Estou postando um artigo que foi publicado no Jornal A PROVÍNCIA, da cidade de Goiana, PE, de número 177m referente ao mês de Janeiro de 2008. O texto está na página 10 dessa edição, que tem o seguinte endereço eletrônico: jornalaprovincia@yahoo.com.br
O CARNAVAL NA NUNES MACHADO[1]
Severino Vicente da Silva
Nem sempre tomamos consciência da importância em vivermos em uma cidade que tem sua história confundida, não apenas com a vida dos seus habitantes, mas com a história do estado e do país e, mais especialmente, com a construção da nação. Sabemos que são poucas as cidades que gostariam de serem reconhecidas como históricas embora históricas todas já o sejam. É que, o reconhecimento de cidade histórica, as tornaria visíveis para os demais membros da grande sociedade que forma o estado e país, uma vez que todos passariam a olhar essa cidade com maior carinho; assim como em uma família se olha o avó e a avó, como membros mais velhos, mais experientes, ordenadores primeiros da família. Ora, essa situação, para além do prestígio, traz consigo responsabilidade que cidades surgidas mais recentemente, muitas vezes como resultado do crescimento da mais velha, não carecem de ter. Ser uma cidade histórica é ser referência, é ser responsável para garantir a continuidade de uma tradição.
Esta é a situação acima descrita é a de Goiana, uma cidade com patrimônio cultural que deve ser elevada, como a sua colega Olinda, a Patrimônio Nacional. Nascida na Capitania de Itamaracá, a vila de Goiana teve que disputar o lugar de sede da capitania com a Vila da Conceição, hoje pertencente ao município de Itamaracá. Nazaré teve uma importância excepcional por conta de seu porto, mas foi a vila de Goiana, crescida na várzea dos rios Tracunhaém e Capibaribe Mirim, assumiu importância maior por conta do porto interno, recebedor das mercadorias descidas desde o Vale do Siriji e mesmo das terras mais próximas da Paraíba. Era a riqueza da produção e comércio da farinha, do açúcar, do algodão que, durante anos, navegou os rios goianenses, que trouxe a visita de Pedro II às suas terras. Mesmo a ferrovia que fez diminuir a importância do porto, não destruiu de imediato a sociedade surgida pelo cultivo da cana, mas também da produção têxtil. Foi com a vitória da monocultura canavieira, não só em Goiana, mas em toda a Mata Norte de Pernambuco que a cidade perdeu o brilho dos tempos de Manuel Borba. Andar em Goiana, fazendo o olhar girar, subir, descer as paredes de seus casarões antigos, não apenas das igrejas e conventos, nos faz perceber o quanto foi criado pelos homens e mulheres que viveram e construíram a cidade. Cabe a quem vive nela hoje preservar, o que não significa estabelecer o passado como modelo, pois os avós, enquanto viveram adaptaram as suas vidas e os seus valores para que sobrevivessem, para que continuassem a criar a vida.
A vida de uma planta começa a acabar quando ela não busca nas próprias raízes e no solo onde se está os nutrientes necessários à sua vida, quando ela é retirada do seu solo ou quando lhe retiram o solo. Uma sociedade é capaz de se manter na medida em que acolhe outras influências sem negar a sua essência. Vez por outra nos esquecemos disso e destruímos, às vezes sem consciência, aquilo que fez de nós o que nós somos. E, quando somos uma cidade que é símbolo da formação do nosso país, as instituições que protegem o patrimônio que é comum de todos vêm nos auxiliar e lembrar de nossa responsabilidade na manutenção do patrimônio cultural comum, seja o patrimônio material, seja o patrimônio imaterial. Este ano Goiana viu-se na contingência de reorganizar a sua maneira de manter uma das tradições brasileiras, o carnaval com poucas restrições. O que hoje é o nosso carnaval vem sendo construído desde o final do século XIX, mas explicitamente após 1888. O carnaval brasileiro tomou as características que tem hoje ao longo da República, um regime de homens e mulheres livres para exercer a liberdade e a criatividade. O fim das cadeias que impunham limites aos espaços geográficos aos escravos, o fim do Império, que impunha limites sociais aos “súditos”, fizeram nascer quase duzentos anos as características brasileiras que, como sói esperar, tem as suas especificidades locais. O espírito é de liberdade, mas ela toma forma em cada situação histórica e geográfica. Goiana tem as suas próprias, desde as Pretinhas do Congo, o Coco, as Orquestras, os clubes como Os Lenhadores, os Maracatús, os Caboclinhos, os bailes de clube, as procissões religiosas, os quitutes Culinários, tudo isso e muito mais, além das belezas naturais.
Um sistema cultural garante a preservação de todas as suas partes, quando a utilização de um novo artefato cultural põe em risco as demais partes do sistema cultural é necessário que se tome medidas para evitar a destruição daquela parte mais frágil, quase sempre aqueles bens materiais já desgastados pelo tempo, mas que são a testemunha cultural dos nossos ancestrais modos de viver. Assim, foi muito interessante ver o carnaval de Goiana desfilar na rua Nunes Machado, um a rua que lembra um dos heróis pernambucanos, herói de nossa história, um dos grandes goianenses que pagou com a vida o seu compromisso com a sua gente e com uma pátria livre, autônoma e consciente da grandeza de suas tradições. Nunes Machado não se deixou por novidades passageiras, mas se ateve às raízes de seu povo e sua cultura.
[1] Escrito especialmente para o jornal A PROVÍNCIA, Goiana.
[2] Historiador, professor adjunto do Departamento de História da UFPE. Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte, sócio do Instituto Histórico de Olinda, tem ministrado cursos no programa de Pós-Graduação Latu Senso da FFPG, atua como assessor pedagógico no Ponto de Cultura Maracatu Estrela de Ouro de Aliança. Publicou A IGREJA E A QUESTÃO AGRÁRIA NO NORDESTE(Edições Paulinas, 1986) IGREJA E O CONTROLE SOCIAL NOS SERTÕES NOORDESTINOS (Paulinas, 1988), ZUMBI DOS PALMARES (Paulinas, 1992), FESTA DE CABOCLO (Edições REVIVA,2005). ENTRE O TIBRE E CAPIBARIBE: OS LIMITES DA IGEJA PROGRESSISTA NA ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE (Editora da UFPE, Edições REVIVA, 2006), além de artigos publicados em revistas científicas.
sexta-feira, fevereiro 15, 2008
terça-feira, fevereiro 12, 2008
o dinheiro de plástico no absoluto e a fumaça de um charuto na democracia
A cada dia, que nos é dado viver, nos deparamos com a capacidade da vida nos surpreender. É que cada dia é uma surpresa, um conjunto de momentos únicos, com algo que lhe é específico, embora faça parte de uma continuidade que nos permite reconhecer o mundo, com suas formas, pessoas, luzes e cores.. O específico do cotidiano é a surpresa, a novidade permanente e que fará desse dia, tão parecido fisicamente com os já vividos, ser o único em toda a nossa existência. Guardar o que é específico de cada dia é o que nos enche a memória que, misturada com as ocorrências corriqueiras complementam a nossa existência e nos auxilia a dar significado a ela. Quando pensamos a história, pensamos sempre nesses momentos únicos, irrepetíveis, que mudam significativamente a perspectiva que se possuía do mundo. Em nossa vida os atos são irrepetíveis, mas nem todos modificam o curso de nossas vidas.
Quando ocorreu a eleição de Luiz Inácio da Silva muitos disseram que estávamos vivendo um momento histórico, o que tem se comprovado. A presença de Luiz Inácio da Silva criou possibilidades novas para os que formam o Brasil. Passaríamos a ser governados por segmentos da sociedade que sempre foram governados. Um migrante, um metalúrgico desatento, aposentado precocemente por acidente de trabalho no qual perdeu o mais importante dos dedos de uma mão, o mínimo, chegava ao poder, conduzido pelas esperanças de muitas gerações.
Esperava-se muito daquele líder sindical, forjado em muitas lutas, cursos de lideranças, construtor de muitas amizades e garantidor de uma nova moralidade na vida pública. Os grandes problemas daqueles que cultivam a áurea da santidade em vida é que, mais cedo ou mais tarde os fariseus começam a encontrar ações que o tornam tão fariseu quanto aos que ele criticava. Vez por outra isso acontece, não somente porque os fariseus procuram, mas porque encontram o procuram.
A maioria das pessoas vive com o seu salário. Se quiserem um pouco mais têm que mudar de emprego ou fazer um bico por fora, nas horas que deviam dedicar ao lazer. No Brasil instituiu-se, não de hoje, a “sinecura”. É aquele emprego que não exige trabalho.
Os tempos mudam e as coisas se aperfeiçoam, especialmente para os que se dedicam à difícil tarefa de “fazer política”. Foi instituído um salário para os políticos com o objetivo de abrir possibilidade para os não ricos poderem também participar da criação das leis que regem a sociedade. Uma República não pode ser apenas dos patrícios, como a de Roma antiga, considerando "patrício" apenas os que são donos das terras da pátria. Mas nossos políticos têm muita imaginação. Primeiro conseguiram um salário maior do que o da população; segundo estabeleceram que precisavam de uma roupa melhor e o salário não dava para comprar, estabeleceram um “auxílio paletó”; depois pensaram que precisavam de funcionários para os auxiliar a pensar, e foi-lhe concedidos funcionários públicos concursados; mas eles começaram a dizer que tinham que ter gente de confiança e criou-se uma “verba de gabinete” e a permissão de trazer para o serviço público quem fosse de sua confiança pessoal; depois criou-se uma verba “idenizatória” que é para pagar despesas com viagens. Evidentemente todos os demais trabalhadores têm que arcar com essas despesas utilizando o seu salário. Mais recentemente, desde 2001, criou-se um cartão de crédito “corporativo” (o Estado é uma corporação?) a ser usado para fazer frente a pequenas despesas do governo.
A novo moralizador parece que andou utilizando esse cartão “corporativo” para despesas que deveriam ser pagas com o cartão de crédito pessoal. Parece que o chefe tem mantido os mesmos hábitos de alguns dos seus ministros. Quando isso começou a ser discutido, foi celebrado um acordo para salvar o chefe, como se salvou Renan Calheiros. E, mais uma vez, nós ficaremos sem saber o que realmente tem sido feito com o nosso dinheiro. Tudo isso é porque, como nós sabemos, nas monarquias absolutas o que ocorre com a família real não é de interesse dos súditos.
Pelo menos parece que Bill Cliton pagou o charuto, embora tenha perdido a estagiária. Coisas da Democracia!!!
Quando ocorreu a eleição de Luiz Inácio da Silva muitos disseram que estávamos vivendo um momento histórico, o que tem se comprovado. A presença de Luiz Inácio da Silva criou possibilidades novas para os que formam o Brasil. Passaríamos a ser governados por segmentos da sociedade que sempre foram governados. Um migrante, um metalúrgico desatento, aposentado precocemente por acidente de trabalho no qual perdeu o mais importante dos dedos de uma mão, o mínimo, chegava ao poder, conduzido pelas esperanças de muitas gerações.
Esperava-se muito daquele líder sindical, forjado em muitas lutas, cursos de lideranças, construtor de muitas amizades e garantidor de uma nova moralidade na vida pública. Os grandes problemas daqueles que cultivam a áurea da santidade em vida é que, mais cedo ou mais tarde os fariseus começam a encontrar ações que o tornam tão fariseu quanto aos que ele criticava. Vez por outra isso acontece, não somente porque os fariseus procuram, mas porque encontram o procuram.
A maioria das pessoas vive com o seu salário. Se quiserem um pouco mais têm que mudar de emprego ou fazer um bico por fora, nas horas que deviam dedicar ao lazer. No Brasil instituiu-se, não de hoje, a “sinecura”. É aquele emprego que não exige trabalho.
Os tempos mudam e as coisas se aperfeiçoam, especialmente para os que se dedicam à difícil tarefa de “fazer política”. Foi instituído um salário para os políticos com o objetivo de abrir possibilidade para os não ricos poderem também participar da criação das leis que regem a sociedade. Uma República não pode ser apenas dos patrícios, como a de Roma antiga, considerando "patrício" apenas os que são donos das terras da pátria. Mas nossos políticos têm muita imaginação. Primeiro conseguiram um salário maior do que o da população; segundo estabeleceram que precisavam de uma roupa melhor e o salário não dava para comprar, estabeleceram um “auxílio paletó”; depois pensaram que precisavam de funcionários para os auxiliar a pensar, e foi-lhe concedidos funcionários públicos concursados; mas eles começaram a dizer que tinham que ter gente de confiança e criou-se uma “verba de gabinete” e a permissão de trazer para o serviço público quem fosse de sua confiança pessoal; depois criou-se uma verba “idenizatória” que é para pagar despesas com viagens. Evidentemente todos os demais trabalhadores têm que arcar com essas despesas utilizando o seu salário. Mais recentemente, desde 2001, criou-se um cartão de crédito “corporativo” (o Estado é uma corporação?) a ser usado para fazer frente a pequenas despesas do governo.
A novo moralizador parece que andou utilizando esse cartão “corporativo” para despesas que deveriam ser pagas com o cartão de crédito pessoal. Parece que o chefe tem mantido os mesmos hábitos de alguns dos seus ministros. Quando isso começou a ser discutido, foi celebrado um acordo para salvar o chefe, como se salvou Renan Calheiros. E, mais uma vez, nós ficaremos sem saber o que realmente tem sido feito com o nosso dinheiro. Tudo isso é porque, como nós sabemos, nas monarquias absolutas o que ocorre com a família real não é de interesse dos súditos.
Pelo menos parece que Bill Cliton pagou o charuto, embora tenha perdido a estagiária. Coisas da Democracia!!!
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
um aniversário e três mestres
Quinta Feira das Cinzas, o caminho da Quaresma está aberto após os dias das folias momescas, das alegrias e dos risos, abraços e beijos trocados com quem nunca vimos e, pode ser, que jamais vejamos novamnete. Foi a celebração outonal do nosso hemisfério, mas com a alegria primaveril dos trópicos, sempre nessa verdura, como ouvi o padre Nércio Rodrigues dizer várias vezes.
O padre Nércio sempre vestia branco. As vestes sempre brancas de meu professor de Sagrada Escritura eram como uma lembrança de sua promessa batismal e sacerdotal. O mesmo eu posso dizer do abraço e do riso largo de Dom Hélder Câmara, cujo data de aniversário, vez por outra, vinha um pouco depois do carnaval, como aconteceu neste ano do centenário do seu nascimento. O riso e os braços abertos do Dom sempre lembram o abraço do Pai, a certeza de que todos os dias são dias de alegria, pois que cada dia traz a alegria da vida, a pureza do dom.
Conheci Dom Hélder no dia em que ele tomou posse como arcebispo da Igreja de Olinda e Recife. Era um período de incerteza que, na ingenuidade de meus catorze anos, só mais tarde, porém não muito, vim a compreender. Dom Hélder chegava na nossa Igreja após o pequeno governo de Dom Carlos Gouveia Coelho, co-fundador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Esses dois bispos, juntamente com Dom José Távora, eram os nordestinos que vinham desenvolvendo uma consciência social entre os prelados brasileiros. Dom Eugênio Sales, na arquidiocese de Natal também apontava para as responsabilidades sociais dos católicos. Foi de dom Eugênio a idéia da Campanha da Fraternidade, que era uma semana mas que tomou toda a Quaresma quando a CNBB a assumiu como sua.
Na co-catedral de São Pedro dos Clérigos, a 12 de abril de 1964, todos ouvimos Dom Hélder dizer que “no Nordeste Jesus tem o nome de Biu, Zé, ....” Mesmo depois dos anos de Dom Carlos, que jamais abriu mão da púrpura episcopal, mas que tinha uma relação de brandura com o seu povo, ouvir as palavras de Dom Hélder, era como receber, pela primeira vez, o entendimento do que é o mistério da encarnação. E foi assim por muitos anos na convivência com Dom Hélder.
A Dom Carlos Coelho eu conheci quando estudante no Seminário Menor da Várzea, que ele sempre visitava, especialmente na preparação da Primeira Sessão do Concílio Vaticano II, pois ele sempre levava os bispos que vinham tomar o avião no então muito internacional Aeroporto dos Guararapes. Sendo seminarista menor, minha relação com Dom Carlos Coelho foi bastante filial. Com Dom Hélder o relacionamento, além de filial, caminhou para a amizade, a companhia em almoços, ora na casa de papai e mamãe, ali em Nova Descoberta, ora em um pequeno restaurante próximo ao Palácio dos Manguinhos. Foram muitas as oportunidades de proximidade com o Dom, embora não fosse mais seminarista, mas um católico militante na minha paróquia e no setor de Casa Amarela.
Neste aniversário de Dom Hélder, no início da Quaresma, parece que escuto-lhe dizer ser este um período especial para “nos aproximarmo-nos do Pai”, quase me lembrando as aulas do padre Nércio Rodrigues sobre a sabedoria de Deus parecer loucura para os homens.
á faz algum tempo que esses três mestres estão vivendo a realidade da Ressurreição, e é necessário que os que os conhecemos e com eles tivemos o privilégio de viver, sempre falemos de sua importância para a sociedade humana. Nenhum deles era paroquial ou provinciano. Suas cidadanias eram universais, como o amor que dispensaram àqueles que com eles conviveram.
O padre Nércio sempre vestia branco. As vestes sempre brancas de meu professor de Sagrada Escritura eram como uma lembrança de sua promessa batismal e sacerdotal. O mesmo eu posso dizer do abraço e do riso largo de Dom Hélder Câmara, cujo data de aniversário, vez por outra, vinha um pouco depois do carnaval, como aconteceu neste ano do centenário do seu nascimento. O riso e os braços abertos do Dom sempre lembram o abraço do Pai, a certeza de que todos os dias são dias de alegria, pois que cada dia traz a alegria da vida, a pureza do dom.
Conheci Dom Hélder no dia em que ele tomou posse como arcebispo da Igreja de Olinda e Recife. Era um período de incerteza que, na ingenuidade de meus catorze anos, só mais tarde, porém não muito, vim a compreender. Dom Hélder chegava na nossa Igreja após o pequeno governo de Dom Carlos Gouveia Coelho, co-fundador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Esses dois bispos, juntamente com Dom José Távora, eram os nordestinos que vinham desenvolvendo uma consciência social entre os prelados brasileiros. Dom Eugênio Sales, na arquidiocese de Natal também apontava para as responsabilidades sociais dos católicos. Foi de dom Eugênio a idéia da Campanha da Fraternidade, que era uma semana mas que tomou toda a Quaresma quando a CNBB a assumiu como sua.
Na co-catedral de São Pedro dos Clérigos, a 12 de abril de 1964, todos ouvimos Dom Hélder dizer que “no Nordeste Jesus tem o nome de Biu, Zé, ....” Mesmo depois dos anos de Dom Carlos, que jamais abriu mão da púrpura episcopal, mas que tinha uma relação de brandura com o seu povo, ouvir as palavras de Dom Hélder, era como receber, pela primeira vez, o entendimento do que é o mistério da encarnação. E foi assim por muitos anos na convivência com Dom Hélder.
A Dom Carlos Coelho eu conheci quando estudante no Seminário Menor da Várzea, que ele sempre visitava, especialmente na preparação da Primeira Sessão do Concílio Vaticano II, pois ele sempre levava os bispos que vinham tomar o avião no então muito internacional Aeroporto dos Guararapes. Sendo seminarista menor, minha relação com Dom Carlos Coelho foi bastante filial. Com Dom Hélder o relacionamento, além de filial, caminhou para a amizade, a companhia em almoços, ora na casa de papai e mamãe, ali em Nova Descoberta, ora em um pequeno restaurante próximo ao Palácio dos Manguinhos. Foram muitas as oportunidades de proximidade com o Dom, embora não fosse mais seminarista, mas um católico militante na minha paróquia e no setor de Casa Amarela.
Neste aniversário de Dom Hélder, no início da Quaresma, parece que escuto-lhe dizer ser este um período especial para “nos aproximarmo-nos do Pai”, quase me lembrando as aulas do padre Nércio Rodrigues sobre a sabedoria de Deus parecer loucura para os homens.
