sábado, março 17, 2007

Sexualidade na Idade Moderna

Aqui está postado mais um dos trabalhos apresentados pelos alunos de História Moderna I, Sexualidade na Idade Moderna, e foi realizado por Joaquim Henrique, Kátia Martins, Lidiane Pereira, Marilene Galdino.


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INTRODUÇÃO À SEXUALIDADE

A sexualidade é um aspecto presente e influente no cotidiano. Ela não somente implica nas relações entre pessoas de sexo diferentes, mas define suas concepções e expectativas. Influi em áreas totalmente inusitadas (sendo as mais constantes: trabalho e amizade) e de formas muitas vezes imperceptível, diluída em camadas de justificativas sociais para uma necessidade que, segundo Freud, é própria e involuntária do homem.
Há quem diga que ela é o geral de um grupo de sentimentos básicos de existência humana. Assim como a necessidade por comida e descanso (ou conforto), o prazer seria uma busca −não necessariamente consciente− constante nas experiências cotidianas e fundamentaria a maioria das relações sociais. Filmes clássicos e provocantes (como Instinto Selvagem) demonstram as nuances e situações-limite conseqüentes desta sujeição. Uma teia intricada de buscas e anseios que estruturaria conceitos mais estéticos e relativos, como o de estética.
Mas o que seria a sexualidade? Fisiologicamente falando, poderia se tratar da atração sexual entre os da espécie humana (a ciência revela que apenas o golfinho e o homem procuram relações sexuais por prazer), mas também pode caracterizar as particularidades que definem o gênero (homem e mulher) ou as alterações nele. Sem deixar de considerar que pode incorrer também de escolhas sexuais não necessariamente físicas (tais como as escolhas e diferenças psicológicas, emotivas ou simbólicas).
Neste âmbito, o psicológico, sexualidade pode ser a emoção do sexo. O poder, o controle ou a segurança. A aversão e predileção. É o sentido que se dá ao ato físico, suas significâncias (símbolos ou alegorias) e vinculação com outros sujeitos/objetos/eventos. E o psicológico se reflete nas relações sociais, que podem atribuir concepções ligeiramente diferentes da sexualidade. Seriam os contratos familiares, como o casamento e namoro, e os regimentos da sociedade que definem como a sociedade vê o sexo, portanto o conceito de sexualidade, ou a moralidade e ideais religiosos que o retratam de época para época, de fé para fé? Isso é sexo ou amor? Cativar ou atrair? Ser ou ter, ou estar?
De fato, todas as respostas para estas perguntas e as afirmações anteriores se tratam da mesma sexualidade. Mas, a sexualidade, como a conhecemos, ainda que existente nas relações anteriores, só foi definida com o surgimento da mídia em massa, em particular, desde a imprensa do Renascimento. Ela permitiu o debate (mesmo que numa via única, a do escritor para o leitor) até então censurado pela ortodoxia ocidental, alcançando a intimidade das pessoas reprimidas em tratar de seus aspectos mais básicos. Talvez este tenha sido o passo inicial para a lenta e gradual conscientização do gênero comprometido: o feminino.
A mulher como agente social começou a aparecer somente na Revolução Industrial, quando ingressou de forma mais significativa na produção de bens que cabia somente ao homem, no momento em que surgiam as indústrias e necessitavam de toda e qualquer mão de obra disponível. Claro que há de se frisar que a situação ainda não era de igualdade: estruturada em idéias preconceituosas (machistas), a sociedade ainda valorizava muito mais o trabalho do homem, fato que se estende lamentavelmente até estes dias. Subjugada e cada vez mais consciente, a mulher desenvolverá métodos de ascendência e influência sociais pertinentes à sua situação −não podendo deixar de citar a célebre definição machadiana sobre tais métodos: o erotismo e manipulação; porém não cabe a este estudo julgá-la como verdadeira ou não.
O próprio movimento Renascentista permitiu ao homem ocidental tratar de sua sexualidade, na medida em que seus ideais passaram a gravitar mais em torno de si mesmo que de Deus. Quando tirou a fé religiosa do centro de sua existência, o homem se permitiu conhecer um pouco mais e trazer à tona a discussão sexual, atenuando progressivamente seu caráter de proibido, atribuindo-lhe o de obsceno até que se torne, por fim, somente vulgar.
Michel Foucault trata desta transformação da sexualidade de seus primórdios inconscientes, passando pela obscenidade e trazendo-a até a vulgaridade da contemporaneidade, a qual define como repressão dos desejos sociais pelos mecanismos dominadores, em sua obra Histoire de La Sexualité, traduzida com o nome “História da Sexualidade”. Esta obra se divide em volumes menores que tratam da sexualidade em contextos diferentes.
O primeiro volume, La Volonte de Savoir, aquele a qual se baseia grande parte deste trabalho, discute as relações de sexualidade nos dois últimos séculos e critica a repressão sexual referida acima.
L’Usage des Plaisirs, o segundo, refere-se à sexualidade na Grécia e Roma da Antigüidade, enquanto o terceiro, Le Souci de Savoir, vai ainda mais longe temporalmente para analisar os mecanismos que estabeleceram a relação única e outras conseqüências na sexualidade contemporânea. Há informações sobre um quarto volume que abordava o tema na era Cristão, mas que não foi concluído nem publicado por advento da morte do autor e intervenção de alguns amigos.
Porém, a proposta da obra suscita reflexões interessantes na medida em que faz comparações tempo-espacial, a citar em seu estudo desde a época da Grécia e da Europa Vitoriana ou as tradições Orientais (Japão, China e Índia basicamente) versus as Ocidentais; isso desperta a idéia de sexualidade como um conceito construído socialmente, não decorrente dos instintos naturais, num modelo de construtivismo. Este seria o motivo pela qual discutir homossexualismo na Grécia Antiga seria fugir ao conceito e ser anacrônico. Conclusões preliminares já questionam outras definições conseqüentes, como a de estética ou erotismo, que pouco tem a ver com sua natureza ou desejo inexplicável, referindo-se muito mais a símbolos e paradigmas captados da própria sociedade.
O Erotismo é um exemplo finalizador adequado: compreendido geralmente como a antecipação da atividade sexual, seus motivos divergem de época para época, de sociedade para sociedade, de indivíduo para indivíduo. A mulher obesa nua já foi erótica; semi-nua e curvilínea agora é. E o é devido aos esforços duma mídia, mais abrangente que a imprensa, que apenas expõe o que é necessário à manutenção dos poderes vigentes. O homem bruto já foi erótico, atualmente ele é pouco mais que uma perversão. O Erótico já foi obsceno, hoje em dia há uma linha tênue que o separa do vulgar. E antes ele tinha sido inconsciente, desejo de ser.


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A Sexualidade Enquadrada

Muitas são as influências que produziram mudanças na sexualidade correspondente à época Moderna. Mas a principal caracterís­tica é a tentativa de controlar e privar os humanos de seus instintos e vontades, seus hábitos e “desvios”. Há um inegável papel do discurso religioso nesta tentativa, matura­da durante a Idade Média, assim como no Renascimento. Elas ocorrem desde as mudanças no entendimento medicinal, e de outras que, entre si, estabeleceram um diálogo in­constante, cheio de refutações e sintonias, produzindo vários discursos, alguns tendo mais comoção que outros, e seus respectivos efeitos, que aqui nos propomos a perceber.

1. Os Discursos de Controle

As bases da sexualidade moderna começa­ram a ser construídas ainda nos primeiros quatro séculos da era cristã. Começa quando os apóstolos se espalham pelo mais possível do mundo conhecido e conseguem adeptos. Na Antigüidade e Idade Média européia, porém, a cultura pagã estava muito presente na vida das pessoas, a maior penetração da influência da cultura cristã se dá na Idade Moderna, mais especificamente após as Reformas religiosas.
Desde os quatro primeiros séculos do cristianismo, a sexualidade foi por eles discutida. Quando se torna religião tolerada no império, em 313 com Constantino, o cristianismo pode ser professado livremente e conquistar novos adeptos. Aumentando sua influência, as condutas preconizadas pelos cristãos foram sugadas pela sociedade, nunca de forma uniforme, mas como paradigmas, regras muitas vezes distorcidas, re-associadas e re-simbolizadas, como também num movimento semelhante do que antes era pagão. Durante os séculos houve diversas mudanças no que se refere a compreensão de sociedade e papel de sociedade. Os primeiros cristãos dentro da cultura cristã que estava se consolidando, constantemente se reviam e não entravam num acordo. O choque que nos interessa é o das relações das duas culturas com o corpo e seu papel sexual. Nas culturas pagãs o sexo era necessário, incentivado e bem visto. A promiscuidade e a virgindade não eram tabus, apesar das mulheres ainda terem um papel de reprodutoras, quando esposas legítimas, acima de qualquer suspeita sobre a paternidade. Mas não eram renegadas por possuírem desejos sexuais. Já na visão cristã o corpo, não passava de um mero invólucro temporário que não deveria ser priorizado. Uma cultura ascética estava se impondo, mesmo que em menor grau que alguns grupos mais radicais. Não é razoável imaginar que tal conduta fosse seguida incontestavelmente por todos os que se diziam cristãos, mas o que era discutido ou transgredido era relacionado ao que os pregadores, santos, monges e Padres da igreja, vinculavam. O próprio Jesus, sob as palavras das escrituras e tradição oral, seguira o celibato. Paulo foi um dos maiores adeptos e incentivadores da vivência “eunuca”[1]. A considerar a grande atuação e influência de Paulo na expansão e edificação da cristandade.
Agostinho, em meados do século V, foi de suma importância para a cristalização do menosprezo aos impulsos sexuais. Seu argumento brilhante praticamente anulou as indagações acerca da natureza humana inseparável da conduta sexual e necessária à procriação da espécie, já que, mesmo na tradição judaica das escrituras, havia como certo a ordem da procriação, o que não foi por ele negada; mas a satisfação sexual e o ato sexual que se desviasse de tal objetivo ficou quase que irrefutavelmente condenado. Segundo Agostinho o desejo sexual espontâneo e encontrado em todo e qualquer homem e mulher era a prova do pecado original[2].
Durante a Idade Média se discutiu e se formulou, principalmente nos meios religiosos, e por sua influência, uma ética sexual baseada na recusa do prazer e na obrigação da procriação, perdurando até a idade moderna, obviamente com algumas adequações, que sentiu a força do puritanismo lançar uma campanha coerente contra todas as formas de nudez (banhos públicos e mesmo na hora de dormir) e sexualidade extraconjugal (ilegalidade da prostituição e vigilância pró virgindade feminina e castidade)[3]. O que na época medieval era visto como comportamento aconselhável tornou-se na era moderna uma conduta obrigatória e vigiada. A sexualidade agora era observada, e permitida apenas no casamento sob a obrigação da procriação, pelas autoridades civis e religiosas[4].
O sexo permaneceria mal visto e estaria mais do que nunca relacionado ao pecado original de Adão e Eva, e com base neste mito do gênesis, a mulher é vista como mais susceptível que o homem às tentações do diabo. Mais do que isso, ela é a que se relaciona diretamente com ele e é em seu corpo que ele reina, já que foi com ela que a serpente se fez ouvir e ela que leva as manipulações da serpente à Adão e o faz cair. Obviamente, por isso, as maiores atingidas pela repressão sexual foram novamente as mulheres. Sua emancipação sexual, ou mesmo pessoal, era instantaneamente relacionada ao demônio. Ela deveria continuar sob custódia dos homens, mantendo uma desconfiança constante sobre seus atos e artimanhas, para que não fizessem novamente o que fizeram no paraíso[5]. O próprio Lutero afirmava que a mulher havia sido feita para pertencer a um homem e seu papel fundamental – e que ficasse a ele restrito – era ter e criar os filhos[6]. O próprio sangue menstrual era considerado maligno já no período judaico[7]. Igualmente se sentindo culpadas por seu corpo e sua sexualidade, muitas mulheres aderiram às condutas repressoras no sentido de se regenerar e outras foram impelidas a fazer o mesmo[8]. A imagem da virgem Maria seria o exemplo para que estas mulheres seguissem. A mãe de Deus era a idealização clerical feminina – renunciava a carne, era obediente e temerosa a Deus e a Jesus (pai e filho) e fiel a seu marido José – assim como de tantos homens que temiam e se sentiam ameaçados pela influência e desejo que elas lhe causavam.
O discurso médico foi outro que teve grande influência para as novas formas de compreensão que se faziam presente na Europa moderna. A medicina revelava os seres, para que eles serviam, incluíam e excluíam comportamentos e providências que antes faziam parte da vida e do quotidiano dos europeus medievais. A ciência passa a ter um peso de verdade e de libertação do fantasma medieval da superstição, considerada pouco civilizada e inferior à cientificidade que passava a ser procurada. A tentativa de explicar, por vias comprováveis do intelecto e não mais dos mitos divinos, porém não tinha alcançado o seu ápice mas em seu início e, portanto, ainda não estavam “brigados”. O discurso médico viria a influenciar e promover a superação dos mitos religiosos, mas muitas vezes a também corroborar, com o discurso religioso e civil.
Em paralela e conseqüente atuação a palavra da medicina passou a ser invocada para justificar o papel colocado à mulher e ao homem na família e na sociedade. Tal discurso sancionou a mulher “macho incompleto” ou a “mulher-útero”. Mais ainda, na Idade média, século XIII, estes fundamentos teóricos da medicina já estavam sendo postos em prática, o que muda não é o conhecimento da natureza ou da função dos sexos, assim no século XIX, mas a forma de entender e colocar suas diferenças na distribuição social [9].
A partir do século XVI o clínico era o único a ter direito praticar a medicina – parteiras e curandeiros passaram a ser perseguidos e mortos se descobertos, o que não implica em sua inexistência – o que eleva-o socialmente e o torna quase um conselheiro da família. Passa inclusive a ser solicitado para legitimar os valores vigentes a partir do conhecimento da função de cada sexo na natureza – procriação. Também a partir do século XVI, não mais era aceitável a visão de que a mulher era uma introversão do macho, um ser incompleto que pode ser entendido como um erro da natureza quando se considerava a não casualidade de sua criação. O papel da mulher na geração de uma criança passou a assombrar os médicos e filósofos naturalistas. A função de cada sexo levava a discussões para além da geração, ela se estende para a seguridade da organização patriarcal. A mulher sendo detentora de uma semente e guardando a semente masculina, permanecendo com o feto e alimentando-o, passava a ter um papel importante e maior que o do homem. Como então driblar tal possibilidade de superioridade feminina que contradiz séculos de inferiorização que a natureza parecia querer provar-lhes ser falsa?
Primeiramente era necessário adentrar na questão da fecundação e hereditariedade para tentar achar algo que provasse um papel ativo do homem ou algo que não o diminuísse perante a sua passividade na procriação. Em segundo atacar mais uma vez o corpo feminino em sua inconstância e incapacidade de autonomia.
O medo dos puritanos acerca da voracidade sexual feminina foi inflado com a declaração da ciência médica de que a satisfação sexual era uma necessidade biológica da mulher[10].
“Não só seus úteros famintos exigiam continuamente que fossem satisfeitos, como doenças horríveis esperavam aquelas que ignoravam o imperativo natural da reprodução. A Histeria, cuja origem residiria no útero, era tida como responsável pelas alucinações da possessão diabólica e por outras formas de doença mental”[11]
A sífilis veio aterrorizar ainda mais o imaginário da sexualidade-pecado, já que era considerada um castigo de Deus pela luxúria e conseqüência da proliferação das casas de prostituição, os bordéis, causando-lhes conseqüências danosas mesmo a epidemia da doença tendo sido eliminada em 1550.
(Ver mais informações sobre prostituição no ANEXO)


