado pelo Regente Pedro de Alcântara, assessorado por sua esposa e José Bonifácio de Andrade, Tal acontecimento acontecera às margens do riacho Ypiranga, em São Paulo, quando o príncipe Regente voltava de uma tarefa de pacificação em Minas Gerais. A escolha dessa data pôs em esquecimento as ocorrências em Pernambuco, em novembro de 1821, quando as Câmaras de Goiana, Nazaré, Olinda tomaram o poder do Capitão-general Luiz do Rego Barreto, o que fez Pernambuco ser independente desde então, e foi governado por Gervásio Pires Ferreira. Esse movimento de rebeldia popular, armado contra o arbítrio da monarquia portuguesa, tem sido olvidado para que seja mantida a tradição de que não houve guerra dos brasileiros contra o império português, de forma que se formou a ideologia de um país pacífico, embora tenha sido mantida a escravidão e a negação da existência de cidadãos sem participação política, como base da nação que surgia e se fortaleceu ao longo de século XIX, sempre comandada pelos proprietários de terras. Neste ano de 2025 o Brasil está enfrentando mais um momento de crises: uma externa, sempre latente, que é a presunção dos Estados Unidos da América do Norte manter uma autoridade abrangente sobre os países e nações do continente Sul-americano, também desejando estender-se sobre os demais continentes, e a interna, a permanente luta dos grupos endinheirados (alguns dizem elites) pelo controle do poder político. Desafeita a crise interna torna-se explícita e toma feição no julgamento do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro e seus correligionários, militares e civis, na tentativa de golpe de estado, perpetrada em janeiro de 2023. Nesta semana que se inicia, é possível que tenhamos a primeira condenação de ex-presidente e generais golpistas, representantes de grupos sociais e políticos conservadores pelo Supremo Tribunal Federal, e que virá a ser uma ação de independência do Brasil da parte do Brasil, formado por brasileiros, como dizem, de pés raspados. Estes, que se organizam em movimentos sociais, apresentaram-se em manifestações paralelas àquelas oficiais nas principais capitais e tornam-se um Grito dos Oprimidos, daqueles que descendem de escravos, de indígenas e que formam a maioria do povo brasileiro. Além dos desfiles oficiais, os grupos de poder e seus agregados de falsos patriotas, chegaram às ruas tornando claro que estão dispostos a entregar o Brasil aos EUA, enrolando-se com a bandeiras daquele país e de Israel. As diversas manifestações deste domingo nos oferecem um retrato da sociedade mais próxima da realidade que aquela oferecida aos brasileiros em sua formação cultural e escolar. Ou seja, estamos assistindo a exposição da luta de classes vivida pela sociedade brasileira ao longo dos dois séculos de independência, que não pode continuar ser naturalizada, como nos ensina, com correção, a filósofa Marilena Chauí. Aos mesmo tempo, li Leonardo Boff a dizer que devemos superar a fase dos limites entre os países, pois todos somos membros de uma “pátria comum”. Mas estou lendo Anne Applebaum que nos mostra que governos de tração ditatorial estão utilizando a dita Inteligência Artificial, ultrapassando as fronteiras nacionais, como já o fazem as grandes redes bancárias e o crime organizado. Há muito que pensar, fazer, pensar. Bultrins, Olinda, 07 de setembro de 2025.