á faz algum tempo que esses três mestres estão vivendo a realidade da Ressurreição, e é necessário que os que os conhecemos e com eles tivemos o privilégio de viver, sempre falemos de sua importância para a sociedade humana. Nenhum deles era paroquial ou provinciano. Suas cidadanias eram universais, como o amor que dispensaram àqueles que com eles conviveram.
segunda-feira, fevereiro 04, 2008
Os carnavais do passado presentes
Nesta segunda feira de carnaval, em casa, dois pensamentos me assaltaram e, no final vejo que os dois confluem. Um deles é como nos metemos no carnaval de maneira diversas e, depois nos aproximamos dos mementos que a ele e nele chegamos, Leio as crônicas sobre os carnavais de antigamente e elas são repletas de melancolia e saudade. Estou escrevendo sobre o carnaval hoje porque brinco de maneira diversa da forma que o vivia no passado. No carnaval de 1977 eu estava com Tereza fazendo cordão de isolamento, um cordão humano, feito com os nossos corpos, protegendo a orquestra de Elefantes, caminhando aos passos do frevo em direção dos Quatro Cantos. Tereza estava grávida de cinco meses de nosso filho Ângelo. Mas sempre fomos amantes das duas grandes agremiações, por isso íamos com a orquestra da Pitombeira, que sempre teve uma população de foliões mais atrevidos e mais “tradicionais”. Sempre queríamos fazer parte daquele cordão de isolamento: poderíamos ouvir a música e ficar protegido com a proteção que dávamos. Foi um belo carnaval todos estávamos felizes, inclusive o nosso filho que ainda não sabíamos qual o sexo que teria. Em vários outros carnavais foi da mesma alegria. Sempre saí fantasiado de mim mesmo: sapato conga, meias, bermuda e camisa. Às vezes punha uma peruca. Anonimamente fazíamos nosso carnaval em Olinda. Na terça feira era o desfile na Avenida Getúlio Vargas e, nosso estacionamento de descanso era a casa de seu Paulo e Dona France, os pais de Tereza, ali na Cândido Pessoa.
Essas lembranças que chegaram enquanto me preparo para sair em direção à Guadalupe e Amparo é que me levaram ao pensamento do protagonismo dos anônimos. Em um dos recentes programas QUE HISTÓRIA É ESSA, na entrevista com o professor Marcus Carvalho eu ouvi dele uma expressão assim: “gosto de escrever a história dessas pessoas que não mudaram a história, como Lampião, pois o que ocorreu ocorreria independente de sua existência”. É assim o carnaval: ele existe independente de participação de um folião especificamente, mas só existe porque muitos anônimos assumem o papel de protagonista do carnaval e fazem a história do carnaval.
É verdade que quase ao há registro dos nomes dos músicos que tocaram nas orquestras de Elefantes e de Pitombeira naquele ano de 1977 (com quase certeza podemos dizer que não os há), mas sabemos que elas existiram, que produziram música; também não há registro de quantos foliões puseram seus corpos para proteger aquelas orquestras (como aliás ainda se faz nos dias de hoje), mas sabemos que esses cordões surgem “naturalmente” e são respeitados pelos foliões. O carnaval é isso, é a personalização coletiva dos anônimos, com as suas alegrias, seus desejos, seus sofrimentos, suas lembranças, suas saudades, como a minha, que agora vou para as ruas de Guadalupe e Amparo carregando a saudade do carnaval de 1977 e tudo que nele vivi.
Essas lembranças que chegaram enquanto me preparo para sair em direção à Guadalupe e Amparo é que me levaram ao pensamento do protagonismo dos anônimos. Em um dos recentes programas QUE HISTÓRIA É ESSA, na entrevista com o professor Marcus Carvalho eu ouvi dele uma expressão assim: “gosto de escrever a história dessas pessoas que não mudaram a história, como Lampião, pois o que ocorreu ocorreria independente de sua existência”. É assim o carnaval: ele existe independente de participação de um folião especificamente, mas só existe porque muitos anônimos assumem o papel de protagonista do carnaval e fazem a história do carnaval.
É verdade que quase ao há registro dos nomes dos músicos que tocaram nas orquestras de Elefantes e de Pitombeira naquele ano de 1977 (com quase certeza podemos dizer que não os há), mas sabemos que elas existiram, que produziram música; também não há registro de quantos foliões puseram seus corpos para proteger aquelas orquestras (como aliás ainda se faz nos dias de hoje), mas sabemos que esses cordões surgem “naturalmente” e são respeitados pelos foliões. O carnaval é isso, é a personalização coletiva dos anônimos, com as suas alegrias, seus desejos, seus sofrimentos, suas lembranças, suas saudades, como a minha, que agora vou para as ruas de Guadalupe e Amparo carregando a saudade do carnaval de 1977 e tudo que nele vivi.
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
os tempos do carnaval
Finalmente o carnaval vai ter início amanhã, caso o tempo fosse o mesmo que fez surgir um frevo canção de Nelson Ferreira que dizia: Carnaval só tem três dias, foi um anjo que criou! Era o tempo em que o Carnaval começava no Sábado do Zé Pereira e terminava na Quarta Feira de Cinzas, o que fez aparecer uma outra canção chamando aquele dia Quarta Feira Ingrata que sempre chegava com muita pressa fazendo sofrer o verdadeiro pernambucano que esperava um ano para cair no frevo. Esses carnavais são passados, são do passado. Antes eram três dias e o ano, agora parece ser um ano e três dias.
Em todos os lugares o carnaval já começou, faz tempo. Antes mesmo da Queima da Lapinha, os ensaios de blocos já estavam ocorrendo, não em espaços fechados, mas em plena rua, quase todas as noites. O Carnaval não mais é apenas um momento em que o mundo fica de “ponta cabeça” mas, quem sabe, esteja se tornando o momento da normalidade. Todos querem iniciar o carnaval antes de todos. O governo de Pernambuco iniciou o carnaval uma semana antes do Zé Pereira, e em Olinda já é carnaval desde então. Por outro lado a prefeitura do Recife inicia carnaval hoje, sexta feira, na praça do Marco Zero, com o toque dos maracatus comandados por Nana Vasconcelos e a orquestra de frevo comandada pelo Maestro Formiga. Mas, todos sabemos, que já ocorreram desfiles de “virgens, catraias, touros” nos dois últimos domingos. Já há loucura suficiente para todos, pois até o Galo da Madrugada, que saía na Madrugada do Sábado, tem desfile ensaio oficial na noite da quinta-feira, ao contrário, bem carnavalescamente.
O meu carnaval tem início, ou tinha, no encontro do Nóis Sofre Mas Nóis Goza, na rua Sete de Setembro, desde 1976, o mais antigo dos blocos anárquicos, que anunciaram o final da ditadura militar. O famoso Galo foi a organização que dominou os demais: Língua Ferina, Eu Acho é Pouco, Siri na Lata. O Galo papou a todos com o seu jeito de carnaval veneziano, com os mais ricos desfilando enquanto a “rafa meia” fica ajuntada numa imensa lata de sardinha, nas ruas centenárias do Recife. O Galo modificou o sábado de Zé Pereira, esse ultrapassado folião dos tempos dos carnavais românticos, forçando a madrugada chegar cada vez mais tarde, este ano marcada para as nove e meia da manhã, quando os carros alegóricos começarão a sair da Padre Floriano. Sou um dos dinausauros do Nóis Sofre mas Nóis Goza.
Nesta sexta feira já farei figura no Pólo dos Pontos de Cultura, ali no Largo do Guadalupe, em Olinda, e andarei nas ruas de Olinda até assistir a apresentação de Alceu Valença. Amanhã depois do Nóis Sofre, o caminho será o de Goiana para, na madrugada do Domingo fazer a caçada do bode, o ritual inicial dos caboclinhos, com a Tribo Canidé de Goiana.
Bom Carnaval para Todos. E todos sabem que, desde os tempos gloriosos dos anos oitenta, o carnaval não pára quando chega a Quarta Feira Ingrata, pois ainda tem Segura a Coisa, Encontro dos Bois na Rua da Hora e, uma semna depoistem o pessoal da polícia. O baile dos Garçons ainda existe e é depois da folia.
Em todos os lugares o carnaval já começou, faz tempo. Antes mesmo da Queima da Lapinha, os ensaios de blocos já estavam ocorrendo, não em espaços fechados, mas em plena rua, quase todas as noites. O Carnaval não mais é apenas um momento em que o mundo fica de “ponta cabeça” mas, quem sabe, esteja se tornando o momento da normalidade. Todos querem iniciar o carnaval antes de todos. O governo de Pernambuco iniciou o carnaval uma semana antes do Zé Pereira, e em Olinda já é carnaval desde então. Por outro lado a prefeitura do Recife inicia carnaval hoje, sexta feira, na praça do Marco Zero, com o toque dos maracatus comandados por Nana Vasconcelos e a orquestra de frevo comandada pelo Maestro Formiga. Mas, todos sabemos, que já ocorreram desfiles de “virgens, catraias, touros” nos dois últimos domingos. Já há loucura suficiente para todos, pois até o Galo da Madrugada, que saía na Madrugada do Sábado, tem desfile ensaio oficial na noite da quinta-feira, ao contrário, bem carnavalescamente.
O meu carnaval tem início, ou tinha, no encontro do Nóis Sofre Mas Nóis Goza, na rua Sete de Setembro, desde 1976, o mais antigo dos blocos anárquicos, que anunciaram o final da ditadura militar. O famoso Galo foi a organização que dominou os demais: Língua Ferina, Eu Acho é Pouco, Siri na Lata. O Galo papou a todos com o seu jeito de carnaval veneziano, com os mais ricos desfilando enquanto a “rafa meia” fica ajuntada numa imensa lata de sardinha, nas ruas centenárias do Recife. O Galo modificou o sábado de Zé Pereira, esse ultrapassado folião dos tempos dos carnavais românticos, forçando a madrugada chegar cada vez mais tarde, este ano marcada para as nove e meia da manhã, quando os carros alegóricos começarão a sair da Padre Floriano. Sou um dos dinausauros do Nóis Sofre mas Nóis Goza.
Nesta sexta feira já farei figura no Pólo dos Pontos de Cultura, ali no Largo do Guadalupe, em Olinda, e andarei nas ruas de Olinda até assistir a apresentação de Alceu Valença. Amanhã depois do Nóis Sofre, o caminho será o de Goiana para, na madrugada do Domingo fazer a caçada do bode, o ritual inicial dos caboclinhos, com a Tribo Canidé de Goiana.
Bom Carnaval para Todos. E todos sabem que, desde os tempos gloriosos dos anos oitenta, o carnaval não pára quando chega a Quarta Feira Ingrata, pois ainda tem Segura a Coisa, Encontro dos Bois na Rua da Hora e, uma semna depoistem o pessoal da polícia. O baile dos Garçons ainda existe e é depois da folia.
terça-feira, janeiro 29, 2008
Pílulas, bispos: questões de éticas amazônicas
Estamos chegando no final da semana pré-carnavalesca e, ao que tudo indica, a crise entre a Arquidiocese de Olinda e Recife e a Prefeitura do Recife está chegando a um entendimento.
Infelizmente o bispo não entende que a sua autoridade é religiosa e tem validade apenas para os da sua Igreja. Como militante de sua religião ele pode recorrer ao Ministério Público para chamar atenção às suas idéias e influenciar a sociedade. O mesmo pode ser feito por outras igrejas e religiões, como as que pretendem acabar com o feriado de 12 de outubro e os que querem criar o dia da consciência evangélica, similiar à consciência negra. Os religiosos adoram a seu Deus e desejam impor as suas crenças a todos. Mas estamos em uma sociedade diferente daquela da Idade Média e do início dos tempos modernos.
O prefeito, por outro lado resolveu colocar as palavras devidas, dizer com clareza o que realmente ele pode fazer com as pílulas compradas com o dinheiro público. Agora ele já sabe, aprendeu a diferença entre “distribuir” e “colocar à disposição” ou “disponibilizar”, como desejam aqueles que já estão quase esquecendo o idioma, com a criação de tantos verbos e neologismo. A pílula estará disponível, como sempre esteve nos postos de saúde, desde o início do século, para aquelas mulheres que forem atendidas por um médico que reconhecerá a necessidade de utilização da pílula. Assim, fica garantido o direito da mulher e não se propaga a idéia populista de distribuição indiscriminada de um medicamento que pode causar distúrbios por seu uso freqüente. Como se vê, o debate esclarece a todos, inclusive aos já iluminados.
No mais, a floreta amazônica está sendo destruída sob os olhos da ministra Marina, para que aumente o plantio de soja, cana de açúcar e a criação de gado. Como sempre os responsáveis disseram que não sabiam e mentiram na ONU, jurando que estava diminuindo a área devastada. O Brasil pagará caro por essa mentira. Uma coisa é mentir aos brasileiros que se enganam com pequenas bolsas, outra coisa é não respeitar a comunidade internacional. Não foi essa a primeira mentira do atual governo nem será a última.
Ainda no governo federal está sendo rasgado o Código de Ética para a alta administração federal, criado em 1999 para inibir comportamentos como o da ministra da (des)Igualdade Racial. Dona Matilde é especialista no uso de cartão de crédito do governo enquanto poupa o seu ordenado; o comportamento do ministro do trabalho que, no horário do expediente participa de reuniões do seu partido – o que é proibido pelo Código de Ética. Só quem pode punir esses casos, e outros, é o presidente Lula, aquele que, no papel de Ali Babá, assumiu o cargo de chefe de quatro dezenas, ou quase isso.
Infelizmente o bispo não entende que a sua autoridade é religiosa e tem validade apenas para os da sua Igreja. Como militante de sua religião ele pode recorrer ao Ministério Público para chamar atenção às suas idéias e influenciar a sociedade. O mesmo pode ser feito por outras igrejas e religiões, como as que pretendem acabar com o feriado de 12 de outubro e os que querem criar o dia da consciência evangélica, similiar à consciência negra. Os religiosos adoram a seu Deus e desejam impor as suas crenças a todos. Mas estamos em uma sociedade diferente daquela da Idade Média e do início dos tempos modernos.
O prefeito, por outro lado resolveu colocar as palavras devidas, dizer com clareza o que realmente ele pode fazer com as pílulas compradas com o dinheiro público. Agora ele já sabe, aprendeu a diferença entre “distribuir” e “colocar à disposição” ou “disponibilizar”, como desejam aqueles que já estão quase esquecendo o idioma, com a criação de tantos verbos e neologismo. A pílula estará disponível, como sempre esteve nos postos de saúde, desde o início do século, para aquelas mulheres que forem atendidas por um médico que reconhecerá a necessidade de utilização da pílula. Assim, fica garantido o direito da mulher e não se propaga a idéia populista de distribuição indiscriminada de um medicamento que pode causar distúrbios por seu uso freqüente. Como se vê, o debate esclarece a todos, inclusive aos já iluminados.
No mais, a floreta amazônica está sendo destruída sob os olhos da ministra Marina, para que aumente o plantio de soja, cana de açúcar e a criação de gado. Como sempre os responsáveis disseram que não sabiam e mentiram na ONU, jurando que estava diminuindo a área devastada. O Brasil pagará caro por essa mentira. Uma coisa é mentir aos brasileiros que se enganam com pequenas bolsas, outra coisa é não respeitar a comunidade internacional. Não foi essa a primeira mentira do atual governo nem será a última.
Ainda no governo federal está sendo rasgado o Código de Ética para a alta administração federal, criado em 1999 para inibir comportamentos como o da ministra da (des)Igualdade Racial. Dona Matilde é especialista no uso de cartão de crédito do governo enquanto poupa o seu ordenado; o comportamento do ministro do trabalho que, no horário do expediente participa de reuniões do seu partido – o que é proibido pelo Código de Ética. Só quem pode punir esses casos, e outros, é o presidente Lula, aquele que, no papel de Ali Babá, assumiu o cargo de chefe de quatro dezenas, ou quase isso.
sexta-feira, janeiro 25, 2008
O Céu ou as Urnas
Nos tempos de carnaval há sempre a recordação da quaresma, como em famoso quadro de Bosch. A festa da carne, o momento em que o mundo fica de ponta cabeça, é um instante em que a normalidade da vida social cede espaço para as desinibições, para a reinvenção da vida, a crítica dos valores e costumes. O processo de cristianização europeu sempre conviveu com o carnaval. Os cristãos puseram-se contra os prazeres da carne. Conta-se que Santo Agostinho passou os dias de carnaval pregando para a sua congregação, procurando evitar que algum dos membros caísse na tentação da folia, da loucura, se tornasse um folião. Ou seja, para Santo Agostinho carnaval não era coisa para os cristãos. Assim era antes que se formasse a grande cristandade e tivesse início a grande confusão entre poder político e poder religioso.
Neste carnaval o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso resolveu excomungar as pessoas que estejam favorecendo o festival da carne, distribuindo a pílula do dia seguinte, entre eles o atual prefeito do Recife, João Paulo. O Prefeito iniciou a sua vida política como militante católico. Excomungar significa colocar fora da comunhão eclesiástica aquele cristão católico que não se coadunar às normas da Igreja. Caso o Prefeito ainda seja católico, não poderá mais participar dos atos sacramentais da Igreja, exceto após o arrependimento, o que pode ser obtido mediante uma confissão sincera. Mas se o Prefeito não mais for católico, de nada adiantará a ameaça de excomunhão, pois não se pode expulsar quem já não mais está na comunidade. Seria mais prudente o arcebispo apenas ter lembrado aos católicos, melhor dizendo às católicas, que elas não devem tomar a pílula do dia seguinte, ou melhor, que não façam nada que produza a necessidade de utilizar a pílula que o prefeito está pondo à disposição das mulheres que fizerem as libações à Baco e Vênus. Por outro lado, a Igreja Católica sempre conviveu com o carnaval, permitindo que os que pecaram possam se arrepender, lembrando-lhes a sua origem e o seu futuro na Quarta Feira de Cinza, quando se inicia a Quaresma. A quaresma existe tanto para os foliões quanto para os que ficaram ouvindo Santo Agostinho de Hipona. Os que pecaram têm a possibilidade do arrependimento, no sacramento da confissão. Parece cinismo, mas é resultado do amor de Deus para coom suas criaturas. A misericórdia é parte da justiça divina.
Mas o Prefeito que cuida de todos resolveu comprar muitas pílulas de algum laboratório. Vai ver que algum laboratório ainda não conseguiu convencer as mulheres que essas tais pílulas do dia seguinte são mais seguras que as dos dias anteriores. A impressão que se tem é que algum laboratório convenceu o Prefeito.
A distribuição de pílulas do dia seguinte faz um imenso rombo na campanha de prevenção de Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. Com a pílula na mão muita gente vai esquecer o preservativo plástico. O preservativo conhecido como camisinha, é aquele que, além de prevenir gravidez indesejada, previne as doenças do amor, mas também são indesejáveis. Parece que Secretaria de Saúde da Prefeitura da Cidade do Recife não tem muita ligação com o Ministério da Saúde do Brasil. Pensando apenas na gravidez indesejada, o Prefeito que cuida de todos (inclusive dos laboratórios produtores dessas pílulas para os desatentos ou apressados) está pondo em risco um programa dos mais bem sucedidos em todo o mundo.
Entendo que esta é a questão maior que deve ser posta pelos cidadãos, e não a excomunhão prometida por Dom José Cardoso. Durante a ditadura, alguns bispos tentaram excomungar torturadores, mas alguns deles já não eram católicos, como explicitou um dos delegados envolvidos no caso da morte do padre João Bosco Burnier. Com a oferta religiosa que está posta no mercado, com o fim das cristandades, os bispos, de qualquer igreja, influenciam apenas as suas igrejas, ou uma parte de seus seguidores, nem sempre tão fiéis. A excomunhão que o Prefeito teme é a das urnas.
Neste carnaval o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso resolveu excomungar as pessoas que estejam favorecendo o festival da carne, distribuindo a pílula do dia seguinte, entre eles o atual prefeito do Recife, João Paulo. O Prefeito iniciou a sua vida política como militante católico. Excomungar significa colocar fora da comunhão eclesiástica aquele cristão católico que não se coadunar às normas da Igreja. Caso o Prefeito ainda seja católico, não poderá mais participar dos atos sacramentais da Igreja, exceto após o arrependimento, o que pode ser obtido mediante uma confissão sincera. Mas se o Prefeito não mais for católico, de nada adiantará a ameaça de excomunhão, pois não se pode expulsar quem já não mais está na comunidade. Seria mais prudente o arcebispo apenas ter lembrado aos católicos, melhor dizendo às católicas, que elas não devem tomar a pílula do dia seguinte, ou melhor, que não façam nada que produza a necessidade de utilizar a pílula que o prefeito está pondo à disposição das mulheres que fizerem as libações à Baco e Vênus. Por outro lado, a Igreja Católica sempre conviveu com o carnaval, permitindo que os que pecaram possam se arrepender, lembrando-lhes a sua origem e o seu futuro na Quarta Feira de Cinza, quando se inicia a Quaresma. A quaresma existe tanto para os foliões quanto para os que ficaram ouvindo Santo Agostinho de Hipona. Os que pecaram têm a possibilidade do arrependimento, no sacramento da confissão. Parece cinismo, mas é resultado do amor de Deus para coom suas criaturas. A misericórdia é parte da justiça divina.