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HOMOEROTISMO – OS AMORES QUE NÃO SE DEIXAM DIZER

No capítulo Os amores que não se deixam dizer, de seu livro A inocência e o vício – Estudos sobre o homoerotismo, Freire Costa cita o caso de um jovem inglês que em 1837 com seus 19 anos, escrevia cartas de amor para as suas amadas Julia e Elizabeth e seus amados Anthony e John sem demonstrar-se constrangido ou culpado por tal fato, chegando até a conclamar Deus como testemunha deste amor “viril, puro, profundo e fervoroso”.
Tendo este desembaraço e falta de remorso como pano de fundo, pode-se acreditar que o puritanismo anglo-saxão encontrava-se numa fase mais “liberal” se comparado aos séculos anteriores? Freire Costa alega que não, afirmando que o universo vitoriano não flutuava entre os céus da liberalidade ou da libertinagem.
O que se tem é a visível impossibilidade de se perceber um caráter “homossexual”, sendo taxada esta “dualidade sexual” como pecado da sodomia ou como um sujeito monomaníaco. Enfim, antes do século XIX esta atração sexual por amigos (caso restritivo aos rapazes) não despojaria o homem de sua identidade masculina, observando assim a não ideologia de uma relação amorosa corrompida.
Mas então o que veio a mudar?
Estas práticas, diante dos novos tempos burgueses, tornaram-se inconvenientes para seus padrões oitocentistas, onde não se podia admitir um erotismo ambíguo, determinando os limites do gozo (ordem de parentesco, interesse de raça, das classes, nações, Estados, metrópoles e impérios) e incutindo o indivíduo em questões de população x Estado e civilizador colonizador x primitivo colonizador, controlando assim o erotismo “rebelde” e culminado no homossexualismo.
O autor explica que no fim do século XIX o “vício que não tinha nome” tornara-se “o amor que não se ousa dizer o nome”, tendo, como vias de fato, o homoerotismo em sua fase de culpa, o qual se via como uma aberração moral, psíquica e cívica.
O psiquiatra pernambucano vê na idéia de Sandor Ferenczi, psicanalista húngaro, o termo homoerotismo mais preferível que o homossexualismo, pois o último restringe a descrição da diversidade de experiências, no âmbito psicológico, que um sujeito com inclinações homoeróticas pode passar.
Freire Costa também comenta a perspectiva de Richard Parker, o qual define o erotismo como a atração sexual e a descrição dos atos e afetos, conforme o senso comum consegue captar, enquanto o homossexualismo procura enquadrar as experiências; seria como definir um padrão para “o ser homossexual”, dando-lhe um valor homogêneo em meio a sua visível heterogeneidade. No entanto o termo “homossexualismo” tornou-se mais aceito para designar indivíduos homoeroticamente inclinados.
Enfim, esclarecidas as definições, o autor procura refletir sobre a “metamorfose do homoerotismo em homossexualismo” a partir da produção literária do final do século XIX ao começo do século XX, citando autores como Balzac, Caminha, Proust, Gide e seus respectivos personagens: Vautrin, Bom-Crioulo, Charlus e os heróis gideanos.
Freire Castro analisa o homossexualismo como ferramenta de denúncia social na literatura do século XIX, onde cita Balzac como propagador da idéia do “rebelde romântico”, tendo como exemplo a personagem Vantrin que vivia à margem da sociedade, tornando-se ladrão, gigolô, chantagista, impostor e delator. Vantrin, segundo Freire Costa, apresenta de um lado, através de suas infrações, a face burguesa: o encanto pelo dinheiro conduz ao “vale tudo” para tê-lo; e do outro, mostra a sua devoção por Lucien de Rubempré: Vantrin negava tudo e todos por sua paixão. Nota-se que o fenótipo homossexual criado por Balzac tornou-se uma grande arma na luta contra a discriminação sexual, tendo a partir da o homossexual oitocentista recebido os rótulos de rebelde moral e de anticonvencionalista sexual.
Logo após Balzac, o autor cita Adolfo Caminha e o seu livro, Bom-Crioulo, como mais uma forma de expressão de revolta social, observando a relação entre criminalidade e homoerotismo (Aleixo e Bom-Crioulo) expandindo a idéia de que a homossexualidade desperta um comportamento anti-social embebido num sexo sem moral.
Em Proust vê-se o abandono das teorias naturalistas e o apego as leis da evolução darwiniana, na qual o homossexual seria um exemplo da natureza, passível de observação assim como as plantas e os animais. Proust trouxe mais um componente para a chamada “identidade homossexual” e sua conseqüente universalização, que seria a “refinada sensibilidade”, deixando-se de lado a idéia do homossexual depravado.
Freire Costa apresenta Gide como contraste no âmbito do comportamento homossexual, onde os heróis gideanos encontram-se diante de conflitos morais protestantes, onde as crises de consciência reinam, existindo um homossexual infeliz, tendo como única saída a resignação e o esquecimento da sua inclinação erótica.
Para fechar sua análise, o autor analisa os três pontos na fabricação do imaginário homossexual: o homossexualismo de escola: os contatos homoeróticos acontecidos na infância ou adolescência estão vinculados a cenários de violência provocando repulsa dos mais fracos submetidos aos abusos dos mais fortes (exemplo – O Ateneu de Raul Pompéia), o que poderia culminar, no porvir, o desenvolvimento de um assassino devido à perversão sofrida; o homossexualismo de quartel: os militares homoeróticos sucumbem às orgias contras as vítimas de seus desejos sexuais, o que levaria ao assassinato ou ao suicídio; e o homossexual como um ser exótico, onde se encaixam três ideologias:
1- O homem branco, burguês, colonizado e civilizador como um ser superior em comparação ao primitivo colonizado ou aos menos favorecidos na sociedade, justificando assim, todo o “imoralismo” burguês contra tais grupos.
2- O homoerotismo exótico como forma de liberalismo, no auge do seu poder, da ostentação. O homossexual poderia ostentar, porém confinado, manifestando-se sem riscos.
3- O homossexual como parasita na sociedade.

Nas linhas finais, Freire Costa procura chamar a atenção acerca da formação desta “identidade homossexual”, que foi criada desde o século XIX, perdurando até a década de 50 do século XX; década esta que propôs um novo lugar social para o homoerotismo, forjando novas crenças e criando novos desejos e novas formas lingüísticas.

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CONFISSÃO

Mecanismo elementar de controle das consciências e dos comportamentos, principalmente os sexuais, nos países católicos entre os séculos XVI e XVIII, a confissão, um dos sete sacramentos da Igreja, percorrera, no entanto um enorme percurso para chegar ao grau de, digamos sofisticação, de controle social que tinha nesta época. Da superficialidade dos antigos penitenciais da Idade Média, a confissão passa a se basear nas sumas e manuais que surgem no século XIII e se multiplicam por toda a Europa a partir do século XV, que habilitam os confessores a uma decifração minuciosa do universo de possíveis pecados do penitente.
Num primeiro momento, na origem da confissão, baseados nos penitenciais que se limitava enumerar pecados e respectivos castigos, os primeiros confessores objetivavam na confissão apenas a indagação se o penitente havia cometido algum pecado; no caso dos pecados sexuais, ou da carne, ele perguntava se o penitente havia praticado um dos quatro pecados listados por São Paulo (adultério, masturbação, homossexualismo, fornicação). Ou seja, neste primeiro momento da confissão, a ação é que era julgada pecaminosa.
Numa época posterior, talvez inspirado em Santo Agostinho, com suas discussões sobre os conflitos e dramas da interioridade, o confessor já não se limitava em apenas perguntar ao penitente se ele havia praticado algum dos pecados, mas se, além disso, ele havia desejado praticá-los. Nota-se, portanto aqui uma ampliação do conceito de pecado: não só a ação é julgada como pecaminosa, mas também a intenção.
Ao longo da história da confissão, outros procedimentos surgiram, contribuindo para seu desenvolvimento; sendo alguns exemplos destes: conhecimento do confessor acerca das possibilidades de pecado de cada parte do corpo do penitente, e como o mundo a sua volta poderia estimular cada pecado; a tentativa de decodificação dos sinais dos pecados, em que o confessor buscava o pecado nas pequenas atitudes e gestos involuntários, onde aparentemente ele não existia; a indução a que o penitente falasse bastante, para que se traísse através das palavras, mostrando às vezes pecados onde nem ele mesmo os imaginava existentes; ou ainda o acréscimo dos sonhos à lista dos pecados, afinal como disse Santo Agostinho em suas confissões, sonhamos pecados.
Dessa forma, a confissão se transforma numa verdadeira técnica da fala, que se dava num crescendo: o confessor indaga inicialmente se o penitente cometeu, fantasiou ou teve a intenção de cometer algum ato pecaminoso. Se algum pecado tinha sido cometido, perguntava se houve deleite, pois a existência de prazer aumentava a falta cometida; assim como também agravavam o pecado os tipos de órgãos que se envolveram, o tempo de duração, a quantidade de pessoas envolvidas, e o local onde aconteceu o ato pecaminoso. E por fim o confessor questionava se o penitente havia se arrependido, se estava pronto para a penitência e para não mais pecar. Afinal, não se tratava apenas de proibir ações, palavras e pensamentos, mas de fazer com que outros se coloquem em seu lugar; pois é na tentativa de mudar o pensamento e a vida do penitente que se manifestam o controle e a repressão sexual.
Combatida pela Reforma Protestante, que considerava a confissão charlatanice, pois os protestantes julgavam que só Deus tinha o poder de salvar ou condenar, a confissão foi peça- chave na estratégia da Contra-Reforma: valorizada enquanto sacramento e renovada em sua técnica. A confissão sacramental tornou-se, segundo Foucault, matriz da produção discursiva sobre o sexo no Ocidente.









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ANEXO

FOUCAULT E A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE

Em a História da Sexualidade 1 – A Vontade de Saber, Michel Foucault procura desconstruir o antigo pensamento acerca da sexualidade entre os séculos XVI e XIX.
O autor busca desmistificar a idéia de extrema repressão sexual exercida pelo Poder (instituições como a igreja, a família, a escola), a qual se dizia que a ascensão da burguesia tinha a induzido. Formulou-se, então, que o sexo, nesta fase, reduziu-se apenas a função reprodutiva, sendo o casal-reprodutor o modelo absoluto e o que não se encaixasse neste âmbito taxado como anormal e renegado pela sociedade.
No entanto, segundo a hipótese repressiva, a “hipócrita burguesia vitoriana” viu-se obrigada a abrir concessões, restringindo a “sexualidade ilegítima” a lugares onde podiam dar lucro, tais como os consultórios e/ou hospitais psiquiátricos, além dos prostíbulos, dando ao sexo um caráter mercantil.
Outro fato que se apregoou foi à criança como um ser assexuado, surgindo assim à oportunidade de repressão e condenação ao silêncio geral desde a infância do indivíduo. Enfim, a combinação destes supostos acontecimentos culminou na máxima da hipótese repressiva: a energia deveria ser implantada na força de trabalho e não desperdiçada nos prazeres carnais; revelando um forte apelo capitalista, que segundo os marxistas, caracterizou-se pela sujeição do sexo, do corpo do homem a favor de uma classe sobre a outra.
A hipótese foucaultiana não contesta totalmente a legitimidade da hipótese vigente até então, pois, segundo o filósofo francês é impossível refutá-la sendo tão benquista pela sociedade atual, servindo para o bem estar da humanidade e a manutenção da ordem social, afirmando o benefício da formulação da mesma devido aos seguintes pontos:

1- O fato de se comentar sobre algo que é reprimido ganhará um caráter transgressor.
2- Existindo esta idéia de repressão, prazer e revolução vinculam-se, podendo-se chegar a uma futura “liberação sexual”.
3- Ligação intrínseca entre sexo e revelação da verdade.

O que ele realmente contesta é a idéia que esta repressão seja o elemento fundamental. O questionamento mais importante, segundo Foucault não é por que somos reprimidos, mas por que dizemos com tanto ódio que somos reprimidos.

