sábado, fevereiro 17, 2024

Os Mestres, Mestras e suas academias

OS MESTRES, MESTRAS E SUAS ACADEMIAS Prof. Severino Vicente da Silva (Biu Vicente) Grande parte das pessoas que conhecemos frequentaram escolas, tendo algumas que, após completar os anos do Ensino Básico, encaminharam-se para o Ensino Médio. Um número menor pôs-se em algum curso superior, licenciaram-se ou alcançaram o bacharelado. Menor número ainda formam os que deram o passo em direção dos cursos de pós-graduação, ficando alguns com a titulação de mestre e, poucos, em relação à população, tornaram-se doutores ou, como se diz em outras plagas, Filósofos Doutores, os PhD. Alguns continuam, alguns até a morte, a fazer pós-doutorados, pesquisando sob a direção de outros, crescendo o número de amigos no processo de globalização. Assim contamos com o crescimento da ciência dos mestres acadêmicos ao longo dos anos, séculos, até. Na tradição brasileira, tradição de um país que cuida pouco da educação formal de seus cidadãos, alguns setores lutam para afirmar-se como sendo o local da primeira escola, como é o caso das escolas fundadas pelos jesuítas Manoel da Nóbrega, em Salvador da Bahia ou José de Anchieta em São Paulo de Piratininga. Maior debate pode ocorrer se falarmos em cursos superiores, pois há a disputa entre Olinda e São Paulo por conta dos Cursos de Leis, postos no papel por Pedro I em 1827. No século XIX, o ‘Curso Jurídico’ de Olinda foi transferido para o Recife, assim como fizeram os governadores e os bispos. Claro que Jesuítas e franciscanos podem nos lembrar que os primeiros cursos especulativos, de teologia, ocorreram em seus espaços da Bahia em 1575 e os franciscanos, logo após a expulsão dos holandeses, criaram seu curso superior de teologia, no convento de Olinda, como diz uma placa comemorativa no salão de entrada. Nem os guias de turismo se dão conta dela. Aprendemos, então, que se procurava formar doutores em especulação divina. Os jesuítas criaram seu colégio em Olinda, ainda em 1560, com as benção de Dona Brites Albuqerque, viúva de Duarte Coelho, seu primeiro dono ou donatário. O mesmo Antônio Vieira que ensinava no colégio da Bahia, veio a dar algumas aulas no Colégio Nossa Senhora das Graças onde, dizem, ainda há o púlpito de onde expunha a excelência da linguagem, do pensamento da Reforma Católica, que ainda pode ser observado no falar de alguns advogados e políticos possuidores de alguma leitura barroca. O mesmo Vieira deve ter ministrado algumas aulas em São Luis do Maranhão, de onde foi expulso pela sua defesa da liberdade dos indígenas, mas silenciava sobre a escravidão a que estavam submetidos os africanos. Desse tempo podemos lembrar que os holandeses, tão louvados hodiernamente, cuidaram de destruir os espaços pedagógicos dos inacianos e dos franciscanos. Mas esses mestres retornaram logo após os comerciantes batavos terem sido derrotados nos morros das Tabocas, dos Guararapes, na várzea de Casa Forte. Também ocorreu o incidente de Tejucupapo, guardado na lembrança dos mestres populares, mas ausente nas crônicas vetustas que contam as aventuras dos flamengos, derrotados pelas mulheres daquele povoado. A expulsão dos holandeses favoreceu o retorno dos jesuítas que, apesar da liberdade religiosa então reinante na Cidade Maurícia, haviam sido expulsos pelo conde humanista do Renascimento, e assim voltou-se à prática de ensino naquele prédio que havia sido devastado pela guerra, agora recuperado. A educação de cunho religioso continuou no Colégio até que o reformador iluminista Sebastião Carvalho, o Marquês do Pombal, expulsou os inacianos do territórios portugueses, em 1759. A casa ficou no abandono, embora a Reforma do Ensino pensada por Pombal, houvesse definido que os Professores Régios tivessem residência onde antes viveram os jesuítas. Então, no final do século XVIII, foi indicado para a Diocese de Olinda Azeredo Coutinho, homem de família rica, mas que se decidiu pela