quinta-feira, janeiro 10, 2008

Sexo: repressão, comportamento e desvio na Europa Ocidental do período Moderno.

Trabalho realizado pelos discentes Heverton Heverti, Hugo Emmanuel, José Claudomiro e José Luis Lima Cruz, requerido pelo Professor Severino Vicente, da disciplina História Moderna II, como requisito parcial para obtenção de nota
Sexo: repressão, comportamento e desvio na Europa Ocidental do período Moderno.
Introdução


Este trabalho foi construído na intenção de expor certas características acerca da visão sobre o comportamento das atividades sexuais humanas da ocidentalidade, mais precisamente na Europa Ocidental no período da Modernidade.
Para tal, fez necessário expor, no primeiro momento, a forma como a instituição mais poderosa, a Igreja Católica, e por isso, determinante, tratava, teórica e praticamente, as relações que o homem tinha com a sexualidade.
Em segundo lugar, pelo papel primordial que o homem tem na história do sexo, será abordado a mulher. Essa que por muito tempo ficou relegada a papel secundário e que na modernidade, viu, por razões diretas e indiretas, sua imagem modificar-se e passou a influir com mais avidez, ainda que tímida, na sociedade e a maneira qual esta a tratava sexualmente.
Na busca de uma abordagem mais ampla, trabalhamos no terceiro momento, como foi visto o Novo Mundo, no âmbito sexual, pelo europeu colonizador. Uma oportunidade impar que tivemos para entende melhor, porque não, o próprio comportamento do homem europeu a temas como homossexualismo e a prostituição.
Em seguida e finalizando este trabalho, um personagem ícone de como a relação social do homem com a sexualidade pode, ao mesmo tempo conduzir o homem ao maior recato, diante repressão, até a forma o quanto esse pudicícia se transforma em libertinagem, perversão quando a oportunidade lhe permite. Donatien Alphonse François foi tal importante na história da sexualidade ocidental que passou a ser símbolo do que mais depravado e desviado pode ser o homem ( e a mulher) dos padrões comportamentais, quando estes, segundo ele, são fundamentados em idéias contraditórias e por isso, maléficas a verdadeira condição do homem diante a virtude e o vício.





A influência da Igreja na vida sexual do cristão

Ao fazermos uma pesquisa sobre a vida sexual, mais especificamente da civilização ocidental, nos defrontamos com dois vieses desse processo de formação, a saber, os costumes dos povos “Bárbaros” e a tradição do Império Romano. Nesse último viés, a direção do processo de controle da vida sexual dos cidadãos ficou a cargo da Igreja Apostólica Romana que tinha como interesses materiais imediatos: manter a paz e a estabilidade social, auferir os lucros necessários tanto para a construção de suntuosos templos como para sustentar o luxo do sacerdócio e ainda mais notadamente assegurar que a moralidade cristã não somente fosse garantida, mas sim disseminada nos confins do Império Romano. E como forma de controle social e artifício para que se pudesse valer a lei moral pregada pela igreja, tomava-se como base a Bíblia (muitas vezes interpretada ao modo do seu examinador) e o fogo do inferno que no caso seria o “preço” pago por uma pessoa que vivesse pecaminosamente, entregue aos prazeres da carne como luxúria, prostituição, adultério etc. O autor nos traz uma informação pertinente ao assunto aqui tratado, nos diz o seguinte: “... Deliberada ou não, a censura estava bastante próxima de ser total. Em resultado, as palavras e conclusões dos padres da Igreja permaneceram inatacadas e, com o tempo, se tornaram inatacáveis”.[1]
O autor ainda nos informa que a vida promíscua que alguns clérigos haviam tido quando jovens influenciava diretamente na lei moral instituída pela Igreja. Muitas vezes o significado do que realmente constituía pecado se sobrepunham aos ensinamentos da Bíblia, dos ensinamentos de Jesus etc.
O celibato sacerdotal foi instituído com o intuito de manter o homem vivendo única e exclusivamente a Deus. “... o celibato era uma condição mais cristã, uma vez que não acarretava obrigações mundanas que pudessem interferir com a devoção do Senhor.”[2]
O sexo não era visto com “bons olhos” pelos religiosos católicos, uma vez que ele é fruto direto da desobediência da mulher à ordem de Deus de não comerem do fruto proibido, que comendo abriram seus olhos à sexualidade até então não observados devido ao estado de pureza que se encontravam antes da desobediência. Por esse motivo, a mulher era criação do demônio.
Mas Deus abençoou o casamento e Cristo o santificou. Crescei e multiplicai foram algumas das ordens divinas após a “queda” do homem, então como justificar tanto repúdio ao ato sexual? Um longo conflito começava a ser travado. Para os clérigos só com o celibato seria possível alcançar o estado de pureza do Édem, ainda para eles o corpo não passava de um receptáculo da mente e espírito, logo o que deveria prevalecer seria este último que teria que voltar puro e imaculado ao Pai celestial e acima de tudo o celibato era o símbolo de autoridade moral. Para os cristãos o ato sexual era prazeroso, perpetuava a linhagem, possibilitava formação de famílias.
Mesmo contra a vontade de muitos padres que como nos diz o autor “...case-se se for necessário, diziam ao leigo os mal-humorados padres da igreja, prosseguindo na descrição das alegrias do matrimônio...”[3] a igreja católica legitimou o casamento.
A Igreja chegou a afirmar que sexo com prostitutas seria mais “sadio” do que aquele praticado com as esposas devido ao fato de estarem livres de paixões, sendo praticado o sexo com as primeiras somente com o intuito de desfrutar de prazeres, enquanto o praticado com as esposas estava susceptível às paixões da carne. Algumas ressalvas à vida conjugal foram feitas aos cônjuges. O sexo entre o casal não deveria ser feito com a obtenção do prazer (diferentemente dos conceitos acima citados, ou seja, os sacerdotes finalmente pararam de “legislar” por suas próprias vontades sobre o assunto e passaram a usar a Bíblia como parâmetro de suas reflexões), mas sim com a intenção de procriar. O intercurso deveria ser o natural. O que se diferenciasse da junção de pênis e vagina e homem na posição superior e mulher na inferior era classificado como antinatural e, dizia-se, nos assemelhava a animais irracionais. Qualquer tipo de métodos anticonceptivos era condenado e, por conseguinte contrário às leis do casamento. Como podemos verificar nos “aconselhamentos” que a Igreja proferia aos seus seguidores eram bastante rígidos e caso fossem descumpridos não poderiam passar em vão, ou seja, a punição era aplicada severamente, a saber: um beijo entre homossexuais que possuíssem menos de vinte anos de idade seria punido com oito jejuns especiais, caso houvesse ejaculação a punição subiria para dez jejuns especiais; no caso de homens acima de vinte anos de idade a punição era viver em continência, comer separadamente e somente pão e água, além de ser excluído da igreja, e a duração da exclusão, certamente ficava a critério do confessor; a masturbação seria punida com vinte ou quarenta dias de penitências, caso o transgressor não fosse reincidente; a sodomia teria como punição sete anos de penitências, entre outras.
Quanto ao homossexualismo, observamos que um dos grandes combatente dessas práticas foi Santo Tomás de Aquino com suas, diga-se de passagem, brilhantes reflexões sobre o assunto. Finalmente um clérigo buscava na Bíblia as explicações para não se cometer tais atos como nos mostra o autor: “ ... que isso era antinatural, tanto aos olhos de Deus, como aos do homem. ... os órgãos sexuais forram destinados pelo Criador especificamente para a reprodução, podendo ser apenas legitimamente usados sob formas que não excluíssem a possibilidade reprodutora. Portanto, por definição a homossexualidade constituía um desvio da ordem natural ditada por Deus, e o desvio seria não somente antinatural, mas pelos mesmos padrões agostinianos, seria lúbrico e herético.”[4]
Para sintetizar esse pequeno esboço sobre a forma às vezes “ditatorial”, quando tomamos como parâmetro nossa liberdade sexual e religiosa atual, como a Igreja Católica “ditava” as regras e normas sexuais dos cristãos a fim de manter a ordem social, podemos achar um absurdo, um desrespeito à individualidade e direitos humanos (o que não existia à época, pois como visto em sala de aula a noção de direitos humanos veio com a modernidade), mas se nos reportarmos ao período aqui tratado não fazendo juízo de valor e não cometermos anacronismos verificamos, como o próprio autor nos diz, que tais práticas eram perfeitamente aceitáveis e concluímos que apesar da aparente “censura”, a Igreja serviu como ponderadora das concupiscência carnais, bem como possibilitou não só o surgimento, mas também a permanência de uma consciência cristã.


O Novo Mundo: sodomia e prostituição ao ver dos colonizadores

Desde sua chagada o europeu procurou impor seu julgamento racional sobre as civilizações americanas, condenando veementemente práticas culturais que para a civilização ocidental são moralmente condenáveis, como o “canibalismo, sacrifício humano, incesto, abuso de drogas, embriaguez, sodomia, adultério, roubo, assassinato...”, o que constitui uma forma de sobrepor seus valores culturais.
No início da colonização do continente americano muito se discutiu sobre a racionalidade dos habitantes nativos do Novo Mundo. Isto quer dizer que se esses habitantes fossem criaturas irracionais, como tais não teriam direitos, muito menos a propriedade, o que significa serem passíveis de qualquer usurpação à qual os colonizadores quisessem se lançar.
Dessa maneira prevaleceu essa visão obscurecida do colonizador em relação ao ameríndio, numa verdadeira transposição de valores com “mais de dois anos de sofisticação técnica, desenvolvimento político e filosofia judaico-cristã”[5].
Não obstante, segundo TANNAHILL, mesmo com dificuldades de acesso a fontes ficou demonstrado que essas práticas moralmente abominadas pelo invasor europeu, também se faziam rejeitadas por grande parte desses povos ameríndios, notadamente Astecas e Incas, e que mesmo o sacrifício humano e o canibalismo eram raros ou quase desconhecidos por esses povos.[6]
Quando os espanhóis chegaram à América encontraram três importantes sociedades: Astecas, Incas e Maias, sendo as duas primeiras em período de transição do tribalismo e a última já em decadência.
Os Maias embora sejam os que menos nos apresentem documentação, parecem ter sido os que tiveram sua cultura mais disseminada no norte do continente americano. As práticas homossexuais entre os adolescentes eram comuns e até encorajadas em detrimento as práticas heterossexuais antes do casamento; geralmente seus pais lhe arrumavam um escravo com quem pudessem satisfazer suas necessidades para desencorajá-lo de outras maneiras. Dessa forma reprimiam-se repetidamente atos heterossexuais como mostra a passagem da obra aqui estudada: “Se ele tivesse um intercurso com uma mulher solteira, era passível de uma multa; se a jovem fosse virgem, seguia-se rapidamente um obrigatório casamento”[7]. Portanto pode-se perceber que os Maias viam o casamento como instituição tão importante a ponto de tolerarem as relações homossexuais fora dele e a terem como ameaça as heterossexuais. Deve ser ressaltado também o fato de Maias reconheceram e tolerarem a homossexualidade que segunda o autor é permanente e genética.
Não é difícil de supor que um ato considerado na Espanha como “um vício secreto, sub-reptício, privado...” provocasse grande escárnio e repulsa entre os invasores europeus sendo tido como “diabólico e nefano ato de Sodoma”[8] ou “mais abominável e antinatural devassidão”. Dessa forma encontramos registros de “infratores” ameríndios jogados aos cães dos invasores europeus.
Diferentemente dos Maias, os Astecas tinham uma tradição anti-homossexual, reprimindo tenazmente os que ousassem transgredir a tradição. Embora não tivessem um “inferno” conforme o tinham os seus colonizadores, as formas de castigo se davam aqui mesmo na terra, com forma de intimidação. Sobre isto vejamos a passagem que o autor nos mostra no livro a punição que os antecessores dos Astecas aplicavam a quem cometesse o ato homossexual:
“... aquele fizesse o papel da mulher, eles lhe removiam as entranhas pela parte de baixo, atavam a um tronco e os homens jovens da cidade o cobriam de cinza, até que ficasse enterrado. Aquele que fizesse o papel do homem era coberto de cinzas e pendurado a um tronco, até que morresse.”[9]
Ao contrário do que podemos, supostamente, julgar para os pré-colombianos era considerado um castigo mais duro aquele cuja morte fosse mais lenta. O que nos faz presumir que o castigo dado àquele que exerceu o papel de mulher embora mais violento promovesse uma morte mais rápida, em contrapartida aquele que exerceu o papel de homem na relação homossexual tivera uma morte menos violenta, porém com maior tempo de duração.
Concomitantemente aos Astecas, os Incas reprimiam com castigos igualmente severos aqueles que cometessem a sodomia, sendo estes arrastados, enforcados e depois queimados[10] . Penas semelhantes eram aplicadas a quem cometesse atos de zoofilia.
Por terem um caráter extremamente autoritário, os Incas sufocavam a todos que não quisessem seguir o padrão por eles determinado, o que ocasionou uma grande perseguição aos sodomitas afim de, segundo o autor “extirpar o pecado abominável”[11]. Até mesmo a palavra que se referia a sodomia era proibida de ser proferida entre eles.
“... qualquer índio... que em raiva ou disputa com outro o usasse como termo de ofensa, era encarado como desgraçado e, por muitos dias, visto pelos índios restantes como algo vil e imoral, por haver usado semelhante palavra.”[12]
Sendo assim não é de se estranhar a reação de surpresa do Imperador Asteca Montezuma em relação ao pedido de Cortés para que entre outras práticas a sodomia fosse combatida, uma vez que a lei Asteca era severamente punitiva em relação a essa prática.
Os espanhóis referiam-se quase sempre à sodomia como um ato homossexual. Mas a sodomia com um sentido heterossexual, embora pouco estudada devido a limitações de fontes, vem sendo tida com um ato poligâmico, como o relato a seguir dos espanhóis:
“... O chefe Behechio tem trinta esposas e não apenas para o tipo de copulação que os homens casados têm geralmente com suas mulheres, mas para outros bestiais e nefanos pecados... O chefe Goacanagari tinha certas mulheres com quem copulava à maneira das víboras. Vejam que inaudita abominação, a qual ele só poderia ter aprendido com tais animais...”[13]
Sendo assim a igreja assumi um papel de fiscalizadora dos atos considerados por ela como pervertidos e indecentes à época da conquista e colonização do Novo Mundo, fazendo com que seus padres usassem uma metralhadora de perguntas sobre a vida sexual nos confessionários. Geralmente as perguntas se dirigiam, a saber, se atividade sexual se dera no intercurso anal, sendo esta prática totalmente reprovada e tida como ato de abominável perversão como fica claro no texto a seguir:
“... quando sua esposa (teve seu período menstrual) você teve intercurso com ela? E, na hora em que se juntaram, foi isto com incidência e não no recipiente adequado? E, por acaso, praticou quaisquer outras coisas imorais, de prazer pervertido, que não foram mencionadas aqui? Lembre-se de todas elas, confesse-as e declare-as todas.”[14]
Dessa forma a igreja desejaria por em prática os preceitos religiosos de crescimento e multiplicação conforme reza a bíblia, e ao que parece os Incas e Astecas estavam dispostos a colaborar com estes preceitos, uma vez que em pouco mais de 60 anos, principalmente os Incas, estenderam seus domínios tanto para o norte quanto para o sul. Sendo assim, havia, portanto uma demanda populacional a ser preenchida, sendo a sodomia um obstáculo a reprodução.
Havia um rigoroso patrulhamento aos “ociosos e vadios”, a poligamia era uma situação quase comum e o casamento era uma obrigação permanente a qual a nenhum era permitido se furtar.
Outra questão a ser levada em conta é que homens violassem uma virgem a força deveriam morrer apedrejados, entretanto, se elas demonstrassem interesse em casar-se imediatamente com eles essa punição não deveria ser aplicada, e o casal poderia seguir sua vontade. Geralmente, no entanto, o casal que desejasse se casar poderia ter sua vida sexual iniciada antes do casamento, fato este que causava repulsa aos espanhóis, pois eram contrários ao conceito de virgindade dos habitantes locais, e seguiam exclamando que os índios não se casavam “a menos que tenham tido intercurso pecaminoso durante vários meses com aquela que será a sua esposa, para saberem, por experiência, se ela será adequada.”[15]
Os Astecas, por sua vez, se mostravam bastante tolerantes quanto ao divórcio e estimulavam o casamento precoce e puniam com pena de morte o aborto, embora fossem apologistas do sacrifício humano. A poligamia era bastante estimulada e oferecia as mulheres uma forma de proteger-se da grande mortandade existente nos rituais de sacrifícios.
A prostituição não era vista como um ato a ser combatido, mas até as encaravam de forma a tê-las com papel secundário em rituais. Mas parece que aos espanhóis as prostitutas ameríndias, muito embora criticadas, merecessem menções detalhadas de suas práticas públicas:

