O processo civilizacional brasileiro deu mais um passo adiante, nesta semana, mais uma vez orientada pela imensa sabedoria dos juristas que têm assento no Supremo Tribunal Federal. Sem eles, jamais poderíamos viver tranqüilos, pois eles, mais que ninguém, eles estão ali para nos indicar que, mais erra um juiz de primeira instância que um banqueiro de origem jeremoabiana no poder, sabe Deus e Antonio Carlos Magalhães, o vice-rei da Bahia, morto recentemente, como. Aliás, conta-se que perguntado por que não convidava Daniel Dantas para assumir cargos públicos em seus domínios, ACM teria dito que o referido banqueiro, afortunado nas privatizações promovidas no governo de Fernando Henrique Cardoso, não era uma pessoa de espírito público.
Conhecedor do que o poder, ou o seu simulacro, é capaz de fazer ao espírito dos homens, ACM soube evitar esse tipo de problema aos brasileiros, que, parece, ele tanto prezava. O mesmo, contudo, não ocorreu ao “príncipe dos sociólogos” quando esteve sentado na cadeira do poder maior do Estado brasileiro. Por conhecer muito de sociedade e dos homens, o professor fundador do PSDB ofereceu uma cadeira de juiz na suprema corte brasileira a pessoas de “imenso saber jurídico”, e agora que um desses sábios está bem sentado na cadeira presidencial daquela corte, assistimos, para a nossa segurança, exposições claras em defesa de banqueiro sob suspeita de ilícito, ao mesmo tempo em que ocorrem ataques ao juiz que, coitado, julgava que devia encontrar meios de defender a sociedade da ação daquele que ACM desconfiava de seu “espírito público”. Os juízes do Supremo Tribunal Federal decidiram que o banqueiro, suspeito de ato ilícito (palavra bonita que evita dizer crime, que leva à idéia de criminoso; essas palavras - crime, crimonoso - devem ser aplicadas apenas àqueles que entram nos bancos para cometerem o crime de depositar suas poupanças no templo do Mamon),o banqueiro Dantas, não deve ser citado no processo que o indica como um dos meliantes. Esse banqueiro, afirmam os juízes, não pode ser julgado, ele está acima das normas.
Quanto ao juiz que agiu contra o banqueiro, poderá vir a ser acusado de não respeitar alguns dispositivos das normas legais, ser acusado de relapso; especialmente por ter errado o nome de um dos juízes, o magistrado Eros Graos. O grave erro que demosntra a sua incompetência foi ter adicionado um Mello ao Eros. Mello é nome de um outro juiz daquela casa. Esse juiz é mesmo incompetente, além de por sob suspeita um banqueiro, um especulador, em uma república que tem o orgulho de promover os maiores lucros aos bancos em todo o mundo, ainda vem misturar os nomes dos juízes, como os amantes misturam seus sangues!!! Esse juiz tem que ser castigado, julgam os "senhroes do saber jurídico" para aprender que os juízes existem, não para defender a sociedade, mas para defender a “letra da lei”. A lei tem que ser aplicada sem qualquer rasura. Assim é que agem os fariseus, já ensinava o Mestre da Galiléia, que tem uma imagem sua pendurada em uma das paredes do tribunal. Quem sabe ele está repetindo, a cada momento: “Pai, (ou país), perdoai, eles não sabem o que fazem”.
Por coincidência e sem relação alguma com o que estava sendo decidido em Brasília, em outra região do país, o delegado que agiu para encontrar provas capazes de incriminar o banqueiro e seus amigos, está sob investigação. Ele recebeu a polícia no apartamento do hotel em que estava hospedado, ás cinco da madrugada, pois se estava cumprindo um mandato de busca emitido, à mão, durante a noite, por um juiz que não concorda com aquele outro que determinou se fazer busca na casa do banqueiro e de um ex-prefeito. Um dos motivos que levou o presidente do STF a anular a prisão do banqueiro e seus colegas de trabalho, foi o abuso e o inusitado da hora, a madrugada, tirando aquelas pessoas do seu necessário repouso, após um dia dedicado ao trabalho honesto.
Enquanto isso, o Itaú comprou o Unibanco. Este, falido e que tinha como propaganda um dizer: nem parece um banco!!!
Agora sim, somos potência! temos um dos vinte maiores bancos do mundo. Ainda bem que o governo dos trabalhadores facilitou empréstimo consignado aos aposentados e, está liberando verba para os bancos das montadoras de automóveis continuarem a endividar os trabalhadores, evitando que eles (os bancos e as montadoras) sofram qualquer preúízo.
Precisamos manter o salário mínimo a quase R$ 500.00, embora o DIEESE nos diga que, para cumprir o que diz a Constituição, o mínimo devia ser R$2.400.00. Qualquer mudança poderá afetar a oferta das bolsas de distribuição dos restos da renda. Precisamos manter o alto índice de concentração de renda.
Mas eu gostaria de poder entender melhor essa marola toda!
So quero completntar esse meu comentário, com o comentário de Hélio Fernandes na Tribuna da Imprensa de hoje, dia 8 de novembro:
A Folha de São Paulo publicou ontem, com chamada na Primeira, a apreensão de documentos, realizada pela Polícia Federal, no apartamento do delegado Protógenes Guimarães. No Rio e no hotel em que se encontra hospedado, em Brasília. Motivo: o vazamento de informações na Operação Satiagraha, que terminou com a prisão de Daniel Dantas e Naji Nahas, libertados por habeas corpus expedido pelo ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo.
Mas qual foi o juiz que autorizou a chamada BUSCA E APREENSÃO? O juiz Ali Mazloun, afastado da magistratura desde 2003. Qual a razão do afastamento? Acusado de VENDA DE SENTENÇAS. (Textual).
Isso foi provado e comprovado na OPERAÇÃO ANACONDA. Esse juiz (?) foi reconduzido há pouco tempo por decisão do próprio Supremo.
Depois de afastado por 5 anos, cabe a esse "juiz" determinar a BUSCA E APREENSÃO no apartamento do delegado Protógenes.
Quem acredita em coincidência, principalmente quando atinge o mais alto Tribunal do País?
sábado, novembro 08, 2008
quarta-feira, novembro 05, 2008
A vitória da mestiçagem
A cada dia aprendemos um pouco mais sobre as possibilidades que temos em criar novos caminhos.
Minhas mais antigas lembranças sobre os Estados Unidos da América me levam ao início da minha adolescência; estava entre onze e doze anos. Então eu via as primeiras imagens através da televisão do Seminário Menor Imaculada Conceição, que funcionava na Várzea. Ainda carrego a visão de aviões americanos ameaçando navios russos que navegavam em direção da ilha de Fidel Castro. Como hoje eu sei, não sei bem essas imagens são as que ficaram na minha memória ou se, o que trago hoje são as imagens que foram sendo fixadas posteriormente por outras imagens e novas memórias atualizadas. Porém, não há como esquecer o ambiente de tensão que dominava os mais velhos e contagiava aos mais jovens. Eram os tempos de John Kennedy, o presidente católico, em um país protestante, que juntava seus atos aos do pastor batista Martin Luther King Junior, na luta pelos direitos civis, estabelecendo uma norma que obrigava escolas racistas a aceitarem alunos negros. Era um presidente branco e católico que estava ao lado de um negro protestante.
Essa luta pelo reconhecimento dos direitos humanos, a luta para superar a segregação racial e social, é uma outra lembrança distante e que me acompanhou o resto da minha vida, e acredito, a quase todos da minha idade.
Havia já, nos Estados Unidos da América do Norte, escolas e universidades para negros, inclusive a que formou o doutor Luther King. Mas se tratava de criar uma nova nação, pois havia uma parte que recusava admitir que a guerra do século XIX havia determinado a igualdade na América. Foram quase cem anos. Naqueles anos eram poucos os negros que apareciam no mundo social e artístico nos USA, ainda que fossem, como se diz no Brasil, bem educados. Parte da juventude dos meus contemporâneos foi de acompanhamento daquela luta. Do nosso lado, aqui no Brasil, embora não houvesse uma apartação física e explícita, nós, os que somos negros ou mestiços, tínhamos que trilhar caminhos semelhantes para ocupar espaços na sociedade. A dissimulação auxiliou nossa sociedade a caminhar mais lentamente na direção da igualdade de chances para todos. Ainda estamos lutando para que os bairros pobres tenham escolas que permitam aos mestiços pobres dominarem as tecnologias que nos permitam ocupar, em igualdade os espaços de oportunidades. Às vezes até já estamos nesses espaços, mas a dissimulação dos menos mestiços, os que se pensam brancos e um Brasil só de brancos, continuam a por, aos mestiços, os desafios de superação.
Pois bem, menos de cinqüenta anos depois daquelas caminhadas de Martin Luther King, daquela manhã em que a Guarda Nacional dos Estados Unidos da América forçou os portões de uma escola no sul, para que uma criança negra pudesse sentar-se ao lado de uma criança branca e estudar, com os mesmos professores, um mestiço, filho de um negro africano e de uma branca americana, foi eleito presidente dos USA. Um americano mestiço, em um país em que os “afro-descendentes” são minoria, foi eleito presidente do país. E, diferentemente do que disse o jornal de uma emissora de televisão brasileira, (essa emissora não consegue encontrar um jornalista-comentarista mestiço) não foi uma vitória do homem Barak Obama, não foi uma ação de um indivíduo, como querem nos levar a pensar: a eleição de Obama para a presidência dos Estados Unidos foi uma decisão do conjunto do país. Não foi a vitória do indivíduo, não foi a vitória do gueto, não foi a vitória do grupo étnico, essa foi a vitória da mestiçagem. Não multiculturalismo justaposto dos guetos, mas a convivência e a absorção corajosa; Essa eleição não foi a simples tolerância, da diferença. foi algo mais.
Isso é o que faz surgir o novo. O novo na humanidade nunca veio do isolamento, dos distanciamento, mas sempre tem sido conseqüência da interpenetração das culturas, dos sentimentos, dos desejos, dos projetos.
Contudo, isso não tem sido realizado sem tensões e confrontos. Como está escrito em livro sagrado para os cristãos, no corpo das mulheres e na ansiedade dos homens no momento das dores de suas mulheres: os partos vêm acompanhados de dores.
Minhas mais antigas lembranças sobre os Estados Unidos da América me levam ao início da minha adolescência; estava entre onze e doze anos. Então eu via as primeiras imagens através da televisão do Seminário Menor Imaculada Conceição, que funcionava na Várzea. Ainda carrego a visão de aviões americanos ameaçando navios russos que navegavam em direção da ilha de Fidel Castro. Como hoje eu sei, não sei bem essas imagens são as que ficaram na minha memória ou se, o que trago hoje são as imagens que foram sendo fixadas posteriormente por outras imagens e novas memórias atualizadas. Porém, não há como esquecer o ambiente de tensão que dominava os mais velhos e contagiava aos mais jovens. Eram os tempos de John Kennedy, o presidente católico, em um país protestante, que juntava seus atos aos do pastor batista Martin Luther King Junior, na luta pelos direitos civis, estabelecendo uma norma que obrigava escolas racistas a aceitarem alunos negros. Era um presidente branco e católico que estava ao lado de um negro protestante.
Essa luta pelo reconhecimento dos direitos humanos, a luta para superar a segregação racial e social, é uma outra lembrança distante e que me acompanhou o resto da minha vida, e acredito, a quase todos da minha idade.
Havia já, nos Estados Unidos da América do Norte, escolas e universidades para negros, inclusive a que formou o doutor Luther King. Mas se tratava de criar uma nova nação, pois havia uma parte que recusava admitir que a guerra do século XIX havia determinado a igualdade na América. Foram quase cem anos. Naqueles anos eram poucos os negros que apareciam no mundo social e artístico nos USA, ainda que fossem, como se diz no Brasil, bem educados. Parte da juventude dos meus contemporâneos foi de acompanhamento daquela luta. Do nosso lado, aqui no Brasil, embora não houvesse uma apartação física e explícita, nós, os que somos negros ou mestiços, tínhamos que trilhar caminhos semelhantes para ocupar espaços na sociedade. A dissimulação auxiliou nossa sociedade a caminhar mais lentamente na direção da igualdade de chances para todos. Ainda estamos lutando para que os bairros pobres tenham escolas que permitam aos mestiços pobres dominarem as tecnologias que nos permitam ocupar, em igualdade os espaços de oportunidades. Às vezes até já estamos nesses espaços, mas a dissimulação dos menos mestiços, os que se pensam brancos e um Brasil só de brancos, continuam a por, aos mestiços, os desafios de superação.
Pois bem, menos de cinqüenta anos depois daquelas caminhadas de Martin Luther King, daquela manhã em que a Guarda Nacional dos Estados Unidos da América forçou os portões de uma escola no sul, para que uma criança negra pudesse sentar-se ao lado de uma criança branca e estudar, com os mesmos professores, um mestiço, filho de um negro africano e de uma branca americana, foi eleito presidente dos USA. Um americano mestiço, em um país em que os “afro-descendentes” são minoria, foi eleito presidente do país. E, diferentemente do que disse o jornal de uma emissora de televisão brasileira, (essa emissora não consegue encontrar um jornalista-comentarista mestiço) não foi uma vitória do homem Barak Obama, não foi uma ação de um indivíduo, como querem nos levar a pensar: a eleição de Obama para a presidência dos Estados Unidos foi uma decisão do conjunto do país. Não foi a vitória do indivíduo, não foi a vitória do gueto, não foi a vitória do grupo étnico, essa foi a vitória da mestiçagem. Não multiculturalismo justaposto dos guetos, mas a convivência e a absorção corajosa; Essa eleição não foi a simples tolerância, da diferença. foi algo mais.
Isso é o que faz surgir o novo. O novo na humanidade nunca veio do isolamento, dos distanciamento, mas sempre tem sido conseqüência da interpenetração das culturas, dos sentimentos, dos desejos, dos projetos.