vida de funcionário público e de eclesiástico. Azeredo Coutinho faz parte de uma geração de brasileiros que, de alguma maneira envolveu-se no processo de independência do Brasil, embora fosse ele um dos que não abandonaram a fidelidade à monarquia portuguesa. Escolhido bispo viu-se um homem com projeto político, educacional e econômico, e o primeiro passo foi garantir que o abandonado colégio erguido pelos jesuítas viesse a ser parte da sua diocese como centro formador de mestres. Sua pretensão foi acolhida e surgia a Seminário Nossa Senhora das Graças, o Seminário de Olinda, para o qual ele redigiu o regimento e o currículo, além de assegurar o orçamento necessário para a manutenção do prédio e pagamento dos professores. Dom Azeredo Coutinho teve pouco ou nenhum tempo para o Seminário criado por ele, pois assumiu o governo de Pernambuco, a organização do Santo Ofício e, sendo chamado a Portugal, recebeu outro bispado. Mas o seminário teve mestres, alguns como Azeredo, formados em Coimbra, outros formados pelos carmelitas do Recife ou pelos Oratorianos que mantinham colégio na Madre de Deus e foram as mãos da Reforma Pombalina. Do seminário, fundado pelo bispo Azeredo. Funcionário público conservador sempre dedicado à metrópole, nascera uma vertente da Revolução de 1817. Mas em Pernambuco sempre houve outras academias, outras casas formadoras, outras tradições. Não apenas em Pernambuco, mas em todos os lugares em que a sociedade confina uma parte de sua população na ignorância das coisas necessárias à vida social. O texto que escrevo lembra que neste dia 16 de fevereiro de 1800, foi aberto o Seminário de Olinda e, por coincidência, neste dia 16 de fevereiro de 2024 morreu a Mestra Gil, primeira mulher a assumir o apito de Mestre de Maracatu Rural, também conhecido como Maracatu de Baque Solto ou de Orquestra. Tive a honra de conhecer Givanilda Maria da Silva, ainda como bandeirista do Maracatu Feminino Coração Nazareno, um braço da Associação das Mulheres d Nazaré da Mata – AMUNAM. Quando a acompanhei em seu primeiro desfile como Mestra do Maracatu, improvisando seu versos, ela contou-me que, ouvindo os mestres de Maracatu, sentia que podia fazer versos, orientar o maracatu. Neste trajeto ela conheceu mais de perto o Garganta de Aço de Nazaré, o Mestre Zé Duda, que durante anos mestrou o Maracatu de Baque Solto Estrela de Ouro de Aliança. Trocaram experiências e, depois suas vidas confundiram-se numa grande loa de amor, até 02 de julho de 2023, quando o Mestre Zé Duda foi tirar versos com os Querubins da Corte Celestial. Mestre Gil encantou a Jorge Mautner e a Nelson Jacobina, quando desfilaram nas ruas da cidade mãe dos maracatus de Baque Solto. Mestre Gil, como a maioria das mulheres de sua região, teve negada a escola, aprendeu a ler por teimosia, como a fazer raiva aos donos de usinas que exploram os homens, empobrecendo-os fisicamente e mentalmente, e que ensinavam os cortadores de cana a explorar as suas mulheres. A Mestre Gil, como muitas outras mulheres, rompeu, as barreiras que a sociedade do açúcar amargoroso lhes punha. Assim, quando parte da sociedade que tem acesso ao saber iluminista que tem obscurecido a outra parte celebra um caminho do saber, a morte de Mestre Gil, de quem pouco se sabe, pode ser a continuidade de um caminho para as mulheres da Zona Mata, mulheres cortadoras de cana, exploradas mas que mantêm o espírito livre como o canto dos pássaros. A Mestre Gil, diferentemente do padre Antônio Vieira, não terá seu púlpito guardado e reverenciado, pois o seu púlpito é o Maracatu em andamento rápido, contando e fazendo a história do Brasil. Nosso desejo, a fé dos maracatuzeiros, a fé dos caboclos de lança é que os espíritos do mestre Zé Duda e da Mestra Gil, façam os caboclos celestiais realizarem, ao som dos seus apitos, as mais belas coreografias. Salve todos os Mestres, os Mestres de Todos os saberes. Ouro Preto Olinda, no dia de Santa Juliana.