Mas o Prefeito que cuida de todos resolveu comprar muitas pílulas de algum laboratório. Vai ver que algum laboratório ainda não conseguiu convencer as mulheres que essas tais pílulas do dia seguinte são mais seguras que as dos dias anteriores. A impressão que se tem é que algum laboratório convenceu o Prefeito.
A distribuição de pílulas do dia seguinte faz um imenso rombo na campanha de prevenção de Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. Com a pílula na mão muita gente vai esquecer o preservativo plástico. O preservativo conhecido como camisinha, é aquele que, além de prevenir gravidez indesejada, previne as doenças do amor, mas também são indesejáveis. Parece que Secretaria de Saúde da Prefeitura da Cidade do Recife não tem muita ligação com o Ministério da Saúde do Brasil. Pensando apenas na gravidez indesejada, o Prefeito que cuida de todos (inclusive dos laboratórios produtores dessas pílulas para os desatentos ou apressados) está pondo em risco um programa dos mais bem sucedidos em todo o mundo.
Entendo que esta é a questão maior que deve ser posta pelos cidadãos, e não a excomunhão prometida por Dom José Cardoso. Durante a ditadura, alguns bispos tentaram excomungar torturadores, mas alguns deles já não eram católicos, como explicitou um dos delegados envolvidos no caso da morte do padre João Bosco Burnier. Com a oferta religiosa que está posta no mercado, com o fim das cristandades, os bispos, de qualquer igreja, influenciam apenas as suas igrejas, ou uma parte de seus seguidores, nem sempre tão fiéis. A excomunhão que o Prefeito teme é a das urnas.
quinta-feira, janeiro 24, 2008
em torno de 1968
Estamos neste ano de celebrações as mais diversas. São muitas as efemérides que servem para nos atualizar da caminhada da humanidade, especialmente dessa humanidade que se entende a partir da experiência européia. Enquanto os cariocas e baianos se enlevam por terem sido regiões pisadas pelos augustos pés de sua majestade portuguesa e entourage, os pernambucanos estão à espreita de 1817, para então festejar os seus heróis traídos, mas que questionaram tantos favores devotados às províncias do sul da colônia portuguesa.
A mais celebrada lembrança é a de maio de 1968, ou mesmo todo o ano de 1968. Parece que ainda precisamos entender o que ocorreu nas ruas de Paris, de Praga, da cidade do México, dos Estados Unidos e até mesmo do Rio de Janeiro. Os acontecimentos de 1968 geraram perplexidade em muitas camadas sociais.
Em um dos locais sociais estavam aqueles felizes por terem superado os limites da atmosfera desde outubro de 1957, quando Yuri Gagarin ficou em órbita terrestre no Sputinik, uma nave espacial com o belo nome – Amigo, Companheiro. As proezas do astronauta russo não foram vistas como símbolo de amizade pelos estadunidenses que viram, no sideral passeio soviético, uma provocação. De imediato o presidente Kennedy promoveu uma revolução no sitema educacional americano objetivando passear na lua antes dos soviéticos para mostrar a superioridade do jeito americano de viver. A corrida espacial que se iniciou pode ter sido um dos motivos do esgotamento dos limites da sociedade moderna. A corrida espacial teria esgotado as possibilidades econômicas do modelo soviético, já bastante deformado pelas deformações morais do estalinismo, mas também teria esgotado as possibilidades humanistas da sociedade ocidental. Os acontecimentos espaciais de 1957 apontaram para a superação do “ocidente”.
De outro lado, em 1968, estavam aqueles que não entendiam as razões de continuarem a existir tantos sofrimentos na terras enquanto ocorria a corrida espacial. Entre 1957 e 1968 a Guerra de Independência do Vietnan se tornara uma guerra “dos mundos”, e uma geração não mais queria a guerra, pois outras possibilidades se apresentavam. O amor seduzia tanto quanto a morte. Os governantes, aliados a alguns cientistas, queriam saber se havia vida fora da terra, ao mesmo tempo em que as guerras indicavam a tendência de por fim à vida na terra. Uma geração não concordava com essa maneira de viver. O modelo moderno estava sendo posto em dúvida, embora não se desejasse abrir mão de suas vantagens materiais. Buscava-se um novo humanismo, uma nova maneira de ver os homens, ou melhor, novas maneiras de ver os homens e as mulheres. 1968 apontava para a compreensão de que não mais se queria vver comprimido entre dois modelos, desejava-se mais alternativas, mais escolhas. Quarenta anos depois desejamos saber se construímos um novo humanismo ou se estamos perdidos, ainda, após a constatação material de que a terra era azul e que Gagarim não havia encontrado Deus no azul do céu.
A mais celebrada lembrança é a de maio de 1968, ou mesmo todo o ano de 1968. Parece que ainda precisamos entender o que ocorreu nas ruas de Paris, de Praga, da cidade do México, dos Estados Unidos e até mesmo do Rio de Janeiro. Os acontecimentos de 1968 geraram perplexidade em muitas camadas sociais.
Em um dos locais sociais estavam aqueles felizes por terem superado os limites da atmosfera desde outubro de 1957, quando Yuri Gagarin ficou em órbita terrestre no Sputinik, uma nave espacial com o belo nome – Amigo, Companheiro. As proezas do astronauta russo não foram vistas como símbolo de amizade pelos estadunidenses que viram, no sideral passeio soviético, uma provocação. De imediato o presidente Kennedy promoveu uma revolução no sitema educacional americano objetivando passear na lua antes dos soviéticos para mostrar a superioridade do jeito americano de viver. A corrida espacial que se iniciou pode ter sido um dos motivos do esgotamento dos limites da sociedade moderna. A corrida espacial teria esgotado as possibilidades econômicas do modelo soviético, já bastante deformado pelas deformações morais do estalinismo, mas também teria esgotado as possibilidades humanistas da sociedade ocidental. Os acontecimentos espaciais de 1957 apontaram para a superação do “ocidente”.
De outro lado, em 1968, estavam aqueles que não entendiam as razões de continuarem a existir tantos sofrimentos na terras enquanto ocorria a corrida espacial. Entre 1957 e 1968 a Guerra de Independência do Vietnan se tornara uma guerra “dos mundos”, e uma geração não mais queria a guerra, pois outras possibilidades se apresentavam. O amor seduzia tanto quanto a morte. Os governantes, aliados a alguns cientistas, queriam saber se havia vida fora da terra, ao mesmo tempo em que as guerras indicavam a tendência de por fim à vida na terra. Uma geração não concordava com essa maneira de viver. O modelo moderno estava sendo posto em dúvida, embora não se desejasse abrir mão de suas vantagens materiais. Buscava-se um novo humanismo, uma nova maneira de ver os homens, ou melhor, novas maneiras de ver os homens e as mulheres. 1968 apontava para a compreensão de que não mais se queria vver comprimido entre dois modelos, desejava-se mais alternativas, mais escolhas. Quarenta anos depois desejamos saber se construímos um novo humanismo ou se estamos perdidos, ainda, após a constatação material de que a terra era azul e que Gagarim não havia encontrado Deus no azul do céu.
terça-feira, janeiro 22, 2008
Fim de semana cultural: do Recife à Mata Norte
O final de semana é sempre uma oportunidade de encontrar pessoas e experimentar novas emoções. Este que passou teve seu início com o prazer de assistir PEQUENA SUBVERSÃO, um estudo sobre os movimentos da dança do frevo; de como o corpo se movimenta ao movimento de uma de suas partes, de forma simples, mas definitivamente ampliada quando nos debruçamos para entender o pequeno movimento que, não percebido, leva aos mais largos. Entendo pouco de dança, ou nada entendo, mas a impressão que tenho é que o espetáculo que Valéria Vicente apresentou agora no Recife, (antes apenas São Paulo havia tido o prazer) é um importante passo na história da dança em Pernambuco. Após cinqüenta anos, como demonstra o RECORDANÇA, começa-se a teorizar sobre a dança que dançamos.
No sábado estive, desde cedo em Goiana. Fui assistir o I Encontro de Caboclinhos, que havia sido iniciado na noite da sexta feira. A intenção minha era ouvir o que as palestrantes iriam dizer a respeito dessa dança, desse folguedo bastante comum em Goiana, essa cidade que fica a 65 quilômetros ao norte do Recife. O Encontro foi promovido pela Associação dos Caboclinhos de Pernambuco, uma agremiação recentemente criada, associada à FUNDARPE, do governo do Estado. Ocorreu uma boa discussão a respeito de como manter esses brinquedos de tradição popular, na sua tradição e, ao mesmo tempo, tê-los como participantes de espetáculos. A possibilidade del manter a estrutura de folguedos provenientes de uma sociedade predominante agrária, como espetáculo em uma sociedade cada vez mais industrial, técnica e redutora de tudo e todos à mercadoria, pareceu-me ser o tema mais tocado pelos palestrantes. E, embora o tema central devesse ser o caboclinho, o mote para o debate foi AS PRETINHAS DO CONGO, do Baldo do Rio, ali presentes. Essa é uma tradição quem segundo seu Val, deve ter se formado ainda em 1888, mas que o grupo que ele preside é de 1932. Ele nega que AS PRETINHAS DA PRAIA, que tem sua atuação na praia de Carne de Vaca, seja de 1930, uma vez que o grupo praieiro é dissidente. Tive uma conversa com seu Val – Valdemar – e em outra oportunidade voltarei a conversar sobre essa interessante tradição goianense e pernambucana.
Outro ponto interessante nesse Encontro de Caboclinhos foi a homenagem feita a seu Antônio, o falecido dono do Caboclinhos Canidé de Goiana. Foi ele que, no início de 2007 protestou em praça pública contra a ausência de apoio da Prefeitura de Goiana às manifestações populares da cultura goianense, ao mesmo tempo que promove o desfile de blocos de Axé Music, transplantados da Bahia, para a alegria da pequena classe média dominada pelos meios de comunicação de massa. Seu Antonio morreu sem saber que foram proibidos os trios elétricos em Goiana, proibição do IPHAN, defendendo o casario colonial da cidade contra os decibéis dos imbecis.
Não fiquei para o desfile dos caboclinhos à noite. Segui viagem para Chã de Camará, a sede do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança. Fui participar de uma Sambada, um ensaio preparatório para os desfiles que o maracatu fundado pelo Mestre Batista irá realizar ao logo dos três dias de carnaval. Como sempre foi uma alegria ouvir os versos improvisados do Mestre Zé Duda, o Peito de Aço de Aliança, um verdadeiro patrimônio cultural, pois a sua história se confunde com a história dos Maracatus de Orquestra, das Cirandas.
Zé Duda é um dos remanescentes dos carnavais que ocorriam na Zona da Mata Norte, desde os anos cinqüenta. Ele também é um dos maiores conhecedores da arte do Cavalo Marinho, tocando pandeiro e cantador de todas as loas. Um dia a FUNDARPE deve reconhecê-lo, já devia tê-lo feito, pois o conhece e sabe que não há Mestre de Maracatu melhor que ele. Recentemente uma das suas belas cirandas foi gravada por uma cantora pesquisadora sem mencionar o autor - diz que é tradição popular, como se o artista popular não tivesse nome e se ela não o conhecesse. Não farei publicidade de seu nome.
Lamentavelmente ainda estamos a viver esses tempos de apropriação da arte de nossos mestres sem dedicar-lhes o devido respeito ou cultivar-lhe a memória.
Foi um belo final de semana, bebendo das mais genuínas tradições culturais pernambucanas e mundiais.
No sábado estive, desde cedo em Goiana. Fui assistir o I Encontro de Caboclinhos, que havia sido iniciado na noite da sexta feira. A intenção minha era ouvir o que as palestrantes iriam dizer a respeito dessa dança, desse folguedo bastante comum em Goiana, essa cidade que fica a 65 quilômetros ao norte do Recife. O Encontro foi promovido pela Associação dos Caboclinhos de Pernambuco, uma agremiação recentemente criada, associada à FUNDARPE, do governo do Estado. Ocorreu uma boa discussão a respeito de como manter esses brinquedos de tradição popular, na sua tradição e, ao mesmo tempo, tê-los como participantes de espetáculos. A possibilidade del manter a estrutura de folguedos provenientes de uma sociedade predominante agrária, como espetáculo em uma sociedade cada vez mais industrial, técnica e redutora de tudo e todos à mercadoria, pareceu-me ser o tema mais tocado pelos palestrantes. E, embora o tema central devesse ser o caboclinho, o mote para o debate foi AS PRETINHAS DO CONGO, do Baldo do Rio, ali presentes. Essa é uma tradição quem segundo seu Val, deve ter se formado ainda em 1888, mas que o grupo que ele preside é de 1932. Ele nega que AS PRETINHAS DA PRAIA, que tem sua atuação na praia de Carne de Vaca, seja de 1930, uma vez que o grupo praieiro é dissidente. Tive uma conversa com seu Val – Valdemar – e em outra oportunidade voltarei a conversar sobre essa interessante tradição goianense e pernambucana.
Outro ponto interessante nesse Encontro de Caboclinhos foi a homenagem feita a seu Antônio, o falecido dono do Caboclinhos Canidé de Goiana. Foi ele que, no início de 2007 protestou em praça pública contra a ausência de apoio da Prefeitura de Goiana às manifestações populares da cultura goianense, ao mesmo tempo que promove o desfile de blocos de Axé Music, transplantados da Bahia, para a alegria da pequena classe média dominada pelos meios de comunicação de massa. Seu Antonio morreu sem saber que foram proibidos os trios elétricos em Goiana, proibição do IPHAN, defendendo o casario colonial da cidade contra os decibéis dos imbecis.
Não fiquei para o desfile dos caboclinhos à noite. Segui viagem para Chã de Camará, a sede do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança. Fui participar de uma Sambada, um ensaio preparatório para os desfiles que o maracatu fundado pelo Mestre Batista irá realizar ao logo dos três dias de carnaval. Como sempre foi uma alegria ouvir os versos improvisados do Mestre Zé Duda, o Peito de Aço de Aliança, um verdadeiro patrimônio cultural, pois a sua história se confunde com a história dos Maracatus de Orquestra, das Cirandas.
Zé Duda é um dos remanescentes dos carnavais que ocorriam na Zona da Mata Norte, desde os anos cinqüenta. Ele também é um dos maiores conhecedores da arte do Cavalo Marinho, tocando pandeiro e cantador de todas as loas. Um dia a FUNDARPE deve reconhecê-lo, já devia tê-lo feito, pois o conhece e sabe que não há Mestre de Maracatu melhor que ele. Recentemente uma das suas belas cirandas foi gravada por uma cantora pesquisadora sem mencionar o autor - diz que é tradição popular, como se o artista popular não tivesse nome e se ela não o conhecesse. Não farei publicidade de seu nome.
Lamentavelmente ainda estamos a viver esses tempos de apropriação da arte de nossos mestres sem dedicar-lhes o devido respeito ou cultivar-lhe a memória.
Foi um belo final de semana, bebendo das mais genuínas tradições culturais pernambucanas e mundiais.
sexta-feira, janeiro 18, 2008
SOCIEDADE DE CORTE
Entre os diversos painéis apresentados e debatids em nossa classe de História Moderna II, no 5º período noturno, tivemos a leitura da obra de Norbert Elias e esse texto.
SOCIEDADE DE CORTE
por
Débora Claro, Bruna Iglesias, Otávio Augusto e Gabriela Lucena
Introdução
A dita Sociedade de Corte que dá nome ao livro de Norbert Elias, é considerada por ele como “a última grande formação social do Ocidente” e encerra em sua significação todo um conjunto de normas, valores e moral, que se tornaram obsoletos após os sucessos experimentados pelas revoluções burguesas, porém, que influíram em postulados posteriores para a vida da sociedade em formação.
Will e Ariel Durant, em a Era de Luís XIV, afirmam que “[1]a Corte e o Rei auxiliaram a civilizar a França”, à medida que a vida na Corte carecia de um conhecimento considerável a cerca de boas maneiras e uma noção de hierarquia social, prestígio e de manutenção dessa condição. Habitat da aristocracia francesa, e lugar almejado por boa parte da população dita comum, Versalhes e a vida cortesã por ele revestida, compreendiam luxo e requinte que a todos fascinavam. O privilégio de participar da Corte de Versalhes era alcançado também por alguns burgueses os quais alçavam vôos políticos ou eram detentores de grandes fortunas, entretanto, esse digníssimo status de cortesão, só era cedido a aqueles que melhor se adequassem ao jogo de interesses que prevalecia.
Pertencer a Corte significava a manutenção de prestígio e possibilitava a ascensão na hierarquia social. Todo um conjunto de normas comportamentais regia as ações desses viventes. O rei, no seio dessa sociedade cortesã simbolizava o poder máximo e originava em torno de si um Universo de intrigas e competição por seus favores e preferências; uma atmosfera carregada de maledicências. Compunha ainda as querelas palacianas, um intenso embate por nomeações lucrativas ou por um lugar de honra no leito real.
A representação da cidade, da urbe propriamente dita, teve início com a representatividade que a corte tinha nesse mundo agora extremamente urbano. Toda a significação que a cidade tem para a sociedade contemporânea como centro de efervescência cultural e os citadinos como mais notáveis, foram inaugurados ainda no século XVII, quando a monarquia francesa decidiu aglutinar ao seu redor todos os nobres e aristocratas, além do aparelho estatal organizado, agora numa corte urbana e fixa.
A Corte da França encontrou seu ápice de esplendor no Palácio de Versalhes, palco maior de toda uma série de encenações cortesãs, e que representava, mesmo na disposição espacial de sua construção, a rígida estratificação da hierarquia social da época de Luis XIV. Versalhes foi a concretização de um sonho sonhado pela monarquia francesa, ainda na vigência do reinado do monarca Luís XIII, que somente teve suas obras concluídas na regência de Ana da Áustria e do cardeal Mazzarino. Lá todo o desenrolar da vida cortesã foi experimentado, e a partir do fausto e da opulência da imagem construída por Versalhes. A corte francesa se tornou exemplo de requinte e luxo para todas as outras cortes palacianas da Europa dos séculos XVII e XVIII, além de imprimir uma influência francesa para o mundo todo, que perdurou de fato até o início do século XIX, em noções de costumes, comportamento e cultura.
Estrutura e significação do Habitat.
A construção do palácio de Versalhes representava muito mais do que a pompa e o luxo de uma sociedade, continham nos seus traçados e na disposição dos cômodos construídos, a simbologia de uma rígida estratificação social hierarquizada.
Dentro da magnitude de sua construção, todos os setores do palácio seguiam uma organização ao redor do pátio central, de acordo com a relevância social de sua função. Os apartamentos reais tinham uma posição mais central e próxima dos grandes salões do palácio, local de festas, banquetes e recepções de altas autoridades políticas. Os apartamentos dos cortesãos seguiam posicionamentos, circundando os salões e os apartamentos reais de acordo com o prestígio social de seus ocupantes. De acordo com os interesses e pretensões políticas ou pessoais do rei, mudavam-se os cortesãos de quarto sem qualquer sobreaviso. A mudança da favorita do rei, ou a chegada de um amigo próximo da realeza, traria para perto do apartamento real a pessoa designada.
Os outros tipos de residências, rurais ou urbanas na França do século XVII e XVIII, refletiam internamente todo o caráter cerimonioso e hierárquico do Universo cortesão da sociedade. Como espécies de miniaturas das reproduções da sociedade, todos os cômodos e suas respectivas funcionalidades se repetiam também nas residências não reais, como os chamados hotéis, moradas dos cortesãos, que deixam de ter uma significação de moradia, passando ao significado atual, a partir do fim do século XVIII.
A funcionalidade dos cômodos refletia também essa hierarquia social e o caráter público da vida na corte. O apartamento de sociedade seria um cômodo reservado para os amigos mais íntimos dos donos da casa, lugar de convivência e de recepção de visitas, refletia o conforto e o acolhimento da casa, sendo destinado à reprodução da chamada “vida de salão” e do caráter privado da mundana ou quase toda publica vida cortesã. Já o quarto de cama de aparato, era destinado a recepção formal de convidados. Nele seriam desenroladas as honrarias dedicadas a ocasiões burocráticas e que visam o acolhimento de atos públicos dessa sociedade cortesã.
A grande maioria das ações vivenciadas na sociedade de corte tinha um caráter profundamente público, onde a exibição do status garantia a manutenção da condição social do individuo. Vivendo em uma sociedade na qual todas as atitudes tinham uma representação social de sua posição, as despesas com manutenção de prestígio se tornavam necessidades inadiáveis e instrumentos de afirmação social.