Contudo, isso não tem sido realizado sem tensões e confrontos. Como está escrito em livro sagrado para os cristãos, no corpo das mulheres e na ansiedade dos homens no momento das dores de suas mulheres: os partos vêm acompanhados de dores.
segunda-feira, novembro 03, 2008
Rituais de fé católica - novidade da tradição no Recife
Ao ler interesaante matéria publicada no Diário de Pernambuco, neste domingo, deixei-me levar por um desejo de expresar meus pensamentos a respeito.
Estava bem mais certo o historiador inglês Arnold Toynbee que alguns outros, ao indicar que, no século XXI, as pessoas estariam mais agrupadas em ninchos étnico-cultural-religiosos e neles encontrariam suas identidades. Levantava-se, o historiador das civilizações, contra a tendência que afirmava o fim das religiões.
O que temos visto nessa primeira década do milênio é um reavivamento de um ardor religioso que pode ser visto, também como um novo surgir fundamental, tal como ocorreu na segunda década do século XX, nos Estados Unidos da América do Norte, que gerou o fundamentalismo moderno que se impôs nos anos Bush. Esses reavivamentos são encontrados em diversos momentos da história do homem, e não apenas do homem ocidental. Há um permanente entusiasmo dos homens diante do enigma ou mistério, especialmente do mistério, pois toda a religião é misteriosa, quer dizer, vai além do enigmático. Enígmas são resolvidos racionalmente. Além dos mistérios, as religiões vivem de ritos que celebram o misterioso e esses ritos e rituais giram em torno de arquétipos, de experiências comuns e mais profundas dos seres humanos.
Vez por outra, nos surpreendemos com o retorno de alguns rituais, típicos dos cristãos, mais especificamente dos cristãos católicos, pois o catolicismo, mais que a racionalidade pós renascentista, expõe a sua fé de maneira mais simbólica, menos abstrata. Um dos mais antigos rituais católicos é a adoração do Santíssimo Sacramento. Quando, nos dias de hoje, nesse ritual se canta versos escrito por Tomaz de Aquino, versos escritos no século XIII, percebemmos como há certas permanências. Nos anos posteriores á Reforma ocorreu um re-acender espiritual em torno do sacramento da Eucaristia, uma afirmação da doutrina que estava sendo contestada por Lutero e pelos demais reformadores. Interesaante que há um livro que estuda esse fenômeno na Europa do século XVII intitulado A RELIGIÃO DOS POBRES.
No início do século XX, o papa Pio X promoveu um forte movimento em torno da Eucaristia e da comunhão diária, inclusive estimulando os católicos a se aproximarem da ceia sagrada logo após a criança atingir a chamada idade da razão. Em todo o mundo católico foram organizadas as “cruzadas eucarísticas” que mantinham adolescentes católicos quase diariamente nas igrejas em busca de comunhão. Outras associações pias, como o Apostolado da Oração, as Filhas de Maria, Vicentinos, para citar algumas, colocavam a visitação ao Santíssimo Sacramento como momento especial de suas vivências religiosas. Os padres sacramentinos, cujo nome já indica qual o seu carisma, promoviam adoração permanente ao Santíssimo na Matriz da Boa Vista, e nisso havia uma relação com as associações pias e as paróquias.
Não é novidade a presença de cristãos católicos prostrados diante o ostensório. Essa foi sempre uma prática que distinguia os católicos dos demais cristãos do mundo ocidental. Também não pode ser surpresa que, em momento quando aparece a publicação do declínio numérico dos católicos, que haja uma retomada dos símbolos mais explícitos e tradicionais do catolicismo. Talvez seja uma reação ao catolicismo bem mais iluminista, que foi decorrente da aplicação dos decretos do recente Concílio. Estará ocorrendo um re-avivamento dessa tradição cristológica dentro do catolicismo? Se for isso, não há que se estranhar muito. A hiostória é dialética, não acontece de maneira linear.
As religiões vivem da fé, e ela não é racional. Nunca foi. Os religiosos continuarão a viver as suas crenças; cabe aos estudiosos procurarem entender as razões que levam a esses constantes momentos de re-avivemento, e não julgar se esses crentes estão certos ou errados por não serem tão racionais quanto os que não praticam mais esses rituais.
Estava bem mais certo o historiador inglês Arnold Toynbee que alguns outros, ao indicar que, no século XXI, as pessoas estariam mais agrupadas em ninchos étnico-cultural-religiosos e neles encontrariam suas identidades. Levantava-se, o historiador das civilizações, contra a tendência que afirmava o fim das religiões.
O que temos visto nessa primeira década do milênio é um reavivamento de um ardor religioso que pode ser visto, também como um novo surgir fundamental, tal como ocorreu na segunda década do século XX, nos Estados Unidos da América do Norte, que gerou o fundamentalismo moderno que se impôs nos anos Bush. Esses reavivamentos são encontrados em diversos momentos da história do homem, e não apenas do homem ocidental. Há um permanente entusiasmo dos homens diante do enigma ou mistério, especialmente do mistério, pois toda a religião é misteriosa, quer dizer, vai além do enigmático. Enígmas são resolvidos racionalmente. Além dos mistérios, as religiões vivem de ritos que celebram o misterioso e esses ritos e rituais giram em torno de arquétipos, de experiências comuns e mais profundas dos seres humanos.
Vez por outra, nos surpreendemos com o retorno de alguns rituais, típicos dos cristãos, mais especificamente dos cristãos católicos, pois o catolicismo, mais que a racionalidade pós renascentista, expõe a sua fé de maneira mais simbólica, menos abstrata. Um dos mais antigos rituais católicos é a adoração do Santíssimo Sacramento. Quando, nos dias de hoje, nesse ritual se canta versos escrito por Tomaz de Aquino, versos escritos no século XIII, percebemmos como há certas permanências. Nos anos posteriores á Reforma ocorreu um re-acender espiritual em torno do sacramento da Eucaristia, uma afirmação da doutrina que estava sendo contestada por Lutero e pelos demais reformadores. Interesaante que há um livro que estuda esse fenômeno na Europa do século XVII intitulado A RELIGIÃO DOS POBRES.
No início do século XX, o papa Pio X promoveu um forte movimento em torno da Eucaristia e da comunhão diária, inclusive estimulando os católicos a se aproximarem da ceia sagrada logo após a criança atingir a chamada idade da razão. Em todo o mundo católico foram organizadas as “cruzadas eucarísticas” que mantinham adolescentes católicos quase diariamente nas igrejas em busca de comunhão. Outras associações pias, como o Apostolado da Oração, as Filhas de Maria, Vicentinos, para citar algumas, colocavam a visitação ao Santíssimo Sacramento como momento especial de suas vivências religiosas. Os padres sacramentinos, cujo nome já indica qual o seu carisma, promoviam adoração permanente ao Santíssimo na Matriz da Boa Vista, e nisso havia uma relação com as associações pias e as paróquias.
Não é novidade a presença de cristãos católicos prostrados diante o ostensório. Essa foi sempre uma prática que distinguia os católicos dos demais cristãos do mundo ocidental. Também não pode ser surpresa que, em momento quando aparece a publicação do declínio numérico dos católicos, que haja uma retomada dos símbolos mais explícitos e tradicionais do catolicismo. Talvez seja uma reação ao catolicismo bem mais iluminista, que foi decorrente da aplicação dos decretos do recente Concílio. Estará ocorrendo um re-avivamento dessa tradição cristológica dentro do catolicismo? Se for isso, não há que se estranhar muito. A hiostória é dialética, não acontece de maneira linear.
As religiões vivem da fé, e ela não é racional. Nunca foi. Os religiosos continuarão a viver as suas crenças; cabe aos estudiosos procurarem entender as razões que levam a esses constantes momentos de re-avivemento, e não julgar se esses crentes estão certos ou errados por não serem tão racionais quanto os que não praticam mais esses rituais.
quarta-feira, outubro 29, 2008
Feriados cívicos e feriados religiosos
Esta semana que termina o mês de outubro nos apresenta oportunidades múltiplas para comentários. Comentário comum poderia ser sobre as eleições que tivemos neste mês, quando foram eleitos prefeitos e vereadores para as cidades brasileiras, mas com os políticos profissionais voltados para a sucessão do atual presidente, podemos abandonar essa idéia. Não fosse a crise econômica, inicialmente vista, como uma pequena marola, pelos atuais assentados nos tronos do planalto central do país, poderíamos dizer que se comentaria o início do fim do governo atual. Mas não teremos ainda, para a maioria, um governo de “pato manco”. Mas esse é um assunto por demais evidente.
Outro assunto poderia ser a eleição do próximo presidente dos Estados Unidos da América do Norte, que tem sido apresentado como um acontecimento histórico por poder ser visto como uma encruzilhada: duvida-se que os WASP (brancos, anglos, saxões e protestantes) já estejam preparados para ter um governante Negro (no Brasil seria mestiço), Asiático (em parte), Africano (em parte) Muçulmano (na origem), mas Protestante ao longo da vida. BAAMP seria a sigla em inglês. Vamos deixar esse assunto para outros mais interessados e mais capazes de entender as urnas americanas antes de elas serem aberta.
Mas o mês de outubro, além de ter, no México, o dia da Raça que é o 12 de outubro, que lembra o dia da invasão Européia neste continente, tem o dia da criança. Entre nós essa data veio a ter dois significados: um, o dia da Criança, e o outro, o dia dedicado a Nossa Senhora Aparecida, que foi declarada padroeira do Brasil, e, que por conta disso veio a ser um feriado religioso. Mas, com o advento da dita revolução de 1964, deixou de ser feriado obrigatório para todos os brasileiros. Isso ocorreu no governo de Castello Branco, que quase acabou com os feriados, pois havia feriados em excesso, o que prejudicava a produção industrial que se queria. Outro feriado de outubro foi o dedicado aos professores, além daquele dedicado aos funcionários públicos. Também teve um dedicado aos comerciários. Se todos fossem parados, imaginem o prejuízo que a indústria e o comércio teriam!
Cada sociedade elege seus feriados, seus dias de comemoração, de lembrança e respeito ao que foi feito pelos antepassados e que fazem parte de sua história.
A formação do Brasil foi marcada pela experiência católica, que sempre foi uma experiência que se manifesta festivamente, sempre em alegria. E como a construção do Brasil esteve trançada com a experiência católica, as datas que celebram a formação do Brasil sempre estiveram acompanhadas dos símbolos católicos. Depois da instituição da República, começamos a rever os nossos símbolos e como adequarmo-nos à nova realidade política e cultural. Thales de Azevedo chega a nos ensinar que, com a República, se fez uma religião civil. Os heróis nacionais passaram a substituir os santos e, as passeatas do dia 7 de setembro, substituíram outras procissões e outras passeatas.
O Brasil vem a prendendo a ser menos católico, tanto em número de pessoas, quanto em número de feriados. Mas como os católicos são maioria da sociedade, aos demais grupos fica a impressão que ele, o grupo católico, parece ser o único e privilegiado. Na verdade os muitos grupos religiosos estão cada vez mais atuantes na sociedade;
Vejamos que se hoje o dia 12 de outubro é feriado, foi um decisão tomada por quem estava na presidência da República, no caso, João Batista de Figueiredo. Não é mais um feriado porque é religioso, não foi uma decisão religiosa, mas uma decisão política em utilizar um elemento religioso apreensível por uma grande parte da população. Interessante é que o ditador definiu aquela data como feriado cívico após um período de sofrimento para alguns católicos e de crescimento das igrejas protestantes. Parece ter sido um prêmio de consolação. Mas, como se sabe, os religiosos não utilizam muito a razão, pois a razão religiosa é um razão emocional. Talvez por isso tenha ocorrido um famoso chute na santa, em um programa de televisão. E isso foi em relação ao feriado do dia 12 de outubro, que os católicos aproveitam para celebrar a Aparecida. Em um país laico, sem uma religião oficial, realmente não tem sentido um feriado religioso. Todos os feriados devem ser voltados para a glória do Estado, para fortalecer a idéia da Nação.
Assim, é interessante notar que aos poucos vamos agregando novos dias que podem se tornar feriados. É o caso do dia 31 de outubro, hoje já feriado em algumas cidades, como a do Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Esse feriado foi criado no Cabo de Santo Agostinho para celebrar o Dia da Reforma Luterana, lembrando o dia em que Martinho Lutero teria colocado as suas teses na Igreja de Wintemberg, Alemanha, e que deu início ao movimento de Reforma Religiosa, ou Protestante.
Bem, agora já temos o dia da Reforma Protestante no Cabo de Santo Agostinho, no Rio de Janeiro e em Brasília. E isso é resultado de uma sociedade que cultiva o pluralismo religioso. Daqui a pouco tempo vai ficar difícil, para as Igrejas protestantes reclamarem dos feriados católicos e judaicos, exceto se quisermos fazer crescer o nível de hipocrisia social.
Outro assunto poderia ser a eleição do próximo presidente dos Estados Unidos da América do Norte, que tem sido apresentado como um acontecimento histórico por poder ser visto como uma encruzilhada: duvida-se que os WASP (brancos, anglos, saxões e protestantes) já estejam preparados para ter um governante Negro (no Brasil seria mestiço), Asiático (em parte), Africano (em parte) Muçulmano (na origem), mas Protestante ao longo da vida. BAAMP seria a sigla em inglês. Vamos deixar esse assunto para outros mais interessados e mais capazes de entender as urnas americanas antes de elas serem aberta.