domingo, janeiro 21, 2024

O MUNDO EM GUERRA

O mundo em Guerra Na voz de Elis Regina, música de Rita Lee, em 1991, enviava uma mensagem aos marcianos informando que "estamos em Guerra", mas o high society não tomava conhecimento dos conflitos que abundavam na terra, para variar. Atualmente também estamos em guerra, pois parece ser esta uma condição das sociedades humanas, desde que as notícias foram sendo divulgadas pelos mais diversos meios de comunicação já inventados e utilizados pelas sociedades. Os conflitos nos dão notícias até quando os mídias não as fornecem, é que vez por outra ossadas humanas são encontradas e denunciam as batalhas escondidas. Atualmente estão cartaz as guerras da Rússia com Ucrânia, Israel com Hamas, Afeganistão com o Irã, o Iêmen sofre ataques de diversos países, na África ocorrem guerras das quais ninguém fala. Há guerra dos Estados contra os traficantes de drogas e, surpreendentemente contra os traficantes de armas para aos países em guerra. Essas armas são produzidas nos países que dizem ser contra a guerras e, por ação do 'destino', os fabricantes não conseguem entender como as armas são tiradas das unidades de fabrico e guarda. Tudo é sigilo de guerra. Outra guerra é contra a natureza. Desde a invenção da agricultura que a relação do homem com a natureza é de dominação, o que parece ser uma ordem divina, de acordo com o primeiro livro da Bíblia, Gên 1:21. É o que tem sido feito, mas, nos últimos trezentos anos, o novo modo de vida que parte da humanidade escolheu e levou as outras partes a seguir, está levando a situação que vai além da subordinação podendo inviabilizar a vida dos homens e do planeta. Já faz alguns séculos que os homens separaram-se da natureza, entendem-se que dela são separados. Por não se sentirem parte da natureza, como os outros animais, os atuais dirigentes do planeta olham-no apenas como espaço a ser consumido. As guerras dos Estados entre si, matam os seres humanos, matam animais, destroem o que construíram e destróem as possibilidades de sobrevivência do planeta, ou seja, da natureza. E o fazem de maneira consciente e desejada, pois enquanto matam a Terra, pesquisam forma de sobreviver foram dela. Não é à toa que tem aumentado o número de pobres, dos morrem de famintos enquanto cinco homens concentram riquezas, de acordo com recente relatório da OXFAM, e organizam viagens para testar a possibilidade deles fugirem de uma grande rebelião. Em algum momento terá que ocorrer alguma mudança no comportamento dessa elite, que não é formada apenas pelos cinco mais ricos, ou pode vir a ocorrer a explosão da Bomba M- miséria - a revolta dos miseráveis que não são criados por alguma força divina, mas resultante da ação dos humanos. E ao lado dessa enorme questão humanitária, que não vista nem mostrada, há outra vertente que decorre do tipo de ação que os homens e mulheres construíram desde o as primeiras sociedades, é o esgotamento da natureza, explorada dessa maneira desenfreada, dessa maneira suicida. A natureza apresenta sua desconformidade com a atual gestão que dela fazem, de maneiras diversas. A reação da natureza segue as suas próprias leis, conhecidas e estudadas pelos homens, a natureza não inventa novas reações, ele age como sempre, contudo, o que fizeram com as possibilidades de sua riqueza, da natureza potencializa os movimentos naturais. Daí o degelo rápido das Polos, a ampliação dos espaços em desertificação, o deslocamento de fenômenos climáticos que afetam cidades, e nelas, os mais pobres. Os não atingidos pelas mudanças que estão ocorrendo no planeta, negam-nas e utilizam os meios que acumularam para convencer os que sofrem diretamente as consequências dessas mudanças que elas são naturais, que sempre ocorreram, e escondem que tais mudanças foram e são potencializadas pelo modo de vida escolhido nos últimos quinhentos anos. Esse modo ampliou o número de bens produzidos e, mesmo contra a vontade dos poderosos, ampliou também o acesso a tais bens. Entretanto, a velocidade com que a concentração de riqueza e poder vem ocorrendo, parece por em questão tais vitórias. Além de não fazer crescer o espírito coletivo necessário para a vida humana, o modo de viver do mundo atual detrói o que foi construído para o bem coletivo, pondo em risco a sobrevivência da sociedade e do planeta, como temos hoje. prof. Severino Vicente da Silva Olinda, 21 de janeiro de 2024.