A construção da idéia de sexo, segundo Foucault, origina-se de dois conceitos opostos: ars erotica (própria de civilizações árabe-muçulmanas, China, Índia, Japão) e a scientia sexualis (encontrada na civilização Ocidental).
A arte erótica procura extrair a “verdade sobre o sexo” a partir do próprio prazer e não instruída por leis que separam o lícito do ilícito. Seria como um conjunto de técnicas e ensinamentos secretos destinados à plenitude sexual, uma espécie de ritual de iniciação erótica e de suas devidas preparações, tanto masculinas quanto femininas, onde o mais importante é o bem-estar; onde o gozo perfeito significaria “o elixir da longa vida”.
Já a ciência do sexual encontra na confissão a produção central do saber, sendo o indivíduo empurrado a expor seus prazeres, a confessar tudo, estabelecendo-se uma relação de Poder entre quem narra (produção de um discurso sobre si) e quem ouve (interpretação do mesmo, podendo redimi-lo ou condena-lo).
A ars erotica foi substituída pela scientia sexualis no Ocidente, mas na concepção do autor, a primeira não desapareceu completamente. Foucault lança discretamente a hipótese que a ciência do sexual seria “uma forma particularmente sutil” da arte erótica, pois se vê na confissão, na direção e união espiritual com o amor de Deus, uma espécie de iniciação; uma forma de intensificar as experiências mental, espiritual e física através de um discurso.
Estes discursos tomaram uma maior proliferação a partir do século XVIII, onde se via claramente duas modalidades formadas: a confissão – o sacramento da mesma após o Concílio de Trento (1545); a Igreja Católica, na Contra-Reforma passou a estimular a confissão na tentativa de tornar o discurso sobre o sexo tecnicamente útil e moralmente aceitável - e o discurso científico, este dividido em cinco estratégias para usurpar a verdade sexual:

1- Codificação clínica do “fazer falar”: seria uma espécie de confissão, porém no campo científico.
2- Postulado de uma causalidade geral e difusa: o menor desvio pode trazer sérias e insolúveis conseqüências, sendo o sexo o representante dos perigos ilimitados.
3- Princípio da latência intrínseca da sexualidade: sexo como algo obscuro, sendo necessário à junção da prática científica com a confissão.
4- O método da observação: verdade como produto da interpretação da confissão.
5- Medicalização dos efeitos da confissão: os médicos consagram-se como os intérpretes da verdade sobre o sexo.

Para Foucault o aumento na produção de discursos sobre o sexo deu-se a partir do próprio Poder, onde o seu intuito não estava na redução ou proibição da prática sexual, mas sim no controle do indivíduo e da sociedade.
Esta dita explosão discursiva sobre o sexo talvez tenha proporcionado uma maior depuração no vocabulário chamado autorizado, originando novas ordens de decência (o sujeito controlador de si), bem como a definição de onde, quando e com quem poderia se falar sobre este assunto. Estas “regiões de silencio” foram implantadas entre pais e filhos, professores e alunos, patrões e serviçais.
A concepção de Poder de Foucault dá margem a uma nova ótica sobre a sexualidade, dando-lhe a característica de dispositivo histórico de Poder. A relação entre um ponto e outro deu origem a visão de Poder foucaultiana, a qual ele chamou de “jurídico-discursiva”, estando o Poder em toda parte, mantendo ou destruindo grandes esquemas de dominação. A partir desta concepção os chamados dispositivos de Poder (instituições, organizações arquitetônicas, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas e decisões regulamentadoras) atuam sobre o indivíduo e a sociedade agindo com um caráter “normalizador”, dividindo-se entre o que é dito e o não dito, sendo exemplo as práticas discursivas e as instituições, respectivamente, onde se percebe a sexualidade como um dos dispositivos mais eficazes de controle.
No final do século XVIII e inicio do XIX observa-se uma diversificação nos focos originários do discurso sobre o sexo, não se restringindo mais a Igreja, mas adentrando nos âmbitos da medicina, justiça penal, demografia, crítica política e psiquiatria, tendo o seu conteúdo um cunho moralista, procurando não apenas tolerar, mas inserir o assunto-sexo num sistema de utilidade, regulando-o para o bem da sociedade.
Possivelmente, foi nestes meados que os pedagogos e psiquiatras passaram a se interessar mais acerca do sexo das crianças, elaborando um discurso anti-onanista e classificando o conjunto das perversões sexuais infantis, disseminando a consciência do sexo como algo perigoso, acreditando-se que as práticas sexuais não controladas desde a infância ameaçariam não apenas o indivíduo, mas a própria geração futura, pois o porvir sadio de sua família e de sua classe social (filhos de burgueses e aristocratas) dependia da sua plena capacidade física e intelectual, tendo tomado corpo, algum tempo depois, a teoria da “degenerescência”, que seria uma hereditariedade extremamente saturada de perversão sexual, podendo reproduzir um perverso sexual – homossexual (sendo visto antes do século XIX apenas como praticante de sodomia ou monomaníaco, não encarando o homossexualismo sob a ótica contemporânea) ou exibicionista - raquitismo dos seus descendentes e esgotamento nervoso.
A mulher também se tornou objeto de preocupação, tornando-se “sexualizada”, sendo-lhe reforçado o papel de mãe e lhe atribuído um ponto negativo; o da histerilização do seu corpo. ~´a parte, mantendo ou destruindo grandes esquemas de dominaçvas formadas: a confissaade entre os s
Foucault alerta para a falsa idéia de que as técnicas de controle corporal tenham começado no proletariado, originando-se, na realidade, nas classes privilegiadas, sendo a família o local preferencial de atuação do dispositivo da sexualidade. O olhar sobre o sexo do proletariado deu-se apenas na segunda metade do século XIX, época onde se constituíram problemas econômicos, políticos, demográficos e higiênicos, instaurando-se um controle de vigilância sobre o “corpo pobre” da sociedade.
Em suma, pode-se observar que um novo prazer surgiu na idade Moderna: o de contar e o de ouvir, sendo instaurado pela obrigação de se confessar, difundido amplamente. Foucault, através deste livro, procurou mostrar novas formas de se encarar o desenrolar da sexualidade entre os séculos XVI e XIX, mostrando falhas em estruturas até então sólidas no imaginário coletivo e lançando um novo olhar, criticado por muitos, porém de irrefutável importância para o entender do comportamento humano nestes três séculos.




_______________________________
PROSTITUIÇÃO

Ao longo da História, as sociedades que deram ao sexo a função genital procriadora foram obrigadas a tomar atitudes ambíguas; é o caso, por exemplo, da prostituição. A prostituição, por ser um tipo de relação sexual sem função procriadora é socialmente condenada. Mas ao mesmo tempo é tolerada e até mesmo estimulada, pois essa sociedade é a mesma que exige a virgindade feminina até o casamento, e por outro lado, não só permite aos homens o sexo antes deste, como estimula, pois exalta a virilidade masculina; a prostituição surgindo, então, como solução para uma contradição que a própria sociedade cria, ou seja, como um elemento intrinsicamente ligado à família. Dessa forma, a sociedade cria elementos de segregação visível e integração invisível, fazendo da prostituta peça fundamental da lógica social.
É desse jogo segregação-integração e da relação indissolúvel entre prostituição e família que fala o romance de Mário de Andrade, Amar verbo intransitivo; onde a integração se dá por meio do contrato de trabalho e a segregação, pelo prazo limitado de validade do contrato.
No livro, um pai de família da alta burguesia paulistana da década de 20 do século passado, resolve imitar seus amigos solucionando o problema da iniciação sexual de seu filho adolescente contratando uma jovem prostituta alemã. Essa prostituta vai morar em sua casa por um tempo e tem como função iniciar seu filho sexualmente de modo afetivo e higiênico; mas para todos os efeitos ela está ali como preceptora do garoto.
O romance de Mário de Andrade possui três aspectos especialmente sugestivos: o primeiro é que ele situa a prostituta como peça fundamental para a conservação da instituição familiar, pois coloca a prostituta como fazendo parte literalmente da família, já que passa a morar sob o mesmo teto que ela, e atua sob os olhos vigilantes dos pais do menino.
Em segundo lugar, o garoto possui duas irmãs, e apesar de uma delas ser quase da sua idade, ninguém demonstra o menor interesse por sua sexualidade. Sexualidade esta tão aflorada quanto a de seu irmão; que o romancista apresenta através dos seus impulsos incestuosos pelo irmão e nos seus impulsos homossexuais pela preceptora. Mas sexualidade que a família desconhece totalmente, ou melhor, finge não perceber.
Em terceiro lugar, e com fina ironia, o autor cria uma professora-prostituta alemã e jovem, zombando do imaginário sexual brasileiro que fantasia a mulher européia como experiente “professora de sexo”, que não cai em envolvimentos sentimentais, ao contrário da gente dos trópicos. Zomba ainda do modo como, no Brasil, foi interpretada a tentativa de educação e liberação sexuais feita na Alemanha na mesma época - o que lá era busca de nova atitude perante o sexo, aqui se transformou em prostituição de luxo. Além disso, na qualidade de mulher branca, a preceptora - prostituta será, nesse imaginário brasileiro, necessariamente mais limpa e cultivada, e superior à negra escrava que antes é quem tinha essa função de iniciação sexual dos rapazes; o que demonstra que às vezes a repressão sexual vem acompanhada de outros preconceitos, como no caso do racismo.
O próprio título do livro é muito interessante e fala por si: para a professora-prostituta alemã, o verbo amar é intransitivo. Mas será transitivo na relação que mantém por carta com o noivo que está na Alemanha; e é graças ao dinheiro que recebe se prostituindo, que poderá casar-se com ele e constituir uma família dita honesta. E assim, a prostituição fecha o círculo, reaparecendo indissoluvelmente ligada à existência e manutenção da família, nesse padrão que nós conhecemos. casar-se com ele e constituir uma famtituindo que podercaso do racismo.uta alempais do menino.












Referências Bibliográficas

BERRIOT-SALVADORE, Évelyne. O discurso da medicina e da ciência. In DUBY, Georges e PERROT, Michelle. História das mulheres no ocidente. Vol. 3: Do Renascimento à Idade Moderna. Porto: Afrontamento, 1991 – pp. 409-458.

CHAUÍ, Marilena. Repressão Sexual: essa nossa (des) conhecida. São Paulo, Editora Brasiliense, 4ª edição, 1984.

COSTA, Jurandir Freire. A Inocência e o Vício. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1992 – pg., 13-55.

F. M. GRIECO, Sara. O corpo, aparência e sexualidade. In DUBY, Georges e PERROT, Michelle. História das mulheres no ocidente. Vol. 3: Do Renascimento à Idade Moderna. Porto: Afrontamento, 1991 – pp. 71-120.

FOUCAULT, Michel. A Mulher/Os Rapazes da História da Sexualidade. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque. São Paulo, 2ª ed., Paz e Terra, 2002.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade 1 – A vontade do Saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque. São Paulo, 15ª ed., Graal, 2003.

MILES, Rosalind. História do mundo pela mulher. Rio de Janeiro: LTC: Casa-Maria Editorial, 1989.

PAGELS, Elaine. Adão, Eva e a Serpente. Rio de Janeiro: Rocco, 1992

TANNAHILL, Reay. O sexo na História. Rio de Janeiro, Editora Francisco Alves, 1980.

VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados. Rio de Janeiro, Editora Campus, 1989.

VERDON, Jean. Dossiê. A Idade Média: Os Bordéis, casas das mais toleradas. História Viva. São Paulo, Março de 2004, nº 5, pp. 39-47.


[1] Não no sentido físico mas, sim, comportamental.
[2] PAGELS.
[3] F. M. GRIECO.
[4] F. M. GRIECO.
[5] PAGELS; F. M. GRIECO.
[6] Lutero In MILES.
[7] MILES
[8] MILES
[9] BERRIOT-SALVADORE.
[10] F.M. GRIECO. BERRIOT-SALVADORE.
[11] F. M. GRIECO, pp. 93













quinta-feira, março 15, 2007

Os silêncios do Tibre

"Entre o Tibre e o Capibaribe" é o título principal de tese que defendi no ano de 2003. O núcelo da tese diz da impossibilidade histórica desses dois rios correrem em um só leito. O que banha a capítal do cristianismo está sempre observando aqueles que nãopermitem mudanças, ouo só admitem aquelas que não tenham grande conseqüências. Lá pontificou João Paulo II que pediu um "silêncio osbsequiso" de um ano ao então frei Leonardo Boff, por este ter defendido em sua tese doutoral uma humanidade acentuada em Jesus de Nazaré. Isso destoa do que se ensinava desde o Concílio de Nicéia. O silêncio a Leonardo Boff foi solicitado algum tempo depois de Dom Hélder Câmara, ter dito em sua posse que aqui, na margem do Capibaribe, o nome de Jesus "é Severino, José, " e outros. Dom Hélder não foi silenciado oficialmente, mas morreu silenciado, conforme está registrado.
Agora, o papa Bento XVI decide que Juan Sobrino, um dos maiores teólogos da Libertação, não pode mais ensinar teologia em nenhum instituto católico. A razão? chamar atenção à humanidade de Jesus. Mais uma vez o Tibre se distancia do Capíbaribe, pois as suas margens lembram os "homens-caranguejos", na definição de Josué de Castro que morreu fora de sua terra, silenciado em seu povo. As recentes decisões de Bento XV confirmam que certo Tibre não convive com certo Capibaribe.
Quando os rios não correm em busca de mares e oceanos podem tornar-se lagos e, em certos casos, dependendo do açoreamento, podem vir a ser pântanos, com a sua paz fétida, como sugeria Dom Hélder Câmara, ou, podem sumir caso não queiram receber águas dos pequeno afluentes.

segunda-feira, março 12, 2007

aniversários

Olinda e Recife formamquase uma simbiose, às vezs de paixão amorosa às vezes de desconfiança. A data que o Recife comemora é uma convenção formalizada pelo prefeito augusto Lucena, apos entar fazer o Flávio Guerra encontrar uma data. Tomou-se a data do Foral de Olinda e, duas cidsdes possuem a mesma data de nascimento.
Em datas como a de hoje a imprensa procura superar-se em informar poucas e não boas informações sobre as cidades. Um jornal matutino de emissora famosa, chegou a afirmar que a Praça da República era adorada por Maurício de Nassau. é evidente que a moça não sabia que a Praça da República foi estabelecida após 1889, quase trezentos anos após a morte do holandes.