Mas o mês de outubro, além de ter, no México, o dia da Raça que é o 12 de outubro, que lembra o dia da invasão Européia neste continente, tem o dia da criança. Entre nós essa data veio a ter dois significados: um, o dia da Criança, e o outro, o dia dedicado a Nossa Senhora Aparecida, que foi declarada padroeira do Brasil, e, que por conta disso veio a ser um feriado religioso. Mas, com o advento da dita revolução de 1964, deixou de ser feriado obrigatório para todos os brasileiros. Isso ocorreu no governo de Castello Branco, que quase acabou com os feriados, pois havia feriados em excesso, o que prejudicava a produção industrial que se queria. Outro feriado de outubro foi o dedicado aos professores, além daquele dedicado aos funcionários públicos. Também teve um dedicado aos comerciários. Se todos fossem parados, imaginem o prejuízo que a indústria e o comércio teriam!
Cada sociedade elege seus feriados, seus dias de comemoração, de lembrança e respeito ao que foi feito pelos antepassados e que fazem parte de sua história.
A formação do Brasil foi marcada pela experiência católica, que sempre foi uma experiência que se manifesta festivamente, sempre em alegria. E como a construção do Brasil esteve trançada com a experiência católica, as datas que celebram a formação do Brasil sempre estiveram acompanhadas dos símbolos católicos. Depois da instituição da República, começamos a rever os nossos símbolos e como adequarmo-nos à nova realidade política e cultural. Thales de Azevedo chega a nos ensinar que, com a República, se fez uma religião civil. Os heróis nacionais passaram a substituir os santos e, as passeatas do dia 7 de setembro, substituíram outras procissões e outras passeatas.
O Brasil vem a prendendo a ser menos católico, tanto em número de pessoas, quanto em número de feriados. Mas como os católicos são maioria da sociedade, aos demais grupos fica a impressão que ele, o grupo católico, parece ser o único e privilegiado. Na verdade os muitos grupos religiosos estão cada vez mais atuantes na sociedade;
Vejamos que se hoje o dia 12 de outubro é feriado, foi um decisão tomada por quem estava na presidência da República, no caso, João Batista de Figueiredo. Não é mais um feriado porque é religioso, não foi uma decisão religiosa, mas uma decisão política em utilizar um elemento religioso apreensível por uma grande parte da população. Interessante é que o ditador definiu aquela data como feriado cívico após um período de sofrimento para alguns católicos e de crescimento das igrejas protestantes. Parece ter sido um prêmio de consolação. Mas, como se sabe, os religiosos não utilizam muito a razão, pois a razão religiosa é um razão emocional. Talvez por isso tenha ocorrido um famoso chute na santa, em um programa de televisão. E isso foi em relação ao feriado do dia 12 de outubro, que os católicos aproveitam para celebrar a Aparecida. Em um país laico, sem uma religião oficial, realmente não tem sentido um feriado religioso. Todos os feriados devem ser voltados para a glória do Estado, para fortalecer a idéia da Nação.
Assim, é interessante notar que aos poucos vamos agregando novos dias que podem se tornar feriados. É o caso do dia 31 de outubro, hoje já feriado em algumas cidades, como a do Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Esse feriado foi criado no Cabo de Santo Agostinho para celebrar o Dia da Reforma Luterana, lembrando o dia em que Martinho Lutero teria colocado as suas teses na Igreja de Wintemberg, Alemanha, e que deu início ao movimento de Reforma Religiosa, ou Protestante.
Bem, agora já temos o dia da Reforma Protestante no Cabo de Santo Agostinho, no Rio de Janeiro e em Brasília. E isso é resultado de uma sociedade que cultiva o pluralismo religioso. Daqui a pouco tempo vai ficar difícil, para as Igrejas protestantes reclamarem dos feriados católicos e judaicos, exceto se quisermos fazer crescer o nível de hipocrisia social.
terça-feira, outubro 28, 2008
Preparando a Semana da Consciência Humana - aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos
A cada dia somos chamados a refletir sobre o que ocorre em nossa cidade, mas também sobre o que ocorre no mundo que rodeia nossa cidade. Desenvolver idéias sem buscar notícias e informações para além daquilo que nos diz o nosso vizinho, sempre nos põe a confundir as realidades que nos rodeiam. Quanto mais informações tivermos mais possibilidades teremos de entender e fazer escolhas.
Essa notícia publicada pela BBC, pode nos auxiliar a entender as muitas possibilidades de consciência que podemos ter. Precisamos, ainda mais, pensar na Declaração Universal dos Direitos Humanos, ela pode ser mais ampla do que os direitos tribais, tão em voga nessa modernidade líquida que nos circunda e pode nos afogar.
27 de outubro, 2008 - 17h55 GMT (15h55 Brasília)
Níger é condenado a pagar US$ 19,7 mil a ex-escrava
Um tribunal africano condenou nesta segunda-feira o governo de Níger a pagar uma indenização de US$ 19,7 mil a uma ex-escrava.
O Tribunal de Justiça, ligado à Comunidade Econômica dos Países da África Ocidental (Ecowas, na sigla em inglês), emitiu o veredicto em favor de Hadijatou Mani, que disse ter sido escravizada dos 12 aos 22 anos.
O governo de Níger, que afirmou ter feito "tudo o que pôde" para erradicar a escravidão no país, foi condenado por não ter protegido a jovem contra o trabalho forçado.
Hadijatou Mani, hoje com 24 anos, diz ter sido vendida por US$ 500 a um homem chamado Souleymane Naroua quando tinha 12 anos.
Ela diz ter sido forçada a realizar tarefas domésticas e trabalhar na lavoura. A partir dos 13 anos, ela teria sido estuprada e dado à luz filhos de Souleymane.
"Eu apanhava tantas vezes que fugia para a casa da minha família", contou a jovem à BBC. "Mas, depois de um dia, eu era levada de volta."
"Na época, eu não sabia o que fazer, mas, quando soube que a escravidão havia sido abolida no país, decidi que não seria mais uma escrava."
Bigamia
Em 2005, o "senhor" de Hadijatou a libertou e deu a ex-escrava um "certificado de liberdade", segundo relatos da ONG Anti-Slavery International.
Mas quando ela decidiu se casar com um outro homem, Souleymane recorreu e disse que eles eram casados.
Um tribunal local emitiu uma sentença em favor da jovem e permitiu que ela se casasse. Mas Souleymane recorreu e Hadijatou acabou condenada a seis meses de prisão por bigamia.
A ex-escrava levou o caso ao Tribunal de Justiça da Ecowas no início deste ano, acusando o governo de Níger de ter falhado em protegê-la contra a escravidão, uma prática proibida no país há cinco anos.
Precedente
O correspondente da BBC na África Ocidental, Will Ross, diz que a sentença é "vergonhosa" para Níger e envia uma mensagem ao governo de que é preciso agir com seriedade para fazer valer a lei e acabar com a escravidão no país.
A sentença ainda pode abrir precedente para que outras pessoas que foram submetidas a trabalho escravo nos países vizinhos reivindiquem seus direitos.
Uma organização local que luta para acabar com a escravidão em Níger diz que há mais de 40 mil escravos no país. O governo diz que os números são "exagerados".
De acordo com Romana Cacchioli, da Anti-Slavery International, a ONG libertou 80 mulheres do trabalho forçado nos últimos cinco anos.
Hadjatou Mani diz que uma das razões que a motivaram a entrar com uma ação no tribunal da Ecowas foi garantir a liberdade de seus filhos, já que, durante gerações, filhos de escravos tornavam-se automaticamente propriedade do senhor de escravos.
A escravidão ainda é praticada no Mali e na Mauritânia.
Essa notícia publicada pela BBC, pode nos auxiliar a entender as muitas possibilidades de consciência que podemos ter. Precisamos, ainda mais, pensar na Declaração Universal dos Direitos Humanos, ela pode ser mais ampla do que os direitos tribais, tão em voga nessa modernidade líquida que nos circunda e pode nos afogar.
27 de outubro, 2008 - 17h55 GMT (15h55 Brasília)
Níger é condenado a pagar US$ 19,7 mil a ex-escrava
Um tribunal africano condenou nesta segunda-feira o governo de Níger a pagar uma indenização de US$ 19,7 mil a uma ex-escrava.
O Tribunal de Justiça, ligado à Comunidade Econômica dos Países da África Ocidental (Ecowas, na sigla em inglês), emitiu o veredicto em favor de Hadijatou Mani, que disse ter sido escravizada dos 12 aos 22 anos.
O governo de Níger, que afirmou ter feito "tudo o que pôde" para erradicar a escravidão no país, foi condenado por não ter protegido a jovem contra o trabalho forçado.
Hadijatou Mani, hoje com 24 anos, diz ter sido vendida por US$ 500 a um homem chamado Souleymane Naroua quando tinha 12 anos.
Ela diz ter sido forçada a realizar tarefas domésticas e trabalhar na lavoura. A partir dos 13 anos, ela teria sido estuprada e dado à luz filhos de Souleymane.
"Eu apanhava tantas vezes que fugia para a casa da minha família", contou a jovem à BBC. "Mas, depois de um dia, eu era levada de volta."
"Na época, eu não sabia o que fazer, mas, quando soube que a escravidão havia sido abolida no país, decidi que não seria mais uma escrava."
Bigamia
Em 2005, o "senhor" de Hadijatou a libertou e deu a ex-escrava um "certificado de liberdade", segundo relatos da ONG Anti-Slavery International.
Mas quando ela decidiu se casar com um outro homem, Souleymane recorreu e disse que eles eram casados.
Um tribunal local emitiu uma sentença em favor da jovem e permitiu que ela se casasse. Mas Souleymane recorreu e Hadijatou acabou condenada a seis meses de prisão por bigamia.
A ex-escrava levou o caso ao Tribunal de Justiça da Ecowas no início deste ano, acusando o governo de Níger de ter falhado em protegê-la contra a escravidão, uma prática proibida no país há cinco anos.
Precedente
O correspondente da BBC na África Ocidental, Will Ross, diz que a sentença é "vergonhosa" para Níger e envia uma mensagem ao governo de que é preciso agir com seriedade para fazer valer a lei e acabar com a escravidão no país.
A sentença ainda pode abrir precedente para que outras pessoas que foram submetidas a trabalho escravo nos países vizinhos reivindiquem seus direitos.
Uma organização local que luta para acabar com a escravidão em Níger diz que há mais de 40 mil escravos no país. O governo diz que os números são "exagerados".
De acordo com Romana Cacchioli, da Anti-Slavery International, a ONG libertou 80 mulheres do trabalho forçado nos últimos cinco anos.
Hadjatou Mani diz que uma das razões que a motivaram a entrar com uma ação no tribunal da Ecowas foi garantir a liberdade de seus filhos, já que, durante gerações, filhos de escravos tornavam-se automaticamente propriedade do senhor de escravos.
A escravidão ainda é praticada no Mali e na Mauritânia.
domingo, outubro 26, 2008
Magos e magias capitalistas
Recentemente li sobre a popularidade que Paulo Coelho tem na Europa e, aqui no Brasil ele é pouco lido. O texto pareceu-me uma crítica pelo fato de os brasileiros não serem tão encantado com as escrituras do Mago enquanto os civilizados europeus encantam-se com o que ele escreve. Li alguns livros do Mago e, não mais desejei nem reler o que havia lido nem tentar novas leituras. O Diário de um Mago, Brida e As Valquírias, foram o os lidos. Nem orgulho nem vergonha por os ter manuseado, nem de ter posto algumas horas de minha vida para saber o que tem de tão excepcional este escritor que encanta a educada Europa. Como alguns amigos meus, gostei mais de “Meu Pé de laranja lima”, embora não haja como negar o mérito de Paulo Coelho em se apoderar das tradições dos povos que viveram na Europa antes do cristianismo, e lhes dar novas roupagens. Não há surpresa em os descendentes dos gauleses e vikings ficarem encantados com as histórias que os transportam às suas culturas ancestrais. As tradições mais remotas dos suevos, dos alamos, dos gauleses, anglos e saxões, as religiões das fadas e gnomos, tudo é parte do encanto da Europa antes da Europa. Essas histórias, essas lendas estão no substrato mais profundo dos sentimentos daqueles povos; e, como negar, eles são trazidos de maneira simples e não conflituosa por quem tem facilidades para narrar contos das Mil e uma noites ou as sagas dos europeus, mantidas vivas até à época em que se iniciou o processo civilizador estudado por Norbert Elias. Tudo já estava arrumado nas estantes das bibliotecas e nos recônditos das mentes. Os europeus se encontram nessas histórias e se encantam com esse estrangeiro que “nos conhece tão bem”. O mesmo acontece com esses filmes que tratam dos mitos e lendas européias não gregas, de pequenos feiticeiros.
Por outro lado, pode ser que os brasileiros não leiam as obras de Paulo Coelho, com a mesma volúpia dos escandinavos, por não terem tido acesso, há mais tempo, ao domínio do código da leitura, esse código que é básico para a sobrevivência no mundo moderno, exatamente o mundo que destruiu o mundo de Brida. Esse mundo moderno que acaba de se desnudar por conta da “marola” que veio dos Estados Unidos da América, essa marola financeira. De repente, quando o sistema financeiro estadunidense faz furos por todos os lados, e se descobre que era muito dinheiro “futuro”, e quando começaram a ruir as grandes empresas tomadoras e concessionárias de empréstimo disseram que não havia dinheiro, e então se percebeu que alguns ricos iam ficar pobres: eis que aparecem fortunas que eram guardadas pelos governos. Esses dinheiros passaram a ser garantia de que aquelas pessoas que não passavam necessidades não iriam jamais ter essa dolorosa experiência que eles impõem a um terço da humanidade. De repente saíram das cavernas dos bancos centrais de muitos países, como em um passe de magia, um movimento de alguma varinha mágica, zilhões de dinheiro, de todas as marcas e idiomas. Inclusive em português do Brasil, com o objetivo de evitar “marolas” em nosso forte sistema bancário, dependente do petróleo e dos dólares do exterior, pois aqui rico já é quem passa de R$20.000.00 anuais.