domingo, janeiro 07, 2024

A FRANÇA E A LUTA PELA LIBERDADE

Temas Contemporâneos 1 A FRANÇA E A LUTA PELA LIBERDADE É do conhecimento e crença de todos que a França é o farol da liberdade, exemplo para todos os povos, nesse caminhar para a ereção de uma sociedade mais justa, mais igual. A história, apesar do pessimismo dos conservadores e reacionários, tem caminhado em direção de um mundo menos desigual, mas isso não tem sido feito sem lutas, sem sofrimentos. Como diria Michelet: a história é um vampiro, alimenta-se de sangue humano. Um dos pilares construtores das desigualdades contemporâneas foi o sistema de produção que tomou a utilização da escravização de humanos, especialmente os africanos, entre os séculos XVI e XX. É comum, ao brasileiro, alimentar o “complexo de vira-lata” repetindo que o Brasil foi o último país a acabar com a escravidão, embora saiba-se que a Mauritânia só a aboliu em 1981. Sabemos, por outro lado, que metade de africanos escravizados entre 1500 e 1888, foram comercializados entre 1750 e 1860, período em que a Inglaterra controlava o mercado do algodão ( era o início da Revolução Industrial) após afastar a China e a Índia do comércio de têxteis. A grande produção de algodão acontecia em Santo Domingo até 1790. A Revolta dos escravos levou à criação do Estado do Haiti. A partir de 1871, foi o sul dos Estados Unidos que passou a dominar a produção de algodão, o que fez quadruplicar o número de escravos no Estados Unidos entre 1800 e 1860, utilizando a reprodução de escravos em suas fazendas. Entre 1780 e 1790 as ilhas francesas na América e na Ásia era a área de maior concentração de escravos do mundo ocidental: 700.000; os ingleses possuíam em suas possessões 600.000 e o Sul dos Estados Unidos tinham 500.000 seres humanos de origem africana escravizados. Como sabemos, a Declaração dos Direitos do Homem, na Revolução Francesa promoveu a liberdade de todos os homens e, a população descrava de Santo Domingo – 90% do total de habitantes – exigiu a liberdade, que foi conquistada em 1791 na primeira Revolução de Escravos, criando o Haiti. Mais tarde, Napoleão Bonaparte revogou a liberdade dos haitianos levando a uma nova Guerra de Independência, com a derrota do exército francês. A pressão sobre o Haiti continuou com um bloqueio econômico. A França só reconheceu a independência do Haiti em 1825. Os franceses mantiveram a escravidão na Martinica, Guadalupe e na Ilha da União, até 1848. A Independência do Haiti foi reconhecida sob pressão intensa da frota francesa que ameaçava mais uma invasão. O governo haitiano viu-se obrigado a aceitar indenizar os proprietários dos escravizados em 150 milhões de francos-ouro, quantia que equivalia a 300% da renda do Haiti em 1825, e deveria ser paga em 5 anos. A dívida foi paga (capital e juros). Entre 1840 e 1915, foram depositados, 5% da renda nacional do Haiti, na Caisse de Dépôt e Consignation, criada durante a Revolução Francesa. A partir de 1915, após a invasão dos EUA, que durou até 1934, a dívida do país passou a ser paga ao país invasor, e foi finalmente quitada em 1950. O preço que a França cobrou pela liberdade do Haiti significou a impossibilidade da sua autonomia econômica, a sua atual pobreza. Severino Vicente da Silva. Olinda, 7 de janeiro de 2024. Os dados citados podem ser encontrados em PIKETTI, Thomas. Uma breve história da igualdade. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022. WIKIPÉDIA.