Por outro lado existe um medo enorme de mostrar como as duas cidades cresceram. Fala-se, nesse aniversário, como se não houvesse ocorrido nada após o século XVII e como as cidades não houvessem se espraida para além dos limites iniciais. é essa mentalidade conservadora que é apresentada para os qus vivem da televisão que fortalece o conservadorismo e a impossibilidade que ver que as mudanças são necessárias, especialmente se contam com a participação de todos. Mas vejam, que decidem os nomes dos logradouros da cdiade sem ouvir os habitantes, como esse novo parque que o Recife vai receber. Será dado ao parque um nome que não tem ligação com a cidade. Assim se mantem a tradição que permitiu a um recente prefeito chamar uma nova avenida pelo nome do rei de portugal. Depois as pessoas ficam sem entender a razão de parte - grande parte - da população achar de quebrar os equipamentos sociais.

De qualquer forma, temos boas razões para comemorar 470 anos, especialmente os últimos cem, pois neles os pobres se apossaram da cidade. Pagamos o preço de ver os ricos saírem e levarem consigo os impostos e investimentos para outras plagas.

domingo, março 11, 2007

Relatório de Yvone Costa Carvalho

O texto a seguir foi escrito por Yvone Costa Carvalho, as suas observaçõesn e comentários a partir da excursão que a turma eletiva de Visões do Nordeste, do curso de graduação em Históra, realizou no início do mês de fevereiro. Como estão observando estou colocando a apreciação dos meus alunos para que sejam apreciadas.


1 – APRESENTAÇÃO

Este relatório tem como objetivo descrever e analisar a atividade feita em excursão no trajeto Recife – Tracunhaém – Nazaré da Mata – Buenos Aires – Aliança – Goiana – Recife, saindo do litoral e visitando algumas cidades da Zona da Mata pernambucana.
O trabalho se apresenta dividido em duas partes. A primeira delas é subdividida em outras cinco, correspondentes às cidades visitadas no percurso. A segunda parte é composta por breves considerações finais acerca de nossa atividade.




2 – TRAJETO

Recife – Tracunhaém – Nazaré da Mata – Buenos Aires – Aliança – Goiana
Em nosso percurso, pudemos visitar alguns municípios da Zona da Mata pernambucana e, assim, entrar em contato com mais elementos para compor nosso estudo sobre o Nordeste.
Antes de começar a falar especificamente acerca do que foi possível constatar em nossas visitas às cidades citadas, gostaria de falar muito brevemente sobre algumas características da Zona da Mata.
Por sabermos que a Zona da Mata estende-se do estado do Rio Grande o Norte ao sul do estado da Bahia, quando falar em Zona da Mata, estarei me referindo apenas à parte que cabe ao Estado de Pernambuco.
Predominantemente o clima é tropical úmido, com chuvas mais freqüentes na época do inverno. O solo da área é fértil e a vegetação natural é a Mata Atlântica. No entanto, da vegetação natural restaram apenas alguns pontos situados entre a vastidão de lavouras de cana-de-açúcar, cultivadas desde o período colonial.


A) TRACUNHAÉM

Tracunhaém é um município com cerca de 12 mil habitantes. Fica a 72 km de distância de Recife, possui uma área de 141,67 km² e encontra-se a 120 metros de altitude.
A principal atividade econômica do município é a cerâmica artesanal. Os numerosos ateliês de barro mostram-se por todo o centro da cidade e movimentam a pequena economia do município.
Dentre os vários artistas que a cidade vem revelando, destacam-se o mestre Nuca e Zezinho de Tracunhaém. Ambos iniciaram seus trabalhos em casa, com a família e são conhecidos e prestigiados não só no país inteiro, como em alguns países ao redor do mundo. Apesar dos dois trabalharem com o mesmo material e utilizarem algumas características técnicas em comum, os trabalhos em si são bastante diferentes.
Zezinho de Tracunhaém trabalha com a mulher, Maria, até hoje e é conhecido por produzir peças sacras. Sua peça mais famosa é o São Francisco com pássaros nos ombros e em uma das mãos. Uma peculiaridade de seu trabalho é a produção de peças inteiriças.
Mestre Nuca também trabalha com sua esposa, também Maria, e filhos. Em contrapartida, suas peças mais conhecidas são leões que lembram os tradicionais leões de porcelana portuguesa do período colonial.
Os dois mestres queimam suas peças em fornos de lenha e não aplicam esmalte nem fazem uso de tintas artificiais em suas peças. O acabamento das peças é feito com terracota. Para alcançar uma tonalidade mais viva e brilhante nas obras, Zezinho aplica tintura de café torrado com açúcar.
Em nossa rápida visita pude conhecer o Centro de Produção Artesanal da cidade. Esse Centro é uma cooperativa entre cerca de trinta artesãos e serve como ponto de produção e comércio das peças, além de servir como um local propício à permuta de técnicas. Foi possível perceber que a maioria dos ceramistas utiliza o forno de lenha para queimar suas peças e não fazem uso de esmalte, nem tintas artificiais.


B) NAZARÉ DA MATA

Nazaré da Mata é um município com cerca de 30 mil habitantes. Fica a 75 km de distância de Recife, possui uma área de 141,3 km² e encontra-se a 89 metros acima do nível do mar.
Sua principal atividade econômica é a produção de cana-de-açúcar. No entanto, destaca-se o crescente turismo em torno dos famosos maracatus da cidade. Durante o carnaval a cidade proporciona o encontro de 50 grupos de maracatu que, além de incentivar o turismo e a produção cultural, aquece a economia local.
Nazaré da Mata tem o mais antigo maracatu rural do estado, o Cambinda Brasileira. Esse grupo foi fundado em 1918 no Engenho do Cumbe. Sua sede permanece no local até hoje e é aberto a visitações.
Em nossa passagem por Nazaré da Mata pudemos visitar o antigo matadouro da cidade. Era comum que os matadouros fossem localizados longe do núcleo urbano, fora da cidade, portanto. Com o crescimento do município, o matadouro hoje se encontra no meio do centro urbano de Nazaré. Após passar um período desativado, o matadouro hoje funciona como o Museu do Maracatu. No espaço existem alguns estandartes de agremiações carnavalescas, trajes de maracatu e alguns informes sobre os maracatus da cidade.


C) BUENOS AIRES

Buenos Aires é um município com cerca de 11 mil habitantes. Fica a 79 km de distância de Recife, possui uma área de 87,469 km² e tem 149 metros de altitude.
Era parte do planejado visitar uma igreja do pequeno município de Buenos Aires, no entanto, a mesma encontrava-se fechada. Em razão disto, seguimos a viagem sem mais delongas.
Antes de sair da cidade, no entanto, fomos conhecer o atelier de Di Arte, uma espécie de antiquário no centro da cidade. Há uma quantidade apreciável de variedade de utensílios e móveis no lugar. Alguns em bom estado de conservação e uso, outros deixando bem a desejar nesses aspectos. Pôr historiadores num antiquário é como soltar crianças em parques. Todos ficam curiosos e em busca de algo nunca visto, ou na tentativa de manusear um instrumento antigo e entender seu funcionamento. É um convite a escrever a história de cada um daqueles objetos (inclusive os que passaram por um processo de envelhecimento para serem vendidos como relíquias do século XVIII).



D) ALIANÇA

Aliança é um município com cerca de 37 mil habitantes. Fica a 72,9 km de distância de Recife, possui uma área de 266,46 km² e encontra-se a 123 metros de altitude.
Atualmente a cidade ganhou destaque por se sediar o Ponto de Cultura Maracatu Estrela de Ouro. O nome vem de um dos mais conhecidos maracatus de baque solto da região. O Maracatu Estrela de Ouro foi criado há mais de 30 anos – oficialmente fundado em 1996 – pelo mestre Batista e hoje é presidido por seu filho, José Lourenço. O Maracatu conta com os versos do mestre Zé Duda e Luiz Caboclo, ambos integrantes do ponto de cultura.
Em 1930 foi construída a casa que hoje funciona como sede do Maracatu Estrela de Ouro, no sítio Chã de Camará, que serve de referência para os folguedos e onde pudemos nos deleitar com uma apresentação de coco feita exclusivamente para nós.




E) GOIANA

Goiana é um município com cerca de 74 mil habitantes. Fica a 65 km da capital, possui uma área de 492,2 km² e encontra-se a apenas 13 metros acima do nível do mar.
A cidade é um importante centro industrial da Zona da Mata Pernambucana, produzindo cana-de-açúcar, mandioca, fumo, cimento, açúcar, cal, casos de algodão, móveis e artefatos de fibra de coco.
A cidade de Goiana originou-se de um dos mais antigos núcleos de colonização da região e foi, por diversas vezes, sede da capitania.
Fomos a Goiana para visitar o engenho Uruaé. O engenho em si não funciona mais, no entanto, a plantação de cana-de-açúcar persiste, sendo sua produção vendida e exportada. O engenho foi incluso em nosso percurso por se tratar de um dos poucos engenhos (teoricamente do século XVII) que mantém a estrutura de Casa Grande, Senzala e Capela (todos abertos a visitação pela bagatela de R$7,00 por pessoa).
O engenho, hoje, funciona como uma espécie de “museu vivo”. A nossa recepção foi feita pela dona da propriedade, pertencente à sétima geração da família Rego Barros.
Atravessando os cômodos da Casa grande, é possível perceber um pouco do cotidiano de uma família patriarcal do final do século XIX – latente pela divisão e arrumação dos cômodos. Além de móveis antigos e louças expostas, a proprietária incluiu “no pacote” os funcionários da casa “fantasiados” de lacaios e mucamas para dar um tom mais dramático ao nosso tour.
Apesar de ser interessantíssimo visitar uma casa que preserva grande parte dos móveis, louças e rendas do século XIX, é inevitável não fazer uma crítica às intervenções feitas na arquitetura da casa para que esta não pudesse ser tombada como patrimônio pelo IPHAN. Dentre as intervenções – para não dizer depredações – a proprietária mudou toda a sacada das janelas da frente do casarão, destruiu a passarela que ligava a capela à Casa Grande (a passarela era utilizada para que a família do senhor de engenho pudesse chegar à capela sem precisar se misturar às demais pessoas que vinham assistir à missa) e construiu uma suntuosa piscina em frente a Casa Grande.
De fato, ter um patrimônio tombado pelo IPHAN significa lidar com entraves burocráticos que, segundo o IPHAN, garantirão a preservação do patrimônio, em detrimento à autonomia do proprietário sobre seu imóvel. No Engenho Uruaé, no entanto, o dilema foi resolvido da seguinte forma: modificou-se o suficiente para que o IPHAN não mais considerasse o imóvel um patrimônio histórico, e preservou-se o restante.

sexta-feira, março 09, 2007

A Música Barroca

A MÚSICA BARROCA foi o tema da pesquisa e apresentação em sala de aula de Laércio Dantas,
Luiz Manuel.Marília Coutinho e Thiago Calábria na disciplina História Moderna I, no quarto período do curso de História neste segundo semestre de 2006. O texto foi escrito como resultado de seus estudos. Assim continuo no mei objetivo de tornar público a produção de meus alunos, dando-lhes oportuinidade de receberem apreciação de toda a comunidade.


A Música Barroca













ÍNDICE

1. Introdução..................................................................................................................03
2. A música na Historiografia........................................................................................04
3. O renascimento e suas relações com a música..........................................................06
4. A música no ambiente da reforma e contra-reforma.................................................08
5. O barroco...................................................................................................................13
6. A música Barroca......................................................................................................15
7. Conclusão..................................................................................................................19
8. Bibliografia................................................................................................................20





INTRODUÇÃO

A música tal como construção social tende a variar seu conceito e sua forma de expressão no decorrer do tempo. Com o intuito de tratar sobre a época barroca e sua expressão musical este trabalho procurará no transcorrer dos séculos XVII e meados do XVIII mostrar como o mundo da música européia e os acontecimentos na Europa tangenciam-se promovendo uma situação na qual formasse uma época única para a música, denominada Barroca.
Entretanto, por compreendermos que a história é um processo, e que só é possível entender o que se passa em determinada época estudando seu passado, achamos de grande importância relatar neste trabalho os percursos enfrentados pela sociedade e pela música nos antecedentes da época barroca, ou seja, no Renascimento, na Reforma e Contra-Reforma.
Em um mundo europeu que passava por uma verdadeira efervescência no século XVI, a população cada vez mais urbana experimentava um contato estreito entre os homens, gerando conflitos cada vez maiores. Novas formas de economia, as aventuras européias pelo mundo atlântico e pacífico, novas formas de ver os cristianismo, o renascimento urbano, tudo isso provocou intensas mudanças na Europa, em vários âmbitos, sendo o cultural escolhido por nós neste trabalho. Ver tais transformações sobre o prisma da música é um desafio que nos propusemos. Ver como os vários domínios podem ser cristalizados na cultura, mais notadamente na música, e mostrar uma forma menos comum de ver tais processos históricos é o nosso objetivo.
Para nos acompanhar nesta empreitada recorremos a historiadores da música tais como Otto Maria Carpeaux e Nikolaus Harnoncourt, além de outros que se aventuraram nesse terreno como Henry Raynor em seu História Social da Música, de grande valia para nosso objetivo de analisar a música também sob os aspectos sociais da modernidade aqui estudada, e Arnold Hauser preponderantemente no que diz respeito a parte sobre o que é o barroco.
Dessa forma procuraremos explanar da melhor forma e concretizar nossa pretensão de enquadrar a música barroca, produção cultural que faz parte do processo histórico social, dentro das sociedades dos séculos XVI ao XVIII da forma mais acessível possível dentro da própria linguagem intrínseca a música.