Aliás, um pedaço do Recife foi vendido a uma construtora que cresceu muito nesses últimos 8 anos, e naquele pedaço serão construídos mais edifícios, conforme projeto mostrado em alguma página do Diário de Pernambuco deste domingo. Antigamente, essas construções eram ditas “arranha-céus”, mas tudo agora é Torre. Negócios realizados em leilão um pouco antes e anunciados alguns dias após a proclamação dos resultados da eleição (sub judice) do novo prefeito da cidade. Algum dia saberemos o que irá ocorrer com as famílias que serão postas a correr da imediações. Pode ser que, com a saida daqueles pobres, comecem a aparecer programas de saneamento básico na região e outros investimentos que, no momento, só ocorrem no entorno, bem próximo onde serão levanrtadas novas "torres" de luxo.
Nos anos da ditadura, escrevi u verso que dizia: Recife, minha ilha de água doce, está ficando amargo de te ver hoje. Daqui uns poucos anos, alguém que venha de Boa Viagem dirá, mas ou menos assim: Recife, está ficando difícil te ver!
Por outro lado, pode ser que os brasileiros não leiam as obras de Paulo Coelho, com a mesma volúpia dos escandinavos, por não terem tido acesso, há mais tempo, ao domínio do código da leitura, esse código que é básico para a sobrevivência no mundo moderno, exatamente o mundo que destruiu o mundo de Brida. Esse mundo moderno que acaba de se desnudar por conta da “marola” que veio dos Estados Unidos da América, essa marola financeira. De repente, quando o sistema financeiro estadunidense faz furos por todos os lados, e se descobre que era muito dinheiro “futuro”, e quando começaram a ruir as grandes empresas tomadoras e concessionárias de empréstimo disseram que não havia dinheiro, e então se percebeu que alguns ricos iam ficar pobres: eis que aparecem fortunas que eram guardadas pelos governos. Esses dinheiros passaram a ser garantia de que aquelas pessoas que não passavam necessidades não iriam jamais ter essa dolorosa experiência que eles impõem a um terço da humanidade. De repente saíram das cavernas dos bancos centrais de muitos países, como em um passe de magia, um movimento de alguma varinha mágica, zilhões de dinheiro, de todas as marcas e idiomas. Inclusive em português do Brasil, com o objetivo de evitar “marolas” em nosso forte sistema bancário, dependente do petróleo e dos dólares do exterior, pois aqui rico já é quem passa de R$20.000.00 anuais.
Aliás, um pedaço do Recife foi vendido a uma construtora que cresceu muito nesses últimos 8 anos, e naquele pedaço serão construídos mais edifícios, conforme projeto mostrado em alguma página do Diário de Pernambuco deste domingo. Antigamente, essas construções eram ditas “arranha-céus”, mas tudo agora é Torre. Negócios realizados em leilão um pouco antes e anunciados alguns dias após a proclamação dos resultados da eleição (sub judice) do novo prefeito da cidade. Algum dia saberemos o que irá ocorrer com as famílias que serão postas a correr da imediações. Pode ser que, com a saida daqueles pobres, comecem a aparecer programas de saneamento básico na região e outros investimentos que, no momento, só ocorrem no entorno, bem próximo onde serão levanrtadas novas "torres" de luxo.
Nos anos da ditadura, escrevi u verso que dizia: Recife, minha ilha de água doce, está ficando amargo de te ver hoje. Daqui uns poucos anos, alguém que venha de Boa Viagem dirá, mas ou menos assim: Recife, está ficando difícil te ver!
quarta-feira, outubro 22, 2008
Não foi tanto assim!!! vamos desembarganhar.
Os jornais sempre nos ensinam sobre a nossa vida em sociedade. Duas semanas passadas uma revista semanal de circulação nacional apresentou resultados de uma pesquisa sobre a relação entre educação e o supremo tribunal federal. Apresentaram-se dados de como o presidente do STF, aquele que criou uma lei para proteger o banqueiro Dantas, tem utilizado o seu prestígio para favorecer uma pequena faculdade de sua propriedade. Mas, isso não pode ser crime, ali se ensina que as algemas não devem ser utilizadas, exceto em casos que envolvam gente com colarinho de cor diferente que a branca. Pois bem, hoje, lemos nos jornais publicados aqui em Pernambuco que o candidato eleito para prefeito da capital usou sim, diz um desembargador, os computadores da secretaria de educação do município, o que é crime eleitoral. Mas, diz o ilustre candidato a, futuramente, exercer a presidência do STF, que apesar de ferir a legislação eleitoral, não é o suficiente para que o candidato seja afastado da vida política. Basta que ele pague algo em torno de R$70.000.00 e estará perdoado, pois, diz o eminente sábio jurista, só seria crime se essa ação tivesse influenciado os eleitores e afetasse o resultado da eleição. No seu entender, o crime cometido, sim pois ele sugere que o candidato-criminoso pague uma multa para não ser cassado, não foi grande o suficiente para que desmoralizasse o processo eleitoral. Muito flexível, esse jurista. Entretanto, ele considerou grave que o atual prefeito tenha permitido que a máquina administrativa da prefeitura fosse utilizada, por essa razão, ele sugere que o prefeito pague uma multa de igual valor. Interessante que anteriormente um outro jurista afirmou que o prefeito não cometera ilícito. Noticiou-se também que o eleito está disposto a pagar, mas o prefeito está disposto a recorrer para não empobrecer em R$70.000.00.
Há uma evolução para tornar o atual prefeito um criminoso e inocentar o futuro prefeito pelo mesmo ilícito. Logo, não sei que conclusão tirar dessa situação. Exceto que ambos – prefeito e o secretário-futuro prefeito – segundo sugestão do arguto desembargador do tribunal eleitoral, devem depositar um total de R$140.000.00, na conta do tribunal regional eleitoral, para suas fichas sejam borradas, como dizem os hispânicos, para dizer que terão seus erros apagados. Quando se passa a borracha, apagam-se as letras, mas a página fica borrada, como dizemos os lusófonos.
Esses acontecimentos sociais nos ensinam, talvez, que já não nos preocupamos tanto em não cometer crimes, mas que precisamos ter bons advogados e desembargadores de tirem de nosso caminho os atos realizados que embargam a nossa trajetória. No mais, como a máquina da secretaria da educação não se empenhe tanto em que as pessoas entendam o que lêem, para que não façam perguntas indelicadas quando lêem pareceres, esses que são celebrados como fonte de sabedorias pelos praticantes de ilícitos, os demais secretários das prefeituras continuarão a administrar seus ilícitos; eles sabem que não haverá embargo que não possa ser superado por um pouco de sofisma e ausência de projeto social.
Termino essa página citando Roberto Pompeu de Toledo comparando o eleitorado brasileiro com o eleitorado estadunidense: “nosso eleitorado menos consolidado em suas crenças e preferências, tem comportamento mais imprevisível. E verdade que revela uma queda acentuada por candidatos de ficha suja. Essa sim, é uma preferência nacional, mais uma vez comprovada na eleição municipal.” Sem barganhas, pareceres desembarcam para tornar imaculado a maculador.
Há uma evolução para tornar o atual prefeito um criminoso e inocentar o futuro prefeito pelo mesmo ilícito. Logo, não sei que conclusão tirar dessa situação. Exceto que ambos – prefeito e o secretário-futuro prefeito – segundo sugestão do arguto desembargador do tribunal eleitoral, devem depositar um total de R$140.000.00, na conta do tribunal regional eleitoral, para suas fichas sejam borradas, como dizem os hispânicos, para dizer que terão seus erros apagados. Quando se passa a borracha, apagam-se as letras, mas a página fica borrada, como dizemos os lusófonos.
Esses acontecimentos sociais nos ensinam, talvez, que já não nos preocupamos tanto em não cometer crimes, mas que precisamos ter bons advogados e desembargadores de tirem de nosso caminho os atos realizados que embargam a nossa trajetória. No mais, como a máquina da secretaria da educação não se empenhe tanto em que as pessoas entendam o que lêem, para que não façam perguntas indelicadas quando lêem pareceres, esses que são celebrados como fonte de sabedorias pelos praticantes de ilícitos, os demais secretários das prefeituras continuarão a administrar seus ilícitos; eles sabem que não haverá embargo que não possa ser superado por um pouco de sofisma e ausência de projeto social.
Termino essa página citando Roberto Pompeu de Toledo comparando o eleitorado brasileiro com o eleitorado estadunidense: “nosso eleitorado menos consolidado em suas crenças e preferências, tem comportamento mais imprevisível. E verdade que revela uma queda acentuada por candidatos de ficha suja. Essa sim, é uma preferência nacional, mais uma vez comprovada na eleição municipal.” Sem barganhas, pareceres desembarcam para tornar imaculado a maculador.
terça-feira, outubro 21, 2008
Manoel Lopes de Sousa: um primo de primeira
Neste final de semana estive na cidade de Aracaju, realizei uma série de palestra em torno do tema IDENTIDADES E RELIGIOSIDADES BRASILEIRAS, na Faculdade São Luiz de França. Foi um público seleto e interessado, aberto à novidades e a novas maneiras de enfocar temas melindrosos. Esses temas trazem receios, pois falam de nós mesmo, do que queremos ser, do que não desejamos ser,mas, contra alguns de nossos desejos, somos.
Nesse tempo recebi a notícias da morte de Manoel Lopes de Sousa, um primo em segundo grau, que acompanhou grande parte de minha vida. Sei que ele nasceu em um sítio do hoje município de Buenos Aires. Mamãe contou-me, sem muita certeza, que Manoel chegou para morar conosco quando eu era recém nascido. Nessa época nossa família morava em lugar chamado Lobo, hoje Caramuru. Houve um tempo que era parte de Paudalho, mas, depois ficou no município de Carpina. Mas, devo dizer que Manoel nasceu em 1934, indo morar conosco aos 16 anos. Foi ajudar meu pai que se fazia comerciante enquanto a família crescia. Manoel Lopes, como sempre o chamamos, tornou-se como um filho para meu pai. Quando papai resolveu sair da beira do Rio Capibaribe para vir morar no Recife, Manoel Lopes veio na frente, construiu a casa, montou o comércio na Rua Nova Descoberta, a mesma casa onde cresci a partir dos cinco anos e onde aprendi a gostar do Santa Cruz Futebol Clube, vendo Manoel Lopes gritar de alegria a cada gol de Faustino, de Lanzoninho, ou das defesas de Aníbal. Tempos de quando o futebol ainda não havia se tornado o espetáculo com paixões tão doentias como as atuais, nesse tempo de poucos ideais e objetivos maiores. Era o tempo em que sabíamos que os jogadores gostavam do clube e nos faziam gostar do clube. Saudosismo conservador, talvez.
Depois de um tempo auxiliando ainda papai em seu comércio, não consigo lembrar quando, Manoel Lopes estabeleceu-se na mesma rua como comerciante. Passou algum tempo e, como estudara, estava apto para fazer um concurso público, sendo enviado para trabalhar em Palmares. Lá conheceu Amara, casou e tiveram Carlos, um filho que lhe fez feliz. A cidade de Palmares ficou parte de nossa família, pois José Vicente – Doutor -, meu irmão, lá foi refugiar-se, após tomar conhecimento de que fora reprovado mais uma vez, evitando a raiva imediata de meu papai. Palmares, por outro lado, converteu Manoel Lopes em um homem religioso, freqüentador da Igreja, amigo de Dom Acácio, o primeiro bispo da diocese, criada em 1962. Um dia ficamos sabendo que Manoel Lopes havia sido ordenado Diácono casado, um homem reconhecido pela sua comunidade religiosa. O sorriso que Manoel Lopes sempre carregou, do qual sempre me lembro, ficou mais radiante. E Manoel sofreu muito com uma doença que acompanhou, ainda acompanha a sua querida Amara. Mas o sorriso nunca abandonou o seu rosto, como às vezes acontece comigo, que ainda não aprendi a jogar todas as mágoas para fora de mim.
Ao se aposentar, Manoel veio para mais perto, foi morar em Piedade, onde logo se envolveu com a comunidade e exerceu o seu apostolado junto aos seus irmãos de fé.
Vi Manoel Lopes pela última vez foi no sepultamento de meu irmão José Vicente – Doutor – e dividiu comigo a tarefa de recomendar o corpo que se ia, e acalmar as almas dos que ficamos. Conversamos, rimos, como sempre acontece quando a família se encontra. Soube que eu estava com um programa na Rádio Universitária, e passou a participar telefonando e me animando, como ele sempre fizera conosco, seus primos, quando morávamos na mesma casa, e nos ajudava a fazer os deveres de casa, que nos eram indicados por nossos professores. Zefinha, minha irmã mais velha, foi muito beneficiada pelas habilidades de Manoel em realizar tarefas para ela.
Faz pouco tempo Manoel Lopes preparou uma festa e convidou a família para um dia de alegria. Não fui, pois estava ministrando um curso na cidade de Goiana. Hoje, mamãe disse que foi como um despedida.
Homem confiante na vida, mas teimoso como velho, nesta semana andou fazendo esforço físico além do permitido para quem teve um enfarto. Pois bem, esta foi a última traquinice de Manoel Lopes de Sousa, o meu primo que, sem ser padre, esteve perto do altar da eucaristia, realizando desejos de seus pais, tios e primos. Um quase padre, mas com certeza, um homem de bem, uma pessoa que se tornou melhor a cada dia de sua vida.