“ela se arruma com muito cuidado, tão cuidadosamente, que parece uma rosa, ao terminar de aprontar-se. Ao preparar-se, primeiro se olha em um espelho, depois toma um banho, lavando-se muito bem e refrescando-se, para ficar agradável. Então usa um creme amarelo chamado axin, para adquirir uma compleição pálida e brilhante, ao mesmo tempo em que tinge a face com ruge, por que é dissoluta e mundana. Também colore os dentes com cochonilha e deixa os cabelos soltos, para fazê-los parecer mais bonitos... Ela se perfuma com essências agradáveis e sai mascando tzictli (chiclete, a matéria prima da goma de mascar), batendo os dentes como castanholas. Ela gosta de passear pelas ruas e praças, à procura de pessoas imorais; fica rindo – nunca pára de rir – ma seu coração está sempre inquieto. ... Ela tem o hábito de chamar as pessoas, olhar para os homens, piscar, acenar com a mão, olhar de lado, sorrir para todos, até escolher aquele que mais lhe apraz.”[16]

Os espanhóis que se lançaram para a conquista do Novo Mundo inevitavelmente se relacionavam com as ameríndias, uma vez que eram proibidos de levar suas esposas, e ao que nos parece se lançavam aos prazeres tropicais.
Sendo assim, cabe-nos salientar que o processo de aculturação sofrido pelos nativos habitantes do Novo Mundo também ocorreu no caminho contrário, pois grande parte dos costumes encontrados pelos colonizadores foi assimilada. Outrossim, a imagem dos habitantes do Novo Mundo fora formulada por aqueles que usaram seus paradigmas para julgar à sua maneira os hábitos e costumes desses povos, muitas vezes deturpando. Fica-nos também clara a impressão de que a vida sexual desses povos vem forjar o modo de como se comportavam particular e socialmente, e a influência que as práticas sexuais tem em suas vidas.


O Marquês de Sade

Donatien Alphonse François, o Marquês de Sade, ou ainda para muitos de seus entusiastas, O Divino Marquês, é um ícone, entre outros, que simboliza a maneira qual a Europa Ocidental, mas precisamente no período moderno tratava o sexo: a repressão em nome de valores religiosos e sociais, que aconselhava ao homem afastar-se ao máximo da atividade sexual e pondo a mulher numa torre quase indestrutível de honra e castidade, cuja queda estava à revelia da ação sexual e sua prática, em muito ocultada, mas jamais silenciada em todas as camadas da sociedade.
A própria vida de Sade pode ser um exemplo de como eram tratados os assuntos sexuais e os que percorriam caminhos sexuais controversos aos ditados pelas instituições moralistas modernas. Passou a maior parte de sua vida de prisão em prisão, tendo pouco espaço e tempo pra se manifestar, e quando o fazia tamanho estrondo causava que logo retornava para um confinamento. Apesar de um pensamento muito mais fundamentado filosoficamente que apensas um apologista a comportamentos sexuais desviados, foi com suas obras nas quais a diversão, fornicação, perturbação, perversão, libertinagem, fetiches, em fim, toda uma gama de atitudes que acabou se confundido com o próprio autor, sendo muitos dos atos agora na atualidade conhecido como sadismo[17], que o Marques ganhou notoriedade e se pôs a criticar os valores da sociedade européias (francesa) do século XVIII: Deus, Poder, Razão, Sexo.
Vale lembrar que Sade foi contemporâneo a um dos maiores momentos de superficialidade teatral sobre moral e valores da Monarquia Moderna, a Sociedade de Corte na França era um imenso palco cuja encenação dominava, sendo era moda tramar um caso amoroso libertino com fortes matizes narcisistas[18]. A sociedade pode ser tratada como um jogo calculado, que inclusive continha regras e estágios para uma boa apresentação. Um affaire compreendia quatro momentos: seleção, sedução, sujeição e separação, e os atores tinham como o momento crucial da peça o ponto final, onde se era mostrado a cruel verdade, contudo não faltavam admiradores do terceiro momento.
Essa sociedade a parte era inspirada por novelas e textos escritos em sua maioria por homens que não tinha vida palaciana, no entanto o contato com ela era inevitável tendo assim conhecimento suficiente para fundamentar e acalentar com ricos detalhes suas obras. Este gênero tem início na Inglaterra como Samuel Richardson com a Obra Clarissa ou a história de uma jovem dama cuja trama se baseia numa inocente perseguida por um homem pervertido e trata, em sete volumes, de sua sedução até o leito de morte, tendo nesses caminhos, diversos infortúnios causados pela sua inocência ( o que lembra muitos as obras do Marquês). Na obra, há a descrição de um sonho da jovem dama cujo amante a “carrega para o cemitério e lá apunhala no coração, para em seguida atirá-la em uma funda sepultura já aberta, entre duas ou três carcaças meio dissolvidas e depois joga pó e terra sobre ela com as mãos”.
Estas novelas eram obras de extrema sensualidade, e continham elementos de tortura, física ou mental, de jovens cuja inocência destruída e a virtude tornava-se a verdadeira culpada dos sofrimentos a que eram submetido por perseguidores carregados de perversão e libertinagem.
O Marquês de Sade possui uma singularidade: a que sua literatura e perversão não eram meros desvios comportamentais, era, sobretudo, fruto de seu próprio pensamento filosófico. Sade, como sabido, era ateu convicto, sua divindade era nada mais que a natureza, cuja essência estaria longe de ser a bondade, a virtude e a moralidade, a verdadeira essência da natureza sadeana era o mal, o vício cuja prática leva à harmonia natural enquanto a virtude, a inocência, o mal apenas levava ao sofrimento, a dor, a ruína e a miséria. Jus também lembrar que seu pensamento era de cisão com o modo metodológico, racional em voga na Europa do século XVIII. Ora, todo esse sistema de pensamento do Marquês de Sade era exemplificado em suas obras cujas jovens inocentes e virtuosas era submetidas aos maiores infortúnios para quem segue os padrões comportamentais, acabavam por tornar objetos sexuais para pervertidos, sofriam com os castigos e humilhações quando perdida a virtude e o final feliz de ascensão era substituído por mortes lentas e dolorosas a serviço do vício, do pervertido.


Obras de Sade

Nas obras de Sade tem-se um verdadeiro conteúdo cujo poderia quantificar quase todas as formas de desvio sexual comumente conhecidos (ao olhar do homem ocidental contemporâneo): homossexualismo, sodomia (hetero e homossexual), masoquismo, pedofilia sadismo além de sempre suscitar as contradições e hipocrisias contida nos valores padrões da sociedade.
Segue alguns trechos de contos e livros do Divino Marquês para melhor exemplificar tais características.


A Crueldade Fraternal

Nada é mais sagrado numa família do que a honra dos seus membros, mas este tesouro chega a desbotar-se, por precioso que possa ser, e os que estão interessados em preservá-lo deverão fazê-lo encarregando-se eles próprios do papel humilhante de perseguidores das infelizes criaturas que os ofendem? Não seria razoável pôr em equação os horrores com que atormentam a sua vítima e esta lesão tantas vezes quimérica que se queixam de ter recebido? Qual, enfim, é mais culpado aos olhos da razão, uma moça fraca e enganada ou um parente qualquer que, para se erigir em vingador duma família, se torna o carrasco desta infortunada?
O Marquês, nesse conto, elabora uma estória onde a põe aberto a contradição contida na extrema preocupação com a defesa da honra familiar. Uma jovem, muito querida pelo pai (o Presidente de Tourville) o que provocava ciúmes aos seus dois irmãos mais velhos, teve após um acidente um encontro com o Conde de Luxeuil, encontrada encharca em sangue onde lhes conta o sucessido: a jovem tinha a liberdade de passeios diários concedido pelo bem querer paterno, ao chocar-se com vários homens que pretendiam desflorar-lhe rogou ajuda para um jovem que o avistava sempre em seus rotineiros passeios. Este jovem a ajuda e defende dos demais e propões que não conte nada para seu pai, pois poderia impedir-lhe de sais outras vezes e a corteja, tendo assim se transformando em “amante” desta jovem. Após armadilha de uma senhora que encobria os secretos encontros dos dois jovens, essa moça submeteu-se a força á um senhor que pagou a senhora para se aproveitar da jovem inocente. Os irmãos descobrem todo o ocorrido, e às escondidas, raptam sua irmã e lhes impõe castigos severos por esta ter degradado a honra da família, não lhes permitindo explicação nem admitindo que esta não teve vontade própria e nem livre escolha em todo o fato.


O Estratagema do Amor

De todos os desvios da natureza, o que fez mais pensar, o que pareceu mais estranho a estes meio-filósofos que querem analisar tudo sem nada compreender, dizia um dia a uma das suas melhores amigas a Menina de Villebranche de quem vamos ter ocasião de nos ocuparmos em seguida, é este gosto estranho que mulheres duma certa construção, ou dum certo temperamento, conceberam por pessoas do seu sexo.
Embora muito antes da imortal Safo[19] e depois dela não tenha havido uma só região do universo nem uma única cidade sem nos oferecer mulheres com este capricho e embora, perante provas de tal força, parecesse mais razoável acusar a natureza de singularidade do que estas mulheres de crime contra a natureza, nunca todavia se deixou de vituperá-las, e sem o ascendente imperioso que sempre teve o nosso sexo, quem sabe se algum Cujas, algum Bartole, algum Luís IX não teriam imaginado fazer contra estas sensíveis e infelizes criaturas leis iníquas, como as que se lembraram de promulgar contra os homens que, construídos no mesmo gênero de singularidade, e por tão boas razões sem dúvida, julgaram poder bastar-se a si próprios, e imaginaram que a mistura dos sexos, muito útil à propagação, podia muito bem não revestir esta mesma importância para os prazeres.

Um outro conto, bem mais explicito, pode ser definido como uma verdadeira apologia ao homossexualismo. Uma menina que desprezava os homens, e um jovem que decide se fazer de homossexual para lhe conquistar.
Em uma festa de carnaval inicia o joguete, A Menina de Villebranche, Augustine, disfarçada de homem e Freville vestido de mulher se deixa entrar no flerte da Menina. Subindo às pressas para um local já reservado para tais brincadeiras, após toques mútuos, ambos se decepcionam, contudo Freville já sabido da situação da Menina apenas lhe finge não gostar de mulher e isso atraí a atenção da Menina, que acaba por cair em sua armadilha e casa-se com Freville.


O Marido Padre (conto provincial)

Neste conto, o Divino Marquês brinca de maneira irônica com valores sociais, principalmente os religiosos, ao ponto de afirmar praticamente, a insignificância que tinha Deus, Missa, Fé para os próprios clérigos. Um padre que de tudo faz para poder anular temporariamente um amigo, fazendo-o celebrar um missa, a fim de ocupar-se com sua esposa.