Etiqueta e cerimonial: comportamento e mentalidade dos homens como funções da estrutura de poder de sua sociedade
O presente capítulo busca analisar o comportamento da aristocracia da sociedade francesa nos períodos de reinado de Luis XIV, Luis XV e Luis XVI. Durante estes reinados devemos ficar atentos às formalidades exigidas por Luis XIV, já que para ele a vida social no século XVII deveria se concentrar na corte. Certamente não devemos a criação das etiquetas a Luis XIV, no entanto foi o mesmo quem as aperfeiçoou e colocou em prática durante seu reinado na França.
Com a morte de Luis XIV esse comportamento cerimonial rígido foi se desagregando, deslocando-se da corte de Versailles para os palácios. Durante o reinado de Luis XV o convívio social se dava também nos palácios, como o Palais Royal, onde o regente morava, no Palais du Temple, local onde o Grão-prior de Vendome residia, ou então na Casa dos Conde, residência do Duque Maine, filho bastardo de Luis XIV.
Durante o reinado de Luis XIV a corte era para o rei e a aristocracia fonte de cultura e centro de convívio. Aos poucos, inevitavelmente, essa cultura vai se espalhando para os financistas. Com o frágil reinado de Luis XVI, e o aumento da riqueza nas mãos dos burgueses, a corte foi perdendo sua importância como centro social. Até que as revoluções detonaram toda a estrutura.
Sobre essa gradual abertura das formalidades aristocráticas diante do rei Luis XVI o Duque Richelieu disse: “sob o reinado de Luis XIV as pessoas se calavam, sob o reinado de Luis XV ousavam cochichar, sob o vosso elas falam bem alto”. Fazendo assim uma critica a perda de valores dos privilégios.
É no século XVII, no Palácio de Versailles, como já foi dito anteriormente, que efetivamente se forma e constitui a nova sociedade de corte de Luis XIV. Era de bom grado o rei ver seus nobres morando com ele no palácio. Logo Versailles habitou milhares de pessoas, sendo o abrigo temporário da sociedade de corte. Para se ter um exemplo em 1744 cerca de 10.000 pessoas incluindo os criados foram acomodados no castelo.
Tais etiquetas eram utilizadas pela aristocracia como uma forma de prestígio social. Para se ter uma idéia, podemos analisar um ritual peculiar ao despertar do rei Luis XIV em seu quarto:
“De manhã, geralmente à 8 horas, e em todo caso no horário por ele determinado, o rei é acordado pelo primeiro criado de quarto, que dormia aos pés de sua cama. As portas são abertas para os pajens. Nesse momento, um deles acaba de dar a notícia ao "grand chambellan" e ao primeiro fidalgo de quarto, um segundo dirigiu-se à cozinha da corte para providenciar o café da manhã e um terceiro ocupa seu posto diante da porta, deixando entrar apenas os senhores que têm o privilégio do acesso.
Esse privilégio seguia uma hierarquia muito precisa. Havia seis grupos diferentes de pessoas com permissão para entrar, um após outro. Falava-se então das diversas "entrées". Primeiro vinha a "entrée familiere". Faziam parte dela sobretudo os filhos legítimos e os netos do rei (enfants de France), príncipes e princesas de sangue, o primeiro médico, o primeiro cirurgião, o primeiro criado de quarto e o primeiro pajem.
Depois vinha a "grande entrée'; reservada aos grands officiers de Ia chambre et de Ia garderobe” e aos senhores da nobreza a quem o rei concedera essa honra. Seguia-se então a "premiere entrée", para os leitores do rei, os intendentes para divertimentos e festividades, entre outros. Em seguida havia uma quarta, a "entrée de Ia chambre'; que compreendia todos os restantes "officiers de Ia chambre", além do "grand-aumônier (o grande capelão), os ministros e secretários oficiais, os "conseilleurs d'État", os oficiais da guarda pessoal, os marechais de França e assim por diante. A admissão para a quinta entrée dependia em grande medida da boa vontade do fidalgo de quarto, e naturalmente do favorecimento do rei. Incluíam se nela senhores e senhoras da nobreza que recebiam tal favorecimento, a quem o fidalgo de quarto deixava entrar. Assim, eles tinham o privilégio de se aproximar do rei antes de todos os outros. Finalmente, havia ainda um sexto tipo de entrada, que era o mais disputado. Nesse caso, não se entrava pela porta principal do quarto, mas por uma porta traseira. Era uma entrée aberta para os filhos do rei, incluindo também os ilegítimos, e mais suas famílias e os genros. Pertencer a esse grupo significava um grande privilégio, pois os envolvidos tinham permissão de entrar a qualquer hora nos gabinetes do rei - a não ser que ele estivesse em conselho ou tivesse começado um trabalho especial com seus ministros - podendo permanecer no quarto até que o rei saísse para a missa, mesmo quando ele estivesse doente.
Como vemos, tudo seguia regras bem precisas. Os dois primeiros grupos eram admitidos quando o rei ainda estava na cama. Ele usava então uma pequena peruca; nunca aparecia sem peruca, mesmo deitado em sua cama. Quando estava de pé e o grand chambellan com o primeiro criado de quarto acabavam de vestir o seu robe, chamavam o grupo seguinte, a premiere entrée.
Quando o rei havia calçado os sapatos, ordenava aos officiers de Ia chambre que as portas se abrissem para a entrée seguinte. O rei tirava o robe. O maître de Ia garderobe puxava a camisa noturna pela manga direita, o primeiro criado de garderobe pela manga esquerda; a camisa do dia era trazida pelo grand chambellan ou por um dos filhos do rei que estivesse presente. O primeiro criado de quarto segurava a manga direita, o primeiro criado de garderobe, a esquerda.
Assim o rei vestia sua camisa. Então ele se levantava de seu fauteuil e o maître de Ia garderobe o ajudava a afivelar os sapatos, prendia a espada, vestia os seus trajes e assim por diante. Já vestido, o rei rezava brevemente, enquanto o primeiro capelão, ou um outro religioso que estivesse presente, recitava uma oração. Toda a corte ficava de prontidão, esperando na grande galeria, próxima ao jardim, a qual ocupava toda a extensão da parte central atrás do quarto de dormir do rei, no primeiro andar do castelo. Era assim que discorria o "Lever" do rei.” [2]
O que nos chama a atenção nesta citação é a meticulosa exatidão em que cada atitude revela um sinal de prestigio, simbolizando a divisão de poder da época. A etiqueta tinha uma função simbólica de grande importância na estrutura dessa sociedade aristocrática e dessa forma de governo real.
O fato de o rei despir sua camisa noturna e vestir sua camisa diurna era, sem duvida, uma atividade necessária, mas ela ganha um novo sentido no contexto social. O rei fazia disso um privilégio para os nobres presentes, que os distinguia diante dos outros. Ou então, participar das entrées servia como indicador da posição do individuo no frágil equilíbrio de poder entre os diversos cortesãos, equilíbrio controlado pelo rei.
As formalidades continuavam porque uma vez que a hierarquia dos privilégios foi criada segundo os parâmetros da etiqueta, esta passou a ser mantida apenas pela competição dos indivíduos envolvidos em tal dinâmica, privilegiados por ela e compreensivamente preocupados em preservar cada um dos seus pequenos privilégios e o poder que eles conferiam.
Embora fosse algo que reproduzia aspectos sem conteúdo e que muitas vezes se tornava enfadonho, as etiquetas foram preservadas até a Revolução Francesa de 1789, pois desistir dela teria significado tanto para rei quanto para a aristocracia um abandono dos privilégios, uma perda de poder e prestigio.
O cerimonial de despertar da rainha era vazio de conteúdo assim como o do rei. E por muitas vezes cansativo como, por exemplo, certa vez em que a criada de quarto estava ajudando a rainha a se vestir e mulheres de privilégios diversos entravam no quarto para ajudar a rainha. Logo, se uma pessoa que possuísse maior prestígio estivesse presente esta teria a honra de vestir a rainha.
Então assim que a rainha estava pronta para receber a blusa das mãos da criada de quarto chegou a dama de honra, a criada de quarto estava segurando a blusa da rainha e ia entrega-la para a dama de honra no momento em que chega a duquesa de Orléans. No entanto, quando a duquesa ia vestir a rainha chega a Condesa de Provance, que naquele momento era quem possuía maior prestigio. Por fim, a Condesa é quem coloca a blusa na rainha que durante todo este tempo estava despida e provavelmente orando para que ninguém mais entrasse no quarto.
Essa coerção da luta por poder, status e prestigio era continuamente ameaçado. Já que o fator determinante que obrigava todos os participantes dessa estrutura articulada em sua escala hierárquica, a continuar realizando um cerimonial que se tornara um fardo.
E, sem dúvida, a menor tentativa de reforma teria provocado a oposição de amplas camadas privilegiadas, que temiam, talvez com razão, que tocar qualquer detalhe da ordem estabelecida pudesse resultar na ameaça ou destruição da estrutura de dominação que lhes concedia privilégios.
Assim como Maria Antonieta que certa vez tentou alterar a etiqueta, e a própria nobreza protestou. Já que uma duquesa que antes tinha o privilégio de sentar-se a mesa somente com a rainha, se ofendeu quando viu pessoas de um nível inferior tendo o mesmo privilegio.
Ora, tudo o que desempenhava um papel na relação entre os homens convertia-se em chance de prestígio nessa sociedade: o nível social, o cargo herdado e a antiguidade da casa. O favorecimento do rei, a influência sobre os ministros, a participação em uma determinada “panelinha”, a liderança no exército, as boas maneiras, a beleza do rosto, tudo isso convertiam-se em chance de prestigio, combinando-se em um homem singular e determinando seu lugar na hierarquia inerente à sociedade de corte.
“Aquele que não é visto, não é lembrado”, o ditado popular atual cabe muito bem nestas circunstâncias, pois não importa seu título: ele só faz parte da “boa sociedade” enquanto os outros acham que faz, ou seja, enquanto o consideram um membro. A opinião social tem, em outras palavras uma importância e funções bem diferentes das que desempenham numa sociedade burguesa mais ampla.
Vale mencionar que na sociedade de corte de Luis XIV na Fraca do século XVII a exigência de prestigio não deve ser esclarecida a partir de uma vontade de assegurar chances econômicas, embora ela resulte de uma determinada situação econômica. A etiqueta e o cerimonial dos cortesãos não é nenhum ethos econômico disfarçado, mas algo distinto. Existir sob a aura do prestigio, ou seja, existir como membro da corte, é o objetivo final dessas pessoas.
Os Postos Femininos
A colocação “postos” pode ser inicialmente estranha, mas é disto que se trata quando viermos a observar a posição, de destaque, das mulheres no mundo da Corte. Deve-se, para tanto, ir além do caráter teórico que se dá quanto à função deste meio - administração, defesa territorial, poder público, governo do país. O que fariam então as mulheres, privadas, também teoricamente, da vida pública, e do poder a ela relacionada, neste ambiente? A condição feminina dentro deste universo masculino não fugiria à funcionalidade que estava cotada às damas de respeito e de família? É este caráter híbrido que nos possibilita conceituar como sociedade este ambiente das cortes na Europa, a partir do século XVI-XVII. Misturava-se o convívio familiar com o exercício do poder; regras de conduta próprias e isoladas, quase que alheias ao controle da Igreja e das normas sociais. Lá as mulheres eram mães, amantes e princesas. Famílias inteiras de nobres e de serviçais lá estavam alojadas, assim como o governo do Reino. Assim estas mulheres se viram, diferentemente da maioria das demais mulheres que não gozavam desta convivência nos palácios, esbarrando nos pilares da governabilidade, envoltas pelo poder e pela exposição pública – tão inconveniente ao seu sexo.
Eleanor Hermam avalia que a França passa a reavaliar seus conceitos acerca da mulher. Os teólogos ainda a atacavam, e sua fama de voluptuosa já estava arraigada no imaginário desta sociedade, sendo mesmo propagada pelos supostos combatentes da moral da Igreja, os humanistas. Ainda imbuído da visão cristã, porém se recolocando perante uma avalanche de novas concepções, Erasmo de Roterdã descreve as mulheres em seu Elogio da Loucura, como sendo mais susceptíveis à dita loucura, sendo a mulher a seguidora mais incontrolável desta. A volúpia, a dissimulação, a beleza, a futilidade e a vicissitude, entre outras “qualidades” às quais a mulher poderia se dar ao luxo de se entregar, conectam-se ao seu papel pouco exigente da tal Razão. Um ser tolo era o que se via na mulher. Dada às destemperanças de seu corpo pecaminoso ela era a tentadora cega, pouco racional. Para tal perigo à sociedade só restaria o controle rígido e incessante. A tutela da mulher pelo homem fez parte de uma ordem social calcada no temor a ela. E o principal controle se dava no âmbito sexual, da sua fonte demoníaca donde saíam as rédeas com as quais elas aprisionavam os homens e os cegava, tal como Eva fez a Adão no paraíso, o impelindo a comer do fruto proibido (o ato sexual?). Mas apesar disto a Sociedade de Corte, observada (mas não vigiada) de perto pelo povo, que a tinha em seus comentários, viu-se diante de mulheres que se interpunham, de maneira sensual (como Madame de Pompadour, Du Barry ou Montespan) ou pudica (como Madame de Mantenon e, tardiamnete, Louise de La Vallière), a tal concepsão. Ainda que corroborando com o mito da Devoradora ou da Virgem, algumas mulheres conseguiram demonstrar que a beleza feminina não é inimiga da inteligência. Ainda assim, o mundo fabuloso e ardil, da Corte utilizava as mulheres como peças de joguetes individuais, e estas fizeram jus a sua fama de imprevisíveis e ardilosas, por vezes conseguindo roubar para si os louros e a glória – ainda que temporariamente.
Dentro deste meio, as mulheres serviam para muitos propósitos além dos que se devem a sua posição ideal na comunidade. Neste mundo, onde o exemplo maior é Versalhes, todos os movimentos e relações tinham uma etiqueta, um ritual de conduta e uma definição de função, e as mulheres estavam bem organizadas e divididas por funções, postos. Cargos funcionais, como Dama de Honra e de Companhia, e títulos de nobreza, que interferiam diretamente nessas funções. É preciso, pois, diferenciar privilégio de prestígio. O privilégio por vezes provém do prestígio, mas este não é o único meio de conseguir tais privilégios. Os títulos são os principais fornecedores de privilégios. Mas o prestígio, que era a moeda corrente na Sociedade de Corte, também poderia vir antes do privilégio, e comprava os títulos de nobreza, vindo junto com uma comitiva de aduladores, ávidos por sugar um pouco do brilho que este alguém no momento emanava. Destes jogos de conquista as mulheres não estavam excluídas, na verdade quase sempre, ou sempre, estavam envolvidas. Chegando para a Corte, elas deveriam impor suas qualidades, suas virtudes, e suas garras. Se soubesse como conquistar alguém importante, homem (principalmente o Rei) ou mulher (a Rainha ou a mãe do Rei), ela conseguiria escalar vários degraus. Mas esta posição poderia oscilar tão rapidamente que sua cabeça jamais se reerguiria.
Tornar-se uma Demoiselle d'Honnor; era de fato uma honra, e uma oportunidade de ouro. Madame de Montespan – Amante Oficial de Luis XV por mais de uma década – foi Dama de Honra de Maria Lezsczinska, assim sucedeu com as suas predecessoras, as três irmãs Mailly, que se seguiram nas diversões da cama real, e que também eram Damas de Honra, ou da Rainha ou da própria Amante Oficial (no caso uma de suas irmãs).
As Damas de Honra serviam assim como uma rede de informações, tanto para a Rainha ou para a amante, quanto para o Rei, como também para outrem interessado em informações. Mas eram relações de risco, dadas a trapaças e escândalos.
Rainha e Amantes
Obviamente que as atenções estavam sempre voltadas para círculo Real, que com tempo ia tornando-se imenso, com filhos legítimos e ilegítimos do Rei, Amantes Oficiais e favoritas (o)s.
Contudo a Rainha e a Amante Oficial (que era um cargo distinto dentro das normas da Corte) eram os melhores alvos para o veneno e a risada, a adulação e o ódio.
A situação da Rainha era mais sólida que a da amante, as a última tinha mais conforto que a pobre e vigiada Mãe do Reino. Havia diferença bastante sensível. Primeiramente a escolha. O casamento era combinado, a esposa nem sempre era desejada, era um acordo político. No caso da amante era o oposto. Dentre todas as mulheres que desfilavam pela corte, uma chamara a atenção do Rei, por sua beleza, sim, mas principalmente por sua postura, seus modos, sua inteligência, ou seja, sua agradável companhia. Não se tratava apenas de sexo. A Amante Real por excelência, Madame de Pompadour ganhava mais influência com o passar dos anos, ainda que frígida e acabando por ter menos contato sexual com o seu Rei, Luis XV. Enquanto Maria Lezsczinska dava-lhe tantos filhos, entretanto não tinha metade da glória de Pompadour. Esta distinção de afetos estava clara nos próprios aposentos das mulheres do Rei. As amantes costumavam ter quartos suntuosos, e os das rainhas, ainda que belos não ram tão ornamentados. Presentes e títulos também faziam parte do mundo das amantes reais.
É obvio que tamanha disparidade viria acarretar a mesma medida de desavenças. Muitas vezes as rainhas não queriam passar pelo que consideravam uma humilhação e enfrentavam seus esposos, quase sempre a amante saia ganhando desta disputa. A decisão do Rei – o “cargo” mais sólido da Corte – era sempre seguida pela maioria de seus cortesãos, e muitas vezes uma Rainha teimosa podia sofrer as conseqüências com o desprezo de seus cortesãos. As amantes também esperneavam contra a sua condição de Amante e brigavam pelo casamento com o Rei, humilhavam a Rainha em público e armavam escândalos. Mas também acontecia de ambas viverem sob uma trégua, evitando constrangimentos. Como Maria Lezsczinska e Madame de Pompadour.
É importante salientar a importância das amantes na vida política do reino. Era um cargo oficial, como o de primeiro ministro, e deveriam se apresentar perante a Corte num cerimonial. As Amantes Oficiais serviam como embaixatrizes, como símbolo do Estado – já que as Rainhas eram quase sempre estrangeiras. As demais amantes que o Rei viesse a ter não tinham tamanha influência. Nell Gwen, amante de Carlos II da Inglaterra não se interpunha nos assuntos políticos nem ninguem lhe procurava. Já a sua Amante Oficial era regada de adulações e atenção. Eram elas poderiam ser portas de entrada para as negociações, como Diane de poitiers e Pompadour. É certo que nem todas elas se interessavam por assuntos de estado, como Madame du Barry, Louise de La Vallière. Mas com raras exceções estas se dedicavam a serem mecenas das artes e/ou musas, e todos que queriam adentrar em tal meio deveriam primeiro, convencer a Amante Oficial do Reino. Não era raro ver um movimento mais incomum em frente a porta da Amante do que a da Rainha. Mas tudo não eram flores para as tão apreciadas “Rainhas” do rei. A qualquer momento seu Senhor poderia se engraçar com outra cortesã e desinteressar-se por ela. Além de tal possibilidade.
O brilho de ser uma rainha era constantemente ofuscado pelo fulgor de um Rei absolutista. Quando este morria a situação se invertia. As mulheres Médicis – Catarina e Maria – são exemplos de pulso e fome de poder que só puderam se expandir com a morte de seu marido. As amantes também sofriam mudanças drásticas em seu status. Muitas vezes eram ameaçadas de viver o resto de seus dias na pobreza, no ostracismo. Outras se viam na dependência de um marido humilhado, mas todas se viram restringidas de todo o poder que conquistaram.
Com os filhos não havia possibilidade de disputas políticas quanto a sucessão do trono, já que os ilegítimos estavam fora da escolha. E as filhas arranjavam casamentos mais que satisfatórios. Para a amante muitas vezes eram um meio de estender ainda mais o seu domínio sobre o Rei. Quando Gabrielle d’Étrees engravidou de Henrique de Navarra, ela o tentou a casar-se com ela, oficializando-a e dando direitos aos seus próximos filhos – o que ela esperava já era considerado ilegítimo dado que Henrique encontrava-se casado com Margarida de Valois, que se negava a dar-lhe o divórcio. Já os filhos da Rainha estavam todos garantidos em seu futuro, ter um filho consoliva sua posição e sua respeitabilidade. Mas era inevitável que se cobrasse a atenção do rei, pois que esta era mais uma prova do amor de seu pai pela sua mãe ou do desprezo que este tinha por ela.