quinta-feira, dezembro 21, 2023

Professora Christine Dabat

Caros Dom Helder dizia que conheceu alguns europeus nascidos na Rua da Aurora, e conhecera brasileiros que nasceram à beira do Rio Sena. Desde 1967 encontrei a Professora Doutora Chistine Dabat, uma brasileira nascida na França. Tornou-se professora concursada da Universidade Federal de Pernambuco, assumindo a disciplina de História Medieval, dedicada aos estudos de uma parte da “invenção” da Europa que veio, em parte para o Brasil com aqueles decididos a viver em espaços que havia conhecido recentemente, e criar novas Lusitânia, York, Inglaterra, Amsterdan, mas geraram novas culturas e sociedades, mesclando tradições e cargas genéticas, alguns, enquanto outros cuidaram de manter-se separados das novidades, como se não houvesse um Atlânticos separando-os das suas terras originárias, por isso viam as novas terras apenas como lugares para o enriquecimento rápido, com vistas a um retorno quase imediato para o lugar de onde saíram. Alguns desses vivem como uma sanfona, ou como diz um samba de Martinha da Vila: “não sei se vou, não sei se fico..” Christine não vive este drama: veio para ficar. Christine dedicou-se a estudar a história social e, como está no Nordeste do Brasil, na região que se constituiu com e no açúcar, com amargo sabor de exploração, de sofrimento, mas com a doçura do sonho, da esperança. Seus estudos nos ajudam a entender o que somos, como vivem parte dos brasileiros, esses brasileiros que não são vistos por outros que nasceram ao seu lado. Seus estudos sobre os moradores dos engenhos, não os das casas grandes, mas das casas de pau-a-pique, seguradas com o mesmo barro que alimenta o canavial, que se renova anualmente, mas são casas frágeis que não lhes pertencem, onde moram “de favor”, e que podem ser derrubadas facilmente, ao primeiro sinal de insatisfação. Enquanto Christine dedicava-se a estudar o mundo do trabalho dos cortadores de cana, eu brincava com ela que eu estudava esses mesmos homens e mulheres em seus momentos de lazer e criatividade, em suas brincadeiras, e a realização da crítica que está presente no Cavalo Marinho, no Maracatu Rural, críticas não percebidas pelos frequentadores dos alpendres das casas construídas vários metros acima dos corpos dos trabalhadores, uma arquitetura do poder. Christine tem os olhos de uma brasilidade, uma brasilidade não excludente, por isso é capaz de entender que há laços profundos entre os povos asiáticos e os brasileiros, uma relação que existe desde muito antes que os filhos da Europa encontrassem o caminho para as Índias; percebe que este passado está voltado a criar novas relações, como bem demonstra o Grupo de Estudos da Ásia, que tem aberto os olhos e as mentes de seus alunos para essa realidade que está sendo gerada enquanto estamos vivendo. A minha amiga Christine está a se aposentar, pelo que entendi, deixará as aulas dos cursos de graduação, mas continuará, enquanto lhe for possível, atividades na pós graduação e nos grupos de estudos sobre a Ásia. Agradeço os momentos que trabalhamos juntos em diversas comissões no curso de História, agradeço a sempre alegre acolhida em sua sala, agradeço a ela por ter-me auxiliado a compreender um pico mais o universo cultural em que viveram meus pais na Zona da Mata Norte de Pernambuco, agradeço-lhe ter-me feito gostar mais de meu povo. Desejo que o Curso de História da Universidade Federal de Pernambuco jamais deixe de estudar seu lugar, seu povo. Finalizo dizendo que, em meu nome, em nome de seus alunos e, creio, em nome de seus colegas, declaro, desde agora, Christine Paulette Yves Rufino Dabat, Professora Emérita da UFPE. Severino Vicente da Silva Professor associado da UFPE. Ouro Preto, Olinda, 21 de dezembro de 2023