Nesse tempo recebi a notícias da morte de Manoel Lopes de Sousa, um primo em segundo grau, que acompanhou grande parte de minha vida. Sei que ele nasceu em um sítio do hoje município de Buenos Aires. Mamãe contou-me, sem muita certeza, que Manoel chegou para morar conosco quando eu era recém nascido. Nessa época nossa família morava em lugar chamado Lobo, hoje Caramuru. Houve um tempo que era parte de Paudalho, mas, depois ficou no município de Carpina. Mas, devo dizer que Manoel nasceu em 1934, indo morar conosco aos 16 anos. Foi ajudar meu pai que se fazia comerciante enquanto a família crescia. Manoel Lopes, como sempre o chamamos, tornou-se como um filho para meu pai. Quando papai resolveu sair da beira do Rio Capibaribe para vir morar no Recife, Manoel Lopes veio na frente, construiu a casa, montou o comércio na Rua Nova Descoberta, a mesma casa onde cresci a partir dos cinco anos e onde aprendi a gostar do Santa Cruz Futebol Clube, vendo Manoel Lopes gritar de alegria a cada gol de Faustino, de Lanzoninho, ou das defesas de Aníbal. Tempos de quando o futebol ainda não havia se tornado o espetáculo com paixões tão doentias como as atuais, nesse tempo de poucos ideais e objetivos maiores. Era o tempo em que sabíamos que os jogadores gostavam do clube e nos faziam gostar do clube. Saudosismo conservador, talvez.
Depois de um tempo auxiliando ainda papai em seu comércio, não consigo lembrar quando, Manoel Lopes estabeleceu-se na mesma rua como comerciante. Passou algum tempo e, como estudara, estava apto para fazer um concurso público, sendo enviado para trabalhar em Palmares. Lá conheceu Amara, casou e tiveram Carlos, um filho que lhe fez feliz. A cidade de Palmares ficou parte de nossa família, pois José Vicente – Doutor -, meu irmão, lá foi refugiar-se, após tomar conhecimento de que fora reprovado mais uma vez, evitando a raiva imediata de meu papai. Palmares, por outro lado, converteu Manoel Lopes em um homem religioso, freqüentador da Igreja, amigo de Dom Acácio, o primeiro bispo da diocese, criada em 1962. Um dia ficamos sabendo que Manoel Lopes havia sido ordenado Diácono casado, um homem reconhecido pela sua comunidade religiosa. O sorriso que Manoel Lopes sempre carregou, do qual sempre me lembro, ficou mais radiante. E Manoel sofreu muito com uma doença que acompanhou, ainda acompanha a sua querida Amara. Mas o sorriso nunca abandonou o seu rosto, como às vezes acontece comigo, que ainda não aprendi a jogar todas as mágoas para fora de mim.
Ao se aposentar, Manoel veio para mais perto, foi morar em Piedade, onde logo se envolveu com a comunidade e exerceu o seu apostolado junto aos seus irmãos de fé.
Vi Manoel Lopes pela última vez foi no sepultamento de meu irmão José Vicente – Doutor – e dividiu comigo a tarefa de recomendar o corpo que se ia, e acalmar as almas dos que ficamos. Conversamos, rimos, como sempre acontece quando a família se encontra. Soube que eu estava com um programa na Rádio Universitária, e passou a participar telefonando e me animando, como ele sempre fizera conosco, seus primos, quando morávamos na mesma casa, e nos ajudava a fazer os deveres de casa, que nos eram indicados por nossos professores. Zefinha, minha irmã mais velha, foi muito beneficiada pelas habilidades de Manoel em realizar tarefas para ela.
Faz pouco tempo Manoel Lopes preparou uma festa e convidou a família para um dia de alegria. Não fui, pois estava ministrando um curso na cidade de Goiana. Hoje, mamãe disse que foi como um despedida.
Homem confiante na vida, mas teimoso como velho, nesta semana andou fazendo esforço físico além do permitido para quem teve um enfarto. Pois bem, esta foi a última traquinice de Manoel Lopes de Sousa, o meu primo que, sem ser padre, esteve perto do altar da eucaristia, realizando desejos de seus pais, tios e primos. Um quase padre, mas com certeza, um homem de bem, uma pessoa que se tornou melhor a cada dia de sua vida.
sexta-feira, outubro 17, 2008
Para meus colegas professores
Nesta manhã não fui caminhar, preferi ficar pondo água nas plantas que fazem a floresta domesticada em nossa casa. Temos coqueiros que darão seus frutos quando meus netos puderem me ajudar a dividir o fruto, temos pitangas, mangas,jambeirom rosas vermelhas, rosas brancas, hortelã, colônia, arueira, arruda,jasmim, azaléias, pimenta, jibóia, palmeiras, papoulas, alecrim, espadas de São Jorge, comigo ninguém pode, bananeira e pau-brasil, este plantado no meu aniversário. Quase nunca tenho tempo de ficar algum tempo com elas. Hoje fiquei algum tempo e dei banho nelas, enquanto os cachorros olhavam apreensivos para a mangueira, temendo que eu dirigisse o jato d’água em sua direção. Esse exercício matinal auxiliou-me a pensar o tempo que demora a gente ver o resultado da ação humana. As palmeiras que agora têm três ou quatro vezes a minha altura, foram postas ali, pela minha mão já quase duas décadas. A natureza caminha com o seu ritmo, absorvendo, modificando os alimentos que ela própria produz, silenciosamente, e só exige que sejamos pacientes com ela, enquanto ele segue seu curso.
Mas para ser um jardim, as plantas, isoladas e no conjunto, carecem do cuidado, da atenção do jardineiro. E, o nosso cuidado não as faz crescer, elas cresceriam sem a nossa atenção. O nosso cuidado auxilia a cada uma delas desenvolver suas características, que elas já possuíam antes de nosso cuidado, mas, esse cuidado faz com que os aspectos específicos de cada uma delas, se tornem visíveis aos olhos dos que passam pelo jardim. Nosso cuidado não muda a planta, mas realça a sua característica, auxiliando-a a compor o jardim que nos alegra, que atrai pássaros, abelhas, borboletas, lagartixas e outros animais dos quais não tomamos conhecimentos, pois eles visitam o jardim enquanto dormimos.
Cuidar de um jardim é parecido, mas apresenta diferenças, como a prática de cuidar de cães e gatos e outros animais que foram domesticados desde que nos tornamos caçadores e agricultores. Os animais correm e nos tocam, não são apenas tocados; os animais gritam e conversam conosco semelhantemente aos nossos semelhantes; os animais correm para nos saudar e nos dizem quando estão sendo esquecidos. Os animais nos acariciam a pele, seja por gratidão, seja por seu interesse imediato. Eles nos deixam com vontade de pensar: como eles gostam de mim porque eu cuido deles, eles me dizem que eu sou bom. Esses animais cultivam nosso narcisismo e satisfazem nossa pele, dando-nos a impressão de sermos amados. Deve ser essa uma das razões porque tanta gente tem cachorros e gatos em seus apartamentos e raramente têm flores, exceto essas similitudes encontradas em lojas de objetos. Plantas artificiais não dão trabalho, não exigem que olhemos para elas, que a podemos, que a façamos sofrer alguma dor para que fiquem mais belas e acariciem, pelos olhos, a nossa alma. Elas já são compradas grandes, não precisamos esperar para que cresçam; algumas já são compradas com frutos, embora não os possamos comer. Esses objetos coloridos que são comprados em lojas nem mesmo se movem quando a brisa a toca.
Só quem sabe a alegria da planta é quem dela cuida, é quem despende carinho e tempo com ela. E às vezes, algumas plantas crescem tão vagarosamente que o jardineiro às vezes não vê as flores nem toca no fruto. Outros é que recebem o resultado do seu trabalho, ainda que ele também possa desfrutar dessa alegria. Mas quando o jardineiro se alegra com o resultado do seu trabalho, muitas outras pessoas já o fizeram, às vezes só ao passar em frente. O trabalho do jardineiro é sempre alegria para todos. As plantas não correm quando o jardineiro chega, não alardeia quem dela cuidou. A alegria do jardineiro provem dos comentários que escuta sobre o seu jardim e, muito raramente, quem se alegra com o jardim jamais fica sabendo quem foi o jardineiro. Mas sempre, em cada jardim, em planta que forma o conjunto do jardim, há as mãos, os olhos, os pés, o suor, o temor, a alegria, o sonho, a perspectiva de um jardineiro.
Esta foi a semana do professor.
Mas para ser um jardim, as plantas, isoladas e no conjunto, carecem do cuidado, da atenção do jardineiro. E, o nosso cuidado não as faz crescer, elas cresceriam sem a nossa atenção. O nosso cuidado auxilia a cada uma delas desenvolver suas características, que elas já possuíam antes de nosso cuidado, mas, esse cuidado faz com que os aspectos específicos de cada uma delas, se tornem visíveis aos olhos dos que passam pelo jardim. Nosso cuidado não muda a planta, mas realça a sua característica, auxiliando-a a compor o jardim que nos alegra, que atrai pássaros, abelhas, borboletas, lagartixas e outros animais dos quais não tomamos conhecimentos, pois eles visitam o jardim enquanto dormimos.
Cuidar de um jardim é parecido, mas apresenta diferenças, como a prática de cuidar de cães e gatos e outros animais que foram domesticados desde que nos tornamos caçadores e agricultores. Os animais correm e nos tocam, não são apenas tocados; os animais gritam e conversam conosco semelhantemente aos nossos semelhantes; os animais correm para nos saudar e nos dizem quando estão sendo esquecidos. Os animais nos acariciam a pele, seja por gratidão, seja por seu interesse imediato. Eles nos deixam com vontade de pensar: como eles gostam de mim porque eu cuido deles, eles me dizem que eu sou bom. Esses animais cultivam nosso narcisismo e satisfazem nossa pele, dando-nos a impressão de sermos amados. Deve ser essa uma das razões porque tanta gente tem cachorros e gatos em seus apartamentos e raramente têm flores, exceto essas similitudes encontradas em lojas de objetos. Plantas artificiais não dão trabalho, não exigem que olhemos para elas, que a podemos, que a façamos sofrer alguma dor para que fiquem mais belas e acariciem, pelos olhos, a nossa alma. Elas já são compradas grandes, não precisamos esperar para que cresçam; algumas já são compradas com frutos, embora não os possamos comer. Esses objetos coloridos que são comprados em lojas nem mesmo se movem quando a brisa a toca.
Só quem sabe a alegria da planta é quem dela cuida, é quem despende carinho e tempo com ela. E às vezes, algumas plantas crescem tão vagarosamente que o jardineiro às vezes não vê as flores nem toca no fruto. Outros é que recebem o resultado do seu trabalho, ainda que ele também possa desfrutar dessa alegria. Mas quando o jardineiro se alegra com o resultado do seu trabalho, muitas outras pessoas já o fizeram, às vezes só ao passar em frente. O trabalho do jardineiro é sempre alegria para todos. As plantas não correm quando o jardineiro chega, não alardeia quem dela cuidou. A alegria do jardineiro provem dos comentários que escuta sobre o seu jardim e, muito raramente, quem se alegra com o jardim jamais fica sabendo quem foi o jardineiro. Mas sempre, em cada jardim, em planta que forma o conjunto do jardim, há as mãos, os olhos, os pés, o suor, o temor, a alegria, o sonho, a perspectiva de um jardineiro.
Esta foi a semana do professor.
sábado, outubro 11, 2008
Belém do Sao Francisco, Recife e Curitiba
Estou na cidade de Belém do São Francisco, bem na margem do rio que antigamente corria caudaloso,mas agora está amansado pelas barreiras que lhe foram imostas pelos homens. Antes, o rio modelou a natureza, abrindo caminhos e criando possibilidades de vida. Isso foi feito sem a sua intenção, penso, pois não se encontrou ainda o diário ou páginas avulsas contando os projetos das águas que saíram silenciosamente das serras mineiras psra estender-se no azul esverdeado do Atlântico nas Alagoas. E estou aqui para viver a honra de iniciar um projeto que está oferecendo a professores da rede pública estadual realizarem um curso de especialziação. Cursos semelhantes estarão sendo realizados no Recife, em Caruaru. Está previsto a participação de cerca de 2000 professores. além dos cursos de especialização também irão ser ministrados cursos de atualziação Isto é ótimo, pois está pondo para uma atualização de conhecimentos professores que, eu ouvi, estão em sala de aula um tempo equivalente a duas década. Estamos muito atrasados nessa política de atualização do conhecimento, o que faz com que professores repassem para seus alunos, no início do século XXI, conhecimentos que receberam na penúltima década do século XX. É uma defasagem enorme. É incrivel como não se oferece possibilidade de atalziação dos professores e não se lhes oferece tempo para estudar. Vamos eseprar que essa política continue.
Aqui em Belém do São Francisco o curso é de responsabilidade do Centro de Formação de Ensino do Vale do São Francisco, um autarquia que tem três décadas de atividades. e atende a cidades de Pernambuco, Bahia, Alagoas. O CESVASF é quase um oásis de esperança em uma área em que a tradiçao do mandonismo, a novidade da violência do tráfego de drogas fortalecido pela a ausência do Estado, temeroso em exercer a sua obrigação de oferecer segurança, educação e saúde à população. O mesmo medo que sinto no comportamento de meus alunos que temem ficar até o final da aula, encontro nesses professores. Eles vivem e atuam em Cabrobó, Santa Maria da Boa Vista, Floresta, Cedro, Salgueiro, Petrolina, São José do Belmonte,Tacaratu, Jatobá e, do Agreste, um professor de Alagoinhas. Todos mencionaram o medo das estardas, um temor com o qual alguns lidam diariamente, quando saem de suas casas para as escolas. Nada lhes garante que foras-da-lei deixaram de agir contra eles. Cada um tem uma história para contar nas estardas, despoliciadas e com asfalto raro e buracos permanentes. Mas muito me alegrei por participar desse re-encontro com os bancos escolares de professores em carteiras estudantis.
Enquanto isso, nesta tarde ocorreu o lançamento do segundo livro de Valéria Vicente, um livro que conta a aventura de dois pré-adolescentes na descoberta do Maracatu de Baque Virado na periferia do Recife. O livro foi publicado pela Edições Bagaço. Tâmisa Vicente, sua irmã, está em Curitiba apresentando algumas reflexões sobre o turismo cultural, em um encontro internacional.