sábado, julho 19, 2025

MÊS DE JULHO, MÊS DE SANT'ANA

O QUE NOS DIZ O MÊS DE JULHO; O TEMPO DE SANT’ANA Prof. Severino Vicente da Silva Sétimo mês do ano, resultou da reforma que Júlio César, ditador romano que mandou fazer a mudança, para melhor contar o tempo e, principalmente, para glorificá-lo. Neste ano de 2025, na região Nordeste do Brasil, julho herdou um pouco do frio das noites de junho. 1. JULHO E AS MULHERES E OS GUERREIROS Com o esquecimento da origem nominal do mês, a tradição cristã portuguesa, passou a mencionar o mês que inicia o segundo semestre de ‘mês de santana’, homenagem àquela a quem se credita ser a avó de Jesus, mãe de Maria, Ana ou Santana como ficou popularizada na tradição mais lusitana. Interessante verificar que algumas das mais antigas igrejas construídas nos engenhos produtores de açúcar, quando não dedicadas a Nossa Senhora da Luz, são oráculos que homenageiam Ana, ou Santana. O dia 26 é inteiramente dedicado a Santa Ana e, acompanhado por Joaquim, seu esposo. Essas devoções femininas estão ligadas às senhoras de engenho e, Santana é apresentada ensinando os passos de leitura a uma menina que, parece representar Maria enquanto menina, recebendo os primeiros ensinamentos. Sim, muitas mulheres casadas com senhores de engenho eram alfabetizadas, o que lhes permitiu dirigir os destinos de suas propriedades na ausência de seus maridos. E nós sabemos que o acesso à leitura é, no Brasil, foi sempre, privilégios dos grupos que dirigiam a colônia portuguesa e, posteriormente, no Brasil que se libertou de Portugal, e, contudo preferiu manter-se escravo dos conhecimentos em troca de manter a população sob seu domínioi. Mas sempre há uma Beatriz - ou Brites – Albuquerque, a Capitoa da Capitania de Pernambuco. 2. MULHERES NA FORMAÇÃO DAS ESCOLAS NO BRASIL E NA FORMAÇÃO DOS BRASILEIROS Até pouco mais de cem anos, pequeno era o número de mulheres com acesso ao conhecimento e às escolas que foram criadas no final do Império e na República. Mas é interessante notar que em todos os séculos de sua história, no Brasil sempre podemos encontrar mulheres que, ainda que obscurecidas pela historiografia masculinizada, ativas nas ações sociais. As professoras são famosas antes que um sistema escolar viesse a ser criado no país, e pequisas indicam a existência de mulheres escritoras, nos jornais do século XIX.ii Mas há um esforço para distanciar as mulheres das escolas. Contudo o mundo muda e as mulheres aparecem cada vez mais nas universidades, como alunas e como professoras. Uma demonstração disso é que, em 1970, apenas 26% dos estudantes das universidades era do sexo feminino; atualmente, 50% da matrícula nas universidades é de mulheres e, no momento da conclusão do curso elas mantêm-se em cerca de 58%, os rapazes giram próximo a 49%.iii Embora de forma lenta, Santana está deixando de ser apenas professora de meninas ricas, sinhazinhas de engenho;agora as descendentes dos índios e negros escravisados estejam a frequentar as salas de aula, e, ainda que, com diploma nas mão, elas tenham maiores possibilidades de entrarem no mercado de trabalho, os espaços são ganhos de maneira lenta. Elas, ainda que não o saibam, são as Sant’Anas. Entre as muitas capelas dedicadas a Santana, vem à mente uma capela situada em engenho que se põe entre as cidades de Goiana e Condado. Aliás nessa capela se mantém uma tradição de louvar uma menina que, à época escravocrata tratava bem os escravos do engenho do seu tio. A cidade de São Lourenço da Mata possui um povoado chamado Nossa Senhora da Luz, onde está uma das mais antigas igrejas de Pernambuco com dedicação a tal devoção. Ainda na Mata Norte de Pernambuco há a Igreja com tal devoção no Engenho dos Ramos. Entretanto, a devoção popular, escolhida pelos cortadores de cana daquele engenho, e de muitos outros, voltou-se para Severino, São Severino dos Ramos, talvez a segunda maior tradição religiosa de Pernambuco e dos estados vizinhos, produtores de açúcar de cana. 3. MULHERES E GENERAIS Ao visitar os manuais de história encontramos poucas mulheres em destaque, embora saibamos que elas possuem papel especial na trajetória humana, começando, na tradição judaica, com a presença de Eva, criada para ser companheira de Adão, logo foi demonizada como personalidade central do drama que introduz o mal na sociedade, o que é feito para retirar o homem da responsabilidade nesse processo. Semelhante acorre na tradição dda Europa greco-romana; observamos que, em sua origem, as mulheres nos são apresentadas, com um protagonismo positivo das seja como deusa, seja como a introdutora de atividades fulcrais para a sobrevivência da humanidade que crescia em população, especialmente urbana e