sexta-feira, dezembro 15, 2023

Calendas de dezembro

São as calendas de dezembro, o mês que, avançou duas casinhas, abandonou a dezena, tornou-se dúzia, o mês do fim anunciador do Começo ou recomeço. Recomenda-se recomeçar, ou ao menos tentar novo rumo, novos caminhos. Desde o início do mês venho pensando em escrever algo sobre o aniversário da Declaração dos Direitos Humanos, uma bela carta de intenção para que se organize o caminho em direção da humanidade. É uma carta escrita sob a influência da evidência da malvadez humana. Ocorreu em um tempo de conviver com a surpresa dos campos de concentração na Alemanha, na Rússia, no Japão, nos Estados Unidos da América, no Sudeste e no Nordeste do Brasil. No primeiro instante, e nas décadas de quarenta e cinquenta, os campos utilizados pelos nazistas para eliminar ciganos, judeus, homossexuais, polacos, comunistas, católicos, protestantes ficaram mais famosos, foram registrados pelas lentes dos fotógrafos “para que ninguém viesse a negar” a barbárie que o General Eisenhower viu. Esperava, o general que tais registros fotográficos auxiliassem a memória dos povos e tais fatos de desumanidade não voltariam a ocorrer. E desde então não esquecemos, não devemos esquecer, que ocorreu o holocausto. Infelizmente, só tem sido considerado criminoso o que ocorreu com o povo judeu, e os demais grupos humanos foram jogados no silêncio da História, no esquecimento, na ignorância. Assim, foram escolhidos os alemães como responsáveis pelos campos de extermínio, e os judeus como sendo os exterminados. E então ocorreram julgamentos e caça aos que foram os principais responsáveis pela matança provocada pelo ódio a uma parte da humanidade. Mas quando se odeia uma parte, tudo que forma o inteiro é odiado. Quanto aos demais, receberam a ignorância consentida. O passar do tempo é que, vez por outra expõe a existência de outras barbaridades realizadas pelos humanos contra os humanos, mas tal novo conhecimento depende do movimento da história, dos interesses de alguma parte da humanidade. Foi assim que soubemos das atrocidades perpetradas pelos dirigentes da União das Repúblicas Soviéticas, morrer e como ocorreria tais mortes, se haveria a morte imediata ou se a morte viria de maneira lenta nos campos da Sibéria. A notícia chegou através uma acusação formal durante um congresso, ele veio a ser consolidado pela literatura de um sobrevivente desses Gulags. Mas não foram poucos os que desejaram ignorar, cultivar a ignorância desejada para si, a ignorância justificada. Stalin, como Hitler, tinha seus soldados voluntários e sedentos pelo poder. Um ditador não se mantém sem o apoio anônimo dos ignorantes dos fatos e daqueles que são ignorantes pelo desejo de sê-lo. Ainda não chegou nas escolas brasileiras a notícia de que durante as longas estiagens nordestinas foram criados campos que concentravam os migrantes, os retirantes em busca de pão. Muitos morreram nesses campos de concentração da miséria humana, uma parte que mata e outra que de fome morre. O século XX, como os anteriores estão carregados desses atos contra a humanidade. Durante a Segunda Guerra Mundial, aquela que gerou os campos de concentração nazistas, nas regiões onde os japoneses, recentes migrantes, estavam restaurando suas vidas, ocorreram campos de concentração para onde foram levados e tratados sem consideração por sua humanidade. Os estados de São Paulo e Pernambuco isolaram os japoneses que ali viviam. Os alemães também foram incomodados, e tratados como possíveis traidores da terra que os acolheu. Povos Transplantados, como nos explicou Darcy Ribeiro, formam comunidades à parte, onde mantém seus costumes de origem, recusando-se a envolver-se com aqueles que os aceitaram. Chegaram no Brasil com o sentimento do racismo científico que estava sendo gestado nas regiões que se industrializavam e geriam a produção do saber. E o saber produzido não reconhecia, não reconhece ainda, que não faz parte de seu grupo social, por isso “não são humanos”. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, construída em 1948, marcada pelos escombros físicos e morais pela guerra que findara em 1945, pretende ser uma orientação para humanidade. Mas como alcançar esse objetivo se tem sido cultivada a ignorância sobre eles e, simultaneamente ocorra a celebração da miséria moral, leva milhares de cidadãos e cidadãs a optarem por dirigentes sem cultura, cultivadores de ódio aos seres humanos e ao planeta? Enquanto não assumirmos a Declaração Universal dos Direitos Humanos é de nossa responsabilidade, estaremos no caminho oposto à humanidade, como nos comprovam as guerras que, agora não têm mais pejo de criar campos de concentração à vista de todos, que os ignoram enquanto embebedam-se orgulhosamente de sua ignorância; Severino Vicente da Silva. Olinda 15 de dezembro de 2023. Este texto, entre outras influências, reconhece sua dívida a Peter Burke (Ignorância: uma história global) e Jesse Souza O( A guerra contra o Brasil).