Entre a cidade de Menerbe, há um pequeno convento de carmelitas isolado, esse pequeno sítio é aproximadamente como a cloaca de todas as comunidades vizinhas aos carmelitas; ali, cada uma delas relega o que a desonra, de onde não é difícil inferir quão puro deve ser o grupo de pessoas que freqüenta essa casa. Bêbados, devassos, sodomitas, jogadores; são esses, mais ou menos, os nobres integrantes desse grupo, reclusos que, nesse asilo escandaloso, o quanto podem ofertam a Deus almas que o mundo rejeita. [...]Havia muito o padre Gabriel, um dos santos desse eremitério, cobiçava certa mulher de Menerbe, cujo marido, um rematado corno, chamava-se Rodin [...]No que tange ao sr. Rodin, este era homem bom, o que se poderia chamar um burguês honesto; contudo, não muito seguro das virtudes de sua cara-metade, era ele sagaz o bastante para saber que o verdadeiro modo de se opor às enormes protuberâncias que ornam a cabeça de um marido é dar mostras de não desconfiar de os estar usando; [...] Era um verdadeiro modelo dos filhos de Elias, esse padre Gabriel: dir-se-ia que toda a raça humana podia tranqüilamente contar com ele para multiplicar-se; um legítimo fazedor de filhos, espadaúdo, rosto perverso e trigueiro, sobrancelhas como as de Júpiter, tendo seis pés de altura e aquilo que é a característica principal de um carmelita, feito, conforme se diz, segundo os moldes dos mais belos jumentos da província. A que mulher um libertino assim não haveria de agradar soberbamente?
O Padre Gabriel elabora então um plano para despistar o corno Sr. Rodin e ter tempo suficiente para profanar com a senhora sua esposa. Diz que precisa visitar um devedor seu para poder cobrar-lhe dívida e não podendo deixar de realizar a missa, pede para seu amigo Rodin a celebrar em seu lugar. Temeroso com as leis e regras religiosas esse pergunta-lhes sobre o pecado que tal ato configurava e o Padre, retrucava dizendo que o que importava era sua fé, a fé no ato limparia qualquer erro e finaliza :
...-eu, por exemplo, se nas vezes em que realizo a cerimônia penso mais nas moças ou nas mulheres da assembléia do que no diabo dessa folha de pão que revolvo em meus dedos, acreditais que faço algo acontecer? Seria mais fácil eu crer no Alcorão que enfiar isso na minha cabeça. Vossa missa será, portanto, quase tão boa quanto a minha; assim, meu caro, agi sem escrúpulo, e, sobretudo, tende coragem.
- Pelos céus, - diz Rodin - é que tenho uma fome devoradora! Ainda faltam duas horas para o almoço!
- E o que vos impede de comer um pouco? Aqui tendes alguma coisa.
- E a tal missa que é preciso celebrar?
- Por Deus! O que há de mal nisso? Acreditais que Deus se há de macular mais caindo numa barriga cheia em vez de numa vazia? O diabo me carregue se não é a mesma coisa a comida estar em cima ou embaixo! Meu caro, se eu dissesse em Roma todas as vezes que almoço antes de celebrar minha missa, passaria minha vida na estrada. Além disso, não sois padre, nossas regras não vos podem constranger; ireis tão-somente dar certa imagem da missa, não ireis celebrá-Ia; conseqüentemente, podereis fazer tudo o que quiserdes antes ou depois, inclusive beijar vossa mulher, caso ela aqui estivesse; não se trata de agir como eu; não é celebrar, nem consumar o sacrifício.
- Prossigamos - diz Rodin - hei de fazê-lo, Podeis ficar tranqüilo.
Após tudo acertado
- Pelo sangue de Cristo, sim, mimosa - responde o carmelita, atirando a sra. Rodin ao leito - sim, alma pura, fiz de seu marido um padre, e, enquanto o farsante celebra um mistério divino, apressemo-nos em levar a cabo um profano...
O monge era vigoroso; a uma mulher, era difícil opor-se-lhe quando ele a agarrava: suas razões, por sinal, eram tão convincentes... ele se põe a persuadir a sra. Rodin, e, não se cansando de fazê-lo a uma jovem lasciva de vinte e oito anos, com um temperamento típico da gente de Provença, repete algumas vezes suas demonstrações.


O Marido que recebeu uma lição

Sade, no conto do marido que recebeu uma lição trabalha com a sodomia.

Um homem já na decadência pensou em se casar embora até aquele momento tivesse passado sem mulher, e é possível que a coisa mais tola que fez, de acordo com os seus sentimentos, tenha sido unir-se a uma jovem de dezoito anos, com o rosto mais atraente do mundo e com a cintura não menos proveitosa. Bernac - esse era o seu nome -, fazia tolice ainda maior desposando uma mulher, porquanto se exercitava o menos possível nos prazeres que concede o himeneu[20], e muito faltava para que as manias por que trocava os castos e delicados prazeres dos laços conjugais agradassem a uma jovem do porte da srta. Lurcie, pois assim se chamava a infeliz a quem Bernac acabava de participar seu destino.
Desde a primeira noite de núpcias, ele relatou suas preferências à jovem esposa, após tê-la feito jurar nada revelar aos pais dela; tratava-se assim diz o célebre Montesquieu - de procedimento ignominioso que leva de volta à infância: a jovem mulher, na postura de uma menina que merece um corretivo, se prestava então por quinze ou vinte minutos, mais ou menos, aos caprichos bestiais do velho esposo, e era à vista dessa cena que ele conseguia experimentar a deliciosa embriaguez do prazer que todo homem mais bem organizado que Bernac decerto teria desejado sentir apenas nos braços encantadores de Lurcie.
A Srt Lurcie, acaba por não mais agüentar a situação e reclama a seu primo que de um jeito de castigar o senhor Bernac.
...era o sinal: no mesmo instante, nossas quatro malandras saltam sobre Bernac, armadas cada uma de um punhado de varas; retiram-lhe as calças, duas delas o imobilizam, e as outras duas se alternam para fustigá-lo e enquanto o molestam vigorosamente:
- Meu caro primo - exclama d'Aldour -, não vos disse ontem que seríeis servido a contento? Não imaginei nada melhor para agradar-vos do que devolver-vos o que dais todos os dias a essa encantadora mulher; vós não sois bastante bárbaro para fazer-lhe uma coisa que não gostaríeis de receber; assim, orgulho-me de fazer-vos minha corte; falta ainda uma circunstância, portanto, à cerimônia; minha prima, segundo dizem, embora há muito esteja ao vosso lado, ainda é tão virgem como se vós tivésseis vos casado apenas ontem; tal abandono de vossa parte provém unicamente da ignorância, seguramente; garanto que é por que não sabeis como proceder... vou mostrar-vos, meu amigo.
Ao dizer isso, tendo ao fundo uma agradável música, o homem fogoso deita sua prima na cama e a torna mulher aos olhos de seu indigno esposo... Só nesse momento termina a cerimônia.


A pudica ou o encontro imprevisto

A história de Sernenval, senhor, casado com uma jovem, que de tamanha pudicícia e recato, com seu marido não permite nenhum contato corporal:

...e, mesmo nos momentos em que ela condescendia conceder-lhe esse favor, era sempre com excessiva reserva, - uma camisola que jamais despia. Uma abertura artisticamente acrescentada ao pórtico do templo do hímen só permitia a entrada com as cláusulas expressas de nenhuma apalpadela desonesta, e de nenhuma conjunção carnal.
Mas, tal comportamento apenas enfurecia o Senhor Sernenval, e diante da argumentação da mulher do recato provinha do fervor religioso, e sabido das peripécias nos interiores dos conventos e igrejas, seu Serneval a acusa de nada fazer contra os padres, e o choro da mulher de convém como um sim, um sim de uma mulher fraca incapaz de negar-se diante uma ordem vinda de um clérigo.
Um amigo de velhos tempos de Serneval, Desportes, vai a cidade de Sernenval e pede ajuda a seu antigo amigo para ter uma noite com uma boa prostituta da região. O Sr Sernenval o apresenta a uma senhora que intermédia o encontro, contudo diz ao amigo, Desportes que não participará, pois não lhes convinha tal ato com a esposa que tem. Desportes ri levemente de seu amigo e, após, combinar preço e da senhora assegurar que a mercadoria era de primeira ele marca hora fecha negócio. Na hora e no dia marcado:
...soa a hora; nossos dois amigos chegam à casa de sua encantadora alcoviteira; um boudoir, onde reina apenas uma luz tênue e luxuriosa, guarda a deusa, lugar onde Desportes vai oferecer em sacrifício.
- Felizardo filho do amor, - diz-lhe Sernenval, empurrando-o para o santuário - voa para os braços voluptuosos que a ti se estendem, e só depois me vem falar de teus prazeres; regozijar-me-ei por tua felicidade, e minha alegria será ainda mais pura porque não serei absolutamente invejoso.
Nossa catecúmena aparece; três horas inteiras mal bastam à sua homenagem; ele retorna, enfim, para assegurar a seu amigo que em sua vida nada viu de semelhante, e que a própria mãe dos amores não lhe teria proporcionado tantos prazeres.
- Ela é, portanto, deliciosa - diz Sernenval, meio inflamado.
- Deliciosa? Ah, não encontraria expressão que te pudesse reproduzir o que ela é, e mesmo agora que a visão deve esvanecer-se, sinto que não há pincel capaz de pintar as torrentes das delícias que me inundaram. Ela acrescenta às graças que recebeu da natureza essa arte tão sensual que lhes confere validade; conhece um certo tempero, possui no gozo tão real ardor que ainda me encontro inebriado... Oh! meu amigo, experimenta, rogo-te, por mais habituado que estejas às belezas de Paris, estou bem seguro de que me confessarás que nunca alguma outra valeu, a teus olhos, o preço desta aqui.
Sernenval, sempre firme, contudo emocionado por certa curiosidade, pede a S. J. para que faça passar essa moça diante dele, no momento em que sair do aposento... Ela consente, os dois amigos mantêm-se de pé para a poder observar mais, e a princesa passa com altivez...
- Pelos céus, - Sernenval transtorna-se quando reconhece sua mulher - é ela... é essa pudica que, não ousando descer dos seus aposentos por pudor diante de um amigo de seu esposo, tem a impudência de vir se prostituir em tal casa.
- Miserável! exclama, furioso...
Mas é em vão que tenta se lançar sobre essa pérfida criatura; ela o reconhecera bem no momento em que foi vista, e já ia longe da casa. Sernenval, num estado difícil de expressar, quer incriminar S. J.; esta se desculpa por sua ignorância, ela assegura Sernenval que há mais de dez anos, isto é, bem anteriormente ao casamento desse infortunado, essa jovem criatura participa de encontros em sua casa.


Há lugar para dois

A Senhora Dolmène, insatisfeita com a pouca virilidade com que seu marido cumpria seus compromissos, usualmente recorria a amantes para lhe acalmar. Conhecedora dos segredos do prazer, confidenciava a algumas de suas amigas que gostava muito que os momentos de prazer se sucedessem em curtos períodos, a depois de muito meditar concluira que dois deveriam dar mais prazer que um.

Dolmène tinha dois amantes corriqueiros, Des-Rouse e Dolbreuse.
Em geral, Des-Rouse comparecia primeiro e em segundo Dolbreuse, quis o destino que em uma ocasião, Des-Rouse atrasou-se e Dolbreuse chegou mais cedo:
...por obra de um capricho bastante bizarro - mas tão comum entre os homens - nosso jovem militar, cansado do papel de amante, quis, por uns momentos, representar o da amante; em lugar de ser amorosamente abraçado por sua divindade, quis, por sua vez, abraçá-la: em resumo, o que está embaixo, coloca-o em cima, e, por essa inversão de posição, inclinada sobre o altar onde normalmente se oferecia o sacrifício, era sra. Dolmène que, nua como a Vênus calipígia, e encontrando-se estendida sobre seu amante, apresentava, diante da porta do quarto onde se celebravam os mistérios, o que os gregos adoravam com devoção na estátua que acabamos de mencionar, essa parte mui bela que, em suma - sem sair à procura de exemplos tão remotos - encontra tantos adoradores em Paris. Tal era a atitude quando Dolbreuse, acostumado a entrar sem dificuldade, chega cantarolando, e vê por um ângulo o que uma mulher verdadeiramente honesta não deve, segundo dizem, jamais mostrar.
O que teria causado grande prazer a muitas pessoas fez com que Dolbreuse recuasse.
- O que vejo? - exclamou - ... traidora... é isso que me reservas?
A sra. Dolmène que, naquele momento, se encontrava numa dessas crises em que uma mulher age infinitamente melhor do que raciocina, resolve mostrar-se audaciosa:
- Que diabo tens tu, - diz ela ao segundo Adônis - sem deixar de se entregar ao outro - não vejo nisso nada que te cause muito pesar; não nos perturbes, meu amigo, e contenta-te com o que te resta; como bem podes notar, há lugar para dois.
Dolbreuse, não conseguindo deixar de rir-se do sangue-frio de sua amante, pensou que o mais simples era seguir o conselho dela, não se fez de rogado, e dizem que os três lucraram com isso.


Enganai-me sempre assim

Um curto conto contando um aventura de um cardeal que tem um acorde com uma madame cuja profissão é fornecer ao devassos objetos necessário as suas paixões. Era do gosto cotidiano do padre que se levasse uma jovem de no máximo treze ou catorze anos. Contudo uma vez, conscientemente a senhora travestiu um menino, impendida ao menos do que não pode retirar o tinha ente as pernas,contudo o cardeal não haveria de notar, pois era sabido dela que ele não utilizava do que poderia estragar a menina para negocia-la novamente, ou seja, o cardeal apenas a aproveitava em sodomia.

...a mãezinha se equivocara; decerto ignorava que um cardeal italiano era homem de tato muito delicado, e gosto apurado o bastante para se enganar em semelhantes coisas; chega a vítima, o grande padre a imola, mas ao estremecer pela terceira vez:
- Per Dio santo, - exclama o homem de Deus - sono ingannato, questo bambino è ragazzo, mai non fu putana!
E ele verifica... Contudo, nada acontecendo de muito embaraçoso para um habitante da santa cidade nesse lance aventuroso, sua eminência prossegue, dizendo, talvez, como esse camponês a quem se serviu trufas como batatas: Enganai-me sempre assim. Mas quando a operação terminou:
- Senhora, - diz ele à aia - não vos censuro por vossa confusão.
- Monsenhor, desculpai-me.
- Como vos disse, não vos censuro, mas quando isso acontecer-vos de novo, não deixai de advertir-me, porque... o que eu não vir no primeiro momento, verei neste aqui.
O esposo complacente
Também por um pequeno “infortúnio”, acaba um príncipe tendo seus gostos sodomitas realizados.
...toda a França sabia que o príncipe de Bauffremont tinha mais ou menos as mesmas preferências do cardeal de quem acabo de falar. Haviam dado a ele em matrimônio uma mocinha assaz inexperiente, e que, segundo era costume, só foi instruída às vésperas.
- Sem mais explicações, - diz a mãe - pois que a decência me impede de ocupar-me de certos pormenores, tenho uma única coisa a recomendar-vos, minha filha; desconfiai das primeiras propostas que vosso marido vos fizer, e dizei-lhe, veemente: Não, senhor, não é por aí que se aborda uma mulher honesta; em qualquer outro lugar que vos agrade, mas, certamente, aí não...
Vão ao leito e, por uma norma do decoro e da honestidade sem margem para dúvida, o príncipe, querendo fazer as coisas conforme com os costumes, ao menos pela primeira vez, oferece à sua mulher apenas os castos prazeres do himeneu: mas a jovem bem educada, lembrando de sua lição:
- Por quem me tomais, senhor? - diz-lhe - pensais que eu consentiria essas coisas? Em qualquer lugar que vos agrade, mas, certamente, aí não...
- Mas senhora...
- Não, senhor, inútil insistirdes, nunca me fareis mudar de opinião.
- Pois bem, senhora, devo contentar-vos, - diz o príncipe apropriando-se de seus altares preferidos - eu ficaria bem zangado se dissessem que alguma vez eu quis vos desagradar.
E venham nos dizer agora que não é necessário instruir as moças quanto às obrigações delas, um dia, para com seus maridos!