carente de alimentos. A agricultura foi fundamental no estágio da superação para a época urbana. Mas os gregos e herdeiros esquecem a Ceres e expõem Medeia e Jocasta. Helena, a quem não se permite a fala, nos é apresentada como responsável por uma guerra que, Paris se justifica colocando a responsabilidade do conflito em deusas que desejavam sua beleza. O homem não pode ser acusado dde destruir sua cidade. Mesmo rainhas como Cleópatra são apequenadas, apresentadas como amantes, vaidosas, traidoras. Ramsés, Akemamon, Ciro, Dario, Davi, Salomão, Júlio César são os responsáveis pelo destino das suas civilizações, são generais, senhores da guerra, conquistadores treinados a serem capazes de atrocidades, que são apresentadas como heroísmo. Escrevem, ou mandam escrever livros e monumentos que apodam a sua ganância como bravura. O imperador Marco Aurélio é esquecido como pensador para ser louvado como guerreiro em luta, em guerra constante, como cada vez mais ensinam os novos suportes.iv E, não sem razão, os atuais noticiários estão repletos de notícias sobre Puttin, Natanyahu, e outros sanguinolentos líderes e, mais recentemente ao que não mata diretamente, mas induz ao genocídio ou o faz através de tarifas, do recebimento de subsídios que, levarão à fome, milhares de seres humanos. O relatório de Júlio César – Vim, Vi, Venci – não menciona quantos romanos e francos, principalmente, morreram para a glória de Roma e para sua glória e alegria pessoal. E o processo educacional condiciona as gerações a dedicarem horas de seu dia assistindo a filmes que fazem a apologia da violência, equanto que o uso da capacidade intelectual vai sendo perdida para a dita “inteligência artificial”. Novas -ou antigas? 4. DESAFIOS PARA SANTANA Memórias são postas à disposição de cérebros cada vez mais dominados enquanto as novas Santa’Anas são perseguidas por salários miseráveis. Nessa primeira quadra do século XXI foi gestado o guerreiro presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump. Seu comportamento é tal que, neste mês de julho, a assessoria de comunicação da Casa Branca viu-se obrigada a informar que ele não se imagina imperador do mundo.v E, o entanto se imagina como tal. Uma de suas grandes obras é a destruição dos institutos produtores de conhecimento, as universidades. Seu exemplo é logo seguido por pequenos sátrapas e, pelos senhores ricos locais que jamais deixam de seguir aquilo “que o senhor rei mandar”. Como professora educadora, Sant’Ana tem muito que fazer nos próximos julhos:diminuir o poder dos Júlios que se entendem Caesar. Severino Vicente da Silva (Biu Vicente). Ouro Preto, Olinda, PE, 19 de julho, dia de São Símaco, papa conciliador após a queda do Império Romano

quarta-feira, junho 11, 2025

GENOCÍDIOS BRASILEIROS

GENOCÍDIOS BRASILEIROS Professor Severino Vicente da Silva – Biu Vicente O longo mês de maio terminou, e levou consigo as festas diversas, quase todas dedicadas à mulher, às Marias comuns que encontramos no cotidiano e, especialmente à Maria que os cristãos consideram mãe de Jesus, mas os católicos vão mais adiante, considerando-a mãe de Deus. Este ano o mês foi muito ruidoso, ao mesmo tempo em que se comemorava o Dia da Vitória contra o nazismo que praticara genocídio do povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial, fomos chamados a assistir genocídio que o Estado Judeu está realizando na faixa de Gaza, um genocídio anunciado nos meios de comunicação pelo próprio governante daquele Estado. E quem se levanta contra essa prática que, diariamente nos vem pelas redes de televisão, logo recebe o epíteto de ‘antissionista’. O capital que pagou a matança de judeus, ciganos, homossexuais, doentes mentais, comunistas, católicos, protestantes na Alemanha nazista, é o mesmo que agora mantém uma indústria bélica produtora de mortes em Gaza, tantas que apenas sabemos dados aproximados da realidade. Semelhante situação vivem os ucranianos, usados como moeda garantidora da ‘paz’, em uma guerra que terá fim quando as riquezas existentes na Ucrânia forem equacionadas entre as duas potências, atualmente governada por dois velhos com ego desmensurado. E, no entanto, outras guerras genocidas estão acontecendo em territórios africano e asiático, e delas não se tem notícia por não envolverem diretamente parte dos herdeiros dos colonizadores que, sem vergonha, matam povos desde o século XVI, ou mesmo antes. Também não são mencionados as mortes dos pobres, especialmente os pretos, que vivem e são assassinados nas periferias das belas cidades das Américas. O tema é vasto. Genocídios sempre ocorreram ao longo da história dos homo sapiens, e estão escritos em prosa e verso, na Bíblia, na Odisseia, nas Canções