A MÚSICA NA HISTORIOGRAFIA

Em “História social da música” Henry Raynor faz uma explanação a respeito da música na história, não só como produção de conhecimento, mas também como atividade humana ao longo do tempo. Dentro dessa perspectiva, a música, é uma construção social, ou seja, só é imaginável a composição e execução de canções, óperas dentro de um conjunto social.
A história da música é comumente vista como a história dos instrumentos ou a biografia de seus compositores, entretanto, segundo o próprio Raynor isso resulta numa história estilística, onde os interesses atuais do historiador tendem a ser comprovados através da música do passado. A, chamada por Raynor, de “história estilística” é predominantemente crítica. O estudioso tende a julgar a música do passado, o que, provavelmente resultará em anacronismos, pois o autor sustenta a tese de que não podemos saber exatamente o que o compositor desejava transmitir em sua música (a não ser através de cartas, a exemplo de Amadeus Mozart). Dentro desse ensejo apresenta-se assim de que forma o historiador deve se comportar diante do estudo da música, como um documento histórico, resultado de tensões que tangenciam-se no espaço/tempo:

A música, a menos que não passe de rabiscos casuais em sons, tem o seu lugar na história geral das idéias, pois sendo, de algum modo, intelectual e expressiva, é influenciada pelo que se faz no mundo, pelas crenças políticas e religiosas, pelos hábitos e costumes ou pela decadência deles; tem sua influência, talvez velada e sutil, no desenvolvimento das idéias fora da música.
(RAYNOR, p. 14, 1988)


Dessa forma, mudanças concretas na história não podem ser identificadas e estudadas através da história da música estilística. Nós podemos deduzir os motivos que fizeram, por exemplo, a música sair de seu ambiente sacro, enclausurado na igreja, e mergulhar no espaço profano das cortes, servindo à aristocracia. Outro ponto que cabe à história da música é notar, por exemplo, é a importância que os compositores do Renascimento davam a seu público, pois sua sobrevivência/patrocínio dependia das instituições (Estado ou Igreja, geralmente). Esta não será a situação de compositores como Schoemberg, que chega a dizer que a única importância do público é manter a acústica do local de apresentação, darão. Isso resulta de uma ruptura causada desde o século XIX na função social do musicista na sociedade européia, ou seja, o fim, pelo menos parcial, do patrocínio direto das instituições.
Estudar o desenvolvimento histórico do lado prático da música, a evolução das organizações musicais e as condições que elas impuseram aos compositores, juntamente com os meios à disposição do autor para reagir a elas, è estudar, de um ponto de vista histórico, o lugar da música na sociedade.
(RAYNOR,p.22, 1988)

A música não poderia ser analisada e nem mesmo existir fora da história. Todo o pensamento histórico em relação à economia, política e até mesmo as outras artes (literatura, cinema, teatro) estão relacionados, entre si e com a música.



3. O RENASCIMENTO E SUAS RELAÇÕES COM A MÚSICA

A música barroca, foco principal dessa pesquisa, já foi estudada por pesquisadores como Clerex, que ressalta a criação do baixo contínuo, numa harmonia vertical, a polifonia tradicional em decadência para o surgimento da polifonia vocal e a inserção do teor dramático individualista dos compositores; e também Bukofzer, estabelecendo uma cronologia que nos situa nas fases de evolução do barroco desde Monteverdi a Bach e Handel. Entretanto tocaremos nesse assunto mais adiante, pois esse processo começa a se desencadear bem antes com a própria ruptura com o teor clerical e sagrado da música na Idade Média no contexto do Renascimento. Esse movimento teve como pilar a Itália, através de figuras como Michelangelo ou Da Vinci. O surgimento de uma consciência cívica no espírito europeu, aliado ao mercantilismo da classe burguesa em ascensão, das utopias, das navegações e do nascente conhecimento científico, colaboraram, sem falar no advento da imprensa e inserção do costume da leitura na civilização ocidental, para uma mudança de postura contemplativa de mundo, para uma postura agora mais ativa e individual. Como exemplo, a preocupação em inserir os crentes dentro das canções litúrgicas, tanto por parte da Reforma Protestante quanto da Contra Reforma Católica. Tudo isso trará frutos para a música que merecem profunda atenção e destaque.
Durante o século XVI o foco das composições musicais passa a ser a Itália, França, Alemanha e Inglaterra, segundo Otto Maria Carpeaux, duas figuras podem ser ressaltadas: Philippe de Monte (1521 – 1603), foi regente da capela de Rodolfo II em praga, hoje sua obra, que contém a missa Inclina Cor Meum, é um dos focos preferidos dos musicólogos atuais; e Orlandus Lassus (1530 – 1594), esse foi regente de coros na França e na Itália e é considerado, no que diz respeito à condução de massas sonoras, um Handel de sua época. Até hoje o seu moteto Timor et Tremor continua sendo cantado no domingo de Páscoa nas igrejas de Munique e Viena. Vale salientar que tanto o primeiro quanto o segundo são indissociáveis da igreja, o que nos remete a um ponto importantíssimo tocado por Mario de Andrade em sua “Pequena história da música”. É justamente a transferência da polifonia para a harmonia, e um ponto importante de ser notado é, justamente, o papel das canções populares, nesse processo. Consideremos que a inserção de instrumentos no acompanhamento das vozes de um coro polifônico era considerado herético pela igreja e, popularmente, isso não será levado em consideração. Com o aprimoramento de certos instrumentos, como o violino, antes utilizados somente no cancioneiro popular passa a integrar, gradualmente, o repertório da música erudita, como no exemplo de concertos no qual este, normalmente, era um dos instrumentos preferidos para os solos.
As massas, consideradas sempre, os excluídos da história, compunham músicas para determinados trabalhos coletivos, para festas populares, peças teatrais (músicas específicas de cada personagem) e até mesmo músicas que parodiavam as sagradas que ouviam na igreja durante as missas. Essas músicas começam a admitir, aos poucos, o acompanhamento de instrumentos como o címbalo e o alaúde, que podem sofrer comparações com o piano e o violão, respectivamente. Dessa forma, o canto popular, influenciará a Música Medida. Essas canções populares obedeciam a fórmulas rítmico-melódicas que se repetiam constantemente, de fácil assimilação, o que fez, segundo Andrade, com que os eruditos acabassem por serem partidários dessa forma periódica e medissem os tempos sonoros. Ou seja, normalizaram o uso do compasso com o tempo forte e o tempo fraco, por influência do cancioneiro popular. Dentro dessas tradições de música popular vale a pena chamar a atenção para os bardos e menestréis, na Idade Média, que percorriam a Europa tocando, já que o canto artístico, próprio de Grécia e Roma, era muito raro antes desses. Os menestréis devem ser destacados, já que, segundo Mário de Andrade: “chegaram a possuir escolas musicais chamadas Escolas de Menestria.” (ANDRADE,p.60. 1987).
No século XVI após o Renascimento, como deixa claro Wagner Ribeiro, a polifonia entra em decadência em prol da ascensão rápida da harmonia, que diferente da polifonia (junção de sons) é a fusão destes, como explica Andrade. Entretanto esse século é também o século da canção, não entenda aqui como toada popular, e sim uma nova forma de poesia, onde cada estrofe é acompanhada por estribilho. Dentro desse estilo o madrigal italiano será o destaque, influenciando os focos já citados: na França será a Chanson, na Inglaterra a Song, na Alemanha o Lied e na Península Ibérica dará origem ao teatro musical de influencia também Árabe. Diz-se (Carpeaux) que na região francesa foi onde se desenvolveu um estilo de canção mais nacionalista, que se diferiu mais do madrigal italiano, nos outros focos a influência é quase imitação, porém ainda reduz qualitativamente as origens. Outro fato que atinge a sociedade européia são as reformas. Essas irão refletir na música de modo a influenciar o teor sacro ou profano da música dentro de variantes geográficas.


4. A MÚSICA NO AMBIENTE DA REFORMA E CONTRA-REFORMA

Dentro de um mundo europeu conturbado por questões religiosas, a música, basicamente aquela tocada na igreja, irá sofrer dessas reformas modificações quanto a sua forma, não sendo estas um rompimento com o estilo flamengo predominante, pois não se cria um novo estilo. Entretanto os pólos musicais neste período serão notadamente a França, a Inglaterra, a região que futuramente será a Alemanha, e a região que compreende a atual Itália. É interessante ressaltar que nos locais onde a fé católica permanece pujante, a música habitará também a vida da sociedade aristocrática, nas câmaras de concertos; já nos locais que aderem a reforma protestante, a música retirara-se principalmente, para a igreja, adaptando-se as formas mais simples da devoção do povo.
Dentro da reforma protestante a figura de maior destaque foi Lutero, que reformou, junto com a igreja, a sua música. As transformações feitas por Lutero permitiram-lhe preservar as exterioridades populares do catolicismo, mas também parte da base doutrinaria da fé católica, assim como ainda utilizava a música na estrutura litúrgica tradicional. Esta recebeu uma simplificação posteriormente, seja em latim ou alemão.
Muito do canto tradicional sobreviveu, o mesmo acontecendo com os motetos polifônicos, só havendo exceções quando uma coisa no texto deles lembrava a doutrina católica da missa como sacrifício ou outro dogma não luterano.
A divisão política dos estados luteranos levou a certa variação de pormenores no tratamento da liturgia padrão. Mas as “canções luteranas” se tornaram o aspecto musical típico da música luterana. No geral a missa pretendida por Lutero tinha música simplificada assim como o texto era em alemão. O que interessava para Lutero é que os hinos fossem liturgicamente apropriados e se referissem à epístola ou ao evangelho a ser lido.
Dentro desse aspecto Lutero desejava que os hinos fossem todos litúrgicos e para convocar a congregação a participar do ritual, e não simplesmente para cantar o bem de suas almas. Alguns dos corais eram hinos latinos traduzidos em alemão; tratava-se, sobretudo, de hinos tradicionais dos ofícios. Outros menos integrantes da liturgia podiam ser cantados em latim ou alemão. Havia também canções devocionais de antes da reforma, e junto com esses veio a seqüência de letras religiosas para melodias populares antigas e novas.
Para Lutero, uma boa música tem seu lugar no canto, seja de onde vier. Lutero acreditava que a adoção de tais melodias populares para corais era uma santificação do secular, e não tinha qualquer objeção ao uso de canções populares, desde que fossem veículos para letras religiosas. Para Henry Raynor, “Por essa razão, por 200 anos a música luterana mudou com os tempos mantendo-se assim ao gosto do público freqüentador das igrejas, isto é, de todos, em sintonia com a evolução musical.”(Raynor,p.134,1988).
Otto Maria Carpeaux tem uma visão bastante aguçada no que diz respeito a música luterana, ou melhor, o coral luterano, e que coaduna com a visão de Henry Raynor sobre o mesmo:

“O coral luterano é coisa completamente diferente: é melodia sacra popular ou de origem popular e depois harmonizada, cantada não por um coro de cantores profissionais, mas pela comunidade inteira, acompanhada pelo órgão, ao qual também se concede o direito de preludiar o canto ou orna-lo com variações livres.”(CARPEAUX, p.34, 1958)

A utilização de melodias populares onde todos sabiam o cântico adicionado à teoria educacional de Lutero, que consistia em professores preparados para ensinar canto e elementos da música, levaram a uma grande expansão da cultura musical.
Para os luteranos e reformadores mais radicais, a autoridade em religião estava na Bíblia mais que na tradição viva da igreja, assim as palavras não deviam ser apenas matérias-primas para dar estrutura e se destinarem a certa autonomamente musical. Caso fossem musicadas o compositor devia fazer com que o significado das palavras chegassem a todos com toda clareza necessária.
Os textos religiosos também funcionavam como incentivo para os compositores protestantes que podiam ter uma visão da bíblia mais pessoal, subjetiva. Dentro da igreja católica havia o ideal de impessoalidade musical, e as obras que não o fossem eram prontamente condenadas. Já na visão protestante a Bíblia, a palavra de Deus, devia ser revelada e acessível a todos os crentes, estes que podiam estudar por si próprios e obter vislumbres pessoais e individuais da vontade e propósitos divinos, podiam ter uma visão subjetiva. Dentro desse contexto Raynor explica a função do compositor luterano, “um compositor devia interpretar as passagens da Bíblia e da liturgia para instrução, deleite e edificação dos crentes.” (Raynor,p.138,1988).
Ainda no tocante a leitura e interpretação da Bíblia, Raynor difere músicos católicos e protestantes:

“Enquanto o dever do compositor católico era escrever música que atuasse como serva da liturgia, para exprimir a humildade do crente e para não por si mesmo mas para a igreja, Bach e os grandes compositores protestantes utilizavam a música para exprimir a outros certos modos de ver pessoais do cristianismo independentemente de serem considerados como totalmente aceitáveis pelas autoridades.”
( Raynor,p.138,1988).