Aqui em Belém do São Francisco o curso é de responsabilidade do Centro de Formação de Ensino do Vale do São Francisco, um autarquia que tem três décadas de atividades. e atende a cidades de Pernambuco, Bahia, Alagoas. O CESVASF é quase um oásis de esperança em uma área em que a tradiçao do mandonismo, a novidade da violência do tráfego de drogas fortalecido pela a ausência do Estado, temeroso em exercer a sua obrigação de oferecer segurança, educação e saúde à população. O mesmo medo que sinto no comportamento de meus alunos que temem ficar até o final da aula, encontro nesses professores. Eles vivem e atuam em Cabrobó, Santa Maria da Boa Vista, Floresta, Cedro, Salgueiro, Petrolina, São José do Belmonte,Tacaratu, Jatobá e, do Agreste, um professor de Alagoinhas. Todos mencionaram o medo das estardas, um temor com o qual alguns lidam diariamente, quando saem de suas casas para as escolas. Nada lhes garante que foras-da-lei deixaram de agir contra eles. Cada um tem uma história para contar nas estardas, despoliciadas e com asfalto raro e buracos permanentes. Mas muito me alegrei por participar desse re-encontro com os bancos escolares de professores em carteiras estudantis.
Enquanto isso, nesta tarde ocorreu o lançamento do segundo livro de Valéria Vicente, um livro que conta a aventura de dois pré-adolescentes na descoberta do Maracatu de Baque Virado na periferia do Recife. O livro foi publicado pela Edições Bagaço. Tâmisa Vicente, sua irmã, está em Curitiba apresentando algumas reflexões sobre o turismo cultural, em um encontro internacional.
sexta-feira, outubro 10, 2008
As bolsas e os santos
Os últimos dias foram carregados de notícias preocupantes para os que puseram seus ganhos nas bolsas de valores, mas, ao mesmo os especuladores de plantão continuaram a ganhar daqueles que perderam. Quase todos ficaram em polvorosa em decorrência do nervosismo apresentado na face de George W Bush que veio a público pedir uma ajuda para o sistema bancário americano. Nem todos ficaram nervosos, alguns, como o presidente do Brasil, resolveram fazer troça do Bush angustiado, enquanto o amigo de Luiz Inácio da Silva que governa o Equador se preparava para expulsar duas empresas brasileiras, entre elas uma com muito capital do povo brasileiro. Pode ser que a Petrobrás venha a perder, como já perdeu para a Bolívia, mais alguns canos. Coisa sem importância!
Pois é, foi mais ou menos isso que o papa Bento XVI disse ao presidir a abertura do Sínodo dos Bispos, ao nos lembrar que o dinheiro não é tão importante assim, que existem valores que estão sendo postos no lixo por aqueles que, para guardar dinheiro, especulam sobre a fome dos homens e das mulheres. Valores como a honestidade nos relacionamentos entre os seres humanos, honestidade de intenções nas relações entre os políticos e os cidadãos, honestidade entre os dirigentes das nações, etc. Valores como tratamento justo e digno às pessoas, e não apenas aos criminosos ricos, como ocorreu ao nosso STF. Talvez o presidente do nosso STF esteja pensando em sugerir à Suprema Corte dos Estados Unidos que sigam o seu exemplo, criando lá, o equivalente à Lei Banqueiro Daniel Dantas. Foi chocante assistir, pela televisão os policiais americanos algemando um ex-jogador de futebol americano e prendendo um brasileiro que sonegou imposto de renda naquele país.
Outro momento a ser comentado neste início do Sínodo Romano, é a palavra do papa encaminhando o processo de beatificação do seu antecessor Pio XII. Este papa teve um pontificado tão longo quanto o de João Paulo II. Aliás, contrariando todas as regras, Bento XV já deu início ao processo de beatificação de João Paulo II. Esses papas, os três, Pio XII, João Paulo II e Bento XVI possuem muitos atributos comuns e experiências de vida em torno dos acontecimentos conhecido como a Segunda Guerra Mundial, especialmente relacionado com o nazismo. Pio XII tem suas virtudes contestadas, por alguns, por não ter condenado energicamente o nazismo e o massacre dos judeus (essas pessoas esquecem os ciganos, os homossexuais, os comunistas, os doentes mentais, etc.). João Paulo II assistiu, em seus tempo de menino, seus colegas judeus serem levados ao campo de concentração e trabalhos forçados próximo à sua cidade. Bento XVI, como todos os seus colegas de idade, foi membro da juventude hitlerista. Neste período de crise financeira, pode ser que os amigos judeus do catolicismo retirem parte de seu apoio ao Vaticano se o papa continuar com essa idéia de fazer o Pastor Angélico, mais um participante da glória dos altares. Porém, como diz o mesmo Bento XVI, ele segue um Rei cujo reino não é desse mundo. Apesar disso, foi muito interessante uma cena, mostrada na mídia televisiva, de um grupo de trabalhadores de uma bolsa de valores em postura de oração. A religiosidade no templo de baal.
Mas se olharmos a religiosidade popular católica, encontraremos novidades interessantes nesta semana, como a presença do Núncio Apostólico celebrando missa em Juazeiro do Norte e fazendo homilia sobre os diversos graus de santidade. Quando ele mencionou o Padim Cíço, a Igreja foi tomada de júbilo. Agora o templo onde o padre Cícero Romão Batista celebrou é uma Basílica Menor, um templo especial para os muitos católicos romanos do mundo inteiro. Como se vê, abaixo da linha do Equador começam a ser vistas as santidades, não apenas as dos índios, que eram apontadas como heresia; mas uma santidade que foi apontada por quase herética no início do século XX, agora começa a ser vista como halo de santidade. Turistas - peregrinos para lugares de lazer e prazeres materiais -, já podem peregrinar em Juazeiro do Norte, detentora de uma basílica consagrada à Maria. Pode ser que a presença do Núncio Apostólico resulte em uma clara permissão ao povo para cultuar o seu santo.
Se isso vier a acontecer, ficará apenas para os historiadores as artimanhas de Dom Francisco Arcoverde contra o Patriarca do Joazeiro.
Pois é, foi mais ou menos isso que o papa Bento XVI disse ao presidir a abertura do Sínodo dos Bispos, ao nos lembrar que o dinheiro não é tão importante assim, que existem valores que estão sendo postos no lixo por aqueles que, para guardar dinheiro, especulam sobre a fome dos homens e das mulheres. Valores como a honestidade nos relacionamentos entre os seres humanos, honestidade de intenções nas relações entre os políticos e os cidadãos, honestidade entre os dirigentes das nações, etc. Valores como tratamento justo e digno às pessoas, e não apenas aos criminosos ricos, como ocorreu ao nosso STF. Talvez o presidente do nosso STF esteja pensando em sugerir à Suprema Corte dos Estados Unidos que sigam o seu exemplo, criando lá, o equivalente à Lei Banqueiro Daniel Dantas. Foi chocante assistir, pela televisão os policiais americanos algemando um ex-jogador de futebol americano e prendendo um brasileiro que sonegou imposto de renda naquele país.
Outro momento a ser comentado neste início do Sínodo Romano, é a palavra do papa encaminhando o processo de beatificação do seu antecessor Pio XII. Este papa teve um pontificado tão longo quanto o de João Paulo II. Aliás, contrariando todas as regras, Bento XV já deu início ao processo de beatificação de João Paulo II. Esses papas, os três, Pio XII, João Paulo II e Bento XVI possuem muitos atributos comuns e experiências de vida em torno dos acontecimentos conhecido como a Segunda Guerra Mundial, especialmente relacionado com o nazismo. Pio XII tem suas virtudes contestadas, por alguns, por não ter condenado energicamente o nazismo e o massacre dos judeus (essas pessoas esquecem os ciganos, os homossexuais, os comunistas, os doentes mentais, etc.). João Paulo II assistiu, em seus tempo de menino, seus colegas judeus serem levados ao campo de concentração e trabalhos forçados próximo à sua cidade. Bento XVI, como todos os seus colegas de idade, foi membro da juventude hitlerista. Neste período de crise financeira, pode ser que os amigos judeus do catolicismo retirem parte de seu apoio ao Vaticano se o papa continuar com essa idéia de fazer o Pastor Angélico, mais um participante da glória dos altares. Porém, como diz o mesmo Bento XVI, ele segue um Rei cujo reino não é desse mundo. Apesar disso, foi muito interessante uma cena, mostrada na mídia televisiva, de um grupo de trabalhadores de uma bolsa de valores em postura de oração. A religiosidade no templo de baal.
Mas se olharmos a religiosidade popular católica, encontraremos novidades interessantes nesta semana, como a presença do Núncio Apostólico celebrando missa em Juazeiro do Norte e fazendo homilia sobre os diversos graus de santidade. Quando ele mencionou o Padim Cíço, a Igreja foi tomada de júbilo. Agora o templo onde o padre Cícero Romão Batista celebrou é uma Basílica Menor, um templo especial para os muitos católicos romanos do mundo inteiro. Como se vê, abaixo da linha do Equador começam a ser vistas as santidades, não apenas as dos índios, que eram apontadas como heresia; mas uma santidade que foi apontada por quase herética no início do século XX, agora começa a ser vista como halo de santidade. Turistas - peregrinos para lugares de lazer e prazeres materiais -, já podem peregrinar em Juazeiro do Norte, detentora de uma basílica consagrada à Maria. Pode ser que a presença do Núncio Apostólico resulte em uma clara permissão ao povo para cultuar o seu santo.
Se isso vier a acontecer, ficará apenas para os historiadores as artimanhas de Dom Francisco Arcoverde contra o Patriarca do Joazeiro.
sexta-feira, outubro 03, 2008
O largo do Rosário e das Três Culturas
Estamos quase no dia de São Francisco, um dia reservado para refletir sobre os inconvenientes que praticamos sobre o meio ambiente. É só olharmos ao nosso redor e nos depararemos com resultados pouco recomendáveis e que colocam em risco a nossa existência. É certo que a vida tem um ação regenerativa surpreendente e, é essa sua capacidade que pode nos tornar menos atento à sua conservação. Como, por exemplo, os acontecimentos mexicanos de 2 de outubro de 1968, em Tlatelolco, México. Na Praça das Três Culturas, jovens acadêmicos, apontavam o distanciamento do Partido Revolucionário Institucional dos desejos do povo mexicano. Ainda hoje o governo mantém a informação de que apenas 30 pessoas morreram, mas os jornais da época falavam de mais que três centenas de jovens estudantes que foram mortos, com a utilização de tanques de guerras e outras armas pesadas. Esse acontecimento tem sido apontado como momento de inflexão da política mexicana e ele faz parte, de um momento ímpar na história dos povos de tradição ocidental, como Paris, Praga, Rio de Janeiro, Woodstock.
No século XVI, na Batalha de Lepanto ocorreu a vitória das tropas papais contra os turcos e essa vitória foi contada como uma intervenção da mãe de Jesus, auxiliando a Europa a não sucumbir ao domínio dos muçulmanos. Assim é que se presta louvores à Nossa Senhora da Vitória, a Nossa Senhora Auxiliadora, a Nossa Senhora do Rosário. Esta última invocação tornou-se muito popular no império português e, na sua Colônia americana; a tradição disseminou-se nos diversos estamentos sociais, representados em Irmandades diversas, como a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, Irmandade do Rosário dos Homens Pardos.
Nas cidades brasileiras, as criadas quando ainda os portugueses dominavam essas terras, os negros – escravos ou livres – eram incentivados a tornarem-se membros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos; os numerosos mestiços, especialmente aqueles que se dedicavam ao comércio, integravam-se nas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pardos. Tal divisão tem sua lógica: em mundo monárquico, onde o poder político está sob o controle dos homens brancos, a Rainha-Mãe sempre intercede pelos súditos junto ao seu filho rei. Ao rei, branco e dominador, a devoção a Nossa Senhora da Vitória faz mais sentido, enquanto que o lento desfiar das contas dos rosários representa melhor o árduo trabalho dos explorados trabalhadores manuais.
Pois bem, nesse início do mês do Rosário, foi inaugurada a Praça do Rosário, no bairro de Bonsucesso, em Olinda. Na ocasião foi plantado um Baobá, árvore nativa da África, de onde vieram povos que semearam gens, suor, idéias e crenças que se miscigenaram com as crenças, gens, suores e ideais de portugueses e indígenas; um Babalorixá da Nação Xambá, vindo de outro bairro, fez a sagração nos ritos religiosos de matriz africana; também foi rezada missa no interior do templo, assistida por gente da comunidade local, participante da Irmandade que vem sendo mantida desde o século XVII, hoje assumida como Patrimônio Imaterial de Olinda. Também o sacerdote católico fez a sagração do espaço. Agora a Praça está abençoada oficialmente pelos santos e sacerdotes das duas religiões que convivem, embora quando um esteja o outro já tem saído ou ainda não tenha chegado.
No local onde está a praça, foi um quartel e, segundo estudos recentes, foi alojamento do Terço dos Henriques, grupamento militar formado por negros e que tem esse nome em homenagem a Henrique Dias, um dos líderes militares da Restauração de 1654. Escavações comprovaram a existência do quartel. Pa ra que a praça exista, o quartelfoi devidamente soterrado, ficando oculto aos olhos esse pedaço da ocupação social do Largo do Rosário. Esse Largo, no século XX, tomou nova importância cultural pela inventividade popular que criou o Homem da Meia Noite, personagem que costumava abrir, à meia noite do sábado de Zé Pereira, o carnaval de Olinda, quando o carnaval era uma brincadeira de três dias. Hoje o Homem da Meia Noite é mais um espetáculo do carnaval.
O mundo social pós 1968 tornou tudo um grande espetáculo, um grande Woodstock que nos faz esquecer as Praças das Três Culturas, em Tlatelolco ou Olinda, onde se apresentam sem se tocarem, embora convivam uma a sombra da outra, as mais diversas tradições.