de Gesta medievais, nos mitos repetidos nas escolas, como foram ditos e repetidos ao redor das fogueiras, e agora nos noticiários e novelas televisíveis, e são vistos e contados como fonte de descanso da faina diária dos trabalhadores. A América, nome dado a partir de Américo Vespúcio, como a conhecemos hoje, é resultado de múltiplos genocídios, escondidos em palavras como “colonização”, “processo civilizacional” e outros assemelhados. Somos, os atuais americanos, resultado desses genocídios. Nossos ancestrais indígenas, que nos ensinaram a viver com o que a natureza oferece, foram mortos nas terras onde nasceram, cresceram, criaram seus filhos. Mas sua morte foi mais que consequência de suas vidas, foi resultante da ganância, da busca de poderio, do prazer de matar. A celebração desse prazer pode ser encontrado nas cartas do governador Men de Sá, após a matança dos tupinambá que ele promoveu no litoral do que chamamos, hoje, de Bahia, Espírito Santo. A vitória sobre a Confederação dos Tamoios (os mais antigos) que foi auxiliada pelos jesuítas e, assim, preservar o colégio que haviam fundado em São Paulo do Piratininga. O governador tomou medidas para que os colonos não escravizassem os indígenas que haviam sido catequizados, mas outros poderiam sê-lo, se apresados em ‘guerra justa”. Pouco sabemos desse caminho “civilizatório”, uma vez que a história é escrita na escolha dos documentos, e os professores ensinam o que lhes foi ensinado nos currículos oficiais das universidades. Após a Constituição de 1988 podemos perceber uma mudança em alguns currículos, mas levará tempo para a sociedade aceitar esse pedaço de sua origem. Uma dificuldade que se fortalece pelo hábito de falar sobre os antepassados indígenas como distantes de nossa vida real, e esse é a maneira que usamos para nos referir ao translado violento de parte da população africana nos séculos XVI a XIX, bem como as chacinas ocorridas na repressão aos cabanos (PE) à Cabanagem (PA), à Balaiada (MA), , no Arraial do Bom Jesus (BA), Quebra Quilos (PB e PE) e alguns outros que são mencionados de passagem nos livros didáticos e poucas vezes chegam à sala de aula. O mais recente método utilizado para manter a população ignorando o seu passado e sua relação com a história dos homens, é a constante mudança curricular que, em nome da “formação de uma mentalidade crítica”, evita que tal aconteça. Temos uma geração que não se sabe Brasil, deseja ser algo para além do Oceano, na busca de um ‘retorno às fontes’ (europeias ou africanas), não para compreender como elas nos formaram, mas para tornarem-se o que aqueles são. E, então temos o genocídio cultural. O esforço para destruir as tradições brasileiras, assim como fizeram os primeiros jesu[itas com a redução do indígena. E isto acontece no ato de impedir que os comuns contem suas histórias, criem seus mitos, mas impõem ortodoxias que os afastam das tradições brasileiras, essas que foram criadas ao longo do XIX, e procuram negar o que poderia unir para a formação de uma nação. Esse processo não ocorre apenas nas redes televisivas, mas podem ser vistas bem próximas de nós. Nesse processo temos a defesa da identidade de um grupo que, muitas vezes, se torna maior que a busca da identidade da nação; perde-se a ideia da nação em favor de um grupo determinado, seja étnico, cultural, religioso. Para que tal divisão ocorra é necessário que sejam esquecidos os acontecimentos, os fatos, as derrotas e vitórias vividas na formação da nação brasileira. Não apenas uma revisão da história, mas se aproxima da recriação. Faz-se um genocídio cultural, o assassinato dos que viveram e construíram as tradições que moldaram, ainda moldam, a nação brasílica antes desse nosso tempo. Não se quer Maracangalha, e também não se aceita Brasília, preferem o que existe para além do Atlântico. Continua o apagamento das nações indígenas, cujas vão sendo demarcadas, e cada demarcação eles perdem mais um pedaço de terra, assim como perdem seus descendentes mestiços e são vistos como “negros da terra”, como diziam os documentos gerados pelos colonizadores europeus vindos de Portugal no século XVI, mas também os que foram tangidos pela fome que a Revolução Industrial e o capitalismo fabril geraram na Europa, enquanto os acumuladores viviam a “belle epoque”. Alguns mataram a fome, de alimentos e terra, outros foram se tornando aqui o que eram ali, mas os dois grupos vieram com suas culturas e fecharam-se às influências locais. E promoveram alguns genocídios, enquanto os que organizavam o Império, fingiam estar com os olhos fechados. Será que resistiremos com a nossa cultura brasileira, a esses genocídios? Ouro Preto, Olinda, Véspera de Santo Antônio de 2026.