Fofocas e as Imagens dos Cortesãos
Há outro fator importante a se expor. As mulheres foram as mais fervorosas coletoras e divulgadoras de informações advindas do ambiente dos palácios e seus cortesãos. Os diários e as cartas que elas escreviam – por vezes incessantemente – são fontes primorosas para o estudo deste assunto aqui tratado. Obviamente que é preciso ter cautela ao se analisar tais fontes, já que muitas delas eram feitas para serem lidas pelos seus contemporâneos – ainda que por “acidente” como os diários. A difamação e as artimanhas estão contidas nestes escritos. Mentiras, verdades e meios termos são artífices utilizados por aquelas que se tornaram as pequenas, ou gigantes, “jornalistas” de seu tempo. Adentrando neste assunto, entra o que Norbert Elias chama de fardo de um cortesão. Pode-se ilustrar a convivência na corte dos palácios dos Séculos XVI e XVII como equivalente à pompa e à ostentação destes palácios, cujas cortinas, paredes e pilastras tão ricas e deslumbrantes escondiam as maquiagens, as tramas e os dejetos humanos deixados em pinicos no corredor para serem escondidos. Assim também era o dia a dia de um cortesão e de uma cortesã, que se enchia de ornamentos e de doces palavras, de belos modos, para esconder seus sentimentos reais. Mesmo aqueles que não desejavam se tornar como os típicos cortesãos fúteis e traidores dos romances acabavam precisando se misturar e se impor como tais para defender-se de possíveis armações e para impor algum respeito. Então muitos dos romances se passavam nas propriedades rurais de nobres, uma nobreza da terra que era mais pura, mais rodeada por amor, o amor cortês da Idade Media, ou uma nova idealização de amor que fosse mais sincero que o fugaz furor sexual vivenciado nas Sociedades de Corte. Maria Antonieta tentou se refugiar num desses paraísos rurais em seu Petit Trianon com este mesmo propósito, libertar-se das regras de etiqueta, dos janares com presenças inconvenientes Às quais precisava tratar amavelmente, e de todos os estafantes jogos de azar e de amor que a consumiam. Mas em sua maioria estes romances não eram levados à sperio, eram um refúgio literário apenas, não real. Sem o apoio do Rei, conseguido em freqüentes visitas a Versailles, no caso extremo da França, era difícil manter-se influente ou rico.
AS DESPESAS DE MANUTENSÃO DO STATUS SOCIAL DA CORTE E A IMPORTANCIA DA FIGURA DO REI NESSA SOCIEDADE
Num meio social tão diferenciado desse modelo industrial moderno em que vivemos onde acumular riquezas, e acumula-las sempre e mais, para manter ou elevar o nível social nos é estranho observar a forma como essa sociedade de corte se apresentava. Uma sociedade onde acumular riquezas era um estágio para se alcançar um título (comprado) de nobreza e passar a pertencer à esfera mais elevada da pirâmide social. Aos nobres era proibido, tanto legal quanto moralmente, de praticar alguma atividade comercial, pois isso, segundo Montesquieu (in Elias), tiraria aos comerciantes o estímulo maior que os incitava a juntar dinheiro, quando acumulassem o suficiente poderiam comprar um título de nobreza e começariam a gastar seus rendimentos imediatamente com as despesas de sua nova situação social.
As despesas de manutenção e representação desse status era a principal causa da ruína das grandes famílias, pois como não podiam negociar com o comércio, essas famílias gastavam com o único meio de que proviam: as terras e as heranças. Algumas famílias também recorriam aos empréstimos e venda de jóias para manterem seu nível de vida, em ambos os casos a ruína era apenas retardada e assim, quando uma família caía no fracasso, outra imediatamente a substituía sendo a sociedade de corte um rodízio constante de ascensões e quedas de famílias. Esse sistema do ponto de vista do monarca era uma forma de manter o poder da monarquia absoluta, pois as duas classes principais, nobreza e burguesia, concorriam para se manterem junto ao rei e fazer parte do seu meio respectivamente. Mas algumas famílias poderiam ser salvas ou adiadas da ruína de acordo com a vontade do rei, que poderia conceder-lhes algum cargo, prêmio ou missão militar para aquelas famílias mais consideradas pelo monarca.
Mesmo aqueles nobres que possuíam cargos e magistraturas tinham que dispor altas somas para manter a liturgia do cargo, fazendo com que a nobreza ficasse completamente dependente da benevolência do rei para não caírem es desgraça. As intrigas e invejas entre as casas nobres era constante, e uma das formas de se saber se alguma casa tinha realmente como manter seu status era obrigá-la a promover grandes banquetes e a distribuir prendas altas, de preferência a uma família rival. Para entender o porquê essa sociedade se comportava dessa forma, gastando o que tinha para se manter em uma esfera social, é preciso ter em mente que para aquelas pessoas fazer parte do convívio com o rei era o sentido de sua vida, esses indivíduos só se entendiam e se reconheciam como pertencentes a esse convívio. O trabalho era algo degradante e próprio dos que não faziam parte desse meio. Não adiantava possuir riquezas, era necessário mostrar, exageradamente que as possuía.
Esse sistema de sociedade de corte era o sustentáculo da monarquia, da qual falaremos do exemplo clássico de França. Manter um sistema, como já foi mencionado, onde os que acumulam dinheiro o faz para pertencer a uma camada próxima ao monarca e os que fazem parte dessa camada estarem o tempo inteiro buscando a confiança do rei propiciou um controle absoluto do poder, principalmente no longo reinado de Luis XIV. O rei tinha a inveja e as intrigas entre os nobres como aliados eficazes, pois os mesmos faziam de todo o possível para adquirir honras e prestígios face ao rei, seja delatando ou espionando outrem.
Luis XIV havia sofrido a experiência da Fronda durante sua infância, por isso em seu reinado procurou criar um sistema social onde as duas classes que mais o ameaçavam ficassem dependentes da sua figura. A etiqueta e a transferência da nobreza para Paris tinham suas funções estratégicas, a primeira fazia com que o rei estivesse o tempo inteiro cercado de pessoas, o que diminuía os riscos de um atentado à sua vida, a segunda mantinha os nobres sob sua dependência e fiscalização, contando sempre com o fator de disputas entre as partes. A etiqueta era um instrumento de dominação, com ela ele transformava interesses antagônicos em interesses do rei. A figura pessoal de Luis XIV não era importante, mas foi um dos maiores monarcas da História do ocidente, pois soube articular bem esse jogo de consolidação do poder, utilizando na maioria das vezes a capacidade alheia para tomar suas decisões. O Rei vigiava e mantinha sempre constantes as divergências entre as camadas, com isso elas nunca se aliariam e viam na sua figura a única fonte onde podiam recorrer.
A vigilância constante era um meio de defesa indispensável para o monarca, assim como a observação psicologia de seus súditos. “o desejo do rei de saber tudo quanto se passava à sua volta nunca abrandava;” (Saint Simon in Elias). As ambições de uns serviam de freio para as de outros. Por isso a corte e a etiqueta aliadas as intrigas e rivalidades fizeram do reinado de Luis XIV o mais absoluto de França.
[1] DURANT, Will e Ariel, A História da Civilização. A Era de Luís XIV, livro VII, 2ªed.Rio de Janeiro, Ed. Record.
[2] ELIAS, Norbert. A sociedade de corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. Págs. 101 e 102.
SOCIEDADE DE CORTE
por
Débora Claro, Bruna Iglesias, Otávio Augusto e Gabriela Lucena
Introdução
A dita Sociedade de Corte que dá nome ao livro de Norbert Elias, é considerada por ele como “a última grande formação social do Ocidente” e encerra em sua significação todo um conjunto de normas, valores e moral, que se tornaram obsoletos após os sucessos experimentados pelas revoluções burguesas, porém, que influíram em postulados posteriores para a vida da sociedade em formação.
Will e Ariel Durant, em a Era de Luís XIV, afirmam que “[1]a Corte e o Rei auxiliaram a civilizar a França”, à medida que a vida na Corte carecia de um conhecimento considerável a cerca de boas maneiras e uma noção de hierarquia social, prestígio e de manutenção dessa condição. Habitat da aristocracia francesa, e lugar almejado por boa parte da população dita comum, Versalhes e a vida cortesã por ele revestida, compreendiam luxo e requinte que a todos fascinavam. O privilégio de participar da Corte de Versalhes era alcançado também por alguns burgueses os quais alçavam vôos políticos ou eram detentores de grandes fortunas, entretanto, esse digníssimo status de cortesão, só era cedido a aqueles que melhor se adequassem ao jogo de interesses que prevalecia.
Pertencer a Corte significava a manutenção de prestígio e possibilitava a ascensão na hierarquia social. Todo um conjunto de normas comportamentais regia as ações desses viventes. O rei, no seio dessa sociedade cortesã simbolizava o poder máximo e originava em torno de si um Universo de intrigas e competição por seus favores e preferências; uma atmosfera carregada de maledicências. Compunha ainda as querelas palacianas, um intenso embate por nomeações lucrativas ou por um lugar de honra no leito real.
A representação da cidade, da urbe propriamente dita, teve início com a representatividade que a corte tinha nesse mundo agora extremamente urbano. Toda a significação que a cidade tem para a sociedade contemporânea como centro de efervescência cultural e os citadinos como mais notáveis, foram inaugurados ainda no século XVII, quando a monarquia francesa decidiu aglutinar ao seu redor todos os nobres e aristocratas, além do aparelho estatal organizado, agora numa corte urbana e fixa.
A Corte da França encontrou seu ápice de esplendor no Palácio de Versalhes, palco maior de toda uma série de encenações cortesãs, e que representava, mesmo na disposição espacial de sua construção, a rígida estratificação da hierarquia social da época de Luis XIV. Versalhes foi a concretização de um sonho sonhado pela monarquia francesa, ainda na vigência do reinado do monarca Luís XIII, que somente teve suas obras concluídas na regência de Ana da Áustria e do cardeal Mazzarino. Lá todo o desenrolar da vida cortesã foi experimentado, e a partir do fausto e da opulência da imagem construída por Versalhes. A corte francesa se tornou exemplo de requinte e luxo para todas as outras cortes palacianas da Europa dos séculos XVII e XVIII, além de imprimir uma influência francesa para o mundo todo, que perdurou de fato até o início do século XIX, em noções de costumes, comportamento e cultura.
Estrutura e significação do Habitat.
A construção do palácio de Versalhes representava muito mais do que a pompa e o luxo de uma sociedade, continham nos seus traçados e na disposição dos cômodos construídos, a simbologia de uma rígida estratificação social hierarquizada.
Dentro da magnitude de sua construção, todos os setores do palácio seguiam uma organização ao redor do pátio central, de acordo com a relevância social de sua função. Os apartamentos reais tinham uma posição mais central e próxima dos grandes salões do palácio, local de festas, banquetes e recepções de altas autoridades políticas. Os apartamentos dos cortesãos seguiam posicionamentos, circundando os salões e os apartamentos reais de acordo com o prestígio social de seus ocupantes. De acordo com os interesses e pretensões políticas ou pessoais do rei, mudavam-se os cortesãos de quarto sem qualquer sobreaviso. A mudança da favorita do rei, ou a chegada de um amigo próximo da realeza, traria para perto do apartamento real a pessoa designada.
Os outros tipos de residências, rurais ou urbanas na França do século XVII e XVIII, refletiam internamente todo o caráter cerimonioso e hierárquico do Universo cortesão da sociedade. Como espécies de miniaturas das reproduções da sociedade, todos os cômodos e suas respectivas funcionalidades se repetiam também nas residências não reais, como os chamados hotéis, moradas dos cortesãos, que deixam de ter uma significação de moradia, passando ao significado atual, a partir do fim do século XVIII.
A funcionalidade dos cômodos refletia também essa hierarquia social e o caráter público da vida na corte. O apartamento de sociedade seria um cômodo reservado para os amigos mais íntimos dos donos da casa, lugar de convivência e de recepção de visitas, refletia o conforto e o acolhimento da casa, sendo destinado à reprodução da chamada “vida de salão” e do caráter privado da mundana ou quase toda publica vida cortesã. Já o quarto de cama de aparato, era destinado a recepção formal de convidados. Nele seriam desenroladas as honrarias dedicadas a ocasiões burocráticas e que visam o acolhimento de atos públicos dessa sociedade cortesã.
A grande maioria das ações vivenciadas na sociedade de corte tinha um caráter profundamente público, onde a exibição do status garantia a manutenção da condição social do individuo. Vivendo em uma sociedade na qual todas as atitudes tinham uma representação social de sua posição, as despesas com manutenção de prestígio se tornavam necessidades inadiáveis e instrumentos de afirmação social.
Etiqueta e cerimonial: comportamento e mentalidade dos homens como funções da estrutura de poder de sua sociedade
O presente capítulo busca analisar o comportamento da aristocracia da sociedade francesa nos períodos de reinado de Luis XIV, Luis XV e Luis XVI. Durante estes reinados devemos ficar atentos às formalidades exigidas por Luis XIV, já que para ele a vida social no século XVII deveria se concentrar na corte. Certamente não devemos a criação das etiquetas a Luis XIV, no entanto foi o mesmo quem as aperfeiçoou e colocou em prática durante seu reinado na França.
Com a morte de Luis XIV esse comportamento cerimonial rígido foi se desagregando, deslocando-se da corte de Versailles para os palácios. Durante o reinado de Luis XV o convívio social se dava também nos palácios, como o Palais Royal, onde o regente morava, no Palais du Temple, local onde o Grão-prior de Vendome residia, ou então na Casa dos Conde, residência do Duque Maine, filho bastardo de Luis XIV.
Durante o reinado de Luis XIV a corte era para o rei e a aristocracia fonte de cultura e centro de convívio. Aos poucos, inevitavelmente, essa cultura vai se espalhando para os financistas. Com o frágil reinado de Luis XVI, e o aumento da riqueza nas mãos dos burgueses, a corte foi perdendo sua importância como centro social. Até que as revoluções detonaram toda a estrutura.
Sobre essa gradual abertura das formalidades aristocráticas diante do rei Luis XVI o Duque Richelieu disse: “sob o reinado de Luis XIV as pessoas se calavam, sob o reinado de Luis XV ousavam cochichar, sob o vosso elas falam bem alto”. Fazendo assim uma critica a perda de valores dos privilégios.
É no século XVII, no Palácio de Versailles, como já foi dito anteriormente, que efetivamente se forma e constitui a nova sociedade de corte de Luis XIV. Era de bom grado o rei ver seus nobres morando com ele no palácio. Logo Versailles habitou milhares de pessoas, sendo o abrigo temporário da sociedade de corte. Para se ter um exemplo em 1744 cerca de 10.000 pessoas incluindo os criados foram acomodados no castelo.
Tais etiquetas eram utilizadas pela aristocracia como uma forma de prestígio social. Para se ter uma idéia, podemos analisar um ritual peculiar ao despertar do rei Luis XIV em seu quarto:
“De manhã, geralmente à 8 horas, e em todo caso no horário por ele determinado, o rei é acordado pelo primeiro criado de quarto, que dormia aos pés de sua cama. As portas são abertas para os pajens. Nesse momento, um deles acaba de dar a notícia ao "grand chambellan" e ao primeiro fidalgo de quarto, um segundo dirigiu-se à cozinha da corte para providenciar o café da manhã e um terceiro ocupa seu posto diante da porta, deixando entrar apenas os senhores que têm o privilégio do acesso.
Esse privilégio seguia uma hierarquia muito precisa. Havia seis grupos diferentes de pessoas com permissão para entrar, um após outro. Falava-se então das diversas "entrées". Primeiro vinha a "entrée familiere". Faziam parte dela sobretudo os filhos legítimos e os netos do rei (enfants de France), príncipes e princesas de sangue, o primeiro médico, o primeiro cirurgião, o primeiro criado de quarto e o primeiro pajem.
Depois vinha a "grande entrée'; reservada aos grands officiers de Ia chambre et de Ia garderobe” e aos senhores da nobreza a quem o rei concedera essa honra. Seguia-se então a "premiere entrée", para os leitores do rei, os intendentes para divertimentos e festividades, entre outros. Em seguida havia uma quarta, a "entrée de Ia chambre'; que compreendia todos os restantes "officiers de Ia chambre", além do "grand-aumônier (o grande capelão), os ministros e secretários oficiais, os "conseilleurs d'État", os oficiais da guarda pessoal, os marechais de França e assim por diante. A admissão para a quinta entrée dependia em grande medida da boa vontade do fidalgo de quarto, e naturalmente do favorecimento do rei. Incluíam se nela senhores e senhoras da nobreza que recebiam tal favorecimento, a quem o fidalgo de quarto deixava entrar. Assim, eles tinham o privilégio de se aproximar do rei antes de todos os outros. Finalmente, havia ainda um sexto tipo de entrada, que era o mais disputado. Nesse caso, não se entrava pela porta principal do quarto, mas por uma porta traseira. Era uma entrée aberta para os filhos do rei, incluindo também os ilegítimos, e mais suas famílias e os genros. Pertencer a esse grupo significava um grande privilégio, pois os envolvidos tinham permissão de entrar a qualquer hora nos gabinetes do rei - a não ser que ele estivesse em conselho ou tivesse começado um trabalho especial com seus ministros - podendo permanecer no quarto até que o rei saísse para a missa, mesmo quando ele estivesse doente.
Como vemos, tudo seguia regras bem precisas. Os dois primeiros grupos eram admitidos quando o rei ainda estava na cama. Ele usava então uma pequena peruca; nunca aparecia sem peruca, mesmo deitado em sua cama. Quando estava de pé e o grand chambellan com o primeiro criado de quarto acabavam de vestir o seu robe, chamavam o grupo seguinte, a premiere entrée.
Quando o rei havia calçado os sapatos, ordenava aos officiers de Ia chambre que as portas se abrissem para a entrée seguinte. O rei tirava o robe. O maître de Ia garderobe puxava a camisa noturna pela manga direita, o primeiro criado de garderobe pela manga esquerda; a camisa do dia era trazida pelo grand chambellan ou por um dos filhos do rei que estivesse presente. O primeiro criado de quarto segurava a manga direita, o primeiro criado de garderobe, a esquerda.
Assim o rei vestia sua camisa. Então ele se levantava de seu fauteuil e o maître de Ia garderobe o ajudava a afivelar os sapatos, prendia a espada, vestia os seus trajes e assim por diante. Já vestido, o rei rezava brevemente, enquanto o primeiro capelão, ou um outro religioso que estivesse presente, recitava uma oração. Toda a corte ficava de prontidão, esperando na grande galeria, próxima ao jardim, a qual ocupava toda a extensão da parte central atrás do quarto de dormir do rei, no primeiro andar do castelo. Era assim que discorria o "Lever" do rei.” [2]
O que nos chama a atenção nesta citação é a meticulosa exatidão em que cada atitude revela um sinal de prestigio, simbolizando a divisão de poder da época. A etiqueta tinha uma função simbólica de grande importância na estrutura dessa sociedade aristocrática e dessa forma de governo real.
O fato de o rei despir sua camisa noturna e vestir sua camisa diurna era, sem duvida, uma atividade necessária, mas ela ganha um novo sentido no contexto social. O rei fazia disso um privilégio para os nobres presentes, que os distinguia diante dos outros. Ou então, participar das entrées servia como indicador da posição do individuo no frágil equilíbrio de poder entre os diversos cortesãos, equilíbrio controlado pelo rei.
As formalidades continuavam porque uma vez que a hierarquia dos privilégios foi criada segundo os parâmetros da etiqueta, esta passou a ser mantida apenas pela competição dos indivíduos envolvidos em tal dinâmica, privilegiados por ela e compreensivamente preocupados em preservar cada um dos seus pequenos privilégios e o poder que eles conferiam.
Embora fosse algo que reproduzia aspectos sem conteúdo e que muitas vezes se tornava enfadonho, as etiquetas foram preservadas até a Revolução Francesa de 1789, pois desistir dela teria significado tanto para rei quanto para a aristocracia um abandono dos privilégios, uma perda de poder e prestigio.
O cerimonial de despertar da rainha era vazio de conteúdo assim como o do rei. E por muitas vezes cansativo como, por exemplo, certa vez em que a criada de quarto estava ajudando a rainha a se vestir e mulheres de privilégios diversos entravam no quarto para ajudar a rainha. Logo, se uma pessoa que possuísse maior prestígio estivesse presente esta teria a honra de vestir a rainha.
Então assim que a rainha estava pronta para receber a blusa das mãos da criada de quarto chegou a dama de honra, a criada de quarto estava segurando a blusa da rainha e ia entrega-la para a dama de honra no momento em que chega a duquesa de Orléans. No entanto, quando a duquesa ia vestir a rainha chega a Condesa de Provance, que naquele momento era quem possuía maior prestigio. Por fim, a Condesa é quem coloca a blusa na rainha que durante todo este tempo estava despida e provavelmente orando para que ninguém mais entrasse no quarto.