No século XVI, na Batalha de Lepanto ocorreu a vitória das tropas papais contra os turcos e essa vitória foi contada como uma intervenção da mãe de Jesus, auxiliando a Europa a não sucumbir ao domínio dos muçulmanos. Assim é que se presta louvores à Nossa Senhora da Vitória, a Nossa Senhora Auxiliadora, a Nossa Senhora do Rosário. Esta última invocação tornou-se muito popular no império português e, na sua Colônia americana; a tradição disseminou-se nos diversos estamentos sociais, representados em Irmandades diversas, como a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, Irmandade do Rosário dos Homens Pardos.
Nas cidades brasileiras, as criadas quando ainda os portugueses dominavam essas terras, os negros – escravos ou livres – eram incentivados a tornarem-se membros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos; os numerosos mestiços, especialmente aqueles que se dedicavam ao comércio, integravam-se nas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pardos. Tal divisão tem sua lógica: em mundo monárquico, onde o poder político está sob o controle dos homens brancos, a Rainha-Mãe sempre intercede pelos súditos junto ao seu filho rei. Ao rei, branco e dominador, a devoção a Nossa Senhora da Vitória faz mais sentido, enquanto que o lento desfiar das contas dos rosários representa melhor o árduo trabalho dos explorados trabalhadores manuais.
Pois bem, nesse início do mês do Rosário, foi inaugurada a Praça do Rosário, no bairro de Bonsucesso, em Olinda. Na ocasião foi plantado um Baobá, árvore nativa da África, de onde vieram povos que semearam gens, suor, idéias e crenças que se miscigenaram com as crenças, gens, suores e ideais de portugueses e indígenas; um Babalorixá da Nação Xambá, vindo de outro bairro, fez a sagração nos ritos religiosos de matriz africana; também foi rezada missa no interior do templo, assistida por gente da comunidade local, participante da Irmandade que vem sendo mantida desde o século XVII, hoje assumida como Patrimônio Imaterial de Olinda. Também o sacerdote católico fez a sagração do espaço. Agora a Praça está abençoada oficialmente pelos santos e sacerdotes das duas religiões que convivem, embora quando um esteja o outro já tem saído ou ainda não tenha chegado.
No local onde está a praça, foi um quartel e, segundo estudos recentes, foi alojamento do Terço dos Henriques, grupamento militar formado por negros e que tem esse nome em homenagem a Henrique Dias, um dos líderes militares da Restauração de 1654. Escavações comprovaram a existência do quartel. Pa ra que a praça exista, o quartelfoi devidamente soterrado, ficando oculto aos olhos esse pedaço da ocupação social do Largo do Rosário. Esse Largo, no século XX, tomou nova importância cultural pela inventividade popular que criou o Homem da Meia Noite, personagem que costumava abrir, à meia noite do sábado de Zé Pereira, o carnaval de Olinda, quando o carnaval era uma brincadeira de três dias. Hoje o Homem da Meia Noite é mais um espetáculo do carnaval.
O mundo social pós 1968 tornou tudo um grande espetáculo, um grande Woodstock que nos faz esquecer as Praças das Três Culturas, em Tlatelolco ou Olinda, onde se apresentam sem se tocarem, embora convivam uma a sombra da outra, as mais diversas tradições.
quarta-feira, outubro 01, 2008
Um sucesso e dois fracassos - Lula: presente certo e futuro incerto para o Brasil
Li essa entrevista no BBC Brasil e creio que vale a pena a gente conhecer e saber o que está sendo analisado.
Para biógrafo inglês, Lula avançou economia, mas fracassa na educação
Pablo Uchoa
Da BBC Brasil em Londres
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva, "um dos presidentes mais significativos" da história do Brasil no século 20, caminha também para ser "um fracasso na educação", na opinião do pesquisador britânico Richard Bourne, autor de um livro sobre Lula.
Lula of Brazil (Zed Books, Londres e Nova York), biografia política do ex-metalúrgico eleito e reeleito presidente, compila para o leitor do inglês os avanços e dificuldades do atual governo. O lançamento da obra, nesta terça-feira em Londres, vem a tempo de jogar uma luz sobre as razões que levam a popularidade de Lula a níveis recordes de 80%.
"Lula domina completamente a cena política no país. Ricos e pobres acham que Lula é uma pessoa que cuida do país", avalia Bourne, ex-jornalista do The Guardian, hoje pesquisador sênior do Institute of Commonwealth Studies, em Londres.
Bourne não esconde a simpatia que sempre nutriu por Lula desde que o ex-metalúrgico se destacou no sindicalismo nos anos 1980 – ou, a rigor, não esconde a simpatia pelo Brasil. Diz que "deixou seu coração" no país quando desembarcou pela primeira vez no Rio, em 1965. É autor de um livro sobre Getúlio Vargas e outros sobre líderes latino-americanos.
Nesta entrevista à BBC Brasil, o pesquisador faz uma avaliação dos altos e baixos do governo. Sublinha avanços no combate à pobreza e na política externa. Mas não deixa de criticar com severidade o que chama de "fracassos" no impulso à educação e em relação à esperança de fundar no Brasil "um tipo mais ético de política".
BBC Brasil - Seu livro vem em um momento em que a popularidade do presidente bate recorde e alcança 80%. Como explicar esse fenômeno?
Richard Bourne - Lula domina completamente a cena política no Brasil. Em parte, porque está no poder há muito tempo, em parte pelo que fez, em parte pelas suas características tão humanas. As pessoas se sentem muito seguras com Lula. Ricos e pobres acham que Lula é uma pessoa que cuida do país. Mas até por isso seu legado político será complicado...
BBC Brasil - Seria minha próxima pergunta…
Bourne - Lula sempre foi mais popular do que o PT. E muitas vezes ele até se mostrou muito impiedoso com o PT. Isso significa que não podemos pressupor que um petista o suceda. De certa forma, chegar à Presidência se tornou uma grande conquista pessoal de Lula, e é difícil que haja outro Lula. Felizmente, ele não deu ouvidos às pessoas que queriam convencê-lo a mudar a Constituição para poder se candidatar para um terceiro mandato. Isso seria um desastre para o Brasil.
BBC Brasil - Ampliando a questão do legado. O senhor é um estudioso de Vargas. Podemos comparar o legado de Lula e Vargas, os dois "pais dos pobres"?
Bourne - A comparação de que Lula e Vargas são pais dos pobres é adequada. Vargas criou os arranjos de seguridade social e era apoiado por movimentos operários. Mas esses movimentos eram apoiados pelo Estado. Já Lula fez muito mais pelos pobres que não estão na economia formal, ao introduzir o Bolsa Família e prover o recurso a 12 milhões de famílias só até o fim do 1º mandato. Acho que fez tanto como pai dos pobres quanto Getúlio.
BBC Brasil - O senhor diz que o Bolsa Família é um avanço na questão da pobreza, mas o programa tem ajudado em relação à educação?
Bourne - Acho que a educação é um dos grandes fracassos de Lula. Acho que ele perdeu o primeiro mandato ao não fazer nada pela educação pública no Brasil, algo que qualquer pessoa, qualquer observador internacional, qualquer brasileiro informado no Brasil enxerga como uma das maiores fraquezas do país.
Lula durante segunda campanha contra FHC, em 1993
Talvez porque ele mesmo tenha conseguido chegar ao topo sem educação formal ou porque se cansou de pessoas sabidas dizendo a ele que ele deveria ter se formado – não sei – mas parece que ele, pessoalmente, nunca considerou a educação tão importante para o seu país como deveria.
Esse é um grande contraste com outros líderes, como Nelson Mandela, da África do Sul, que estudou na prisão e obteve seu diploma na prisão, e mesmo Robert Mugabe, do Zimbábue, que privilegiou a educação quando chegou ao poder nos anos 1980. Acho que a questão da educação é um fracasso pessoal de Lula, e é bem difícil compensar isso.
BBC Brasil - Mas se há pouco investimento em algo tão estratégico no longo prazo, como a educação, o que resta?
Bourne - No seu segundo mandato, Lula tentou incluir seu pacote de crescimento, o que eu acho que funcionou, além de conseguir se beneficiar da expansão econômica. Há alguns avanços na parta da educação cultural. Houve um aumento no número de universidades, há bons avanços feitos na parte cultural pelo ex-ministro Gilberto Gil nas favelas. É uma tentativa de elevar um pouco o nível de alfabetismo. Mas, como disse, acho que a educação pública foi um certo fracasso ao não ser considerada como devia.
BBC Brasil - O senhor dedica um capítulo aos escândalos de corrupção. Como avalia esse quesito?
Bourne - A situação ética e política é uma parte ruim do legado de Lula. Simplesmente deu errado muito cedo, por conta do pacto com o demônio que ele fez logo no início da sua quarta tentativa para chegar à Presidência. Acho que Lula simplesmente se cansou de perder. E acho que isso foi uma traição do espírito que animou a fundação do PT no início dos anos 1980. Porque em qualquer grupo no qual você se incluísse no PT, fosse radical, marxista, moderado, a única coisa do qual estava totalmente certo era de que era preciso um tipo de política mais ético no Brasil. E nisso ele fracassou.
BBC Brasil - Há algo que se possa fazer em relação a isso?
Bourne - Sim, há uma série de coisas que podem e precisam ser feitas. Muito mais esforço deve ser dirigido à eleição dos políticos. Há bons políticos, nem todos do mesmo partido, nem todos de esquerda. E uma coisa é certa: a sociedade civil, ONGs, o terceiro setor, todos aqueles setores pressionando por transparência precisam ser reforçados. Obviamente, a imprensa e a mídia em geral têm um tremendo papel nisso. Eles fizeram um bom trabalho durante o mensalão. Esta vigilância é muito importante.
BBC Brasil - Mas o senhor crê que é possível reverter a sensação de que todos os políticos...
Bourne - ...são bandidos e que a política é um negócio? Acho que isso é bem difícil, e digo por quê. O Brasil é um país muito grande e relativamente desorganizado. Um pouco como os Estados Unidos, onde política também pode se confundir com negócio. Você nunca consegue se livrar disso totalmente, mas acho que pode reduzir o mal. Mesmo assim, se olhar a história brasileira, vai ver que há diversos políticos honestos desde os primórdios, desde o século 19. Não gosto da idéia de simplesmente desistir do Brasil em relação a isso.
BBC Brasil - O senhor mencionou a relação da imprensa com o governo. Esta relação não é antagonista? Se sim, é visível?
Bourne - Acho que sim, é visível. Sempre houve uma hostilidade nesses interesses travestidos dos ricos por parte da imprensa. De certa forma, era uma questão de poder. Eles não queriam ter seus privilégios ou opiniões questionados. Mas acho que agora há algo diferente. Imagino que os jornalistas estão apenas cansados de Lula. O mesmo tipo de atitude que existe aqui em relação ao Gordon Brown. De certa forma, é natural e até bom. Eu sou um ex-jornalista, sei que é preciso algum grau de cinismo e ceticismo entre os jornalistas em relação a políticos.
BBC Brasil - O senhor diz no seu livro que a política externa do Brasil reflete os ideais iniciais do PT, e que a política econômica é a maior traição desses ideais. Pode explicar?
Bourne - Talvez a política econômica do PT tenha sido irrealista quando ele foi eleito. Voltar a uma era de controle estatal quase total das instituições é insustentável em um mundo globalizado. Já a política externa foi bem fundamentada.
Algo que não foi bem sucedido foi a tentativa de se tornar o líder dos latino-americanos – acho que foi mal pensado. O Brasil é muito grande e ameaçador aos olhos dos outros países, e apenas se o Brasil estiver trabalhando claramente nos interesses deles, eles vão concordar em ser representados pelo Brasil. Lideres nacionalistas como Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales quase inevitavelmente se viraram contra empresas brasileiras, como Odebrecht e a Petrobras.
De certa forma, o Brasil está pagando o preço de se tornar uma economia capitalista relativamente bem sucedida. E isso é um pouco duro para Lula, porque ele é um representante da esquerda, e de repente os interesses nacionais do Brasil e os interesses dos governos de esquerda entraram em colisão.
Mas há que fazer uma distinção entre a abordagem hispânica e brasileira. A do Brasil sempre foi a de acomodação, mesmo quando mudanças drásticas de rumo estavam ocorrendo. Enquanto no mundo hispano-americano, você atira e resolve o problema. Veja Pinochet no Chile, veja a Argentina. São duas culturas políticas muito diferentes. Para mim, para minha visão, o Brasil é um lugar muito mais civilizado.
Para biógrafo inglês, Lula avançou economia, mas fracassa na educação
Pablo Uchoa
Da BBC Brasil em Londres
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva, "um dos presidentes mais significativos" da história do Brasil no século 20, caminha também para ser "um fracasso na educação", na opinião do pesquisador britânico Richard Bourne, autor de um livro sobre Lula.
Lula of Brazil (Zed Books, Londres e Nova York), biografia política do ex-metalúrgico eleito e reeleito presidente, compila para o leitor do inglês os avanços e dificuldades do atual governo. O lançamento da obra, nesta terça-feira em Londres, vem a tempo de jogar uma luz sobre as razões que levam a popularidade de Lula a níveis recordes de 80%.
"Lula domina completamente a cena política no país. Ricos e pobres acham que Lula é uma pessoa que cuida do país", avalia Bourne, ex-jornalista do The Guardian, hoje pesquisador sênior do Institute of Commonwealth Studies, em Londres.
Bourne não esconde a simpatia que sempre nutriu por Lula desde que o ex-metalúrgico se destacou no sindicalismo nos anos 1980 – ou, a rigor, não esconde a simpatia pelo Brasil. Diz que "deixou seu coração" no país quando desembarcou pela primeira vez no Rio, em 1965. É autor de um livro sobre Getúlio Vargas e outros sobre líderes latino-americanos.
Nesta entrevista à BBC Brasil, o pesquisador faz uma avaliação dos altos e baixos do governo. Sublinha avanços no combate à pobreza e na política externa. Mas não deixa de criticar com severidade o que chama de "fracassos" no impulso à educação e em relação à esperança de fundar no Brasil "um tipo mais ético de política".