No contexto da guerra dos trinta anos, entre 1577 e 1586, mais ou menos metade dos estados do norte de fala alemã rejeita a igreja católica assim como o calvinismo, criando um espaço que será preenchido pelo luteranismo, já que sua visão de união do Estado com a Igreja beneficiava os príncipes. Dessa forma a indicação de cargos eclesiásticos ficava a cargo dos conselhos municipais, o que permitia um controle indireto do Estado na doutrina luterana, assim como nomeações para cargos musicais.
A música organizada nas cidades, que eram o centro de gravidade da música alemã, faz oposição as cortes pelo menos até a guerra dos trinta anos. Com a prosperidade das cidades importantes havia a possibilidade de sustentar e incentivar a música apesar do pouco que se pagava aos músicos pelas autoridades locais.
Os reformadores mais radicais não gostavam de música por lhes lembrarem os rituais da igreja católica e por parecer-lhes algo que nada tinha haver com a religião. Sobre esta questão Raynor discorre que,

“boa música, cuidadosamente composta e bem cantada, desviava a atenção do crente do real objetivo da prece e do culto. Tudo o que não estivesse nas escrituras era banido dos seus serviços religiosos de modo que hinos e motetos foram proibidos.”(Raynor, p.142, 1988)

Já a Reforma inglesa, em seus primeiros estágios, não apresenta estímulos a práticas antimusicais na igreja. Henrique VIII e seu arcebispo Cranmer achavam necessário certa simplificação da música não cantada pelo público, e começaram a introduzir textos em inglês nos serviços religiosos.
A mesma preocupação em impedir que a liturgia fosse tida como ocasião para audição passiva pelo grosso dos crentes motivava as autoridades da Contra-Reforma. A regulamentação da música religiosa não era tarefa tida como urgente pelo Concílio de Trento (1545-1563). Contudo havia um sentimento generalizado de que, durante o século anterior, a “secularização” da música religiosa se deu quase sem oposição, e que as trabalhadas composições vocais permitidas nas igrejas acabaram por substituir o culto e que se impunha um retorno à simplicidade.
Quando o Concílio de Trento passou a examinar a forma litúrgica, o Papa Marcelo II reiterou um ataque aos estilos seculares utilizados na música religiosa. Ele aludia às missas baseadas em cantus firmi seculares, cuja complexidade técnica impossibilitava a congregação de compreender as palavras do ritual, o emprego de instrumentos ruidosos, má pronúncia, descuido e irreverência.
Entretanto a decisão do Concílio não é contra a música polifônica nas igrejas, mas estabelece algumas generalidades:

“Todas as coisas devem ser organizadas de modo que as missas, celebradas com ou sem música, possam levar tranqüilidades aos corações e ouvidos de quem ouve, sendo tudo executado claramente e no andamento correto, e no caso das missas celebradas com canto e órgão, nada profano se misture, mas apenas hinos e louvores divinos. todo arranjo do canto em modos musicais deve constituir-se não para proporcionar prazer ao ouvido, mas de modo que as palavra sejam claramente compreendidas por todos, e assim os corações dos ouvintes sejam levados ao desejo de harmonias celestiais, na contemplação do gozo dos bem aventurados ... Devem também banir da igreja toda música que contenha, seja no canto ou na execução do orgão, coisas que sejam lascivas e impuras.”(Raynor, p.148, 1988) .

Compositores perto de Roma como os de Veneza, entretanto, revelaram o estilo antifonal que logo evoluiu no estilo policoral, para o concertato vocal da época barroca, o que sugere que estes estavam, em espírito, distantes das exigências do Concílio de Trento. Willaert, que era maestro di cappella na catedral de São Marcos em Veneza, estava no cargo durante a maior parte do período de ataque a música religiosa trabalhada, mas continuou a trabalhar com dois coros e a explorar as fascinantes sonoridades criadas pelas cúpulas, arcadas e transeptos da catedral. O surgimento da Ordem Jesuíta deu poderoso impulso ao novo estilo dramático e colorido da musica que devia difundir-se pela Europa e dominar não só a música católica como também a da igreja luterana.
É esse contexto, entre as últimas formas renascentistas e o barroco, que convencionou-se a denominar Maneirismo. Sobre tal Carpeaux diz,

“Maneirista” é o estilo que pretende superar-se a si mesmo, sem dispor, ainda, de recursos inteiramente novos para tanto. Daí a impressão do exagero e de auto-imitação, que não excluem a possibilidade de criar obras-primas”. (CARPEAUX. p,42. 1988).



5. O BARROCO

“Por volta do final do século XVI, da-se uma mudança impressionante na historia da arte italiana. Um maneirismo frio, complicado e intelectualista cede o lugar a um estilo sensual, emocional e universalmente compreensível – o Barroco. E a reação de uma concepção de arte, em parte, intrinsecamente popular, em parte, apoiada pela classe cultural dirigente, mas com consideração pelas massas, contra o exclusivismo intelectual do período precedente.” (Hauser, p. 544)

Como bem explana Arnold Hauser o Barroco entra em confronto direto com o Renascimento, estilo conhecido pelo seu apelo à razão, menosprezo pelo medievo e o retorno às idéias clássicas greco-romanas. Por defender tudo isso, o espírito renascentista entra em constante conflito com a Santa Sé e com os seguidores do cristianismo, que vêem no Renascimento um afronta.
Mas não era apenas externamente que a Igreja enfrentava críticas. Internamente a situação tampouco estava agradável. A simonia enfrentava opositores entre integrantes do clero, que consideravam que a situação havia passado dos limites. A Reforma Protestante, que teve início como um movimento restaurador dentro da Igreja, acabou por separar os cristãos, onde os reformistas passaram a ser chamados de protestantes. Resumir a Reforma como mera insatisfação burocrática seria desconsiderar outros fatores que também exerceram grande influência. Fatores econômicos e políticos exerceram igual influência, já que a crescente burguesia não gostava da Doutrina do Justo Preço, que limitava seus lucros e os soberanos dos Estados Nacionais viam com maus olhos o poder papal, cada vez mais ultranacional.
A resposta católica não tardou e a Contra-Reforma reafirmou os princípios e dogmas católicos no Concilio de Trento (1545-63), cuja convocação serviu para assegurar a unidade dos católicos. O Concilio teve resoluções importantes para o contexto da época e suas conseqüências perdurariam na Europa e fora dela por anos, como, por exemplo, a instauração do Tribunal da Santa Inquisição, que ficaria marcado na história por perseguir e levar a julgamento aqueles considerados infiéis. Foi também instituído o Index Librorum Prohibitorum, um índice com os nomes de livros que os verdadeiros católicos estavam proibidos de ler.
Ao perceber o distanciamento entre o povo e a cúpula da Igreja, a mesma decide que é hora de expressar os preceitos religiosos através de algo que toque o indivíduo. O Barroco é, então, escolhido como o meio de representação das idéias católicas e utiliza-se de elementos na literatura, escultura, pintura e música para adentrar no dia-dia da população, algo que de certa forma foi suprimido durante o Renascimento, já que o mesmo era segregacionista e dividia claramente, pelo tipo de arte apreciado, os ricos dos pobres.
O Barroco, que significa “pérola irregular” no português antigo, usa de elementos dramáticos para prender o espectador; a religiosidade é expressa de forma dramática, intensa, procurando envolver emocionalmente as pessoas. O estilo exagerado, exuberante serve para que o fiel se sinta pequeno diante da grandiosidade de Deus, e a igreja é o palco desse teatro num espaço onde os dramas são encenados. A temática religiosa é constante e preponderante, mas além dela há a mitologia e o direito divino dos reis, teoria defendida pela Santa Sé e pelos Estados Nacionais que estavam nascendo. Na literatura há o uso da metáfora e da alegoria, na pintura o jogo de luzes produz um contraste e o uso do claro e do escuro é um sinal para a constante agonia entre o céu e o inferno. Porém o Barroco não foi instrumento apenas dos católicos, os protestantes também o usaram e, assim, essa arte acrescentou algumas características em Estados protestantes. A investigação científica virou tema de pinturas, algo inconcebível na visão da Igreja, já que havia uma maior liberdade nessas regiões. Junte-se a isso a forte burguesia dessas regiões, o que gerou uma maior aparição de quadros com cenas burguesas e da vida em geral.
O Barroco então se caracteriza pelos contrastes e dualidade que passavam na cabeça do homem moderno: céu x inferno, claro x escuro, deus x diabo, em resumo o bem contra o mal. Mas algo que nunca deve ser questionado é o poder de Deus.



6. A MÚSICA BARROCA

A área de produção da música, convencionalmente, conhecida como barroca engloba uma vasta parte da Europa, Itália, França, Alemanha, Inglaterra. O período que se enquadra essa produção musical é de aproximadamente 150 anos, se iniciando em 1597 com a produção, do que viria a ser conhecido como Ópera Moderna, a obra Dafne de Jacopo Peri que foi a precursora desse estilo teatral. Porém, devido à perda do material dessa obra convencionou-se que Euridice, do mesmo autor, seria a primeira Ópera Moderna dessa maneira dando início ao que seria chamado de música barroca e que tem como marco final a morte do compositor Johann Sebastian Bach em 1750.
O estilo barroco tem como característica o uso de linhas longas e ritmo forte com uma melodia limpa e linear. O barroco foi influenciado pela Doutrina das Afeições, razão de suas composições possuirem uma forte carga emocional. Essa crença na capacidade de despertar emoções no ouvinte, nos remete às idéias de música na antiguidade clássica que tinha como filosofia a certeza da capacidade comunicativa da mesma. Com intuito de se aproximar mais da música antiga, essa aproximação se deu através da exploração da capacidade comunicativa da música, os compositores barrocos começaram a se concentrar menos na complicada polifonia que dominou os séculos XV e XVI e dar mais atenção a técnicas como a monodia e a homofonia que fazem a oposição as técnicas renascentistas.
Aliada a ênfase no solo vocal temos também a prática do basso continuo. A melodia aguda e a linha do baixo eram os elementos essenciais, e as partes intermediárias eram deixadas ao gosto dos intérpretes, logo essa flexibilidade permitiu que os solistas ornamentassem as melodias livremente sem precisar se preocupar com regras de contraponto.
A utilização de contrastes é também algo presente nos dramas barrocos. Diferenças entre alto e baixo, solo e acompanhamento, timbres e instrumentos desempenharam um papel importante nas composições barrocas. Dessa maneira os compositores se tornaram mais precisos quanto ao uso dos instrumentos. Como um fruto do impulso dramático do barroco, vemos o surgimento da Ópera moderna, da cantata e do oratório. Na parte instrumental temos a sonata, o concerto e a suíte.
A linha que comumente divide o Barroco Recente do Renascimento começa a ser estruturada na Itália pelo compositor Cláudio Monteverdi através de suas óperas. A introdução da sétima corda sem a preparação pode ser enquadrada como sendo o inicio do rompimento com o passado. Esse conceito cria o senso de fechamento que mais tarde viria as ser chamado de tonalidade.
Com a Reforma aos poucos a igreja foi perdendo espaço na Europa, porém com as conquistas dos Habsburgos houve mudanças na conjuntura político-religioso na Europa e, inserido nesse contexto o papado procurou uma forma artística de divulgar a fé da Igreja Católica. Um dos mais importantes centros musicais foi Veneza, com possibilidades de patrocínio secular e sagrado. Giovanni Gabrieli foi um dos compositores que mais se destacou no empenho de reviver o Catolicismo contra as mudanças doutrinais, artísticas e sociais estabelecidas pelo Protestantismo. De certa forma seu trabalho ainda possui traços do Alto Renascimento, porém algumas de suas inovações como o uso de instrumentos para tarefas especifica foram considerados percussores do novo estilo.
A utilização da música como forma de propaganda religiosa demandava que os textos sagrados fossem mais claros, logo havia uma pressão para o rompimento com estética renascentista da polifonia. Dessa maneira começou-se a utilizar a técnica da homofonia para facilitar comunicação.
Entretanto, compositores como Monteverdi concluíram que existia um sentindo secular para a aproximação entre harmonia e o texto. Uma de suas óperas, Orfeu, tornou-se um dos marcos da utilização dessa aproximação no âmbito secular.
A consolidação do poder da Igreja aliado ao patrocínio estatal criou uma demanda por uma música pública mais organizada e a crescente disponibilidade de instrumentos fez surgir a necessidade da execução de música de câmara. O barroco médio se distinguiu do recente devido a uma institucionalização das formas e normas, particularmente na ópera, e como conseqüência disso a filosofia do novo estilo tornou-se mais sistemático dessa maneira criou-se um sistema formal de ensino do novo estilo. Uma das características desse período é a preocupação com a harmonia na prática musical.
Um dos compositores que mais se destacou foi o Jean-Baptiste Lully que se tornou o compositor oficial de óperas do rei da França. A maioria de suas tragédias líricas foi feita e executadaa para a corte francesa e eram baseadas nos conflitos entre a vida publica e a vida privada do monarca que o patrocinava. Uma de suas inovações é o foco sobre a voz interna da harmonia e as relações entre o solista e o estabelecimento da norma de dominação das cordas para orquestras. Na Itália temos Arcângelo Corelli que também é um compositor de destaque por ter organizado as técnicas de ensino do violino e por ter desenvolvido o concerto grosso. Enquanto as composições de Lully eram mais restritas a corte francesa as de Corelli foram publicadas em larga escala e sua obra foi tocada em quase toda Europa.
Na Alemanha temos Dieterich Buxtehude,ele deu mais ênfase na execução de seu trabalho, ele mesmo as executava com órgão, do que a publicação de suas obras. Diferentemente de Lully que tinha como temática o secular, Dieterich abordava o tema sagrado. Ele fazia uso do contrate entre a improvisação livre e o restrito trabalho de contraponto. Essa técnica mais tarde foi utilizada por Bach.
A linha divisória entre o Barroco Tardio e o Médio é constituída quando acontece a completa absorção da tonalidade como principio estrutural da música. Particularmente essa característica foi evidenciada no trabalho de Rameau, que por sua vez substituiu Lully como compositor oficial da corte francesa. Foi durante essa época que se criou a concepção de dois tipos de composição: a homofônica, que era dominada pelas considerações verticais, e a polifônica que era dominada pela imitação e pelas considerações contraponteais. As formas que tinham se estabelecido previamente começaram a se diversificar, concertos, suíte, concerto grosso, oratória, ópera, balé e adquiriram uma maior conotação nacional.
Entre os trabalhos mais famosos do Barroco Tardio temos os de Antonio Vivaldi que, em sua maioria, eram trios sonatas, concerto e sonatas para violino. Suas obras foram publicadas em Amsterdã e tiveram uma grande circulação na Europa. Ele estabeleceu padrões como três movimentos, rápido-lento-rápido, e o uso do ritornello em movimentos rápidos. Vivaldi foi um exemplo de compositor que conseguiu se sustentar através de suas publicações e dessa maneira adquirir certa independência.
Um dos mais famosos compositores de patrocínio régio foi George Frideric Handel. Apesar de ter nascido na Alemanha passou a maioria de sua vida na Inglaterra. Ele constantemente procurou fórmulas comerciais para suas óperas e oratórios e também fez usos de obras de outros autores com intuito de reciclá-las. Provavelmente essa prática teve origem em suas viagens para conhecer outros compositores pela Europa. Apesar de não ter acumulado muita riqueza, suas composições para teclado, música cerimonial, óperas, oratórios e concertos, grosso foram bastantes conhecidas na época em que viveu, tanto que durante o período clássico ele foi um dos compositores mais estudados. A prática da ornamentação no estilo barroco atingiu um alto nível de desenvolvimento nas suas composições.
A fase entre o Barroco Tardio e o Clássico Recente é bastante influenciada pela idéia de reunir diferentes gostos e visões de mundo. Foi um período que os compositores ainda trabalhavam com o estilo Barroco, mas o público ansiava por algo novo. Foi essa uma das razões que fez Johann Sebastian Bach perpassar o antigo estilo e se tornar um dos percussores do estilo clássico. Durante essa época o barroco se restringiu ao âmbito sagrado e o novo estilo se afirmou no âmbito secular.