domingo, dezembro 03, 2023

Dezembro e o sonho

Já vai longe o mês de novembro, é passado, recente, mas passado. O passado está sempre presente, assim não surpreende que mais da metade de dezembro é novembro. A guerra iniciada em outubro, tomou novembro, dominará dezembro e poderá continuar indefinitivamente, apesar dos esforços de Bibi, em “terminar o que começou”, como espera o presidente estadunidense, preocupado com a duração da guerra entre o grupo terrorista Hamas e o Estado de Israel que, sofrendo algum dos efeitos da Síndrome de Estocolmo, está cada vez mais parecido com um terrorista. Será possível que continuemos a esquecer a Guerra da Ucrânia, para desespero do palhaço que parece ter perdido o tablado? E o Iêmen? E o drama dos haitianos em Santo Domingo, onde os bispos católicos apontaram que o rosto de Cristo é o rostos nos negros, índios, brancos pobres e todos os desvalidos? E o que dizem os bispos sobre a Nicarágua, cada vez mais afundada no terror de uma revolução que era bonita no livro e que até virou livro de uma Pedagogia da Revolução? A era de Aquarius foi tão frustrante quanto ao balado Hare Krishna. Ainda bem que Henry Kissinger morreu quase obscuro e desconhecido das gerações da Nutella (nunca foram a uma favela), das ‘redes sociais ‘que não socializam. Novembro seguiu Outubro e vai ser seguido por Dezembro, o enunciador do permanente Ano Velho, vestido de novo. Esta semana sonhei que estava no Vaticano, assistindo uma reunião dos cardeais presidida pelo Papa. Eu devia estar no lugar de algum anjo, o que não surpreende, pois nunca estou no lugar que, pensam, me reservaram na vida. Assim assistia a reunião sem dela participar, pois para isso eu teria que ter a permissão de Nega Fulô, convidada para o céu. Vi quando um bispo – cardeais são bispos vestidos de vermelho – que parecia ter sido amigo de infância e juventude do papa, disse: Mas Antônio, você não me disse que era bispo. Ao que Antônio retrucou: Nem você, Francisco, disse-me que era papa. Os dois abraçaram-se choraram pelo reencontro. Os cardeais, ou outro, deviam estar chorando, mas eu não estava preocupado com eles. Francisco tomou aquele olhar sério que os pais costumavam ofertar aos filhos, e disse: pois Antônio, agora que você é bispo, lembre-se que deve ser um bispo para o mundo, como dizia Dom Hélder Câmara. E. lá do meu posto de observação, eu vis os cardeais levantarem-se e aclamarem o arcebispo de Olinda e Recife e do Mundo, a sua diocese. Não tenho a menor ideia do que este sonho signifique, ou se tem significado. Talvez vocês saibam. É muito estranha esta sensação de que alguns anos de sua vida você conviveu com um santo, uma pessoa que sabia ter defeitos e diariamente estava nos encantando com a simplicidade divina. Gosto muito do Dom e, neste mundo impessoal, convivo com jovens que nasceram no ano da da morte de Hélder, mas não sabem quem foi, o que ele fez. Nessa sociedade impessoal que está sendo gestado, por nós, os de setenta + e os de setenta - , é também uma sociedade que se desmemorializa. Sem memória, não há história, não há choro, não há alegria, não há amigos nem encontros pessoais, apenas mesa de negócios e janelas de oportunidades. Quem vive de oportunidades é apenas um consumido pelo seu consumo, não cria relações além da clientela. Boa Noite. 03/12/2023 Severino Vicente da Silva