Essa coerção da luta por poder, status e prestigio era continuamente ameaçado. Já que o fator determinante que obrigava todos os participantes dessa estrutura articulada em sua escala hierárquica, a continuar realizando um cerimonial que se tornara um fardo.
E, sem dúvida, a menor tentativa de reforma teria provocado a oposição de amplas camadas privilegiadas, que temiam, talvez com razão, que tocar qualquer detalhe da ordem estabelecida pudesse resultar na ameaça ou destruição da estrutura de dominação que lhes concedia privilégios.
Assim como Maria Antonieta que certa vez tentou alterar a etiqueta, e a própria nobreza protestou. Já que uma duquesa que antes tinha o privilégio de sentar-se a mesa somente com a rainha, se ofendeu quando viu pessoas de um nível inferior tendo o mesmo privilegio.
Ora, tudo o que desempenhava um papel na relação entre os homens convertia-se em chance de prestígio nessa sociedade: o nível social, o cargo herdado e a antiguidade da casa. O favorecimento do rei, a influência sobre os ministros, a participação em uma determinada “panelinha”, a liderança no exército, as boas maneiras, a beleza do rosto, tudo isso convertiam-se em chance de prestigio, combinando-se em um homem singular e determinando seu lugar na hierarquia inerente à sociedade de corte.
“Aquele que não é visto, não é lembrado”, o ditado popular atual cabe muito bem nestas circunstâncias, pois não importa seu título: ele só faz parte da “boa sociedade” enquanto os outros acham que faz, ou seja, enquanto o consideram um membro. A opinião social tem, em outras palavras uma importância e funções bem diferentes das que desempenham numa sociedade burguesa mais ampla.
Vale mencionar que na sociedade de corte de Luis XIV na Fraca do século XVII a exigência de prestigio não deve ser esclarecida a partir de uma vontade de assegurar chances econômicas, embora ela resulte de uma determinada situação econômica. A etiqueta e o cerimonial dos cortesãos não é nenhum ethos econômico disfarçado, mas algo distinto. Existir sob a aura do prestigio, ou seja, existir como membro da corte, é o objetivo final dessas pessoas.
Os Postos Femininos
A colocação “postos” pode ser inicialmente estranha, mas é disto que se trata quando viermos a observar a posição, de destaque, das mulheres no mundo da Corte. Deve-se, para tanto, ir além do caráter teórico que se dá quanto à função deste meio - administração, defesa territorial, poder público, governo do país. O que fariam então as mulheres, privadas, também teoricamente, da vida pública, e do poder a ela relacionada, neste ambiente? A condição feminina dentro deste universo masculino não fugiria à funcionalidade que estava cotada às damas de respeito e de família? É este caráter híbrido que nos possibilita conceituar como sociedade este ambiente das cortes na Europa, a partir do século XVI-XVII. Misturava-se o convívio familiar com o exercício do poder; regras de conduta próprias e isoladas, quase que alheias ao controle da Igreja e das normas sociais. Lá as mulheres eram mães, amantes e princesas. Famílias inteiras de nobres e de serviçais lá estavam alojadas, assim como o governo do Reino. Assim estas mulheres se viram, diferentemente da maioria das demais mulheres que não gozavam desta convivência nos palácios, esbarrando nos pilares da governabilidade, envoltas pelo poder e pela exposição pública – tão inconveniente ao seu sexo.
Eleanor Hermam avalia que a França passa a reavaliar seus conceitos acerca da mulher. Os teólogos ainda a atacavam, e sua fama de voluptuosa já estava arraigada no imaginário desta sociedade, sendo mesmo propagada pelos supostos combatentes da moral da Igreja, os humanistas. Ainda imbuído da visão cristã, porém se recolocando perante uma avalanche de novas concepções, Erasmo de Roterdã descreve as mulheres em seu Elogio da Loucura, como sendo mais susceptíveis à dita loucura, sendo a mulher a seguidora mais incontrolável desta. A volúpia, a dissimulação, a beleza, a futilidade e a vicissitude, entre outras “qualidades” às quais a mulher poderia se dar ao luxo de se entregar, conectam-se ao seu papel pouco exigente da tal Razão. Um ser tolo era o que se via na mulher. Dada às destemperanças de seu corpo pecaminoso ela era a tentadora cega, pouco racional. Para tal perigo à sociedade só restaria o controle rígido e incessante. A tutela da mulher pelo homem fez parte de uma ordem social calcada no temor a ela. E o principal controle se dava no âmbito sexual, da sua fonte demoníaca donde saíam as rédeas com as quais elas aprisionavam os homens e os cegava, tal como Eva fez a Adão no paraíso, o impelindo a comer do fruto proibido (o ato sexual?). Mas apesar disto a Sociedade de Corte, observada (mas não vigiada) de perto pelo povo, que a tinha em seus comentários, viu-se diante de mulheres que se interpunham, de maneira sensual (como Madame de Pompadour, Du Barry ou Montespan) ou pudica (como Madame de Mantenon e, tardiamnete, Louise de La Vallière), a tal concepsão. Ainda que corroborando com o mito da Devoradora ou da Virgem, algumas mulheres conseguiram demonstrar que a beleza feminina não é inimiga da inteligência. Ainda assim, o mundo fabuloso e ardil, da Corte utilizava as mulheres como peças de joguetes individuais, e estas fizeram jus a sua fama de imprevisíveis e ardilosas, por vezes conseguindo roubar para si os louros e a glória – ainda que temporariamente.
Dentro deste meio, as mulheres serviam para muitos propósitos além dos que se devem a sua posição ideal na comunidade. Neste mundo, onde o exemplo maior é Versalhes, todos os movimentos e relações tinham uma etiqueta, um ritual de conduta e uma definição de função, e as mulheres estavam bem organizadas e divididas por funções, postos. Cargos funcionais, como Dama de Honra e de Companhia, e títulos de nobreza, que interferiam diretamente nessas funções. É preciso, pois, diferenciar privilégio de prestígio. O privilégio por vezes provém do prestígio, mas este não é o único meio de conseguir tais privilégios. Os títulos são os principais fornecedores de privilégios. Mas o prestígio, que era a moeda corrente na Sociedade de Corte, também poderia vir antes do privilégio, e comprava os títulos de nobreza, vindo junto com uma comitiva de aduladores, ávidos por sugar um pouco do brilho que este alguém no momento emanava. Destes jogos de conquista as mulheres não estavam excluídas, na verdade quase sempre, ou sempre, estavam envolvidas. Chegando para a Corte, elas deveriam impor suas qualidades, suas virtudes, e suas garras. Se soubesse como conquistar alguém importante, homem (principalmente o Rei) ou mulher (a Rainha ou a mãe do Rei), ela conseguiria escalar vários degraus. Mas esta posição poderia oscilar tão rapidamente que sua cabeça jamais se reerguiria.
Tornar-se uma Demoiselle d'Honnor; era de fato uma honra, e uma oportunidade de ouro. Madame de Montespan – Amante Oficial de Luis XV por mais de uma década – foi Dama de Honra de Maria Lezsczinska, assim sucedeu com as suas predecessoras, as três irmãs Mailly, que se seguiram nas diversões da cama real, e que também eram Damas de Honra, ou da Rainha ou da própria Amante Oficial (no caso uma de suas irmãs).
As Damas de Honra serviam assim como uma rede de informações, tanto para a Rainha ou para a amante, quanto para o Rei, como também para outrem interessado em informações. Mas eram relações de risco, dadas a trapaças e escândalos.
Rainha e Amantes
Obviamente que as atenções estavam sempre voltadas para círculo Real, que com tempo ia tornando-se imenso, com filhos legítimos e ilegítimos do Rei, Amantes Oficiais e favoritas (o)s.
Contudo a Rainha e a Amante Oficial (que era um cargo distinto dentro das normas da Corte) eram os melhores alvos para o veneno e a risada, a adulação e o ódio.
A situação da Rainha era mais sólida que a da amante, as a última tinha mais conforto que a pobre e vigiada Mãe do Reino. Havia diferença bastante sensível. Primeiramente a escolha. O casamento era combinado, a esposa nem sempre era desejada, era um acordo político. No caso da amante era o oposto. Dentre todas as mulheres que desfilavam pela corte, uma chamara a atenção do Rei, por sua beleza, sim, mas principalmente por sua postura, seus modos, sua inteligência, ou seja, sua agradável companhia. Não se tratava apenas de sexo. A Amante Real por excelência, Madame de Pompadour ganhava mais influência com o passar dos anos, ainda que frígida e acabando por ter menos contato sexual com o seu Rei, Luis XV. Enquanto Maria Lezsczinska dava-lhe tantos filhos, entretanto não tinha metade da glória de Pompadour. Esta distinção de afetos estava clara nos próprios aposentos das mulheres do Rei. As amantes costumavam ter quartos suntuosos, e os das rainhas, ainda que belos não ram tão ornamentados. Presentes e títulos também faziam parte do mundo das amantes reais.
É obvio que tamanha disparidade viria acarretar a mesma medida de desavenças. Muitas vezes as rainhas não queriam passar pelo que consideravam uma humilhação e enfrentavam seus esposos, quase sempre a amante saia ganhando desta disputa. A decisão do Rei – o “cargo” mais sólido da Corte – era sempre seguida pela maioria de seus cortesãos, e muitas vezes uma Rainha teimosa podia sofrer as conseqüências com o desprezo de seus cortesãos. As amantes também esperneavam contra a sua condição de Amante e brigavam pelo casamento com o Rei, humilhavam a Rainha em público e armavam escândalos. Mas também acontecia de ambas viverem sob uma trégua, evitando constrangimentos. Como Maria Lezsczinska e Madame de Pompadour.
É importante salientar a importância das amantes na vida política do reino. Era um cargo oficial, como o de primeiro ministro, e deveriam se apresentar perante a Corte num cerimonial. As Amantes Oficiais serviam como embaixatrizes, como símbolo do Estado – já que as Rainhas eram quase sempre estrangeiras. As demais amantes que o Rei viesse a ter não tinham tamanha influência. Nell Gwen, amante de Carlos II da Inglaterra não se interpunha nos assuntos políticos nem ninguem lhe procurava. Já a sua Amante Oficial era regada de adulações e atenção. Eram elas poderiam ser portas de entrada para as negociações, como Diane de poitiers e Pompadour. É certo que nem todas elas se interessavam por assuntos de estado, como Madame du Barry, Louise de La Vallière. Mas com raras exceções estas se dedicavam a serem mecenas das artes e/ou musas, e todos que queriam adentrar em tal meio deveriam primeiro, convencer a Amante Oficial do Reino. Não era raro ver um movimento mais incomum em frente a porta da Amante do que a da Rainha. Mas tudo não eram flores para as tão apreciadas “Rainhas” do rei. A qualquer momento seu Senhor poderia se engraçar com outra cortesã e desinteressar-se por ela. Além de tal possibilidade.
O brilho de ser uma rainha era constantemente ofuscado pelo fulgor de um Rei absolutista. Quando este morria a situação se invertia. As mulheres Médicis – Catarina e Maria – são exemplos de pulso e fome de poder que só puderam se expandir com a morte de seu marido. As amantes também sofriam mudanças drásticas em seu status. Muitas vezes eram ameaçadas de viver o resto de seus dias na pobreza, no ostracismo. Outras se viam na dependência de um marido humilhado, mas todas se viram restringidas de todo o poder que conquistaram.
Com os filhos não havia possibilidade de disputas políticas quanto a sucessão do trono, já que os ilegítimos estavam fora da escolha. E as filhas arranjavam casamentos mais que satisfatórios. Para a amante muitas vezes eram um meio de estender ainda mais o seu domínio sobre o Rei. Quando Gabrielle d’Étrees engravidou de Henrique de Navarra, ela o tentou a casar-se com ela, oficializando-a e dando direitos aos seus próximos filhos – o que ela esperava já era considerado ilegítimo dado que Henrique encontrava-se casado com Margarida de Valois, que se negava a dar-lhe o divórcio. Já os filhos da Rainha estavam todos garantidos em seu futuro, ter um filho consoliva sua posição e sua respeitabilidade. Mas era inevitável que se cobrasse a atenção do rei, pois que esta era mais uma prova do amor de seu pai pela sua mãe ou do desprezo que este tinha por ela.
Fofocas e as Imagens dos Cortesãos
Há outro fator importante a se expor. As mulheres foram as mais fervorosas coletoras e divulgadoras de informações advindas do ambiente dos palácios e seus cortesãos. Os diários e as cartas que elas escreviam – por vezes incessantemente – são fontes primorosas para o estudo deste assunto aqui tratado. Obviamente que é preciso ter cautela ao se analisar tais fontes, já que muitas delas eram feitas para serem lidas pelos seus contemporâneos – ainda que por “acidente” como os diários. A difamação e as artimanhas estão contidas nestes escritos. Mentiras, verdades e meios termos são artífices utilizados por aquelas que se tornaram as pequenas, ou gigantes, “jornalistas” de seu tempo. Adentrando neste assunto, entra o que Norbert Elias chama de fardo de um cortesão. Pode-se ilustrar a convivência na corte dos palácios dos Séculos XVI e XVII como equivalente à pompa e à ostentação destes palácios, cujas cortinas, paredes e pilastras tão ricas e deslumbrantes escondiam as maquiagens, as tramas e os dejetos humanos deixados em pinicos no corredor para serem escondidos. Assim também era o dia a dia de um cortesão e de uma cortesã, que se enchia de ornamentos e de doces palavras, de belos modos, para esconder seus sentimentos reais. Mesmo aqueles que não desejavam se tornar como os típicos cortesãos fúteis e traidores dos romances acabavam precisando se misturar e se impor como tais para defender-se de possíveis armações e para impor algum respeito. Então muitos dos romances se passavam nas propriedades rurais de nobres, uma nobreza da terra que era mais pura, mais rodeada por amor, o amor cortês da Idade Media, ou uma nova idealização de amor que fosse mais sincero que o fugaz furor sexual vivenciado nas Sociedades de Corte. Maria Antonieta tentou se refugiar num desses paraísos rurais em seu Petit Trianon com este mesmo propósito, libertar-se das regras de etiqueta, dos janares com presenças inconvenientes Às quais precisava tratar amavelmente, e de todos os estafantes jogos de azar e de amor que a consumiam. Mas em sua maioria estes romances não eram levados à sperio, eram um refúgio literário apenas, não real. Sem o apoio do Rei, conseguido em freqüentes visitas a Versailles, no caso extremo da França, era difícil manter-se influente ou rico.
AS DESPESAS DE MANUTENSÃO DO STATUS SOCIAL DA CORTE E A IMPORTANCIA DA FIGURA DO REI NESSA SOCIEDADE
Num meio social tão diferenciado desse modelo industrial moderno em que vivemos onde acumular riquezas, e acumula-las sempre e mais, para manter ou elevar o nível social nos é estranho observar a forma como essa sociedade de corte se apresentava. Uma sociedade onde acumular riquezas era um estágio para se alcançar um título (comprado) de nobreza e passar a pertencer à esfera mais elevada da pirâmide social. Aos nobres era proibido, tanto legal quanto moralmente, de praticar alguma atividade comercial, pois isso, segundo Montesquieu (in Elias), tiraria aos comerciantes o estímulo maior que os incitava a juntar dinheiro, quando acumulassem o suficiente poderiam comprar um título de nobreza e começariam a gastar seus rendimentos imediatamente com as despesas de sua nova situação social.
As despesas de manutenção e representação desse status era a principal causa da ruína das grandes famílias, pois como não podiam negociar com o comércio, essas famílias gastavam com o único meio de que proviam: as terras e as heranças. Algumas famílias também recorriam aos empréstimos e venda de jóias para manterem seu nível de vida, em ambos os casos a ruína era apenas retardada e assim, quando uma família caía no fracasso, outra imediatamente a substituía sendo a sociedade de corte um rodízio constante de ascensões e quedas de famílias. Esse sistema do ponto de vista do monarca era uma forma de manter o poder da monarquia absoluta, pois as duas classes principais, nobreza e burguesia, concorriam para se manterem junto ao rei e fazer parte do seu meio respectivamente. Mas algumas famílias poderiam ser salvas ou adiadas da ruína de acordo com a vontade do rei, que poderia conceder-lhes algum cargo, prêmio ou missão militar para aquelas famílias mais consideradas pelo monarca.
Mesmo aqueles nobres que possuíam cargos e magistraturas tinham que dispor altas somas para manter a liturgia do cargo, fazendo com que a nobreza ficasse completamente dependente da benevolência do rei para não caírem es desgraça. As intrigas e invejas entre as casas nobres era constante, e uma das formas de se saber se alguma casa tinha realmente como manter seu status era obrigá-la a promover grandes banquetes e a distribuir prendas altas, de preferência a uma família rival. Para entender o porquê essa sociedade se comportava dessa forma, gastando o que tinha para se manter em uma esfera social, é preciso ter em mente que para aquelas pessoas fazer parte do convívio com o rei era o sentido de sua vida, esses indivíduos só se entendiam e se reconheciam como pertencentes a esse convívio. O trabalho era algo degradante e próprio dos que não faziam parte desse meio. Não adiantava possuir riquezas, era necessário mostrar, exageradamente que as possuía.
Esse sistema de sociedade de corte era o sustentáculo da monarquia, da qual falaremos do exemplo clássico de França. Manter um sistema, como já foi mencionado, onde os que acumulam dinheiro o faz para pertencer a uma camada próxima ao monarca e os que fazem parte dessa camada estarem o tempo inteiro buscando a confiança do rei propiciou um controle absoluto do poder, principalmente no longo reinado de Luis XIV. O rei tinha a inveja e as intrigas entre os nobres como aliados eficazes, pois os mesmos faziam de todo o possível para adquirir honras e prestígios face ao rei, seja delatando ou espionando outrem.
Luis XIV havia sofrido a experiência da Fronda durante sua infância, por isso em seu reinado procurou criar um sistema social onde as duas classes que mais o ameaçavam ficassem dependentes da sua figura. A etiqueta e a transferência da nobreza para Paris tinham suas funções estratégicas, a primeira fazia com que o rei estivesse o tempo inteiro cercado de pessoas, o que diminuía os riscos de um atentado à sua vida, a segunda mantinha os nobres sob sua dependência e fiscalização, contando sempre com o fator de disputas entre as partes. A etiqueta era um instrumento de dominação, com ela ele transformava interesses antagônicos em interesses do rei. A figura pessoal de Luis XIV não era importante, mas foi um dos maiores monarcas da História do ocidente, pois soube articular bem esse jogo de consolidação do poder, utilizando na maioria das vezes a capacidade alheia para tomar suas decisões. O Rei vigiava e mantinha sempre constantes as divergências entre as camadas, com isso elas nunca se aliariam e viam na sua figura a única fonte onde podiam recorrer.
A vigilância constante era um meio de defesa indispensável para o monarca, assim como a observação psicologia de seus súditos. “o desejo do rei de saber tudo quanto se passava à sua volta nunca abrandava;” (Saint Simon in Elias). As ambições de uns serviam de freio para as de outros. Por isso a corte e a etiqueta aliadas as intrigas e rivalidades fizeram do reinado de Luis XIV o mais absoluto de França.
[1] DURANT, Will e Ariel, A História da Civilização. A Era de Luís XIV, livro VII, 2ªed.Rio de Janeiro, Ed. Record.
[2] ELIAS, Norbert. A sociedade de corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. Págs. 101 e 102.
Conjuntura do nascimento da Ciência Econômica
Este é mais um texto produzido pro alunos do 5º período de História da UFPE, (noturno)
CONJUNTURA DO NASCIMENTO DA CIÊNCIA ECONÔMICA
por
FELIPE AZEVEDO , AGENOR FACUNDES e GABRIEL VIEGAS
O nascimento da ciência econômica se insere no percurso das veredas de alguns dos mais evidentes traços da modernidade. Sendo o arcabouço teórico que se sublima no desenvolvimento científico, para dar cerne aos clamores de uma burguesia ascendente e de parte de uma nobreza que reclamavam seus direitos na participação dos lucros do comércio, um conflito que se insere no processo de ampliação dos direitos individuais ante a opressão do estado absolutista.
Com a formação dos estados nacionais, deixou-se de se pensar apenas localmente e os governos absolutistas passaram a ter de governar nacionalmente, com a necessidade de acumular riquezas para tornar-se uma nação soberana. Assim sendo as práticas mercantilistas supriram estas necessidades iniciais de acumulação, onde o estado absolutista regulava incisivamente a cadência econômica, sob uma regulamentação abusiva subsidiava ou sobre taxava os produtos que achava necessários para o desenvolvimento econômico, além do que restringia o direito de produzir e comerciar aos monopólios indicados ou vendidos pelo rei, que na maior parte das vezes atendia a interesses pessoais ou de classe em detrimento dos interesses da nação. Em nenhuma época foi tão evidente a ligação entre os interesses econômicos e a política nacional e os que mais se prejudicavam eram os produtores agrícolas, colocados em segundo plano pelo governo que incentivava apenas a produção manufatureira.