7. CONCLUSÃO

Dentro dessa viagem através da história da música e também da história social na época moderna, é interessante notar o processo que fez a música do renascimento, polifônica, quase incompreensível e complexa, que era tocada nas igrejas mudasse para uma música mais simples, compreensível e que tocasse o coração do homem fazendo-o ficar mais próximo da igreja.
Esse contexto de transformação da música só foi possível dentro de uma Europa que vivia a Reforma e Contra-reforma, na vontade de ambos, protestantes e católicos que suas músicas e fé não só fossem passiveis de admiração, mas que também fossem compreensíveis e levassem a quem a escuta a grandeza de Deus, a fé professada pelas instituições conflitantes. E dentro dessa vontade, na contra-reforma a música barroca irá satisfazer os anseios de uma igreja católica que necessitava recuperar terreno e fieis frente à igreja protestante.
Para tal processo se tornar real, é interessante notar a constante apropriação do popular para o erudito, seja o papel das canções populares na passagem da polifonia para a harmonia, seja a inserção de instrumentos no acompanhamento das vozes, que antes era considerado herético pela igreja e depois será amplamente utilizado no barroco, ou seja o uso de canções devocionais de antes da reforma e de letras religiosas para melodias populares antigas e novas pelos protestantes durante a reforma.
É Importante ressaltar que tal movimento, como já foi visto no trabalho, não ficou preso ao âmbito religioso, mas também alcançou câmaras de concertos e palácios onde eram utilizados pelo soberano para torná-lo o centro das atenções como o fez Luiz XIV, da França.
Num âmbito geral, acreditamos que o objetivo do trabalho foi alcançado. Era ver como os vários domínios da vida podem ser cristalizados na cultura, mais notadamente na música, e mostrar uma forma menos comum de ver tais processos históricos. Entendemos que a música barroca, assim como a época barroca, só é passível de ser entendida dentro do contexto conflitante entre protestantes e católicos; e, suas iniciativas em prender os fieis a elas através da arte, procurando aproximá-la deles utilizando-se da arte popular para tal, assim como ocorreu no renascimento fora da igreja. Sendo mais tarde a música barroca caminhando para fora da igreja com seus próprios pés para as cortes absolutistas ou para as câmaras de concertos nascentes na Europa.


8. BIBLIOGRAFIA

ANDRADE, Mário. Pequena História da música. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1987.
CARPEAUX, Otto Maria. Uma nova história da música. Rio de Janeiro, Ed. Tecnoprint, s/d
HARNONCOURT, Nikolaus. O discurso dos sons: caminhos para uma nova compreensão musical. Rio de Janeiro, ed. Zahar, 1988.
HAUSER, Arnold. Historia Social da Literatura e da arte, Tomo I; São Paulo: Mestre Jou, Sem ano.
MACHADO, Lourival Gomes. Barroco Mineiro São Paulo. Perspectiva, 1978.
RAYNOR, Henry. História social da música: da idade média a Beethoven. Rio de Janeiro, ed. Guanabara, 1981.
RIBEIRO, Wagner. História da música no antigo continente. São Paulo, Ed. Coleção FTD, 1965.
TAPIE, Victor. Barroco e classicismo. Lisboa, Presença, 1972.

quinta-feira, março 08, 2007

Relatório de José Vicente = Problemas do Nordeste

Este é o relatório de José Vicente de Souza Patriota, de atividade realizada no mês de fevereiro, na disciplina Problemas da História do Nordeste



Relatório da excursão didático-pedagógica por alguns dos municípios da Zona da Mata Norte de Pernambuco, realizada em 9 de fevereiro de 2007.

A realização dessa excursão aos municípios de Paudalho, Nazaré da Mata, Buenos Aires, Aliança e Goiana teve como objetivo principal fomentar o processo ensino-aprendizagem na disciplina Problemas da História do Nordeste, permitindo aos envolvidos na referida atividade acadêmica experimentar in loco um pouco da realidade sócio-cultural da região. Aspectos econômicos também foram motivo da nossa observação, proporcionando-nos momentos de reflexão acerca do desenvolvimento vivenciado por essas áreas em momentos históricos passados e recentes.
A saída da cidade do Recife ocorreu na manhã do referido dia por volta das 7h30min, partindo do estacionamento do prédio do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, seguindo pela BR 101-Sul e Rodovia Luiz Gonzaga até alcançar a rodovia de acesso ao município de Paudalho.
Seguimos nosso roteiro cultural empolgados pelo som de uma miscelânea de ritmos musicais tradicionais da região e pelas inserções do nosso professor Severino Vicente com o fim de nos aguçar os sentidos para os detalhes que as paisagens tinham a nos revelar ao longo do percurso.
Na saída de Recife e em confluência com um breve trecho do município de Jaboatão dos Guararapes presenciamos um exemplo de desrespeito ao pouco que resta de um bem tão valioso para a biodiversidade de nossa região: a mata atlântica. De passagem pela área rural do município de Paudalho conhecemos pequenas comunidades surgidas da aglomeração de populações saídas das plantações de cana nas décadas de 60 e 70 do século XX em função do Pró-álcool. Essas comunidades, nessa mesma época, deixaram de ser grandes fornecedoras de frutos para a Zona Metropolitana do Recife. Uma delas, denominada de Guadalajara, foi assim batizada em homenagem à copa de 1970, realizada na cidade mexicana de mesmo nome. As populações desses lugarejos foram se fixando próximo ou até às margens da rodovia e até hoje em dia mantém certa estagnação em seu desenvolvimento, posto que a economia da região não oferece maiores oportunidades.
Ainda de passagem por Paudalho, conhecemos o acesso ao santuário de São Severino dos Ramos, local de incansáveis peregrinações realizadas por nordestinos dos mais variados lugares, que buscam manter viva a esperança de dias melhores e também fortalecer a fé/crença numa força superior que ajuda o ser humano a manter-se vivo. Nesse momento, veio à minha lembrança, “Ramos da Fé”, documentário que foi passado em sala de aula de nossa disciplina e que nos mostrou mais uma das tantas religiosidades de um Nordeste inventado pelo povo. Seguindo viagem em direção a Carpina conhecemos, de passagem, o prédio da atual Academia de Polícia Militar de Paudalho que, entre os anos de 1945 e 1970, funcionou como seminário para a preparação de padres para a Igreja Católica.
Do trevo de Carpina, antiga “Floresta dos Leões”, partimos na direção ao município de Tracunhaém, conhecido por suas peças de artesanato em barro. Esse município é um dos maiores centros de produção de cerâmica artesanal do país. Já no centro da cidade pudemos perceber a existência de inúmeros ateliês que contam com uma produção artística encantadora que valoriza a identidade cultural da comunidade. O nome do município de tracunhaém tem origem tupi e significa “panela de formiga”. Os povos indígenas que habitavam a região formaram os criadores das primeiras peças do artesanato regional. A cidade conta com igrejas seculares: a de Santo Antônio, fundada em 1669 e a de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, de 1837. A primeira era freqüentada pelos senhores de engenho e pelas famílias mais “distintas” e a segunda era destinada aos negros com o intuito de não misturar os trabalhadores do eito com os demais cidadãos. Em visita a esta igreja ficamos sabendo, através do coroinha, que ela se destina atualmente às atividades pastorais e de ponto de encontro de grupos de jovens e a de Santo Antônio passou a reunir o povo em geral para as missas. Depois passamos pelo Centro de Artesanato de Tracunhaém, que fica localizado ao lado da Igreja de Santo Antônio, onde alguns colegas puseram literalmente a mão na massa e experimentaram o torno dos artesãos, localizado nos fundos do Centro, confeccionando algumas peças com a ajuda dos pacientes e atenciosos artesãos do lugar. Também foram adquiridas, por alguns dos nossos companheiros de viagem, alguns exemplares da produção cerâmica, o que não deixa de representar ainda uma forma de proporcionar àqueles trabalhadores uma melhoria na sua qualidade de vida, numa atitude socialmente responsável com a certeza de estar levando para casa uma produção autêntica, de qualidade e de beleza singular.
O próximo destino foi a cidade de Buenos Aires, lugar onde conhecemos o antiquário Biart cujo acervo possui peças antigas de igrejas, engenhos e de utilidades domésticas de várias épocas como, por exemplo, ferros de passar a carvão e candeeiros a gás. O caminho até o antiquário teve de ser feito a pé, o que nos proporcionou a bela sensação de estar num lugar calmo, pacato e de gente hospitaleira. O nome do município, segundo perguntado a um transeunte encontrado em frente à primeira igrejinha do lugar e que, por sinal, se encontra bastante deteriorada, deve-se a um padre argentino que se arranchava no antigo engenho da região. Certa vez se posicionou em direção ao horizonte no sentido da cidade de Tracunhaém e disse, apreciando a paisagem e o vento suave e constante que soprava naquela direção: “-Esse lugar há de se chamar Buenos Aires”.
Chegando a Nazaré da Mata conhecemos o Ponto de Cultura do município, localizado no prédio do antigo Açougue Público. Ali se pode ver algumas indumentárias de grupos de maracatu e outros traços da cultura regional como produção literária à venda sobre as manifestações artísticas e sócio-culturais. Ali se podem adquirir obras como a do nosso professor Severino Vicente, intitulada “Festa de Caboclo”, publicado pela Associação Reviva, que contribuem para o fomento à pesquisa e à disseminação do conhecimento da cultura popular.
Mais adiante chegamos ao município de Aliança, mais precisamente à comunidade de Chã de Camará, onde fica a sede do Maracatu Estrela de Ouro dos mestres José Batista e Zé Duda. Fomos muito bem recebidos por alguns dos integrantes do referido grupo cultural que nos presentearam com uma bela dança de coco abrilhantada por formosas dançarinas da região, tocando simultaneamente seus instrumentos. Conhecemos também as instalações do projeto de incentivo às tradições locais mantido na comunidade e que tem como um dos colaboradores o nosso professor.
Seguimos em direção ao município de Goiana, nosso último destino. Lá, visitamos o antigo engenho Uruae, pertencente aos descendentes da família do Conselheiro João Alfredo. Fomos recepcionados pela proprietária do engenho, a senhora Eleonora Rabelo, atualmente exercendo o cargo de secretária de turismo da Cidade de Goiana. Ficamos admirados com o conforto gozado pela família do senhor de engenho em detrimento das péssimas condições de alojamento dos escravos, apinhados na senzala ao lado da casa-grande. A condição da mulher no seio da família patriarcal foi bem contada por nossa anfitriã que mostrou todos os cômodos da casa, inclusive identificando aqueles destinados exclusivamente às mulheres e os dos homens, onde elas jamais poderiam entrar. Conhecemos a capela do engenho, a qual tinha um acesso exclusivo à casa-grande, o que evitava a proximidade da família aristocrática com os demais habitantes do lugar. Dentro da casa-grande uma boa parte do mobiliário encontra-se preservado, salvo alguns objetos modernos incorporados ao ambiente. Ao longo da fala da Sra Eleonora percebemos um certo saudosismo quando se referia aos seus antepassados e de certa forma no que tange até mesmo ao seu modo de vida. Poderíamos talvez associar tal comportamento a certa fruição de status experimentada numa realidade um pouco diferente da de hoje. Em todo caso, percebe-se uma tendência em enaltecer os feitos da família quando ela mesma afirma que luta para incluir no currículo escolar do município a história da sua família.
Através das observações feitas durante o percurso de nossa excursão didático-pedagógica conseguimos inferir um contexto de Nordeste bastante peculiar quando levados em consideração as outras imagens que se têm dessa mesma região no tocante principalmente aos aspectos culturais de seu povo. As tradições culturais manifestam sua resistência em iniciativas como a do Maracatu Estrela de Ouro de Chã de Camará. Mas, bem perto dali, temos outro exemplo de resistência às novas configurações sócio-econômicas da história da região. No Engenho Uruae, pudemos encontrar vestígios de uma sociedade aristocrática – ainda que de forma decadente – que ainda se mantêm vivos a nos revelar traços das relações de poder vigentes durante anos. O discurso da representante da família está impregnado de um saudosismo em relação aos tempos áureos da sociedade do açúcar nas referências familiares. Foi desse modo que tomamos contato com a realidade social-cultural da região, comungando a permanência de seus valores no contexto histórico atual e ponderando os elementos remanescentes das tradições passadas que deram sua contribuição para a formação do cadinho cultural característico desse espaço geográfico nordestino.