domingo, novembro 19, 2023

Preconceitos

Fui educado, como todos os brasileiros que já viveram mais de que seis décadas, a aceitar e repetir que o Brasil era o país que não havia preconceitos. Passei parte de minha vida acreditando nessa afirmação, de maneira tal que, sendo prejudicado (prejulgado) a cada movimento realizado, não o percebia. Foram e são muitos os preconceitos que os seres humanos criaram para defender-se dos outros grupos sociais com os quais esbarravam e esbarram. Expressões simples, constantemente repetidas aos nosso ouvidos e que corríamos a replicar, sem pensar sobre elas. Éramos, somos, ensinados a não pensar. Os que escapavam e escapam das armadilhas, amorosas ou maldosas, logo recebiam algum rótulo, mais um dado para que fosse afastado. Entretanto começamos a descobrir e ver além das nuvens. Uma amiga dizia uma palavra que me forçou ao dicionário e algumas horas de meditação: desnublar. Descobrir conceitos escondidos na falas. Observei, mas não compreendi no início da minha adolescência, que os colegas mais ricos, parentes ou amigos dos diretores, jamais eram culpados por algum desastre ocorrido, a responsabilidade sempre cabia aos que não tinham padrinhos. Aliás esta é a frase “quem tem padrinho não morre pagão”. Alguns sociólogos começaram a mostrar que o “você sabe com quem está falando” era dita por pessoas sem razão mas com padrinho ou boa conta bancária. Durante a ditadura militar zombava-se, em uma anedota, de um militar que fazia tal pergunta juntando-a à patente, fazendo-o a ouvir: “sinto muito por você ter conseguido apenas ser um militar”. Mas havia outras manifestações de preconceitos e diminuição do outro, especialmente voltadas para as etnias. Aprendi, aprendemos, que o índio era preguiçoso, que era dissimulado. Hoje sabemos que a razão dessa “preguiça” era o trabalho mal pago, que a dissimulação era uma tentativa de ludibriar quem dele queria se aproveitar. Quanto aos negros que tudo ouviam calados, expressões as mais depreciadoras da sua humanidade e, se em algum momento reclamavam, logo ouviam dizer que devia “procurar o seu lugar”, que “esse povo é assim, a gente dá os pés e eles querem logo a mão”, e “esses negrinhos pensam que é gente”. Quanto aos pardos, eram ditos “desbotados”, “sarará”, e isso ouvíamos de todos os lados, pois que não eram índios, negros ou brancos, eram uma gente “sem eira nem beira” que nem sabe quem são seus avós. Ouvíamos tudo isso, e diziam-nos, que não havia preconceito no Brasil, que era tudo uma questão de “classe social” e que os não preguiçosos iriam subir na vida. Afinal de contas, na Carta de ABC que educou tantos brasileiros tem um verso decorado por gerações: "A preguiça é a chave da pobreza", definindo o pobre como preguiçoso; o que impediu a muitas gerações entender que a pobreza, a miséria, resulta da apropriação da riqueza produzida pelos pobres, pelos que não herdaram as terras nas quais seus avós trabalharam durante séculos, terras que foram tomadas dos indígenas originários. Ideias como essas é que tem provocado o preconceito em relação ao trabalho, atividade humana – pois trabalho é uma ação livre, realizada com um objetivo, o de assegurar a sobrevivência do indivíduo e da comunidade a que pertence. Contudo, a exploração que tem ocorrido ao longo de nossa história, tem sido de tal monta que ele é apontado como um castigo, o pagamento permanente de uma dívida impagável desde escreveram o capítulo 3 do livro do Gênesis. Esse mito fundador, impediu a nossa compreensão do valor do trabalho, de sua função humanizante, transformando aquece que trabalha em um animal, uma besta. Não é o trabalho que torna o homem uma besta que age sem sentido, realizando o projeto de outrem, mas é a apropriação, a negação da produção da ação dos homens, que gera e reforça os preconceitos que definem negativamente os seres humanos. Nesta semana que lembramos a permanente luta pela liberdade, inclusive a liberdade dos preconceitos que nos prendem ao passado e podem comprometer nosso futuro, nesta semana que dedicamos a cultivar nossa consciência negra, não nos esqueçamos que, o que sofreram nossos pais e sofremos nós ainda agora, que somos humanos e, temos que vencer todos os preconceitos. Pro. Severino Vicenre da Silva