O talião

Mas um conto que Sade além de expor a hipocrisia da sociedade tira escárnio com valores religiosos.

Até o presente momento, a sra. Esclaponville ignorava que existisse um modo de se vingar de um esposo infiel; casta como sua mãe, que vivera oitenta e três anos com o mesmo homem sem o trair, ainda era bastante ingênua, muito cheia de candura para sequer suspeitar desse crime horrendo que os casuístas denominaram adultério, [...] percebeu, enfim, que seu caro esposo visitava muito amiúde a prima em terceiro grau: o demônio do ciúme apodera-se de sua alma, ela espreita, informa-se e acaba por descobrir e poucas coisas podem ser constatadas em Saint-Quentin como o romance de seu esposo com a irmã Petronille, e suplica-lhe que abandone seus erros.
Responde-lhe o marido:
- Meus erros - responde fleumático o esposo ignoras, portanto, que me salvo, minha cara amiga, ao dormir com minha prima religiosa? - Purifica-se a alma em tão santo romance; trata-se de uma identificação com o Ser supremo; é incorporar em si o Espírito Santo: não há nenhum pecado, minha cara, quando estão envolvidas pessoas consagradas a Deus; elas depuram tudo o que se faz com elas e visitá-las, em suma, é abrir caminho à beatitude celeste.
Diante de tal argumento e seguindo o exemplo do marido.
...a sra. Esclaponville fez contato com o vigário; insensivelmente, o vigário também fez contato com a sra. Esclaponville, e os dois acabaram por se conhecer enfim de modo tão completo que teriam podido pintar-se mutuamente dos pés à cabeça sem que fosse possível se equivocarem quanto ao corpo.
Esclaponville descobre o caso por intermédio de um de seus amigos, flagra sua esposa e o vigário, contudo não os atrapalha, volta pra casa em silencio:
...Esclaponville torna a casa todo confuso, e, pouco depois, sua benigna esposa vem se apresentar para jantar ao lado de tão casta pessoa.
- Um momento, queridinha - diz o burguês furioso - desde minha infância jurei a meu pai nunca jantar com putas.
- Com putas - responde complacentemente a sra. Esclaponville -, meu amigo, esse comentário me surpreende; que motivo tens para tal censura?
- Como, sem-vergonha, que motivo tenho para te censurar? Que foste fazer esta tarde no banho com o nosso vigário?
- Oh, meu Deus - responde a doce mulher -, é apenas isso, meu filho? É apenas isso que tens a me dizer?
- Como, por Deus, é apenas isso...
- Mas, meu amigo, eu segui teus conselhos; não me dissestes que nada se arrisca quando se dorme com pessoas da Igreja? Que depuramos nossa alma em tão santo romance? Que tal ato equivalia a identificar-se ao Ser supremo, fazer entrar o Espírito Santo em si, e abrir caminho, em resumo, à beatitude celeste... pois bem, meu filho, só fiz o que me disseste; sou, portanto, uma santa, não uma meretriz! Ah! Respondo-te que se a alguma dessas boas almas de Deus é dado um meio de abrir caminho, como disseste, à beatitude celeste, esse meio é certamente o sr. vigário, pois nunca vi uma chave tão grande!


O professor filósofo

Com ironia ainda maior que o conto anterior, o Divino Marquês é ainda mais contundente no escárnio dos mistérios religiosos do cristianismo. Demonstrando a dificuldade que é por na cabeça de um jovem a unidade de Pai e Filho, Sade conta a historia de um aluno que pede para seu professor lhe demonstrar de maneira que pudesse entender como dois pode ser um:

...o honesto abade, orgulhoso de obter êxito em sua educação, contente de poder proporcionar ao aluno tudo o que poderia fazer dele, um dia, uma pessoa de bem, imaginou um meio bastante agradável de dirimir as dificuldades que embaraçavam o conde, e esse meio, tomado à natureza, devia necessariamente surtir efeito. Mandou que buscassem em sua casa uma jovem de treze a catorze anos, e, tendo instruído bem a mimosa, fez com que se unisse a seu jovem aluno.
- Pois bem, - disse-lhe o abade - agora, meu amigo, concebas o mistério da consubstanciação: compreendes com menos dificuldade que é possível que duas pessoas constituam uma só?
- Oh! meu Deus, sim, senhor abade, - diz o encantador energúmeno - agora compreendo tudo com uma facilidade surpreendente; não me admira esse mistério constituir, segundo se diz, toda a alegria das pessoas celestiais, pois é bem agradável quando se é dois a divertir-se em fazer um só.
O aluno, agrado da explicação, e ainda se fazendo confuso para poder novamente ter a mesma explicação roga ao professor para repetir o exercício:
Dias depois, o pequeno conde pediu ao professor que lhe desse outra aula, porque, conforme afirmava, algo havia ainda “no mistério” que ele não compreendia muito bem, e que só poderia ser explicado celebrando-o uma vez mais, assim como já o fizera. O complacente abade, a quem tal cena diverte tanto quanto a seu aluno, manda trazer de volta a jovem, e a lição recomeça, mas desta vez, o abade particularmente emocionado com a deliciosa visão que lhe apresentava o belo pequeno de Nerceuil consubstanciando-se com sua companheira, não pôde evitar colocar-se como o terceiro na explicação da parábola evangélica, e as belezas por que suas mãos haviam de deslizar para tanto acabaram inflamando-o totalmente.
- Parece-me que vai demasiado rápido, - diz Du Parquet, agarrando os quadris do pequeno conde muita elasticidade nos movimentos, de onde resulta que a conjunção, não sendo mais tão íntima, apresenta bem menos a imagem do mistério que se procura aqui demonstrar... Se fixássemos, sim... dessa maneira, diz o velhaco, devolvendo a seu aluno o que este empresta à jovem.
- Ah! Oh! meu Deus, o senhor me faz mal - diz o jovem - mas essa cerimônia parece-me inútil; o que ela me acrescenta com relação ao mistério?
- Por Deus! - diz o abade, balbuciando de prazer - não vês, caro amigo, que te ensino tudo ao mesmo tempo? É a trindade, meu filho... é a trindade que hoje te explico; mais cinco ou seis lições iguais a esta e serás doutor na Sorbornne.
Justine e os Infortúnios da virtude
Essa é uma obra clássica de Sade, um livro escrito com as mesmas características de seus contos, contudo, nele se encontra mais claramente o porquê do termo sadismo. Justine, uma jovem religiosa e recatada, enchida da virtude, e por culpa dessa sua inocência, passa pelas inúmeras perversidades, muitas delas inclusive causadas por clérigos. Na passagem a seguir podemos ter noção de como se dá a estória de Justine:
[...] Este, llamado padre Severino, era un hombre alto y de una belleza áspera, cuyos rasgos juveniles y físico robusto desmentía su edad verdadera, cincuenta y cinco años. El acento musical que adornaba sus palabras sugería su origen italiano, y la gracia de sus movimientos tenía ese estilo que se suele achacar a esa raza de libertinos. [...] El pasillo carecía de luz, y el padre Severino, apoyándose en una pared para orientarse, empujó a Justine por delante. Pasándole un brazo por la cintura, deslizó la otra mano por entre sus piernas y exploró las partes púdicas hasta que localizó el altar de Venus. Allí aferró su mano hasta que llegaron a la escalera que conducía a una habitación que estaba dos pisos más abajo de la iglesia. El cuarto estaba espléndidamente iluminado, y amueblado con gran lujo. Pero Justine apenas observó lo que la rodeaba pues sentados alrededor de una mesa en el centro de la sala se encontraban otros tres frailes y cuatro muchachas... ¡los siete totalmente desnudos!
–Caballeros –anunció el padre Severino–, nuestra compañía se verá honrada esta noche por la presencia de una muchacha que lleva a la vez en el hombro la marca de la prostituta y en el corazón la candidez de un infante, y que encierra todo su ser en un templo cuya magnificencia es un deleite contemplar–. Y pasando por detrás de ella, encerró sus senos entre las manos.
[...] Entonces, una vez pasado aquel instante de brutalidad, volvió a sitiar la ciudadela, apretando, ensanchando y empujando a la fuerza una y otra vez hasta que, finalmente, el baluarte cayó. Un horrendo grito de agonía llenó la sala cuando el monstruo invasor desgarró los intestinos de la joven. Palpitante y agitado, el escurridizo reptil lanzó hacia adelante su veneno y después, privado de su rigidez, se rindió a los frenéticos esfuerzos de la joven para expulsarlo. El padre Severino, lívido de furor al verse imposibilitado para mantener el asedio, cayó al suelo inconsolable. [...] Levantándola por el aire con un solo brazo, el gigantesco sacerdote la tendió sobre sus rodillas; entonces, agitando airosamente un látigo, le cruzó tres veces las nalgas. Justine se retorció bajo el ardor de los golpes, pero sus penas sólo habían comenzado, pues el padre Clemente sólo estaba haciendo una prueba. Entonces, satisfecho con su postura y con la forma en que tenía asido el látigo, el odioso fraile alzó el arma de largas lenguas muy por encima de su cabeza y la dejó caer con fuerza sobre la joven. Los bordes cortantes del cuero rebanaron sin piedad toda su carne, dejando brillantes líneas de sangre a su paso; el dolor era tan fuerte que el grito de la pobre niña se ahogó en su garganta. Excitado por la visión de sangre, el bárbaro padre Clemente la azotó entonces con furia vesánica. Ninguna parte de su cuerpo quedó a salvo de su bestialidad. Brillantes, rojos arroyuelos le corrían por la espalda, desde los hombros hasta las nalgas, y rodeaban sus muslos como finas culebrillas de color carmesí. Más excitado aún por este espectáculo, el vicioso sacerdote la forzó a colocarse boca arriba, y pegó su odiosa boca a la de ella, como si tratara de arrebatarle de los pulmones los gritos que su látigo no había podido arrancarle. Alternativamente le chupaba la boca y le golpeaba el abdomen, y cuanto más se agitaba y se debatía Justine en su angustia, más satisfecho parecía él. A veces le mordía los labios, otras le pellizcaba las nalgas, después le golpeaba el pecho con la barbilla, seguidamente le rasguñaba el vientre, pero su furia no parecía aplacarse con nada. Estando los labios de Justine entumecidos ya por tanto mordisco, y su abdomen encarnado por los golpes y arañazos, el diabólico Clemente concentró sus ataques contra los pechos. Amasaba con los dedos los globos de maravillosa suavidad, los apretaba con las palmas de sus manos, los estrujaba el uno contra el otro y después tiraba de ellos para apartarlos; pellizcaba los pezones, metía la cara en el surco que los separaba y mordía su circunferencia. Finalmente, en un alarde de ferocidad, metió uno dentro de su boca y lo mordió con toda fuerza. Nuevamente llenaron el aire los alaridos de Justine y, mientras el padre Clemente levantaba el rostro, lleno de gozo, dos chorros de sangre le corrían por las comisuras hasta la barbilla.


Considerações Finais

Este trabalho, fundamentado no painel requerido pelo Professor Severino Vicente, diante sua visão abrangente da História Moderna, na qual nos possibilitou, entender e acrescentar nossos pontos de vistas nesse assunto que jamais, provavelmente, deixará de ser um determinante do homem e de suas próprias relações, consigo mesmo e com demais. O sexo, pelo que vimos em nossa pesquisa, é, foi e será um assunto vivo e pulsante na sociedade humana.
A ocidentalidade viu, no decorrer de séculos, as transformações comportamentais do homem e da mulher e suas variações (homossexualidade, lesbianismo, sodomia, prostituição,... ) Caracterizada por uma repressão milenar, a sexualidade do homem ocidental, modificou-se tão profundamente quanto as relações políticas, sociais, econômicas, religiosas, em fim, sendo parte intima da cultura humana a sexualidade não poderia deixar de transforma-se junto com o homem.
Referências Bibliográficas:
TANNAHILL, Reay.. O Sexo na Historia. Francisco Alves Editora: Rio de Janeiro, 1983.
Marques de Sade. Contos Libertinos (acervo pessoal).
[1] TANNAHILL, Realy .História do sexo pg. 149
[2] Ibdem pg. 150
[3] Op Cit . 156.
[4] Op. Cit pg. 173.
[5] TANNAHILL, Reay. O Sexo na Historia. Francisco Alves Editora: Rio de Janeiro, 1983. p. 314
[6]Idem. p. 316.
[7] Op. Cit. p. 317.
[8] Idem. p. 318.
[9] TANNAHILL, Reay. O Sexo na Historia. Francisco Alves Editora: Rio de Janeiro, 1983. p. 317.
[10] Idem. p. 319.
[11] Ibdem. P.319.
[12] Ibdem. P.319 – 320.
[13] Op. Cit. p.321.
[14] Idem. p.325.
[15] Op. Cit. p. 328.
[16] Op. Cit. p. 333.
[17] O sadismo adquiriu alguns significantes distintos mas em comum é uma parafília que se característica por obter prazer mediante humilhação, dor e sofrimento ao parceiro.
[18] TANNAHILL, Reay. O Sexo na História, pág 368.
[19] Referência a poetisa Safo que de tamanha personalidade acabou por ser temida pelo ditador Pitaco e se exilou na Ilha de Lesbos, fundando lá uma escola de ensino exclusivo às mulheres, lá aprendendo desde maneiras até conhecimentos sexuais. Daí vem o termo lesbianismo.
[20] Quando Sade utiliza o termo himeneu ele se refere ao tradicional ato do sexo convencional, o sexo vaginal. E termo é da antiguidade clássica , cujo no mito, se não houvesse a visita do Himeneu o casamento certamente seria desastroso.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Cultura Popular na França Moderna a partir da leitura de Robert Darton

Amigos, mais uma vez estou utilizando este espaço para que os alunos possam ter acesso à produção dos seus colegas de classe. Desta feita o tema é a Cultura Popular na França Moderna.






UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA




PAINEL: HISTÓRIA MODERNA II
PROFESSOR: SEVERINO VICENTE

A CULTURA POPULAR DA FRANÇA MODERNA (HISTÓRIAS DE MAMÃE GANSO E O GRANDE MASSACRE DE GATOS): O UNIVERSO MENTAL DOS NÃO ILUMINADOS

BRUNO DIAS, MARIANA MACIEL E THIAGO ALVES





RECIFE, 17 DE DEZEMBRO DE 2007.
Sumário

Introdução........................................................................................................................ 3
A Vida Camponesa.......................................................................................................... 4
Surgimento e análise dos contos...................................................................................... 7
Os contos e a vida cotidiana........................................................................................... 10
Os trabalhadores se Revoltam: O Grande Massacre de Gatos da Rua Saint-Severin.... 17
Apêndice: Livros Infantis Antigos e Esquecidos (Walter Benjamin)............................ 21
Bibliografia..................................................................................................................... 23
Anexos............................................................................................................................ 24

Introdução


Este trabalho tem por objetivo fazer uma breve análise, sobre o que se convencionou denominar de História das Mentalidades ou História Cultural.
Nossa abordagem se faz através da análise da obra de Robert Darton, que trata do universo cultural da França no Século XVIII em seu livro: O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa. Fixamos em dois pontos que retratam segundo o próprio autor o Universo Mental dos Não Iluminados: As histórias contadas pelos camponeses a beira de suas lareiras e o relato de um trabalhador de uma tipografia.
A grande dificuldade em realizar uma obra que trata de uma temática como essa, se dá pela ausência ou quantidade ínfima de documentações, grande quantidade de generalizações e uma série de incertezas. Mas por outro lado, representa uma deliciosa viagem pelo Universo Mental dos Homens, Mulheres e Crianças do Antigo Regime.




A Vida Camponesa

O início da Idade Moderna não apresentou mudanças significativas na ordem social existente, ao nível das aldeias, na França. Encontrava-se no interior camponeses relativamente livres, segundo Robert Darnton, “menos que os pequenos proprietários rurais, que se transformavam em trabalhadores sem terras, na Inglaterra, e mais que os servos, que mergulhavam numa espécie de escravidão, a leste do Elba” [1]. Apesar desta relativa liberdade, os camponeses encontravam-se inseridos em um sistema senhorial que não lhes permitia a possessão de terras suficientes para adquirir sua independência econômica e que lhes retirava qualquer excedente produzido. Viviam em uma situação de subnutrição, alimentando-se de uma espécie de papa composta por pão e água, comendo carne poucas vezes durante o ano (festas ou abate de outono), não se obtendo, muitas vezes, o quilo diário de pão (2.000 calorias) necessário para manterem-se saudáveis, ficando mais suscetíveis a doenças.

Darnton informa que “a população flutuava entre quinze e vinte milhões de pessoas e se expandia até o limite de sua capacidade produtiva, apenas para ser devastada por crises demográficas. Durante quatro séculos – dos primeiros estragos da Peste Negra, em 1347, até o primeiro grande salto de população e produtividade, por volta de 1730 – a sociedade francesa permaneceu aprisionada em instituições rígidas e condições maltusianas” [2]. O senhorialismo e a economia de subsistência eram os responsáveis pela manutenção da situação encontrada nas aldeias e, aliado a estes fatores, estavam às técnicas agrícolas primitivas empregadas pelos camponeses, as quais não permitiam que estes conseguissem maiores produções. A criação de animais não era realizada em escalas maiores pela quantidade reduzida de cereais conseguida pelos camponeses, consequentemente, não se obtinha adubo suficiente para aumentar a produtividade das áreas cultivadas. A produção era realizada em faixas dispersas de terras e em campos abertos, coletivamente, onde se empregava a respiga e a pastagem comum. Além dos campos cultivados, se utilizava terras e florestas comuns para a pastagem, lenha e castanhas ou morangos. Darnton diz que se podia encontrar algum progresso no galinheiro ou no quintal localizado nos lotes das casas, através de iniciativas individuais. “Ali, eles se esforçavam para levantar montões de adubo, cultivar linho para fiar e produzir verduras e frangos para o consumo doméstico e mercados locais” [3].

O quintal era uma importante fonte de sobrevivência para os camponeses, pois era dali que muitas vezes retiravam o sustento das suas famílias após o pagamento dos tributos senhoriais, dízimos, arrendamentos de terrenos e impostos. Além destas dificuldades, existiam ainda os camponeses mais prósperos, que através da influência fraudulenta na cobrança da talha (principal imposto real), endividavam os camponeses, forçados a tomar empréstimos com os mais ricos para cobrir os prejuízos. Estes camponeses mais prósperos eram aqueles com terras suficientes para produção e venda cereais no mercado, com capacidade para criação de rebanhos e contratação de pobres para seu serviço. Segundo Darnton, “Ódio, inveja e conflitos de interesses ferviam na sociedade camponesa. A aldeia não era uma comunidade feliz e harmoniosa” [4]. Como já exposto, a vida na aldeia era uma luta cotidiana pela sobrevivência. Manter-se acima da linha que separava os pobres dos indigentes era o principal objetivo. Esta linha definia-se de acordo com o lugar e estabelecia-se dependendo da extensão de terras necessárias para pagar impostos, dízimos, tributos senhoriais e quantidade de grãos necessários para o plantio do próximo ano e alimentação da família.
Na tentativa de contornar as dificuldades, os camponeses trabalhavam nos períodos de escassez tecendo e fiando em suas cabanas, fazendo trabalhos esporádicos e aqueles que encontrassem pelo caminho. Muitos pegavam a estrada na busca de melhores condições, entretanto, acabavam alimentando-se de restos de comida, invadindo galinheiros, roubando roupas, disfarçando-se de mendigos para obter esmolas, dentre outras coisas. Estes andarilhos acabavam encontrando a morte, muitas vezes enfrentando maiores dificuldades, que os camponeses que permaneciam nas aldeias. O índice de mortalidade, pelos problemas explanados anteriormente, é muito elevado entre a população rural da França. Darnton diz que “cerca de 45 por cento dos franceses nascidos no século XVIII morriam antes da idade de dez anos. Poucos dos sobreviventes chegavam à idade adulta antes da morte de, pelos menos, um de seus pais. E poucos pais chegavam ao fim de seus anos férteis, porque a morte os interrompia” [5]. É neste cenário que surge e se difunde o papel da madrasta.

A relação entre os irmãos do primeiro casamento e os nascidos da união do pai com a madrasta era geralmente difícil. O aumento da quantidade de irmãos significava uma divisão maior das terras quando da morte do pai, e esta nova divisão, poderia significar o empobrecimento da próxima geração. Uma maneira de evitar o crescimento da população, e o seu conseqüente empobrecimento, era o casamento tardio. O casamento não ocorria, geralmente, até que se pudesse ocupar uma cabana, raramente tinha-se filhos fora do mesmo ou após os quarenta. Além deste instrumento, um curto período de fertilidade e longos espaços de amamentação ao seio também contribuíram para limitar o tamanho da família. Uma outra prática eficaz era a morte dos bebês e das mulheres na infância ou durante o parto. Alguns bebês eram mortos sufocados por seus pais durante o sono, pois “famílias inteiras se apinhavam em uma ou duas camas e se cercavam de animais domésticos para se manterem aquecidos” [6]. Bulas papais demonstram ser estes acidentes comuns e proíbem os pais de dormirem com filhos que tenham menos de um ano. Além do perigo, a prática de dormir com as crianças, recém-nascidas ou não, demonstra também como estas se tornam espectadores diretos das relações sexuais de seus pais. A infância não era vista como uma fase diferente da vida e, logo após aprenderem a caminhar, muitos filhos já trabalhavam com seus pais como lavradores, criados e aprendizes.

O exposto anteriormente demonstra a vida dos camponeses na França. A luta cotidiana pela sobrevivência, os conflitos entre madrastas e filhos, a convivência com exploradores e a morte e a falta de perspectiva de melhoras. Apesar das dificuldades, pois se estará remetendo a mentalidade dos camponeses franceses dos séculos XVII e XVIII, fazendo-se generalizações, discutiremos como os contos da Mamãe Ganso surgiram em meio a uma condição humana desagradável, grosseira e curta e refletem esta realidade.




Surgimento e Análise dos Contos

Fazer o estudo da mentalidade destes camponeses, para Darnton, é falar do “universo dos não iluminados durante o Iluminismo” [7]. Para remeter ao pensamento dos habitantes da vida rural francesa se analisarão alguns contos cantados por eles, em torno das lareiras, ao longo dos invernos do século XVIII. Uma característica de relevância destes contos é a sua tradição oral. Muitos deles são passados de uma geração para outra, sofrendo modificações ao longo dos anos, entretanto, conservam na grande maioria sua essência. Um conto bastante difundido e cantado é o de Chapeuzinho Vermelho, o qual sofreu diversas análises, na tentativa de compreensão da mentalidade dos camponeses, inclusive de dois importantes psicanalistas, Erich Fromm e Bruno Bettelheim.

Fromm analisa um Chapeuzinho Vermelho diferente do conto primitivo camponês dos séculos XVII e XVIII, o qual recebeu diversos elementos não constantes no original, que foram enquadrados nos fundamentos da psicanálise. A sua interpretação busca o inconsciente coletivo constante no conto, que para ele, trata sobre a confrontação de uma adolescente com a sexualidade adulta. Por meio da decodificação dos símbolos existentes no conto, Fromm conseguiu analisá-lo. Os simbolismos encontrados por ele no conto para fundamentar sua análise são o chapeuzinho vermelho, simbolizando a menstruação, e a garrafa de vinho, que é um símbolo de virgindade. Os avisos dados pela mãe de chapeuzinho, para que não se desviasse do caminho, significariam o cuidado que deveria ter a menina para não quebrar a garrafa e perder seu líquido, ou seja, “um alerta contra o perigo do sexo e de perder a virgindade” [8]. O lobo representaria o macho sedento por sexo e astucioso, que procura desviar a menina do caminho da virtude. O ato sexual um “ato canibalista em que o macho devora a fêmea” [9]. Neste conto, para Fromm, estaria sendo narrado um conflito macho-fêmea, no qual as mulheres seriam vitoriosas. O lobo, pela tentativa de quebra de um tabu sexual, teria sua barriga enchida de pedras, que representariam à esterilidade e o castigo pela violação cometida.

A análise realizada por Bettelheim não difere muito da de Fromm. Para ele, a peça mais importante do conto seria seu final, pois “tendo um final feliz, os contos populares permitem às crianças enfrentarem seus desejos e medos inconscientes e emergiram incólumes, o id subjugado e o ego triunfante” [10]. Bettelheim aponta o id como o vilão de Chapeuzinho vermelho e diz que é o princípio do prazer que a faz desviar-se. No seu final o id é derrotado e todos vivem felizes para sempre. Darnton informa que a análise tanto de Fromm como de Bettelheim é errônea, pois o primeiro tem um entendimento dos contos sem levar em consideração suas dimensões históricas, enquanto o segundo, trata do mesmo como “pacientes no divã, numa contemporaneidade atemporal” [11]. Darnton aponta a questão da versão abordada pelos psicanalistas como principal dificuldade encontrada pelos mesmos para análise do conto. Como já citado, os contos passados para as próximas gerações podiam sofrer algumas modificações. Charles Perrault, escritor francês nascido em Paris, compilou vários contos populares franceses e os publicou num livro intitulado “Contos de Mamãe Ganso”, os quais foram adaptados para “atender ao gosto dos sofisticados freqüentadores dos salões, précieuses, e cortesãos” [12]. Perrault provavelmente, segundo Darnton, teve na babá de seu filho a principal fonte de acesso a esta tradição oral do povo.

Além do problema da fonte, a já citada dificuldade de contextualização histórica dos contos, identificada na análise dos psicanalistas, não permite que se remonte de maneira segura a mentalidade dos camponeses franceses do século XVII e XVIII. Os simbolismos identificados por Fromm e Bettelheim nas suas fontes, comparados com os contos primitivos, ratificam o pensamento de Darnton no que diz respeito à abordagem de temas considerados tabus, como o sexo. Nos contos primitivos muito explicitamente fala-se sobre o sexo e a violência, não se utilizando eufemismos para a abordagem destes temas. No próprio conto primitivo de Chapeuzinho Vermelho encontra-se referência a cenas de violência, assim como em Cinderela, aborda-se o sexo notoriamente. A violência era vivida cotidianamente pelos camponeses nas aldeias, motins e castigos impostos pelos senhores eram algumas de suas representações. O sexo era conhecido pelas crianças desde cedo, como já exposto anteriormente, pois dividiam a cama com seus pais e irmãos, tornando-se testemunhas oculares dos atos sexuais. É por meio da abordagem de temas corriqueiros que Darnton faz a ligação entre os contos populares e a mentalidade dos camponeses. Utilizando a antropologia e o folclore, ele tenta remontar ao cotidiano do meio rural francês dos séculos XVII e XVIII.
Nestas disciplinas encontram-se técnicas que conseguem analisar o modo como o narrador correlaciona a história a sua realidade e adapta o conto ao seu meio. Os contos estudados são recolhidos da tradição oral francesa e compilados em impressos, que organizados e comparados, demonstram como a essência dos contos não se perde, apenas adapta-se ao tempo e espaço do seu narrador. Para Darnton, apesar destes contos não poderem ser datados com a precisão de um documento histórico, eles são “um dos poucos pontos de entrada no universo mental dos camponeses, nos tempos do Antigo Regime” [13]. Por meio do livro de Noel Du Fail, Propos Rustiques, de 1547, pode-se ter uma idéia de como os contos surgiram nas tradições camponesas, pois este revela, segundo Darnton, uma importante instituição francesa, a veillée. Nesta reunião em torno da lareira, à noite, eram contadas histórias que, quer tivessem o intuito de divertir, quer objetivassem assustar as crianças, refletiriam a cultura popular francesa. Não se tem certeza da exatidão das histórias relatadas nos livros, que foram analisados posteriormente, nem se refletiam de fato a tradição oral, no entanto, a quantidade de contos encontrados e comparados demonstra que se pode, apesar das generalizações, estudá-los na tentativa de compreender um pouco a realidade dos habitantes rurais da França Moderna.