Dia da Mulher

Este dia de março foi esclhido para que algum tempo seja dedicado à reflexão sobre a situação das mulheres nas sociedades. Ainda que sejam a maioria numérica as mulheres estão em minoria na relação do poder, embora exerçam funções básicas para a construção do poder e dos poderosos. Tradicionalmente as mulheres têm maiores contatos com as crianças no processo de sua formação, mas os valores que eleas transmitem, em sua maior parte são valores definidos a partir da ótica masculina, e este fenômeno aparece em todas as sociedades, não apenas no Brasisl ou na América Católica, como pregam alguns que aprenderam, cedo ou mais tarde, a ter preconceitos contra si mesmo.
Este dia da mulher é uma oportunidade para que a parte da humanidade formada pelos homens dediquem-se a pensar no significado de suas ações que produzem sofrimento à outra parte. Claro que não existe a muljher em si, mas a mulher nas suas relações. Assim o que se deve pensar é como´se pode garantir a felicidade das mulheres nos seus ambientes, pois então se fará a felicidade dos homens, também. Por outro lado, este dia sugere que as mulheres que estão exercendo algum tiopo de poder, aproveitem a ooprtunidade para verificar se na ação estão realizando, não estão reproduzindo as mesmas ações que os seus colegas do gênero ,asculino costumam fazer ao longo dessea anos dito de dominação masculina. Mulheres que utilizam seus espaços conquistados para exerê-los egoísticamente, produzindio sofimento, precisam mudar de atitude. Alguns mulheres se tornam masculinas, no pior sentido, o sentido de produtor de injustiças e maldadades ao assumirem o poder.
Feliz Dia da Mulher, que ele seja uma ooortumnidade para pensarmos na melhoria de nossas vidas.

quarta-feira, março 07, 2007

Viagem à zona da Mata Pernambucana

Este é o relato da viagem de estudo que foi realizada por alunos da disciplina Problemas da História do Nordeste, realizada no início de Fevereiro deste ano. o Autor deste relatório é Diogo Vieira.




A primeira viagem que fizemos na universidade teve um caráter todo especial. Primeiramente por que com ela conseguimos integrar mais a teoria da história do nordeste açucareiro com a realidade prática. Parece até que tivemos a oportunidade de entrar nos livros de história e conhecer papavelmente tudo aquilo que líamos a respeito. O passado se tornou mais claro, mais próximo de nossa realidade citadina e virtual.
Os teóricos da história afirmam que o passado está sendo destruído por uma geração que não se reconhece. Mas é importante perceber que essa geração não se reconhece por que não tem possibilidade ou incentivo em descobrir o cotidiano, as praticas, as formas de organização e vivência dos seus antepassados, não podendo assim imaginar, refletir ou tentar reproduzir a vivência e a realidade dos seus ancestrais. Primeiro, a realidade de um jovem de classe média que habita numa grande cidade, como Recife, não se relaciona em momento algum com o que foi visto nesta viagem. Segundo porque complementamos um pouco o conteúdo fracionado que nós foi dado visitando cidades satélites de plantações e engenhos, e vimos como essas regiões sobrevivem na atualidade. Vimos que a vitalidade de ocupações humanas interioranas se manteve apesar da situação econômica deteriorada do presente. Cidades como Goiana, Nazaré da Mata e Tracunhaém foram importantes centros que continham engenhos e grandes plantações, mas com o declínio do açúcar e com o posterior aumento populacional começa um processo de expansão das atividades econômicas e hoje existe um complexo produtivo mais sofisticado e diversificado

·As cidades visitadas

1. Goiana, por exemplo, será, com o desenvolvimento de algumas empresas farmacêuticas que estão se instalando um grande centro biomédico, possui uma estrutura urbana e econômica considerável e chega a ser um verdadeiro ponto de referencia para uma abrangente área próxima. Almoçamos na cidade e visitamos um engenho desativado, onde uma família tradicional da política e da economia nacional procura manter a estrutura senhorial da casa. Família tradicional por que tem em sua árvore genealógica João Alfredo, um grande líder político nacional, e por que tem um domínio secular da região. Nesse engenho conhecemos as instalações da casa dessa família de senhor de engenho tradicional, conhecemos o “sala dos homens”, onde após as refeições, os homens iriam conversar sobre os bordeis e a política; conhecemos os quartos de dormir dos homens e das mulheres, conhecemos também a mesa de jantar, as fotos da família, a senzala familiar(diferentemente do que pensávamos ser uma senzala), conhecemos alguns apetrechos usados para torturar os escravos(chicote, tronco e gargantilha). Visitamos nossas aulas de história, percebemos que o que estudamos existiu e que existem verdadeiramente resquícios, memórias e permanências do passado.
Entendo que a visita a esse engenho foi o ponto culminante da viagem. Logicamente podemos criticar os espaços e a posição da expositora, mas pretendi em minha analise daquele espaço perceber que esta família encontra-se num processo extremo de decadência financeira e desta forma a criação do museu e do espaço para recepções da casa grande foi uma forma de aliviar esses problemas. A casa continha realmente objetos cronologicamente conflitantes, mas é preciso avaliar que esta família percorreu todo o período histórico que compreende o século XIX e o século XX e inevitavelmente substituiu alguns objetos. Toda fonte histórica apresenta deficiências; este museu que visitamos precisa ser criticado, mas não execrado, pois ele responde satisfatoriamente ás expectativas que depositamos na sua visitação. Não podemos esperar de um espaço destinado a um público médio uma rigorosidade histórica exemplar e também não podemos esperar que uma família aristocrática falida possa revitalizar aquela casa nos moldes senhoriais do século XIX, e que gastasse uma fortuna redecorando a mesma. Dona Eleonora, como guia dentro do seu museu casa, deixou a desejar, pois não seguiu um cronograma explicativo e deixou de abordar temáticas interessantes e relevantes, porém satisfez as minhas expectativas por que perguntei bastante ao pé de ouvido e escutei contos e histórias particulares da família.

2. Tracunhaém, e a sua tradição na produção de cerâmicas artesanais e artísticas, também serviram de exemplo para percebermos que os engenhos, às vezes, tinham em suas propriedades olarias para a produção de telhas, caixas e vasilhames de barro. Nessa perspectiva percebe-se que a tradição antiga dessas olarias possibilitou ao povo a criação de uma tradição na produção das cerâmicas que fez com que o centro de produção fosse intensamente conhecido. Outro aspecto impressionante da cidade foi a determinação da discriminação racial e social que estava estabelecida com a construção das duas igrejas, a igreja dos negros e a igreja dos brancos e ricos. Nessa parada passamos um tempo conversando com artesãos da região e percebemos um pouco aquele clima de compadrio, de proximidade, de intimidade que as relações formadas por pessoas que participam dessa tradição rústica do interior apresentam. As relações interpessoais dentro desse aglomerado populacional chegam a lembrar o significado semântico da palavra comunidade.


3. Na cidade de Nazaré da Mata começamos a ver a tradição do maracatu rural. Fomos ao Centro Cultural Mauro Mota que tem como principal atividade a divulgação do maracatu, de suas roupas e tradições naquela região. Foram-nos mostrados os personagens que habitam essa tradição cultural e as formas de se comportar dentro dessa manifestação artística. Ao passar por dentro deste centro me deparei com uma pilha de livros e o primeiro era assinado por Severino Vicente, docente da UFPE, percebi, então a importância da narrativa deste pesquisador para aquela forma de manifestação social e cultural. Iria me deparar novamente com sua obra em Aliança.
Visitei, por um instante, também uma feira de hortifrutigranjeiros e revitalizei as minhas lembranças sobre esse espaço de interação social e cultural que dentro da tradição rústica do interior tem muita importância e tem um significado especial de interação social e cultural. Quando um historiador visita uma feira ele tem que perceber quais produtos que são oferecidos com abundância, quais são relegados a um quase completo esquecimento; tem que perceber a forma de comunicação empregada nessa atividade, ou seja, a feira como ponto de encontro da cidade tem em material que pode ser utilizado por todas as ciências sociais para análises dessas cidades e desse espaço especifico da cidade.


4. Em Aliança chegamos ao segundo ponto culminante desta viagem. Este ponto foi uma casa onde se encontram alguns mestres de maracatu para entoarem suas canções. Visitando a casa percebemos fotografias e livros espalhados pela casa, novamente a figura do Docente da UFPE(Severino Vicente) se fez presente em fotografias e livros. Conhecemos um fabuloso mestre de maracatu que cantou e dançou para o grupo expondo sua arte e sua cultura. Todos simples agricultores, pessoas da Zona da Mata que tem intima relação com o contexto rural e que tentaram transplantar essa tradição para um grupo urbano e que tem no conhecimento teórico, na pesquisa teórica suas principais atividades. O agricultor e a sua cultura prática e social se encontram com um grupo de estudantes urbanos e teóricos.


5. Conclusão
O encontro entre a prática e a teoria foi o que mais marcou essa viagem. O descobrimento das fontes que preenchem os livros de história fascina o historiador iniciante na sua ânsia de descobrir relevantes fontes de estudo que possibilitem trabalhos e reflexões. Nesse momento, pessoalmente, conheci a força do maracatu rural e repensei a minha forma de atuar como pernambucano.
Preferi não relatar nomes nem datas com precisão, pois na viagem procurei curtir a paisagem, as localidades e o prazer da visitação e desta forma percebi que o que mais importou nesta nossa trajetória foi o sentido da mesma. O sentido de tentar integrar os diferentes. Juntar o que parece próximo na pratica, mas que é totalmente desvinculado. A cultura pernambucana rural, canavieira esta muito mais longe dos cidadãos médios de Recife do que a cultura globalizada veiculada pela internet e pela televisão. Somos distantes do nosso passado por que não conhecemos o mesmo, não somos integrados com ele. A viagem foi um ponto inicial para buscarmos nosso passado e nossa identidade regional. Pena que atividades como estas sejam raridades dentro da universidade.

Lembranças da primeira greve do SINPRO -1979

reuando comentei o livro Vozes da Democracia, disse que algumas memórias ficam, outras se diluem com o tempo. Isso foi a propósito da greve dos prefessores de 1979, a primeira greve que anunciava o fim da ditadura e o início de tempos mais democráticos. Foi um momento interessante, pois um grupo de jovens professores começara a se articular para tomar a direção do SIMPRO das mãos de tradicionais lideranças que, pelo imobilismo de suas gestões, estavam destruindo o poder aquisitivo da categoria. Mas todos éramos inexperioentes. Alguns de nós eram ligados a partidos clandestinos, e cumpriam tarefas. Superar o medo, animar a nós e aos outros era uma tarefa diária que se realizava nas salas de professores de diversos colégios onde ensinávamos. A maioria dos novos líderes atuava em cursinho no centro da cidade. POucos de nós tinha licenciatura. Alguuns cocluíram curso superior bem mais tarde. Muitos dos professores, inclusive eu mesmo, nem sabiam onde era a sede do sindicato. E já eram dez anos que eu ministrava aulas profissionalmente.
Foi um trabalho enorme fazer aquela primeira greve que tinha oposição dos patrões e da diretoria do sindicato. As assembléias eram grande salas de aulas para o conhecimento da categoria e de animação. Foi no auditório do Colégio Americano Batista que foi declarada a greve, após um dia inteiro de votação. Quem tinha carro saia a buscar professores em suas casas, nos colégios para que se alcançasse o quórum necessário. Ao final da tarde, sob a presidência de um representante do Ministério do Trabalho, foi feita a contagem e a greve foi devçarada legalmente. Tenho na mente o sorriso contrafeito de presidete, porf. Laércio contra a alegria tensa que todos sentíamos. Então tínhamos que comemorar e. do Americano Batista, saímos em carreata até o mustang, na Av. Conde da Boa Vista, com as buzinas cantando. Penso que estávamos surpresos por termos conseguido declarar a greve. Como dizia um dos nossos: foi um porre de democracia. Eram muitas as lágrimas. Nós estávamos fazendo a primeira greve depois de muitos anos, nós estávamos vencendo a ditadura no campo sindical. A partir daquele movimento de 1979 os professores passaram a ter novas lindernaças e conquistas. Daquela noite em diante, começava uma jornada múltipla para muitos professores. Além das aulas, tínhamos que fazer o sindicato caminhar e aprender a fazer política.

terça-feira, março 06, 2007

Uma Revolução perdida

Seis de março. Data interesante para os que estudam a história de Pernamuco e do Brasil. Em 1817 ocorreu uma revolução que ficou conhecida como a Revolução dos Padres, por conta da grande participação de seminaristas, padres e frades entre os revolucionários. Foi uma tentativa frustrada de criar uma República, de colocar o poder nas mãos dos brasileiros. Além da má vontade do governo dos Estados Unidos da América que denunciou os compradores de armas, especialmente Cruz Cabugá; da não adesão da Bahia, aliada do Rio de Janeiro, de onde vieram as tropas de repressão; ocorreu o medo dos proprietários em promover a libertação dos escravos para formar um exército para a república nascente. Talvez tenha sido esta a permanente razão dos fracassos pernambucanos no seu projeto de liberdade: a incapacidade de suas elites em manter relação de respeito e aliança com o povo. A sucralocracia pretende se manter sem promover a libertação das terras e do povo, daí o constante caminhar de Pernambuco para situações de menor importância no cenário nacional. Uma República implica que todos devem ter , senão as mesmas possibuilidades, ao menos que as possibilidades não seja tão díspares, como são díspares as rendas auferidas por algumas famílias, no poder desde a formação primeira da capitanias, até os dias de hoje, em relação à renda da maioria dos habitantes de Pernambuco. Apesar de termos sido o rincão brsileiro onde se falou pela primeira vez a palavra república, os que a falaram e os que a mencionam nos dias de hoje, pretendem fazer uma república sem o povo, ou com o povo mantendo o pescoço flexível: capaz de por a cabeça olhando para baixo quando recebe ordens ou, ao contrário, colocar a cabeça para cima admirando as roupas e os gestos da "aristocracia" do amargo açúcar. Daí que o povo não comemore a Revolução Pernambucana de 1817, pois ela foi pensada e traída por aqueles que a pensaram. Não é sem sentido que a Rua Frei Caneca está posta em situação vexatória na planta da cidade, em oposição ao Conde da Boa Vista.