Nas críticas dos intelectuais a estas práticas mercantilistas surgia o esboço das razões que iriam congregar a primeira escola econômica da história, os Fisiocratas. Críticas fundadas na crença da auto-regulamentação do mercado, contra a intervenção direta do estado por meio das regulamentações que controlavam rigidamente o fluxo de riquezas.
Essas críticas sócio-econômicas ganharam esteio no desenvolvimento científico, principalmente depois das postulações de René Descartes, quando os pensadores da economia ganharam um amparo que moldasse suas críticas sistematicamente e sob o pensamento mecanicista desenvolveram teorias econômicas que visavam enriquecer a nação e distribuir as riquezas para uma maior parte de súditos.
Vários filósofos criaram as bases para a idéia de livre comércio, Thomas Hobbes, John Locke e William Petty foram críticos das práticas mercantilistas. Locke já acreditava que a riqueza de uma nação não estava simplesmente na acumulação de riquezas, mas no afluxo dessa, e como a nação conseguiria transformar essa riqueza em capital produtivo. Os silogismos eram exemplos de como o pensamento mecanicista era vigente, Senhor de Boisguillebert criticando os impostos excessivos na França utiliza este silogismo: Consumo é fonte de riqueza – Impostos inibem o consumo – Impostos inibem a riqueza.
Assim o é também com David Hume, cujas idéias influenciaram frontalmente seu amigo Adam Smith, ele criou este raciocínio: Um reino com importações / exportações abundantes possuí mais indústrias, logo possuí mais homens trabalhando, consequentemente mais dinheiro circulando e uma maior variedade de produtos, gerando assim um mercado aquecido e a maior felicidade de seus súditos.
Portanto a ciência econômica se desenvolve inserida no desenrolar das teorias cartesianas e atendendo as necessidades dos comerciantes ansiosos por alcançar os logros do livre mercado, se apropriando do discurso dos direitos individuais, no qual o direito a propriedade, podendo produzir sua propriedade e vendê-la a quem quiser.
Os Fisiocratas
Os fisiocratas franceses do século XVIII foram os primeiros a sistematizar a existência de uma ordem natural reguladora do mercado. Por motivos diferentes daqueles que os economistas clássicos ingleses usaram para fundar as ciências econômicas, os franceses declararam de maneira original que essa ordem organiza e reorganiza automaticamente a economia. Uma espécie de “mão invisível” funciona e dispensa a regulação externa do mercado, independente da vontade humana. Porém, essa concepção de mercado auto-regulado se constitui, décadas depois, na base dos argumentos liberais sobre o livre comércio e na consagração científica do “laissez-faire; laissez-passer”, destruindo as bases metafísicas do pensamento fisiocrata. Um conjunto de teorias que, entre os anos de 1750 e 1780, constituíram-se na expressão do Iluminismo em matéria de economia política, providenciando a descoberta de que leis econômicas atuam na produção e circulação da riqueza, rompendo-se com o empirismo mercantilista da época e suas explicações que concebiam a riqueza como o excedente monetário e o Estado como a fonte geral dos interesses econômicos da sociedade.
O fato de ser uma escola de economistas restrita à França e intimamente ligada aos acontecimentos econômicos do antigo regime, em meio ao conturbado processo que antecedeu os anos mais radicais da Revolução de 1789, faz da fisiocracia a legitimadora dos interesses econômicos das classes sociais que dependiam das rendas obtidas a partir da agricultura, atividade ainda formalmente vinculada às relações extra-econômicas herdadas do feudalismo.
Na Inglaterra, país mercantilista mais adiantado, a economia política caminhou para a identificação do conceito de trabalho em geral como fator gerador da riqueza, enquanto a fisiocracia converteu-se à formulação da agricultura como responsável pela criação do valor físico da riqueza, ou melhor, da própria riqueza.
O valor físico, portanto, revela-nos a preferência dos fisiocratas pela produtividade física, ao contrário dos liberais ingleses, interessados pela produtividade do valor, onde se encaixa a teoria do valor trabalho, formulada por Adams Smith e aprimorada por David Ricardo, no limiar da primeira sociedade industrial em formação na Europa. A fisiocracia não podia compreender que a agricultura, como forma particular, tivesse de estar incluída na forma universal da indústria (isto é, da atividade produtiva em geral) e da sua manifestação ampla numa determinada fase histórica, o trabalho assalariado. É por isso que a fisiocracia, ao contrario da economia política liberal, não pôde desligar-se totalmente do velho fetichismo, a riqueza que existe apenas como objeto. Evidentemente, o fato de que os principais representantes da fisiocracia se encontram na França, e não na Inglaterra, é inseparável do estado geral da economia francesa do século XVIII, caracterizado como economia de uma nação monetária ainda não desenvolvida plenamente.
Trata-se, portanto, de uma explicação que demonstra a inter-relação da teoria fisiocrata com o status social da burguesia francesa do século XVIII, desejosa do laissez-faire, porém, olhando pelo retrovisor mercantilista que teima em “observar a riqueza apenas como um objeto exterior, e não como uma manifestação específica das relações humanas”, o que legitima, na prática, o perfil econômico do burguês da França: uma classe social maciçamente agrária, ainda que urbana, mas envolvida com a produção realizada nas grandes propriedades do interior, cujos senhores continuavam interessados na melhor maneira de transformar grãos em lingotes de ouro, ao velho sabor do metal nobre idolatrado desde as cercanias das cidadelas mercantilistas da Renascença.
Um perfil burguês que foge bastante aquele ideal de classe empreendedora e produtora da origem do capitalismo. Na verdade, uma burguesia funcionária pública e intelectual, com poucos segmentos mercantis, que aparecia aos olhos fisiocratas a detentora da iluminação e transmutação da riqueza agrária em produto líquido para movimentar as rendas do mercado interno. Nesse aspecto, a fisiocracia é extremamente nacionalista e, ao mesmo tempo, capaz de pensar categorias econômicas abstratas e supostamente universais, que elevaram a economia política além do discurso pragmático de seus antecessores.
Na França do século XVIII, por exemplo, onde os camponeses ainda constituíam a vasta maioria da população e a nobreza continuava a deter a posse da maior partes da terra, os cargos no Estado central serviam de recurso econômico para muitos membros das classes dominantes, como meio de extrair o trabalho excedente dos produtores camponeses sob a forma de impostos. Até os grandes proprietários que se apropriavam da renda da terra dependiam, tipicamente, de vários poderes e privilégios extra-econômicos para aumentar sua riqueza.
A presença e o peso dessas relações extra-econômicas no tecido social francês fez da burguesia iluminista a formuladora de explicações capazes de questionar o Absolutismo e ao mesmo tempo rogar categorias universais, protegendo assim sua posição social e a fonte de suas rendas. A defesa do “laissez-faire” é explicada como parte integrante do governo da natureza, responsável pelos ciclos econômicos de fluxo e refluxo, independente da vontade dos homens, mas assimilável pela análise e discernimento de sua “física” em benefício da sociedade. Assim, a presença do Estado na economia é criticada sob uma ótica moral e filosófica, enquanto a realidade econômica da época é explicada numa perspectiva puramente mercantilista: a riqueza “física” é obtida a partir da agricultura, a única atividade capaz de exercer uma função multiplicadora, mas, também, reprodutora daquele status das classes dominantes, esmagadoramente dependentes do Estado e seus tributos.
Formulou-se, então, uma espécie de motivo iluminista sobre a crença de que essa ordem natural condena os abusos do Estado contra a iniciativa de quem almeja fazer circular a riqueza e mobilizar a prosperidade da nação. No estado de “laissez-faire” o produto líquido nacional, o excedente da riqueza criada sobre a riqueza consumida, se manifesta mais dinâmica na livre concorrência, resultando em preços melhores e lucros maximizados para circular a “corrente sanguínea” da economia e o “quadro econômico” da França. O “tableau économique” de Quesnay (1758) vislumbra esse produto líquido gerado na agricultura, como a “lei” responsável pelo equilíbrio entre os interesses de “agricultores, terratenentes e artesãos”, moldando a economia do país com a suposta “mão invisível”. Contudo, o produto líquido circula com prosperidade entre aqueles que vivem das rendas da propriedade fundiária ou dos cargos públicos, restando à realeza e seus ministros do tesouro, o papel de garantir o benefício das rendas organizadas secularmente em seus diversos graus de usufruto extra-econômico, sem nenhum simulacro ou mascaramento.
O Absolutismo e suas regras de intervenção comercial, tal como a lei do trigo barato, estaria indo de encontro à natureza, que segundo os fisiocratas, orienta o fluxo da circulação dos valores monetários, distribuindo a riqueza entre os setores sociais respeitando a ação engenhosa dos indivíduos e sua capacidade de atuar e concorrer livremente no mercado. A lei da oferta e da procura, livre das intenções de seus agentes, é assim transmutada em ganhos mais vantajosos e rentáveis, na medida que o Estado não pode conspirar contra as leis que regem a economia. Diga o monsieur Turgot, fisiocrata que tentou colocar em prática tais idéias no Ministério das Finanças de Luis XVI, exonerado do cargo em poucos meses.
Observamos, claramente, que “a idéia de que apenas o trabalho produz valor foi desviada pelos fisiocratas do século XVIII, em um sentido específico: só o trabalho agrícola seria produtivo . Ou seja, enfatizando mais, a lógica fisiocrata opera nos limites do mercantilismo, e pode muito bem ser considerada sua economia política. A fisiocracia não é, certamente, a economia política do feudalismo, nem a do capitalismo.
Obviamente, os proprietários rurais estariam na base do impulso desse equilíbrio perseguido pelos fisiocratas, numa espécie de idílio camponês, onde não aparece definida a propriedade privada da terra na forma de capital, mas na exterioridade da riqueza vista como valor não-econômico, na forma de obrigações consuetudinárias (obrigações baseadas no costume), o que era próprio das economias pré-capitalistas. Aliás, essa “harmonia camponesa” tem um desdobramento político e tributário que recebe na fisiocracia o nome de imposto único cobrado sobre a terra, uma vez que lá está a economia na sua forma geradora, garantindo a apropriação pelas classes proprietárias e dirigentes, incluindo ai, certamente, a burguesia.
O interessante é que essa idéia “ilumina” o peso dos impostos sobre a população maciçamente camponesa, que na época ficava com o pagamento de pesados tributos, enquanto que os nobres proprietários, com as isenções concedidas pelo Estado absolutista, usavam de toda sorte de artifícios para não ver a tributação de suas propriedades, mantendo a tensão política permanente entre sua autonomia e a centralização do Estado, caracterizando sua disputa com a burguesia, em torno de questões econômicas e políticas, frisadas pelo por Francisco Falcon (1989) na “Formação do Mundo Contemporâneo”:
“Na França temos o país do absolutismo monárquico por excelência, em sua forma clássica. As condições que caracterizam esse absolutismo são agora agravadas pelo antagonismo crescente entre a nobreza e os setores burgueses ligados diretamente ao Estado absolutista, pois voltados para a perspectiva de enobrecimento para as funções públicas em geral, os burgueses sofreram durante o século XVIII uma verdadeira reação nobiliárquica, que buscou cercear sua influência política e administrativa e as possibilidades de ascensão à aristocracia. Esse endurecimento das posições aristocráticas tornou-se ainda mais violento porque todo o desenvolvimento econômico que se operava tendia, pelo contrário, a assegurar o predomínio crescente da burguesia na vida econômica e financeira do país”.
A fisiocracia se insere, portanto, nesse contexto e faz o olhar em busca de respostas econômicas para iluminar a sociedade contra o obscurantismo nobiliárquico e seus monopólios estatais: os fisiocratas encontram no velho discurso consuetudinário feudal, que segundo Karl Marx, transmutam em discurso meramente econômico as razões para explicar sua preferência pela agricultura, em detrimento do comércio e da indústria, considerando que não vislumbram nada muito além do mercantilismo e seu amor febril pelo valor físico da riqueza. Sem olhar para frente, os fisiocratas não puderam enxergar a propriedade privada e o trabalho assalariado como responsáveis pela dissolução das bases da antiga economia agrária e sua articulação com o mercantilismo.
As comparações entre o processo de transição feudo-capitalista na Inglaterra e na França contribuem bastante para enfocar a origem da economia política científica e o contexto histórico em que se deu a percepção da existência de leis econômicas, criando-se assim os primeiros fundamentos científicos dos estudos econômicos. Sob a contextualização dos acontecimentos econômicos vividos pelos primeiros paises europeus na passagem de suas sociedades ao capitalismo, Inglaterra e França partiram da agricultura e caminharam veredas bastante opostas, que se refletem inclusive nas diferenças entre a economia política fisiocrata e a economia política liberal, porém, contribuindo decisivamente para a formulação do liberalismo econômico, a mais importante de todas as ideologias burguesas, desde o século das luzes e quem sabe sua utopia mais distribuída pela sociedade globalizada dos dias atuais.
Na agricultura francesa do século XVIII encontra-se o motivo das escolhas fisiocratas. A idéia de uma sociedade juridicamente igualitária, política e economicamente livre conquistada pela razão contra os dogmas aristocráticos e católicos que dominavam a vida do país, ergue-se no governo da natureza, capaz de reconstruir a propriedade privada ainda concebida exclusivamente como propriedade fundiária. Marx (1844) afirma nos “Manuscritos Econômicos - Filosóficos” acerca dessa percepção:
“A doutrina fisiocrata do Doutor Quesnay representa a passagem do mercantilismo a Adam Smith. A fisiocracia é, diretamente, a dissolução econômico-política da propriedade feudal, mas por isso, de maneira igualmente direta, a transformação econômico-política, a reposição mesma, com a ressalva de que sua linguagem já não é feudal, mais econômica... Nela a terra não é ainda capital”.
Marx, contudo, não desqualifica a contribuição fisiocrata, considerando a capacidade subjetiva na formulação de conceitos que, se não atingem o trabalho em geral, reconhecem na riqueza particular, de forma objetiva, que sua essência é o trabalho, limitando-se a observar a propriedade fundiária como dada até então nos marcos da sociedade francesa, que desaparecerá tão logo as formas de propriedade industrial fiquem mais socialmente nítidas, além do fato de fornecer o arsenal de conceitos-chave dos quais se valeram os economistas clássicos a partir de Adams Smith.
O LIBERALISMO - ADAM SMITH
A influência de Adam Smith na Economia política é marcante. A sua “Riqueza das Nações”, publicada em 1776, constitui um marco neste campo, chegando ao ponto do economista alemão, Roscher, ter dito: “tornou inútil tudo que a precedera e inspirou tudo quanto se lhe seguiu”. Mesmo que exagerada, a afirmação reflete o sucesso que a obra-prima de Smith teve em sua época e que continua tendo.
Smith concebe ser o problema central da economia a questão do trabalho. Este sim é fonte de riqueza. Nega a noção dos fisiocratas de que a mesma viria exclusivamente da terra. Ele argumenta que se fosse verdade ser a terra o determinador da potência de uma nação, como conceber a existência de nações riquíssimas em recursos naturais e pobres economicamente falando?
O trabalho produtivo gera a opulência ou pobreza de uma nação. E é com a divisão do trabalho que o homem consegue aumentar consideravelmente sua produção. A especialização torna o trabalhador mais apto à desempenhar sua função; estimula as invenções, já que o operário terá muito tempo para observar apenas um etapa da produção.
O exemplo célebre de Smith é o da indústria de pregos, ele observa que dez operários, divididos, cada um em uma ou mais etapas da produção, poderão fazer 48.000 pregos por dia. Já um trabalhador que desempenhasse todas as etapas produtivas faria talvez um prego, em todo o dia.
Smith nos mostra que a extensão da divisão do trabalho depende da dimensão do mercado. È a força das trocas que determina a divisão do trabalho. Diz Smith: “quando o mercado é muito pequeno, ninguém terá incentivos para se dedicar a uma só função, pela incerteza que terá, relativamente à troca da parte excedente de seu trabalho pelas partes excedentes doas trabalhos das outras pessoas”.
Somente em uma cidade onde as atividades alcançaram um determinado grau de diversificação, é que o trabalhador terá incentivo à especialização. Da mesma forma, uma nação se especializará na produção de determinado item de consumo quando o excedente de sua produção pelos diversos excedentes de outros produtos concebidos em outras nações.
Smith explica que é a relação entre o produto do trabalho e o número de consumidores que determina a riqueza de uma nação. O que nos faz voltar a questão das trocas. Não adianta a maior produtividade sem haver quem queira adquirir o excedente do produzido.
Outro ponto crucial da obra de Smith é o caráter confluente do interesse particular e coletivo. Para o precursor da teoria clássica, o estado não deveria se preocupar com a ambição dos indivíduos, já que estes se convergem para o bem-estar geral. A liberdade de ação é o melhor caminho, como diziam os fisiocratas, posto que é o indivíduo o único apto a discernir e buscar a satisfação de seu próprio interesse.
O economista Paul Hugon classifica Smith como “um liberal prudente”. Para o primeiro, isso se deveu principalmente a grande influência que sua obra exercia, direta e indiretamente, sobre a evolução dos acontecimentos. Essa afirmação tenta explicar o fato de Smith, por exemplo, ter defendido o monopólio da navegação por seu país, a Grã-Bretanha.
Por fim é importante ressaltar o caráter pacífico da obra de Smith. Ele concebe o mundo com uma grande indústria, onde os interesses dos países estão interligados. Destrói a noção mercantilista de que o sucesso de uma nação se funda na bancarrota de seus adversários. Pelo contrário, para Smith, todas as nações, principalmente as desenvolvidas, tendem a enriquecer com o aumenta da divisão do trabalho e da diversificação do mercado.
Smith foi um grande teórico que baseou a riqueza no trabalho e nas possíveis trocas que podem ser feitas com o fruto desse trabalho.Superou a noção de acumulação, pregando a circulação da riqueza. Desmotivou a Guerra, considerando-a nociva aos negócios.Esteve muito à frente de seu tempo.
quarta-feira, janeiro 16, 2008
que história é essa?
Recebi hoje no programa QUE HISTÓRIA É ESSA?, que mantenho na Rádio Universitária AM, da Universidade Federal de Pernambuco, os professores José da Mata e Marcos Carvalho. O primeiro é um velho conhecido desde 1974, quando ele começou a ensinar no Curso ESUDA.
Tivemos, da Mata e eu, uma vida profissional paralela, nos encontrando em alguns colégios e, quase sempre, ensinando em colégios “concorrentes”. Nunca concorremos, mas sempre trocamos informações e experiências. Estivemos juntos no processo de deflagração da primeira greve que ocorreu no final da ditadura, ainda em março de 1979, no mesmo dia em que eclodia a greve dos motoristas. Embora isso não tenha muita importância, não é correto afirmar que foram os canavieiros que iniciaram as greves (ocorreu no segundo semestre) que levaram ao fim da ditadura, e nem mesmo a greve de São Bernardo dos Campos foi a primeira, embora tenha sido a mais importante por conta da importância daquele setor na economia do país. Mas esse último comentário é apenas para resgatar algum conhecimento de nossa história recente. E foi esse um ponto que da Mata chamou atenção: os alunos estão interessados mais na história recente que nos acontecimentos mais passados, embora o conhecimento daqueles seja importante para a compreensão desse presente que vivemos. O professor da Mata alegrou muito o meu dia de hoje.
O professor Marcos Carvalho revelou aos ouvintes do programa, com palavras simples e seu jeito boa praça, a beleza que é estudar a vida social, a vida comum, a vida dos homens comuns e, a partir dessas vidas, compreender as muitas vidas, o processo das vidas que formam a história. Marcos Carvalho é um dos melhores historiadores que temos em Pernambuco atualmente; um homem dedicado à pesquisa e que escreve com uma leveza e elegância cativantes.
A cada quarta feira, no programa QUE HISTÓRIA É ESSA? Sinto a lufada de vida que vem com as conversas mantidas com meus colegas professores e historiadores.