Os Contos e a vida cotidiana

Algumas histórias da Mamãe Ganso de Perrault como “Gato de Botas”, “Pequeno Polegar”, “Cinderela” e “Os desejos ridículos”, podem ser comparados com alguns contos camponeses, revelando o universo em que essas pessoas viviam.
Com relação ao problema da herança, era costume na França moderna, tanto entre os camponeses quanto entre a nobreza, que, com a morte do pai, o patrimônio fosse deixado para o filho mais velho, como uma maneira de evitar a fragmentação deste patrimônio. No “Gato de Botas”, segundo Darnton:
Um moleiro pobre morre, deixando o moinho para seu filho mais velho, um asno para o segundo e apenas um gato para o terceiro. “Nem um tabelião nem um advogado foram chamados”, observa Perrault. “Eles teriam devorado o pobre patrimônio”. (...) O filho do moleiro, contudo, herda um gato que é um gênio para intriga doméstica. Em toda parte, em torno dele, esse gato cartesiano vê vaidade, estupidez e apetite insatisfeito; ele explora tudo com uma série de truques que resultaram num casamento rico para seu dono e uma bela propriedade para si mesmo – embora, nas versões pré-Perrault, o dono, no fim, logre o gato – que, na verdade, é uma raposa e não usa botas.[14]

Já em um outro conto da tradição oral, “La Renarde” o assunto é tratado de maneira semelhante:
Era uma vez dois irmãos que receberam as heranças que o pai deixara para eles. O mais velho, Joseph, ficou com a fazenda. O mais novo, Baptiste, recebeu apenas um punhado de moedas; e, como tinha cinco filhos e muito pouco com que alimenta-los, caiu na indigência. Desesperado, Baptiste implora trigo ao seu irmão. Joseph lhe diz para despir seus farrapos, tomar chuva nu e rolar no celeiro. Ele pode ficar com todo trigo que se grudar a seu corpo. Baptiste submete-se a esse exercício de amor fraterno, mas não consegue pegar alimento suficiente para manter sua família viva e então sai pela estrada. Finalmente, encontra-se com uma fada bondosa, La Renarde, que o ajuda a decifrar uma série de enigmas que conduzem a um pote de ouro enterrado e à realização do sonho de um camponês – uma casa, campos, pastagens bosques: E seus filhos comiam um pedaço de bolo todos os dias.

Este último conto demonstra, além do problema da herança que foi comparado com o conto do “Gato de Botas”, o problema da alimentação, os anseios da população camponesa da época, que serão tratados posteriormente. Isto é demonstrado através da busca de Baptiste por alimentar os seus filhos e também na realização dos desejos pela fada, que lhe deu a possibilidade de dar “um pedaço de bolo todos os dias” aos seus filhos.
Outra questão fundamental que pode ser analisada através dos contos é a problemática do grande aumento populacional e a falta de alimentação para o povo, ou seja, o universo malthusiano[15]. O “Pequeno Polegar” de Perrault retrata bem os problemas da época em que foi escrito, em meados de 1690.
Era uma vez um lenhador e sua mulher, que tinham sete filhos, todos meninos... Eram muito pobres e seus sete filhos se tornaram um pesado fardo, porque nenhum tinha idade suficiente para se sustentar... Chegou um ano muito difícil e a fome era tão grande que essa pobre gente decidiu livrar-se dos filhos. [16]

Segundo Darnton, este período foi o auge da pior crise demográfica do século XVII, onde a fome e a peste matavam grande parte da população do norte da França. Os pobres comiam carniça atirada nas ruas, cadáveres eram encontrados com capim na boca e as mães expunham os bebês que não podiam alimentar, para que eles adoecessem e morressem. Diz ainda que os pais do Pequeno Polegar, ao abandonarem seus filhos na floresta, tentavam enfrentar o problema da sobrevivência nesta época de desastre demográfico, que perturbou os camponeses nos séculos XVII e XVIII.
Além deste conto, outras versões camponesas com o mesmo foco que este, falavam de infanticídios e maus-tratos infligidos a crianças. Em um conto intitulado “Aprendiz de feiticeiro”, é narrada a história de um bebê que é vendido ao diabo, em troca de uma dispensa cheia que poderia durar doze anos. Esta questão da alimentação, do “comer ou não comer”, como diz Darnton, é tratada em inúmeros contos, muitas vezes aliado ao tema da madrasta má, que foram figuras que se tornaram importantes na sociedade das aldeias desta fase. Existe uma versão camponesa que trata sobre estes temas, e que se assemelha à “Cinderela” de Perrault, que é “La Petite Annette”( A Pequena Annette):
A madrasta má dá à pobre Annette apenas um pedaço de pão por dia e faz com que ela cuide das ovelhas, enquanto suas gordas e indolentes irmãs postiças vagueiam pela casa e jantam carneiro, deixando os pratos para Annette lavar, ao voltar dos campos. Annette está a ponto de morrer de inanição, quando a Virgem Maria aparece e lhe dá uma varinha mágica, que produz um magnífico banquete, todas as vezes em que Annette toca com ela uma ovelha negra. Não demora muito e a menina está mais gorducha que suas irmãs postiças. Mas sua beleza recém adquirida (...) desperta as suspeitas da madrasta. Através de um artifício, a madrasta descobre a ovelha mágica, mata-a e serve seu fígado a Annette. Annette consegue, secretamente, enterrar o fígado e ele se transforma numa árvore, tão alta que ninguém consegue colher suas frutas, a não ser Annette; porque baixa seus ramos para ela, sempre que se aproxima. Um príncipe de passagem (que é tão guloso como todos os demais no país) deseja tanto as frutas que promete casar-se com a donzela que conseguir colher algumas para ele. Esperando casar uma de suas filhas, a madrasta constrói uma grande escada. Mas, quando vai experimentá-la, cai e quebra o pescoço. Annette, então, colhe as frutas, casa-se com o príncipe e vive feliz para sempre[17].

Este tema da busca incessante por comida também está presente em “Os desejos ridículos”:
Um pobre lenhador tem a promessa de ver satisfeitos três desejos, quaisquer que sejam, como recompensa por uma boa ação. Enquanto ele rumina, seu apetite o domina; e deseja uma salsicha. Depois que ela aparece em seu prato, sua mulher, uma rabugenta insuportável ,repreende-o com tanta violência pelo desperdício do desejo que ele deseja que a salsicha cresça no nariz dela. Depois, diante de uma esposa desfigurada, deseja que ela volte ao seu estado normal; e eles retornam à sua miserável existência anterior.[18]

Neste conto também observa-se, novamente, a idéia de realização de desejos, onde o indivíduo, por meio de uma boa ação, pode ter seus desejos satisfeitos (geralmente três). Estes desejos estão, em grande parte das vezes, relacionados com a alimentação e meios de subsistência, pois estes eram os maiores problemas destes camponeses da época. Darnton diz que “na maioria dos contos, a satisfação dos desejos se torna um programa para a sobrevivência, não uma fantasia ou uma fuga” [19] A figura que realiza os desejos aparece normalmente como uma pessoa miserável, que pede ajuda e, a partir da boa ação realizada, se transforma em uma fada, um santo, ou algo do gênero, e concede o direito a realização de três pedidos.
Através de contos como estes, que retratam a realidade da vida camponesa de boa parte da Idade Moderna, podemos observar que eles estão inseridos em um cenário dual da vida dessas pessoas. Por um lado se tem a casa e a aldeia, e por outro a estrada aberta. Nas casas e aldeias podemos ver elementos como a constituição da família, as madrastas, o casamento, o trabalho familiar e a moral; já nas estradas, não retratados nos contos os perigos que elas oferecem e a saída de pessoas que fugiam da falta de terra, trabalho e comida das aldeias onde moravam e iam em busca que melhores condições de sobrevivência.
Com relação ao trabalho, ele era realizado por toda a família, pois este era o único modo de sobrevivência dos camponeses. O trabalho em conjunto gerava uma unidade econômica. A condenação do trabalho infantil era inconcebível, assim que a criança começava a andar adquiria alguma forma de trabalho, havendo indignação por parte dos pais quando um filho não queria trabalhar. Assim, “todos enfrentavam um trabalho interminável, sem limites, da mais tenra infância até o dia da morte”[20]. Em “Les Trois Fileuses”
Um pai decide livrar-se de sua filha porque “ela comia mas não trabalhava”. Convence o rei de que ela pode tecer sete fusées (100,8 metros) de linho por noite (...) O rei ordena à moça que ela realize feitos prodigiosos na fiação, prometendo casar-se com ela, se conseguir. Três fiandeiras mágicas, cada uma mais deformada que a outra, realizam as tarefas para ela e, em troca, pedem apenas para serem convidadas para o casamento. Quando aparecem, o rei pergunta qual a causa de suas deformidades. Excesso de trabalho, respondem; e advertem-no de que sua esposa ficará igualmente horrenda, se ele permitir que continue tecendo. Assim, a moça espaça da escravidão, o pai livra-se de uma glutona e os pobres levam a melhor sobre os riscos.[21]

O casamento, ao contrário do que se pode pensar, não trazia nenhum alívio. Além de a mulher precisar de um dote para se casar, o matrimônio trazia uma carga adicional de trabalho, submetendo as mulheres ao trabalho domiciliar, além do trabalho para a família e a fazenda. Darnton diz que algumas histórias apresentam quadros hiperbólicos do trabalho das esposas, mostrando-as puxando água de um poço com os cabelos ou limpando fogões com seus seios nus. Ainda existem os contos que relatam pais que casavam suas filhas com animais (lobo, raposa, lebre, porco), assim como a transformação destes animais em príncipes. Em versões irlandesas e do norte da Europa, se fazia necessário transformar estes animais em humanos. Mas nas versões francesas, as esposas viviam, de fato, com animais como maridos, sendo relatado que quando a mãe vem de visita, servem á mesa carneiro caçado pelo lobo, peru pego pela raposa, repolho roubado pela lebre e sujeira do porco.

Estes contos populares não de destinavam a dar lições de moral, mas primordialmente, demonstrar, com elementos de realismo e hipérboles, as dificuldades e perigos do mundo em que viviam. Ao contrário do que se pensa geralmente, a maioria deles não estava destinado às crianças, porém fazem advertências, sugerindo que todos devam agir com cautela. Além disso, alguns mostram que é correto agir com cautela, pois são inúmeros os perigos da vida, principalmente quando se está nas estradas, fora das aldeias. Outros demonstram como é importante a bondade e a generosidade, quando, por meio de uma boa ação, mendigas se transformam em fadas bondosas que realizam desejos.
Porém, ainda existem aqueles que mostram que o mundo em que vivem é arbitrário e que algumas coisas acontecem casualmente. Um exemplo disto é conto “Les Deux Bossus”:
Um corcunda depara-se com um bando de feiticeiras danando e cantando: “Segunda, Terça e Quarta-feira, Segunda Terça e Quarta-feira”. Ele entra no grupo e acrescenta “e Quinta-feira” à canção delas. Encantadas com a inovação, elas o recompensam, eliminando sua deformidade. Um segundo corcunda tenta o mesmo truque, acrescentando “e Sexta-feira”. “Isto não combina”, diz uma das feiticeiras. “De jeito nenhum”, comenta a outra. Elas o castigam, acrescentando-lhe a corcunda do primeiro. Duplamente deformado, ele não pode suportar as zombarias da vila e morre em menos de ano.[22]

É importante ressaltar que os contos se tornam comoventes pela natureza inescrutável e inexorável de desastre, não por causa dos finais felizes. Esta característica de ter frequentemente um final feliz é adquirida depois do século XVIII. Nestes contos primitivos franceses nem sempre o com comportamento e a moral fazem com que se atinja o sucesso. Darnton salienta que, em alguns casos, o herói é auxiliado magicamente por causa de uma boa ação, mas só consegue a princesa usando a inteligência. E, mesmo assim, às vezes tem que realizar atos antiéticos para poder ficar com ela. Um exemplo disto existe o conto de “Le Fidèle Serviteur”, onde o herói só consegue fugir com a princesa se recusando a ajudar um mendigo que se afogava num lago. Sendo assim, estes contos demonstram que o mais importante é viver em uma desconfiança básica, do que manter sempre a virtude para ser recompensado.
A vida nas aldeias também era cheia de desconfianças, pois os visinhos eram geralmente hostis, tentar roubar suas coisas ou até serem feiticeiras. É necessário tomar muito cuidado caso se adquira rapidamente riqueza, pois os vizinhos podem delatá-lo como ladrão ou então tentar roubar para si seus pertences. Para retratar este universo de insegurança, o conto “La Poupée” diz que:
Uma órfã simplória deixa de observar estas regras básicas quando recebe uma boneca mágica, que evacua ouro, todas às vezes em que ela diz: “Caga, caga, minha bonequinha de trapos”. Não demora e ela compra várias galinhas e uma vaca, e convida os vizinhos para visitá-la. Um deles finge adormecer junto ao fogo e foge com a boneca, logo que a menina vai para a cama. Mas, quando ele diz as palavras mágicas, ela evacua fezes de verdade, sujando-o todo. Então, ele atira na pilha de esterco. Depois, um dia, quando ele próprio está evacuando, ela se ergue e o morde. Ele não consegue arranca-la de seu ‘derrière’, até que a menina chega, recupera sua propriedade e vive desconfiada para sempre.

Por fim, é necessário observar que não existia distinção entre estes contos para adultos ou para crianças. Estes eram destinados para ambos, até mesmo os que tratavam sobre assuntos relacionados à sexualidade. “Chapeuzinho Vermelho”, como já foi exposto, foi interpretado posteriormente como um conto voltado para crianças, repleto de significados, tratando sobre temas como a menstruação e a virgindade. Mas é sabido que as versões primitivas deste conto não continham os elementos que possibilitaram estas interpretações. Além disso, na época em que estes contos surgiram, ainda da tradição oral, estes assuntos não eram tidos como tabu. Muito pelo contrário, as relações entre os sexos eram coisas normais, vividas no cotidiano de adultos e crianças. Sobre este assunto, Norbert Elias, em sua obra O Processo Civilizador[23] , faz uma análise muito relevante. Ele diz que este sentimento de vergonha que cerca as relações sexuais humanas aumentou e mudou muito no processo de civilização, sendo demonstrando claramente na dificuldade que os adultos possuem, mais recentemente, em falar com crianças sobre essas relações.
Este padrão de vergonha que permeia esses assuntos se torna predominante apenas nos séculos XIX e XX. Logicamente que na sociedade aristocrática de corte, a vida sexual era muito mais escondida do que na medieval, mas entre as classes mais pobres, os camponeses, onde estes contos surgiam, o assunto da sexualidade ainda era explicito. Elias diz ainda “que só aos poucos, e mais tarde, é que uma associação mais forte de comportamento, se espraia mais ou menos uniformemente por toda a sociedade”.[24] Apenas assim, depois que aumenta a distância entre os adultos e as crianças, é que a elucidação de dúvidas sobre as questões sexuais se torna um grave problema. Mas, entre os camponeses do período em que estamos tratando, séculos XVII e XVIII, não se fazia necessário a criação de contos para esclarecer dúvidas sobre assuntos relacionados ao sexo, pois estes eram tratados com total naturalidade.




Os trabalhadores se Revoltam: O Grande Massacre de Gatos da Rua Saint-Severin.

Como é possível para nós homens do século XXI entender uma prática comum na Europa do Século XVIII que mistura atos de selvageria, barbárie, tortura de animais, hilaridade, comicidade e escárnio? Ora, certamente definiríamos uma prática de massacrar pobres animais indefesos (gatos) com os adjetivos usados anteriormente e uma dezena de outros. Mas entender essa prática, além do prazer extraído de tal atitude, requer se libertar dessa visão “moderna” (atual) e se voltar à época Moderna (século XVIII).
Como base para análise, usamos a narrativa de Nicolas Contant, que consta no livro de Darton, na qual ele (um operário de uma tipografia francesa) conta como era sofrida a vida desses trabalhadores (aprendizes, assalariados) e por outro lado, como era tranqüila a vida dos mestres (burgueses). Relata as duras condições de trabalho, a situação de exploração dos aprendizes, o grande ritmo de rotatividade na função, a contratação de trabalhadores de aluguel em detrimento dos oficiais assalariados: “Contant fez seu aprendizado e escreveu suas memórias em tempos difíceis para os tipógrafos assalariados, quando os homens da oficina da Rua Saint-Severin estavam ameaçados de serem eliminados e tragados pelas camadas inferiores”. [25]
Mas por que então massacrar os gatos? Contant entra nesse ponto quando se lembra que os burgueses adoravam os gatos, tinham um tratamento melhor que os homens da oficina, comiam melhor, dormiam melhor e ainda estavam próximos do burguês. Isso sem contar que os gatos a noite não deixavam os pobres aprendizes (Jerome e Lèveillé) dormirem, passavam a noite toda nos telhados parecendo seres endemoniados. Para resolver tal problema, Lèveillé resolve imitar o som que os gatos produziam todas as noites sobre o telhado do burguês, assim este, temendo alguma feitiçaria ordenou que eles se livrassem dos gatos. Assim, a senhora, esposa do patrão, pede que tomem cuidado para não assustar sua gatinha de estimação La Grise (A cinzenta). A partir daí tem inicio o Massacre, no qual a primeira vítima teria sido La Grise.
Os homens da oficina passam a perseguir, bater e prender todos os gatos da rua. No final realizam um julgamento e condenam os gatos já moribundos. Nesse ínterim chegam a Senhora e o patrão, ela se espanta ao perceber que mataram sua gatinha, os trabalhadores obviamente negam tal ato. Já o burguês não quer saber da gata, quer saber o porquê da bagunça em horário de serviço. Sua esposa lhe coloca a par da situação e ambos saem humilhados e sem poder punir os trabalhadores que passam a relembrar o episódio e se esbaldarem em risadas sempre que se cansam de trabalhar.
A primeira resposta para tal evento seria a dada ao patrão pelos trabalhadores, por conta dos maus tratos e condições injustas de trabalho. Essa seria a perspectiva mais lógica e evidente desse acontecimento, um protesto, uma revolta. Mas não é a única explicação. Tanto que continuamos sem entender o teor da piada feita pelos trabalhadores: Qual a graça em torturar gatos?
Para explicar essa relação com os gatos é preciso analisar o simbolismo dos rituais populares, os homens do Antigo Regime possuíam duas datas em seu calendário bastante significativas: O Carnaval e a Quaresma: “Um período de folia seguido de outro de abstinência”[26]. O Carnaval representava a libertação das regras de comportamento e a critica à sociedade.
O Carnaval era um período de crítica, para os grupos jovens, particularmente os aprendizes, que se organizavam em “abadias”, dirigidas por um pretenso abade, ou um rei, e faziam charivaris ou passeatas burlescas, com música grosseira, cujo objetivo era humilhar maridos enganados, maridos espancados pelas mulheres, mulheres casadas com homens mais jovens ou qualquer um que personificasse uma infração das normas tradicionais. Carnaval era a temporada da hilaridade, da sexualidade, e os jovens se esbaldavam – um período em que a juventude testava as fronteiras sociais, através de irrupções limitadas de desordem, antes de se ver outra vez assimilada pelo universo de ordem, submissão e seriedade da quaresma [27].


Nesse tipo de festividade os gatos tinham um papel especial (eram massacrados enquanto as pessoas se divertiam). Na festividade que representa o Solstício de Verão, a festa de São João, os gatos também estavam presentes, em diversas partes da Europa era comum a prática de barbaridades com os gatos, sempre associadas a fogueiras e incinerações de gatos vivos.
O autor também coloca o forte simbolismo que o gato traz, desde os antigos egípcios, que tinham um grande respeito por eles. Sentimos uma inteligência quase humana por trás dos olhos de um gato. E, às vezes, confundimos o uivo de um gato, à noite, com um grito arrancado de alguma parte profunda, visceral, da natureza animal do homem [28]. Darton também relata a carga simbólica que alguns animais trazem para certas culturas, como tabus (judeus que não comem carne de porco) ou os ingleses que xingam usando o termo: son of a bicth (filho de uma cadela ou filho da puta). Alguns animais se prestam a xingamentos, outros para se pensar e alguns para rituais, neste caso o principal seria o gato. Não se faz uma pândega com uma vaca. Faz-se com um gato [29].
Torturar animais era uma prática comum. Assim como jogar futebol. Que mal há em jogar futebol? Para esses europeus que massacravam os animais não havia mal algum em fazer isso. Claro, no caso especial dos gatos, existe um forte valor ritualístico nisto, mas em geral era uma prática de diversão, uma pândega. Tanto que era um tema de certa forma comum na literatura (Don Quixote, Germinal, Gargântua e Pantagruel) descrevem cenas em que há referências a torturas de gatos. Nada havia de incomum na matança ritual de gatos [30].
Mas finalmente: Qual o valor simbólico dos gatos para essa sociedade? Para responder a essa questão Darton se utiliza do folclore, desde a Idade Média, baseado nestas tradições parte para uma generalização, percebe a aparição de alguns temas recorrentes. Assim, para os gatos são atribuídos valores simbólicos (feitiçaria, medicina, identificação com o dono, sexualidade). Dos quais destaco alguns exemplos: Os gatos sugeririam feitiçaria, cruzar com um deles era um mau sinal, os brancos eram tão satânicos quanto os pretos, a melhor forma de quebrar essa ligação era aleijando o gato. Eram ingredientes básicos em todo tipo de medicina popular, para curar uma queda forte bastava chupar o sangue de uma cauda amputada de um gato, assim como a pneumonia se curava bebendo o sangue da orelha do felino e para as cólicas bastava misturar ao vinho os excrementos do animal. Há também uma forte ligação do gato com a casa e o dono, nos vários contos populares percebe-se isso: “O gato de Botas” e crendices do tipo: se o gato abandona a casa era um mau sinal, um gato deitado numa cama de um agonizante representava o próprio demônio esperando para levar sua alma para o inferno. E claro não poderia faltar a identificação do gato com a sexualidade (tratar bem um gato significava sucesso com as mulheres, pisar no rabo de um atrasava o casamento, o próprio termo (le chat, la chatte, le minet – pussy em ingês) representava o órgão genital feminino, além de inúmeros provérbios: amando como uma gata, a noite todos os gatos são pardos, e isso sem mencionar a idéia do ritual onomatopaico da cópula felina, que no imaginário popular podia ser entendido como uma orgia satânica, um desafio dos gatos ou um diálogo dependendo da criatividade de cada um [31].
Assim, percebemos como tal carga simbólica poderia ter sido facilmente absorvida pelos trabalhadores da Rua Saint-Severin, assim como pelos homens de modo geral.
Agora é possível analisar a narrativa de Contant de forma mais rica, que a simples vingança contra as injustiças do patrão. Na narrativa aparece a questão da feitiçaria, seria uma boa justificativa para aleijar os gatos (que realizavam sabás à noite) explorando a superstição e religiosidade hipócrita do patrão. Mais do que isso, ao matarem a gata da patroa acusavam-na simbolicamente de feitiçaria.
O tema do charivari também se mostra presente, pois, muito embora não haja uma referência clara no texto acredita-se que a patroa levava uma vida de devassidão com o confessor e, portanto o patrão seria um simples corno. Dessa, forma os trabalhadores ao se rebelarem e matarem os gatos faziam uma verdadeira folia de Carnaval e ainda zombavam da suposta traição do burguês. Além disso, como nos charivaris, no final da festa havia o julgamento, em que os gatos forma julgados, mas simbolicamente era o patrão que estava sendo julgado in absentia, usando o símbolo para deixarem transparecer o que queria dizer, sem serem suficientemente explícita para justificarem a retaliação [32]. Por isso, escolheram começar o massacre com La Grise, pois de acordo com o anedotário felino, matar um gato era ferir a própria casa e consequentemente o próprio dono [33].
Como já foi dito simbolicamente o gato representava a sexualidade e no massacre esse tema não passou despercebido na análise de Datton. O sexo, bem como, a violência, uma combinação perfeita para atacar a patroa [34]. Os trabalhadores ao matarem a gata, atingiam a patroa:
O texto a descrevia como lasciva e “apaixonada pelos gatos”, como se ela fosse uma gata no cio, durante um sabá selvagem de gatos, com miados, matanças e estupro. Uma referencia explicita ao estupro violaria as convenções, que, em geral erma observadas na escrita do século XVIII. Na verdade o simbolismo só funcionaria se permanecesse velado – suficientemente ambivalente para lograr o patrão e aguçado o bastante para atingir vitalmente a patroa [35].

A grande piada enfim, teria sido o estupro simbólico da patroa, que ao perceber a situação se sentiu humilhada e impotente para retaliar os trabalhadores e o mais engraçado foi humilhar o patrão, pois, violando sua mulher, seu maior tesouro, o faziam de idiota e ainda saiam ilesos. Ele obtuso, não se dá conta de tudo isso e brandindo sua voz rolfenha irrita-se com a folia e a ausência de trabalho. A mulher lhe explica que fora atacada sexualmente e que os trabalhadores gostariam de matá-lo, saem de cena humilhados e derrotados [36]. Ele como corno, foi o ultimo a entender a piada. Essa seria a grande hilaridade do massacre dos gatos, violar as profanas da casa burguesa e sair impune. Tal qual num charivari: folia, desordem, inversão e gozação (com o chifre do patrão obtuso).

A piada funcionou muito bem por que os funcionários jogaram, muito habilmente, com um repertório de cerimônias e símbolos. Os gatos adequavam-se perfeitamente a seus objetivos. Quebrando a espinha de la grise, chamavam a mulher do patrão de feiticeira e prostituta e, ao mesmo tempo, transformavam o patrão em corno e tolo. Era um insulto metonímico, feito através de ações, e não de palavras e atingiu seu objetivo porque os gatos ocupavam um lugar privilegiado no estilo de vida burguês. Ter bichos de estimação era tão estranho aos operários como, para os burgueses, torturar animais. Aprisionados entre sensibilidades incompatíveis, os gatos receberam o pior de ambos os universos [37].

Em ultima análise, o principal elemento do Massacre dos gatos seria a risada.






Apêndice: Livros Infantis Antigos e Esquecidos (Walter Benjamin)

Walter Benjamin faz uma análise dos livros infantis a partir da coleção de um bibliófilo Karl Hobrecker. Benjamin inicia suas reflexões com o seguinte questionamento: O que leva alguém a colecionar livros? E sendo infantis então. Talvez, uma paixão, a solidão ou mesmo uma boa lembrança de um primeiro livro de infância.
O que mais chama a atenção é a análise da constituição dessas histórias segundo Benjamin:
Segundo Hobrecker, o livro infantil alemão nasceu com o Iluminismo. Era na pedagogia que os filantropos punham à prova o seu grande programa de remodelação da humanidade. Se o homem é por natureza piedoso, bom e sociável, deve ser possível fazer da criança, ente natural por excelência, um ser supremamente piedoso, bom e sociável. E como em todas as pedagogias teoricamente fundamentadas a técnicas da influência pelos fatos só é descoberta mais tarde e a educação começa com as admoestações problemáticas, assim também os livros infantis em suas primeira décadas é edificante e moralista, e constitui uma simples variante deísta do catecismo e da exegese [38].

Essa visão é criticada por Hobrecker, que a coloca num grau de preconceito que enxerga a criança como um ser diferente de nós adultos. A criança era capaz de criar seu próprio universo a partir de uma história infantil. Nada é mais ocioso que a tentativa febril de produzir objetos – material ilustrativo, brinquedos ou livros – supostamente apropriados às crianças [39].
Ainda nessa análise, prossegue ao elucidar que por mais que os contos de fadas se esmerem em produzir um saber moralista e um conteúdo reflexivo, as crianças estavam mais interessadas em animais falando como gente do que nesses ensinamentos, pois ela a partir dos vários fragmentos do Mundo monta sua própria realidade. Assim: A literatura especificamente destinada aos jovens começou como um grande fiasco [40].
Mesmo havendo essas considerações o que interessa nos livros infantis, é como as crianças interagem com ele, de forma livre e não presa a um paradigma Iluminista. E como os adultos podem também re-interagir com essas obras que marcaram sua infância e agora os alegra de novo. Capazes de alegrar os adultos e estimular as crianças de hoje [41]. E conclui: A alegria do colecionador é toldada por uma única sombra: o medo de que os preços se elevem demasiadamente. Esse medo é compensado pela esperança de que um ou outro volume destinado à destruição possa ter sido salvo graças a essa obra [42].









Bibliografia:

· BENJAMIN, Walter. (1987). Magia e Técnica, Arte e Política.
3. ed. Brasiliense: São Paulo.
· DARTON, Robert. (1986). O Grande Massacre de Gatos e outros
episódios da história cultural francesa. 4. ed. Graal: Rio de Janeiro.
· ELIAS, Norbert. (1994). O Processo Civilizador: Uma História dos
Costumes. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro.
· FROMM, Erich. (1983). A Linguagem Esquecida: Uma Introdução ao
entendimento dos sonhos, conto de fadas e mito.Guanabara Koogan: Rio








Anexos

Chapeuzinho Vermelho

(Conto extraído de A Linguagem Esquecida: Uma Introdução ao entendimento dos sonhos, conto de fadas e mito (Rio de Janeiro, 1983) de Erich Fromm.)