Tivemos, da Mata e eu, uma vida profissional paralela, nos encontrando em alguns colégios e, quase sempre, ensinando em colégios “concorrentes”. Nunca concorremos, mas sempre trocamos informações e experiências. Estivemos juntos no processo de deflagração da primeira greve que ocorreu no final da ditadura, ainda em março de 1979, no mesmo dia em que eclodia a greve dos motoristas. Embora isso não tenha muita importância, não é correto afirmar que foram os canavieiros que iniciaram as greves (ocorreu no segundo semestre) que levaram ao fim da ditadura, e nem mesmo a greve de São Bernardo dos Campos foi a primeira, embora tenha sido a mais importante por conta da importância daquele setor na economia do país. Mas esse último comentário é apenas para resgatar algum conhecimento de nossa história recente. E foi esse um ponto que da Mata chamou atenção: os alunos estão interessados mais na história recente que nos acontecimentos mais passados, embora o conhecimento daqueles seja importante para a compreensão desse presente que vivemos. O professor da Mata alegrou muito o meu dia de hoje.
O professor Marcos Carvalho revelou aos ouvintes do programa, com palavras simples e seu jeito boa praça, a beleza que é estudar a vida social, a vida comum, a vida dos homens comuns e, a partir dessas vidas, compreender as muitas vidas, o processo das vidas que formam a história. Marcos Carvalho é um dos melhores historiadores que temos em Pernambuco atualmente; um homem dedicado à pesquisa e que escreve com uma leveza e elegância cativantes.
A cada quarta feira, no programa QUE HISTÓRIA É ESSA? Sinto a lufada de vida que vem com as conversas mantidas com meus colegas professores e historiadores.
segunda-feira, janeiro 14, 2008
José Vicente da Silva Neto, o meu irmão Doutor
No dia de ontem, 13 de janeiro, nossa família sepultou o corpo de José Vicente da Silva Neto, meu irmão de 60 anos, a quem eu chamava de Doutor. Esse apelido, pelo que eu ouvi dos familiares mais velhos, foi decorrência do fato de meu pai ter comprado uma roupa tipo passeio formal, quando Zezinho ainda muito menino. Os moradores disseram que ele ficou parecido com um “doutor”, e aí lhe coube esse apelido ao longo da vida. Naquela época ainda morávamos no Eixo Grande, na propriedade Boa Esperança, que papai havia comprado às margens do rio Capibaribe, em Carpina. Uma terra de 40 hecatares que quase matou meu pai de trabalho, ao ponto de sua urina se tornar sangue. Por isso viemos para o Recife, Casa Amarela, no lugar que hoje é o bairro Nova Descoberta. Isso foi em 1955. Foi em Nova Descoberta que Doutor cresceu estudou com “seu João Batista”, depois no Colégio Bandeirante, no Colégio Técnico Professor Agamenon Magalhães. Mas não fez curso universitário.
Doutor ajudava muito na mercearia que papai possuía. Mas também sempre foi um grande farrista. Como papai nunca estabeleceu mesada, tudo dependia do nosso discernimento, na hora de “fazer um pinto” no final do dia. Papai sempre fazia vista grossa, mesmo sabendo que parte do apurado do dia, ficava com os filhos que ajudavam na venda. Hoje isso não seria possível, pois esse trabalho poderia ser visto como exploração infantil e não uma parte do processo educacional e aprendizagem da responsabilidade que cada um deve assumir na família. Vez por outra Doutor exagerava no “pinto”, mas não só ele. Às vezes nós brigávamos, mas sempre havia reconciliação voluntária, ou assistida pelos olhares e atitudes de papai e mamãe.
No seu tempo de serviço militar Doutor entrou na Marinha de Guerra: ganhou o mundo, conheceu países diversos, cruzou a Linha do Equador várias vezes. A cada viagem trazia presentes para cada um dos irmãos e para os seus amigos de farra mais próximos. Graças às suas viagens, aprendi a gostar de bons uísques produzidos e engarrafados na Escócia. Em casa tínhamos os mais modernos toca-fitas, brinquedos modernos para o caçula Jorge Cláudio e muitas outras coisas. Saindo da Marinha de Guerra, Doutor embarcou na marinha mercante brasileira, até a sua aposentadoria.
Nas idas e vindas, conheceu Terezinha Nascimento, uma professora que trabalhava com Zefinha, minha irmã professora da Fundação Guararapes, e deu casamento e nele nasceram Alexsander e Tatiana Nascimento. Tatiana é jornalista premiada nacionalmente, mas trabalhando em jornal pernambucano; Sander está em São Paulo, já casado e dando continuidade à profissão no campo de publicidade.
Ontem, no sepultamento de Doutor, a sua mãe comprovou o que já sabia: o seu filho, aquele que passou parte de sua aposentadoria cuidando dos interesses da família, ajudando Dona Maria com a tesouraria da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes de Nova Descoberta, que se vestiu de Papai Noel para alegrar as missas dos enfermos, na mesma paróquia, ela pode comprovar como foi bonita e cheia de glórias a vida de seu filho José Vicente da Silva Neto, meu irmão.
Doutor ajudava muito na mercearia que papai possuía. Mas também sempre foi um grande farrista. Como papai nunca estabeleceu mesada, tudo dependia do nosso discernimento, na hora de “fazer um pinto” no final do dia. Papai sempre fazia vista grossa, mesmo sabendo que parte do apurado do dia, ficava com os filhos que ajudavam na venda. Hoje isso não seria possível, pois esse trabalho poderia ser visto como exploração infantil e não uma parte do processo educacional e aprendizagem da responsabilidade que cada um deve assumir na família. Vez por outra Doutor exagerava no “pinto”, mas não só ele. Às vezes nós brigávamos, mas sempre havia reconciliação voluntária, ou assistida pelos olhares e atitudes de papai e mamãe.
No seu tempo de serviço militar Doutor entrou na Marinha de Guerra: ganhou o mundo, conheceu países diversos, cruzou a Linha do Equador várias vezes. A cada viagem trazia presentes para cada um dos irmãos e para os seus amigos de farra mais próximos. Graças às suas viagens, aprendi a gostar de bons uísques produzidos e engarrafados na Escócia. Em casa tínhamos os mais modernos toca-fitas, brinquedos modernos para o caçula Jorge Cláudio e muitas outras coisas. Saindo da Marinha de Guerra, Doutor embarcou na marinha mercante brasileira, até a sua aposentadoria.
Nas idas e vindas, conheceu Terezinha Nascimento, uma professora que trabalhava com Zefinha, minha irmã professora da Fundação Guararapes, e deu casamento e nele nasceram Alexsander e Tatiana Nascimento. Tatiana é jornalista premiada nacionalmente, mas trabalhando em jornal pernambucano; Sander está em São Paulo, já casado e dando continuidade à profissão no campo de publicidade.
Ontem, no sepultamento de Doutor, a sua mãe comprovou o que já sabia: o seu filho, aquele que passou parte de sua aposentadoria cuidando dos interesses da família, ajudando Dona Maria com a tesouraria da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes de Nova Descoberta, que se vestiu de Papai Noel para alegrar as missas dos enfermos, na mesma paróquia, ela pode comprovar como foi bonita e cheia de glórias a vida de seu filho José Vicente da Silva Neto, meu irmão.
Algumas idéias de Kant - na visão de Manassés Honório
Este é mais um artigo realizado por um dos alunos do 5º período de História da UFPE, e é também dos textos que os colegas de Manassés Antonio Honório devem ler como base para o segundo exercício escolar.
Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita
A história em Kant é apreendida como a narração da manifestação da liberdade humana determinada por leis de caráter universal.
O filósofo na impossibilidade de pressupor um específico propósito racional nos homens ou nos seus atos em geral , não tem outra solução senão tentar descobrir um desígnio da natureza, nesta marcha absurda das coisas humanas, a partir da qual seja possível uma história que obedeça a um determinado plano da natureza.
Diante da sucessões de fatos que aparentemente não tem sentido o filósofo procura um fundamento racional para o processo histórico.
Kant sugere que, se pretendemos que o curso da história humana tenha sentido , temos que pressupor a ação de um “plano secreto “, ou de um princípio teleológico, segundo o qual os moles imediatos da história são justificados.
O fundamento ou principio para Kant é a natureza, que incutiu nos seres humanos determinados capacidades a fim de que elas possam se desenvolver. E é exatamente na história humana que os mecanismo de tal desenvolvimento são assegurados e as capacidades racional ampliada.
A mola deste mecanismo se encontra nas tendências anti-sociais dos homens, tendências essas que em virtude das misérias, tem por finalidade conduzir o humanidade a construção de uma forma de sociedade, que garanta através do rigor da lei a cada um dos seus membros o máximo de liberdade que seja compatível com a liberdade dos representantes.
1º Proposição
A natureza segue princípios com uma finalidade objetiva.
Se os movimentos históricos não possuirem uma finalidade, então nos sobra apenas o acaso e a razão não pode se guiar pelo mero acaso.
2º Proposição
Aqui na segunda proposição, Kant, por ser um idealista, da ênfase a razão que é a capacidade de ampliar as regras e os desígnios do uso de toda as suas forças muito para além do instinto natural.
Porem, diante da brevidade da vida humana o pleno desenvolvimento da razão não se dá no plano individual, e sim, na espécie.
Para Kant se não existir uma finalidade, ou seja , um fio condutor racional dado pela natureza para o processo histórico, a Natureza passa a ser suspeita de brincar infantilmente com a humanidade.
3º Proposição
A natureza foi generosa com o homem, pois proporcionou o fenômeno da racionalidade diferenciado-o enormemente dos demais animais que são guiados por meros instinto.
E através da sua própria razão os homens vão se aperfeiçoando gradativamente no sentido universal. O homem é mortal, mas é imortal na sua espécie, desse modo, há de atingir o pleno desenvolvimento das suas disposições através do aperfeiçoamento racional de sucessivas gerações.
4º Proposição
Esta é a mais importante proposição, pois nela contém o principal conceito da teoria da história Kantiana, ou seja, a “ sociabilidade insociável “ do homem, isto é, a tendência natural que o homem possui para se associar em comunidade, mas que se liga a uma resistência geral, que ameaça constantemente cindir essa sociedade.
O homem inclina-se a socialização, porque ele, desse modo desenvolve suas disposições naturais, por outro lado, quer romper com a sociedade , porque ele quer fazer tudo segundo sua própria vontade, contudo, encontra resistência dos outros membros da sociedade.
Apesar deste conflito imante do processo histórico, Kant, aponta para um interesse fundamental dos homens na instituição de relações de direito racionais, comprovadas pelo eventos históricos.
Apesar das múltiplas resistências, a humanidade aspira formas de estado justas e esta aspiração é o sentido da história.
5º Proposição
O mais elevado propósito da natureza , segundo kant, é proporcionar a maior liberdade possível ao homem, logo um antagonismo geral dos membros da sociedade, mas a liberdade deve ser submetida a mais rigorosa determinação e garantia dos limites dessa liberdade.
Os homens, cujas tendência tornam impassível viverem muito tempo em harmonia com os outros. Por causa disso, devem necessariamente ser submetido a este princípios universais que garantem a igualdade e liberdade mutua dos membros da sociedade.( Liberdade de oportunidade e igualdade perante a lei.)
Kant retira todo conteúdo matéria da sua perspectiva da historia, reduzindo todas as relações humanas a forma da lei ( formalismo Kantiano )
6º Proposição
O homem precisa de um senhor pois ele faz mau uso da sua liberdade em relação ao seu semelhante.
Uma tendência animal e egoísta de tentar constantemente infligir a lei. Por causa disso, precisa de um senhor que lhe abrigue a cumprir a lei.
Esta tarefa é a mais difícil de solucionar, de acordo com Kant, "perfeitamente impossível".
Uma aproximação da idéia no máximo. Por isso, deve ficar por ultimo.
7º Proposição
Os mesmos organismo que fazem os homens de uma determinada sociedade elaborar uma constituição civil regular entre seus membros, conduzem os Estados constituídos à criação de uma constituição universal.
Esta "sociedade das nações" só será realizada após as terríveis experiências das sucessivas guerras.
Nesta “ sociedade das nações “ cada estado mesmo o mais pequeno, terá sua segurança assegurada, não através do seu próprio poder ou do seu próprio corpo jurídico, mas de uma força unida e da decisão da vontade comum, fundamentada em leis universais.
Para Kant, é a única forma de se estabelecer a paz e sair do estado de selvageria, promovida pelas guerras.
Não dá para espera o cego acaso. "Será razoável admitir a finalidade da organização da natureza nas partes e no entanto a falta de finalidade no todo?"
As guerras obriga a nossa espécie a descobrir uma lei de equilíbrio para o antagonismo entre muitos Estados vizinhos que provém da liberdade de cada um, no sentido de introduzir uma força comum que vem dar ênfase a essa lei, e com ela uma situação cosmopolita de segurança pública entre os Estados.
Segundo Kant, já somos civilizados o suficiente, mas falta muito para que nos considerar moralizados.( A idéia de moralidade ligada a cultura constitui apenas civilização, e não moralidade no sentido da moral kantiana.)
É necessário um esforço longo de cada comunidade no intuito da melhor formação dos seus cidadãos.
(Preocupação com a educação )
8º Proposição
As relações entre os Estados atingiram um ponto tão elevado que o prejuizo jurídico de um influência negativamente os outros.
Crítica a guerra, que passará a ser não só um empreendimento complicada e duvidoso de resultados incertos para ambos as partes, mas também discutível devido as suas conseqüências para o Estado, traduzido sempre em crescentes dividas.
Cada um Estado estará interessado na manutenção do todo.
A " Sociedade das nações" como finalidade da natureza com relação a espécie humana. Uma situação cosmopolita geral, no seio da qual se venham a desenvolver todas as disposições originais da espécie humana.
9º Proposição
Uma história segundo uma idéia de como deveria ser o curso do mundo, contanto que esse curso se adaptasse a certos fins racionais.
Existe um secreto mecanismo na natureza para fundamentar tal idéia.
Sem o fio condutor racional a história seria apenas um agregado das ações humana sem finalidade objetivas.
As influências dos povos antigos mostram uma marcha regular de melhoramento da constituição política.
A idéia de uma história universal, cujo fio condutor é, de certo modo, um a priori. Para Kant, não interessa o estudo da história única e propriamente empírica.
Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita
A história em Kant é apreendida como a narração da manifestação da liberdade humana determinada por leis de caráter universal.
O filósofo na impossibilidade de pressupor um específico propósito racional nos homens ou nos seus atos em geral , não tem outra solução senão tentar descobrir um desígnio da natureza, nesta marcha absurda das coisas humanas, a partir da qual seja possível uma história que obedeça a um determinado plano da natureza.
Diante da sucessões de fatos que aparentemente não tem sentido o filósofo procura um fundamento racional para o processo histórico.
Kant sugere que, se pretendemos que o curso da história humana tenha sentido , temos que pressupor a ação de um “plano secreto “, ou de um princípio teleológico, segundo o qual os moles imediatos da história são justificados.
O fundamento ou principio para Kant é a natureza, que incutiu nos seres humanos determinados capacidades a fim de que elas possam se desenvolver. E é exatamente na história humana que os mecanismo de tal desenvolvimento são assegurados e as capacidades racional ampliada.
A mola deste mecanismo se encontra nas tendências anti-sociais dos homens, tendências essas que em virtude das misérias, tem por finalidade conduzir o humanidade a construção de uma forma de sociedade, que garanta através do rigor da lei a cada um dos seus membros o máximo de liberdade que seja compatível com a liberdade dos representantes.
1º Proposição
A natureza segue princípios com uma finalidade objetiva.
Se os movimentos históricos não possuirem uma finalidade, então nos sobra apenas o acaso e a razão não pode se guiar pelo mero acaso.
2º Proposição
Aqui na segunda proposição, Kant, por ser um idealista, da ênfase a razão que é a capacidade de ampliar as regras e os desígnios do uso de toda as suas forças muito para além do instinto natural.
Porem, diante da brevidade da vida humana o pleno desenvolvimento da razão não se dá no plano individual, e sim, na espécie.
Para Kant se não existir uma finalidade, ou seja , um fio condutor racional dado pela natureza para o processo histórico, a Natureza passa a ser suspeita de brincar infantilmente com a humanidade.
3º Proposição
A natureza foi generosa com o homem, pois proporcionou o fenômeno da racionalidade diferenciado-o enormemente dos demais animais que são guiados por meros instinto.
E através da sua própria razão os homens vão se aperfeiçoando gradativamente no sentido universal. O homem é mortal, mas é imortal na sua espécie, desse modo, há de atingir o pleno desenvolvimento das suas disposições através do aperfeiçoamento racional de sucessivas gerações.
4º Proposição
Esta é a mais importante proposição, pois nela contém o principal conceito da teoria da história Kantiana, ou seja, a “ sociabilidade insociável “ do homem, isto é, a tendência natural que o homem possui para se associar em comunidade, mas que se liga a uma resistência geral, que ameaça constantemente cindir essa sociedade.
O homem inclina-se a socialização, porque ele, desse modo desenvolve suas disposições naturais, por outro lado, quer romper com a sociedade , porque ele quer fazer tudo segundo sua própria vontade, contudo, encontra resistência dos outros membros da sociedade.
Apesar deste conflito imante do processo histórico, Kant, aponta para um interesse fundamental dos homens na instituição de relações de direito racionais, comprovadas pelo eventos históricos.
Apesar das múltiplas resistências, a humanidade aspira formas de estado justas e esta aspiração é o sentido da história.
5º Proposição
O mais elevado propósito da natureza , segundo kant, é proporcionar a maior liberdade possível ao homem, logo um antagonismo geral dos membros da sociedade, mas a liberdade deve ser submetida a mais rigorosa determinação e garantia dos limites dessa liberdade.
Os homens, cujas tendência tornam impassível viverem muito tempo em harmonia com os outros. Por causa disso, devem necessariamente ser submetido a este princípios universais que garantem a igualdade e liberdade mutua dos membros da sociedade.( Liberdade de oportunidade e igualdade perante a lei.)
Kant retira todo conteúdo matéria da sua perspectiva da historia, reduzindo todas as relações humanas a forma da lei ( formalismo Kantiano )
6º Proposição
O homem precisa de um senhor pois ele faz mau uso da sua liberdade em relação ao seu semelhante.
Uma tendência animal e egoísta de tentar constantemente infligir a lei. Por causa disso, precisa de um senhor que lhe abrigue a cumprir a lei.
Esta tarefa é a mais difícil de solucionar, de acordo com Kant, "perfeitamente impossível".
Uma aproximação da idéia no máximo. Por isso, deve ficar por ultimo.
7º Proposição
Os mesmos organismo que fazem os homens de uma determinada sociedade elaborar uma constituição civil regular entre seus membros, conduzem os Estados constituídos à criação de uma constituição universal.
Esta "sociedade das nações" só será realizada após as terríveis experiências das sucessivas guerras.
Nesta “ sociedade das nações “ cada estado mesmo o mais pequeno, terá sua segurança assegurada, não através do seu próprio poder ou do seu próprio corpo jurídico, mas de uma força unida e da decisão da vontade comum, fundamentada em leis universais.
Para Kant, é a única forma de se estabelecer a paz e sair do estado de selvageria, promovida pelas guerras.
Não dá para espera o cego acaso. "Será razoável admitir a finalidade da organização da natureza nas partes e no entanto a falta de finalidade no todo?"
As guerras obriga a nossa espécie a descobrir uma lei de equilíbrio para o antagonismo entre muitos Estados vizinhos que provém da liberdade de cada um, no sentido de introduzir uma força comum que vem dar ênfase a essa lei, e com ela uma situação cosmopolita de segurança pública entre os Estados.
Segundo Kant, já somos civilizados o suficiente, mas falta muito para que nos considerar moralizados.( A idéia de moralidade ligada a cultura constitui apenas civilização, e não moralidade no sentido da moral kantiana.)
É necessário um esforço longo de cada comunidade no intuito da melhor formação dos seus cidadãos.
(Preocupação com a educação )
8º Proposição
As relações entre os Estados atingiram um ponto tão elevado que o prejuizo jurídico de um influência negativamente os outros.
Crítica a guerra, que passará a ser não só um empreendimento complicada e duvidoso de resultados incertos para ambos as partes, mas também discutível devido as suas conseqüências para o Estado, traduzido sempre em crescentes dividas.
Cada um Estado estará interessado na manutenção do todo.
A " Sociedade das nações" como finalidade da natureza com relação a espécie humana. Uma situação cosmopolita geral, no seio da qual se venham a desenvolver todas as disposições originais da espécie humana.
9º Proposição
Uma história segundo uma idéia de como deveria ser o curso do mundo, contanto que esse curso se adaptasse a certos fins racionais.
Existe um secreto mecanismo na natureza para fundamentar tal idéia.
Sem o fio condutor racional a história seria apenas um agregado das ações humana sem finalidade objetivas.
As influências dos povos antigos mostram uma marcha regular de melhoramento da constituição política.
A idéia de uma história universal, cujo fio condutor é, de certo modo, um a priori. Para Kant, não interessa o estudo da história única e propriamente empírica.
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