Era uma vez uma garota amada por todos que a olhavam, mas sobretudo pela avó, e não havia nada que esta não fizesse pela menina. Certa feita, deu-lhe um chapeuzinho de veludo vermelho, que ficou tão bem nela a ponto dela não querer mais usar outro qualquer; por isso, passou a ser chamada de “Chapeuzinho Vermelho”.
Um dia, a mãe lhe disse: “Vem cá, Chapeuzinho Vermelho, aqui você tem um pedaço de bolo e uma garrafa de vinho; leva-os para a sua avó, ela está doente e fraca, isso lhe fará bem. Vá andando antes de ficar muito quente, e no caminho anda direitinho e com cuidado sem se desviar da trilha, para não cair e quebrar a garrafa, pois aí sua avó ficará sem nada, e, quando entrar no quarto dela, não se esqueça de dizer “Bom dia”, e não fique olhando em todos os cantos antes de vaze-lo.”
“Terei todo o cuidado”, disse Chapeuzinho Vermelho à mãe, e estendeu a mão.
A avó vivia lá no Bosque, a meia légua da vila, e logo que Chapeuzinho entrou no bosque deparou com um lobo. Ela não sabia ser ele malvado, e por isso não teve medo nenhum dele.
“Bom dia, Chapeuzinho Vermelho”, ele falou.
“Muito agradecida, seu lobo.”
“Por que andou tão cedinho, Chapeuzinho?”
“Vou à casa da avozinha.”
“O que você leva aí no avental?”
“Bolo e vinho; ontem foi o dia de fazer bolos, e assim a pobre avozinha vai ter algo de bom para fazê-la mais forte.”
“Onde vive sua avó Chapeuzinho?”
“Um quarto de légua mais adiante, no bosque; a casa dela fica embaixo dos três grandes carvalhos, as nogueiras são logo depois – por certo você sabe onde é”, replicou Chapeuzinho Vermelho.
O lobo pensou consigo mesmo: “Mas que jovenzinha tenra! Que bom bocado deve ser! – será melhor devorá-la que à velha. Tenho de ser manhoso, para poder pegar as duas.” Assim matutando, caminhou algum tempo ao lado de Chapeuzinho Vermelho
depois falou: “Veja, Chapeuzinho, as flores lindas que há por aqui – por que você não dá uma olhada em torno? Também acredito que você não está escutando como os pássaros cantam tão docemente; você anda séria como se fosse para a escola, enquanto tudo o mais aqui no bosque é alegre.”
Chapeuzinho Vermelho ergueu os olhos e quando viu os raios de sol dançando aqui e ali através da folhagem e belas flores por toda a parte, pensou: “Se eu levasse para a vovó um ramalhete fresquinho, ela também iria ficar contente. Ainda é tão cedo que poderei chegar lá a tempo.” E assim ela saiu da trilha para o bosque à procura de flores. E, sempre que apanhava uma, achava outra adiante mais bonita ainda e corria até lá, e assim foi-se aprofundando cada vez mais no bosque.
Nesse ínterim, o lobo correu direto para a casa da avó e bateu à porta.
“Quem está aí?”
“Chapeuzinho Vermelho”, respondeu o lobo. “Trazendo bolo e vinho, abra a porta.”
“Levante o trinco”, gritou a avó, “estou muito fraca e não posso sair da cama.”
O Lobo suspendeu o trinco, a porta escancarou-se e, sem dizer palavra, ele se dirigiu para a cama da velha e devorou-a. Depois, vestiu-se com as roupas e o barrete dela, deitou-se na cama e correu as cortinas.
Chapeuzinho Vermelho, entrementes, estivera correndo dum lado para o outro pegando flores e depois de ter recolhido mais do que poderia carregar lembrou-se da avó e pôs-se a caminho da casa dela.
Ficou surpresa ao encontrar aberta a porta do bangalô e ao entrar no quarto teve uma sensação estranha, que a fez dizer para si mesma. “Ó meu Deus! Como estou me sentindo esquisita hoje, e de outras vezes sempre gostei tanto de estar com a vovó.” Ela bradou: “Bom dia”, mas não recebeu resposta; foi, então, até junto da cama e abriu as cortinas. Lá estava a avó com o barrete puxado sobre o rosto e com uma aparência bastante curiosa.
“Ó vovó”,disse ela, “que orelhas enormes você tem!”
“É para ouvir você melhor, minha filha”, foi a resposta.
“Mas vovó, que mãos enormes você tem!”
“Para abraçar melhor a você.”
“Ó vovó! Mas que boca horrível de grande você tem!”
“Para comer melhor a você.”
E, mal o lobo dissera isso, saiu da cama de um salto e engoliu Chapeuzinho Vermelho. Quando o lobo acalmou o apetite, deitou-se de novo na cama, adormeceu e começou a roncar muito alto. O caçador ia passando pela casa e pensou consigo: “Como a velha está roncando “Preciso ver se ela quer alguma coisa.” Entrou, então, no quarto e, ao aproximar-se da cama, viu ali deitado o lobo. “Não é que te vim encontrar aqui, seu diabo velho!” Aí, quando ia atirar nele, lembrou-se que talvez o lobo tivesse devorado a avó e ela pudesse ser ainda salva, e por isso não disparou, mas pegou uma tesoura e começou a abrir a barriga do lobo adormecido. Depois de dar duas tesouradas viu o chapeuzinho vermelho brilhando e deu mais duas, e a garotinha pulou fora, gritando: “Puxa, como eu estava com medo! Como é escuro dentro do lobo.” Em seguida, a velha avó saiu viva também, mas mal podendo respirar. Chapeuzinho vermelho, contudo, depressa, apanhou grandes pedras, com que encheram a barriga do lobo, e quando ele acordou e tentou fugir as pedras eram tão pesadas que ele caiu de vez e morreu.
Aí os três ficaram encantados. O caçador tirou a pele do lobo e levou-a para casa; a avó comeu o bolo e tomou o vinho que Chapeuzinho trouxera, e com isso reanimou-se, mas Chapeuzinho Vermelho pensou consigo: “Enquanto viver, nuca mais deixarei sozinha a trilha para entrar no bosque, quando mamãe me tiver proibido de fazer isso.”




(Conto extraído de Le Conte populaire français (Paris, 1976), de Paul Delarue e Marie-Louise Tenèze. In: O Grande Massacre se Gatos de Robert Darnton.)
Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e de leite para sua avó. Quando a menina ia caminhado pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe para onde se dirigia.
_ Para a casa de vovó – ela respondeu.
_ Por que caminhou você cai, o dos alfinetes ou o das agulhas?
_ O das agulhas.
Então o lobo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa. Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa e cortou sua carne em fatias, colocando tudo numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e ficou deitado na cama, à espera.
Pam, pam.
_ Entre, querida.
_ Olá vovó. Trouxe para a senhora um pouco de pão e de leite.
_ Sirva-se também de alguma coisa, minha querida. Há carne e vinho na copa.
A menina comeu o que lhe era oferecido e, enquanto o fazia, um gatinho disse: “menina perdida! Comer a carne e beber o sangue de sua avó!”
Então, o lobo disse:
Tire a roupa e deite-se na cama comigo.
Onde ponho meu avental?
_ Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dele.
Para cada peça de roupa – corpete, saia, anágua e meias – a menina fazia a mesma pergunta. E, a cada vez, o lobo respondia:
_ Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dela.
Quando a menina se deitou na cama, disse:
_ Ah, vovó! Como você é peluda!
_ É para me manter mais aquecida, querida.
_ Ah, vovó! Que ombros largos você tem!
_ É para carregar melhor a lenha, querida.
_ Ah, vovó! Como são compridas as suas unhas!
_ É para me coçar melhor, querida.
_ Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!
_ É para comer melhor você, querida.
E ele a devorou.




[1] DARTON, Robert. (2001). O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa. 4. ed. Graal: Rio de Janeiro., p.40
[2] Idem
[3] DARTON, Robert. (2001). O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa. 4. ed. Graal: Rio de Janeiro. p.42
[4] Idem. p.43

[5] DARTON, Robert. (2001). O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa. 4. ed. Graal: Rio de Janeiro. p. 44
[6] Idem, p. 47
[7] DARTON, Robert. (2001). O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa. 4. ed. Graal: Rio de Janeiro. p. 21
[8] FROMM, Erich. “A Linguagem Esquecida: Uma Introdução ao Entendimento dos Sonhos, Contos de Fadas e Mitos”, 1983, Ed. Guanabara Koogan, p. 175.
[9] Idem
[10] DARTON, Robert. (2001). O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa. 4. ed. Graal: Rio de Janeiro., p. 25
[11] Idem, p. 26
[12] Idem, p. 24
[13] DARNTON, Robert. “O Grande Massacre de Gatos”, 2001, Rio de Janeiro, Ed.Graal, p. 32

DARTON, Robert. (1986). O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa. 4. ed. Graal: Rio de Janeiro. p. 47 e 48
[15] Teoria de Thomas Malthus que diz que os meios de subsistência crescem em progressão aritmética (em toneladas de alimentos), enquanto a população cresce em progressão geométrica (em milhões de pessoas).
[16] DARTON, Robert. (1986). O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa. 4. ed. Graal: Rio de Janeiro. p. 48
[17] DARTON, Robert. (1986). O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa. 4. ed. Graal: Rio de Janeiro. p. 51
[18] P. 51 e 52
[19] DARTON, Robert. (1986). O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa. 4. ed. Graal: Rio de Janeiro. P. 54
[20] P. 55
[21] DARTON, Robert. (1986). O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa. 4. ed. Graal: Rio de Janeiro. p. 54
[22]DARTON, Robert. (1986). O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa. 4. ed. Graal: Rio de Janeiro. P. 79
[23]ELIAS, Norbert. (1994). O Processo Civilizador: Uma História dosCostumes. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro
[24] Idem. P.179
[25] DARTON, Robert. (1986). Op cit. p.113. p. 109
[26] Id. p.113.
[27] DARTON, Robert. (1986). Op cit. p.113.
[28] Id. p. 120
[29] Id. pp.120-121.
[30] Id. p. 123.
[31] DARTON, Robert. (1986). Op cit. pp.125-126-127-128.
[32] DARTON, Robert. (1986). Op cit. p.130.
[33] Id. p.131.
[34] Id. p.131.
[35] Id. p.131.
[36] Id. p.132.
[37] DARTON, Robert. (1986). Op cit. pp.134-135.
[38] BENJAMIN, Walter. (1987). Magia e Técnica, Arte e Política. 3. ed. Brasiliense: São Paulo. p. 236.
[39] BENJAMIN, Walter. (1987). Op. Cit. p. 237.
[40] Id. p. 238.
[41] Id. p. 243.
[42] Id.p. 243.

domingo, janeiro 06, 2008

A Usina Cultural de Chã de Camará

A primeira semana deste ano foi, para mim, bastante agradável, apesar das notícias vindas de Brasília, dando conta de aumento de tributos e da quase decisão do governo federal em não cumprir o acordo que garante um mínimo de respeito aos professores universitários, a mais mal paga categoria de servidores federais. Mas esses são comportamentos comuns aos ex-sindicalistas que estão aboletados nos espaços do poder central. Nada de novo.

Mas, como dizia, o ano começou bem porque tive a oportunidade de participar na Casa da Rabeca do Brasil de uma festa da cultura brasileira. A casa fundada pelo Mestre Salustiano trouxe o Coco de Zambé do Rio Grande do Norte, o Tambor de Creolas do Maranhão, Tetê do Cacuriá, também do Maranhão, além de expressões da cultura brasileira produzida em Pernambuco. Essas trocas de informações entre as diversas partes do Brasil nos auxiliam a continuar construindo a nação. As danças e os ritmos que vimos, ouvimos e dançamos nos remetem para momentos interessantes do processo de nossa formação, da reinvenção do cotidiano e da construção de aspectos de nossa sensibilidade e sensualidade. Deveríamos viver mais de perto essas experiências de nossos antepassados, de modo a introjetá-las sem os ranços que nos são oferecidos por uma visão dominantemente européia, negadora do Brasil enquanto possibilidade de criatividade e inovação.

Um outro motivo é estar acompanhando a Usina Cultural do Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança, especialmente o que está ocorrendo a cada sábado. Ali, na Chã de Camará, sete quilômetros distante do centro do Município de Aliança, três jovens estudantes universitárias ( história e Geografia) acompanham crianças e mulheres que vivem na Chã de Camará. Agora Wanessa já está promovendo a integração de uma dúzia de crianças com atividades no interior da Biblioteca Mestre Batista, já sem espaço para receber tantas crianças. Por isso as atividades são levadas para o terreiro, com brincadeiras e atividades físicas. Sinto que Wanessa está precisando de uma pessoa para auxilia-la nessa tarefa com as crianças. Mas enquanto as crianças estão sendo acompanhadas por Wanessa, no interior da casa , Suzana e Bárbara conversam com as mulheres enquanto fazem artesanato. Os assuntos são o cotidiano feminino e, ao mesmo tempo a preocupação com o futuro e pensar como organizar uma pequena cooperativa. Neste sábado eram oito as mulheres que trabalhavam reutilizando jornais. Essas pequenas ações da Usina Cultural podem gerar novas possibilidades para mulheres que nasceram e cresceram na palha da cana, com tudo que isso pode significar de positivo e negativo.

A Usina Cultural continua com a feitura de chapéus sob a orientação do Mestre Luz Caboclo. No Stúdio Mestre Duda, Ederlan cuida dos computadores e da cópia para prensagem dos discos que estão sendo gravados ali. No terreiro, ao final da tarde, rapazes jogam futebol, cuidando da saúde. Mas bem que precisamos de mais voluntários!

Foi uma boa semana.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Sugestões de temas para estudar durante o ano

Neste segundo dia do 2008, ano que será de eleições municipais, quero lembrar que, além dos 200 anos da transferência do centro do império português de Lisboa para o Rio de janeiro, este também é o ano que devemos lembrar os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, uma proclamação da Organização das Nações Unidas.

Este também é o ano que deveremos pensar nos 40 anos da Revolta dos Jovens em Paris, México, Tchecoeslováquia, e até mesmo a Passeata dos Cem mil no Rio de Janeiro, além da edição do Ato Institucional de número 5. Os católicos também podem refletir sobre o significado e a aimportância dos Documentos de Medelin.

Os professores de história contemporânea, de história do Brasil, de história da Igreja, de história da América Latina possuem espaços para promover debates e atualizar a memória das novas gerações, com temas capazes de motivar até mesmo o jovens mais velhos, aqueles que eram jovens no final da década de sessenta. Taí uns pontos para diversas reuniões, estudos e pequisas.