BBC Brasil - Seu livro vem em um momento em que a popularidade do presidente bate recorde e alcança 80%. Como explicar esse fenômeno?
Richard Bourne - Lula domina completamente a cena política no Brasil. Em parte, porque está no poder há muito tempo, em parte pelo que fez, em parte pelas suas características tão humanas. As pessoas se sentem muito seguras com Lula. Ricos e pobres acham que Lula é uma pessoa que cuida do país. Mas até por isso seu legado político será complicado...
BBC Brasil - Seria minha próxima pergunta…
Bourne - Lula sempre foi mais popular do que o PT. E muitas vezes ele até se mostrou muito impiedoso com o PT. Isso significa que não podemos pressupor que um petista o suceda. De certa forma, chegar à Presidência se tornou uma grande conquista pessoal de Lula, e é difícil que haja outro Lula. Felizmente, ele não deu ouvidos às pessoas que queriam convencê-lo a mudar a Constituição para poder se candidatar para um terceiro mandato. Isso seria um desastre para o Brasil.
BBC Brasil - Ampliando a questão do legado. O senhor é um estudioso de Vargas. Podemos comparar o legado de Lula e Vargas, os dois "pais dos pobres"?
Bourne - A comparação de que Lula e Vargas são pais dos pobres é adequada. Vargas criou os arranjos de seguridade social e era apoiado por movimentos operários. Mas esses movimentos eram apoiados pelo Estado. Já Lula fez muito mais pelos pobres que não estão na economia formal, ao introduzir o Bolsa Família e prover o recurso a 12 milhões de famílias só até o fim do 1º mandato. Acho que fez tanto como pai dos pobres quanto Getúlio.
BBC Brasil - O senhor diz que o Bolsa Família é um avanço na questão da pobreza, mas o programa tem ajudado em relação à educação?
Bourne - Acho que a educação é um dos grandes fracassos de Lula. Acho que ele perdeu o primeiro mandato ao não fazer nada pela educação pública no Brasil, algo que qualquer pessoa, qualquer observador internacional, qualquer brasileiro informado no Brasil enxerga como uma das maiores fraquezas do país.
Lula durante segunda campanha contra FHC, em 1993
Talvez porque ele mesmo tenha conseguido chegar ao topo sem educação formal ou porque se cansou de pessoas sabidas dizendo a ele que ele deveria ter se formado – não sei – mas parece que ele, pessoalmente, nunca considerou a educação tão importante para o seu país como deveria.
Esse é um grande contraste com outros líderes, como Nelson Mandela, da África do Sul, que estudou na prisão e obteve seu diploma na prisão, e mesmo Robert Mugabe, do Zimbábue, que privilegiou a educação quando chegou ao poder nos anos 1980. Acho que a questão da educação é um fracasso pessoal de Lula, e é bem difícil compensar isso.
BBC Brasil - Mas se há pouco investimento em algo tão estratégico no longo prazo, como a educação, o que resta?
Bourne - No seu segundo mandato, Lula tentou incluir seu pacote de crescimento, o que eu acho que funcionou, além de conseguir se beneficiar da expansão econômica. Há alguns avanços na parta da educação cultural. Houve um aumento no número de universidades, há bons avanços feitos na parte cultural pelo ex-ministro Gilberto Gil nas favelas. É uma tentativa de elevar um pouco o nível de alfabetismo. Mas, como disse, acho que a educação pública foi um certo fracasso ao não ser considerada como devia.
BBC Brasil - O senhor dedica um capítulo aos escândalos de corrupção. Como avalia esse quesito?
Bourne - A situação ética e política é uma parte ruim do legado de Lula. Simplesmente deu errado muito cedo, por conta do pacto com o demônio que ele fez logo no início da sua quarta tentativa para chegar à Presidência. Acho que Lula simplesmente se cansou de perder. E acho que isso foi uma traição do espírito que animou a fundação do PT no início dos anos 1980. Porque em qualquer grupo no qual você se incluísse no PT, fosse radical, marxista, moderado, a única coisa do qual estava totalmente certo era de que era preciso um tipo de política mais ético no Brasil. E nisso ele fracassou.
BBC Brasil - Há algo que se possa fazer em relação a isso?
Bourne - Sim, há uma série de coisas que podem e precisam ser feitas. Muito mais esforço deve ser dirigido à eleição dos políticos. Há bons políticos, nem todos do mesmo partido, nem todos de esquerda. E uma coisa é certa: a sociedade civil, ONGs, o terceiro setor, todos aqueles setores pressionando por transparência precisam ser reforçados. Obviamente, a imprensa e a mídia em geral têm um tremendo papel nisso. Eles fizeram um bom trabalho durante o mensalão. Esta vigilância é muito importante.
BBC Brasil - Mas o senhor crê que é possível reverter a sensação de que todos os políticos...
Bourne - ...são bandidos e que a política é um negócio? Acho que isso é bem difícil, e digo por quê. O Brasil é um país muito grande e relativamente desorganizado. Um pouco como os Estados Unidos, onde política também pode se confundir com negócio. Você nunca consegue se livrar disso totalmente, mas acho que pode reduzir o mal. Mesmo assim, se olhar a história brasileira, vai ver que há diversos políticos honestos desde os primórdios, desde o século 19. Não gosto da idéia de simplesmente desistir do Brasil em relação a isso.
BBC Brasil - O senhor mencionou a relação da imprensa com o governo. Esta relação não é antagonista? Se sim, é visível?
Bourne - Acho que sim, é visível. Sempre houve uma hostilidade nesses interesses travestidos dos ricos por parte da imprensa. De certa forma, era uma questão de poder. Eles não queriam ter seus privilégios ou opiniões questionados. Mas acho que agora há algo diferente. Imagino que os jornalistas estão apenas cansados de Lula. O mesmo tipo de atitude que existe aqui em relação ao Gordon Brown. De certa forma, é natural e até bom. Eu sou um ex-jornalista, sei que é preciso algum grau de cinismo e ceticismo entre os jornalistas em relação a políticos.
BBC Brasil - O senhor diz no seu livro que a política externa do Brasil reflete os ideais iniciais do PT, e que a política econômica é a maior traição desses ideais. Pode explicar?
Bourne - Talvez a política econômica do PT tenha sido irrealista quando ele foi eleito. Voltar a uma era de controle estatal quase total das instituições é insustentável em um mundo globalizado. Já a política externa foi bem fundamentada.
Algo que não foi bem sucedido foi a tentativa de se tornar o líder dos latino-americanos – acho que foi mal pensado. O Brasil é muito grande e ameaçador aos olhos dos outros países, e apenas se o Brasil estiver trabalhando claramente nos interesses deles, eles vão concordar em ser representados pelo Brasil. Lideres nacionalistas como Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales quase inevitavelmente se viraram contra empresas brasileiras, como Odebrecht e a Petrobras.
De certa forma, o Brasil está pagando o preço de se tornar uma economia capitalista relativamente bem sucedida. E isso é um pouco duro para Lula, porque ele é um representante da esquerda, e de repente os interesses nacionais do Brasil e os interesses dos governos de esquerda entraram em colisão.
Mas há que fazer uma distinção entre a abordagem hispânica e brasileira. A do Brasil sempre foi a de acomodação, mesmo quando mudanças drásticas de rumo estavam ocorrendo. Enquanto no mundo hispano-americano, você atira e resolve o problema. Veja Pinochet no Chile, veja a Argentina. São duas culturas políticas muito diferentes. Para mim, para minha visão, o Brasil é um lugar muito mais civilizado.
sábado, setembro 27, 2008
Óbulo da viúva indeniza príncipes
Meus heróis morreram de overdose
Construída em uma poesia em que canta o seu retorno ao Brasil e celebra a Assembléia Nacional Constituinte, nesta frase Cazuza diz suas perplexidade em ver que pessoas de sua admiração estavam se acomodando no muro, nos centros e nos esquecimentos dos compromissos tomados nos dias de luta. “Meus heróis morreram de overdose”, uma overdose da materialidade que desmantelava, que dissolvolvia os ideais. O projeto que se havia proposto realizar estava sendo mercadejado, trocado por algumas moedas ou espaços por onde caminham os sons que alcançam nossos rádios e televisores. Foi muito difícil aceitar que os ideais fossem sendo transformados em mercadoria, como sói acontecer com tantos valores que se liquidificam diante nossos olhos. Tão difícil foi, que partido houve que expulsou alguns dos seus fundadores por terem eles aceitado assinar a carta constitucional. Mas o poder de corroer, de corromper que o tempo e o dinheiro possuem é quase sem medida, ou incomensurável, para citar uma palavra bem ao gosto de um que se elegeu "sem ódio e sem medo".
Entretanto, um filósofo antigo, fora de moda, escreveu que tudo que é sólido desmancha no ar. São frase que aprendemos, muitos repetem e nem mesmo se dão conta do significado, ainda que passem a maior parte dos seus dias repetindo-as, como as jaculatórias monásticas.
Mas tem outras frases como “onde está teu tesouro aí estará o teu coração”. Esta é uma dessas que aprendemos na infância e nem mesmo sabemos quem nos disse primeiro, se algum parente mais antigo – avó, avô, pai, mãe, tio, tia – ou o orientador espiritual da família, um padre ou pastor. Como disse e ensina Eduardo Hoornaert, o processo de evangelização na parte americana do Império Português, com poucos padres, foi feito mesmo pelos leigos, ou seja, avô, avó, mãe, pai, tia, tio, fossem eles escravos ou fossem eles senhores. Contavam essa frase que ouviram de algum padre que lera a Bíblia, e queria nos ensinar que o coração do justo procura sempre a Deus e o coração do idolatra está sempre próximo a alguma botija, banco, ou o que sirva para guardar ouro, dependendo do tempo histórico. Quase sempre, essa lição vinha acompanhada de uma outra frase: que se deve "buscar as riquezas que a cobiça e a ferrugem não corrompem". E as frase vinham acompanhadas de exemplos de homens, mulheres, jovens e até crianças que morriam por amor de Deus e não buscavam recompensa nem compensação nesta terra. Os que fazem o que fazem por amor de Deus já carregam consigo a recompensa. Assim, eu e muitos outros aprendemos e dar mais valor àquilo que não há dinheiro que pague, coisas como honra, ideal e outras quizilas que aprendemos a amar. Aliás, essa é outra frase que os pobres repetem muito – "não há dinheiro que pague" – quando comentam suas perdas espirituais. Imateriais, se diz hoje.
No século IV, em meio a tanta perseguição no Império Romano, com tantos relapsos que cederam aos encantos de baal e deixaram, parte de seus corações, próximo a algum posto no sistema, os concílios admitiram que se todos morressem por amor ao ideal não haveria como continuar o ideal. Pensamento pragmático. Como dizia o título de um filme americano estrelado por Rock Hudson, Elizabeth Taylor e James Dean – ultima participação de James Dean – Assim Caminha a humanidade.
Trocar os ideais por trinta moedas: assim fez Judas, ensinaram-nos os padres, ao sentir-se traído em seus projetos. Disseram que Judas não entendeu o que é a economia da salvação, essa sotereologia que nos garante a parusia, embora estivesse a serviço dela e dela fizesse parte. Se Judas era um caso perdido, por outro lado sempre existiram os Estevãos, as Cecílias, as Catarinas, os Franciscos, os Antonios Conselheiros. Esses depositaram suas graças no grande banco das indulgências.
Mas estamos em outros tempos e podemos, não perguntar, mas talvez sofismar, também. A questão é: Agora, depois que se lutou tanto, por amor ao povo e por a Deus, como dizia o Frei Tito, torturado até à morte, temos o direito de ficarmos surpresos com uma ação perpetrada contra o Estado brasileiro por um eminente Príncipe da Igreja, em busca de indenização por caausa de seus sofrimentos em celas da ditadura da ditadura militar. Estará ele trocando a glória de ser "confessor da fé" “por um punhado de dólares”?
Penso que essa se deve à senilidade desse homem que sempre esteve com o coração para o alto, como o seu nariz; talvez se deva a algum parente que deseje receber algo do povo. Não creio que essa excelência eclesiástica tenha esquecido que o Estado não existe por si e que a indenização será tirada dos impostos, pagos pelo povo que ele pretendeu tirar da exploração do faraó e levá-lo à Terra Prometida. Que os fariseus assim façam, que os fariseus esqueçam que o povo não os chamou para lutar por ele; o povo não organizou exércitos. Na verdade, em grande parte, o povo foi convocado pelos generais que hoje recebem estipêndios tirados dos cofre públicos, a gente pode até entender, mas se é para se comportar como os fariseus, qual é o sentido de tantas palavras e tantas alabações ao Deus dos Pobres?
Se se lutava contra os que explorava o povo de Javé, qual uma solitária no organismo da sociedade, a produção dos povos, como se pedir, agora, pedaços do óbulo da viúva?
É Overdose!
Construída em uma poesia em que canta o seu retorno ao Brasil e celebra a Assembléia Nacional Constituinte, nesta frase Cazuza diz suas perplexidade em ver que pessoas de sua admiração estavam se acomodando no muro, nos centros e nos esquecimentos dos compromissos tomados nos dias de luta. “Meus heróis morreram de overdose”, uma overdose da materialidade que desmantelava, que dissolvolvia os ideais. O projeto que se havia proposto realizar estava sendo mercadejado, trocado por algumas moedas ou espaços por onde caminham os sons que alcançam nossos rádios e televisores. Foi muito difícil aceitar que os ideais fossem sendo transformados em mercadoria, como sói acontecer com tantos valores que se liquidificam diante nossos olhos. Tão difícil foi, que partido houve que expulsou alguns dos seus fundadores por terem eles aceitado assinar a carta constitucional. Mas o poder de corroer, de corromper que o tempo e o dinheiro possuem é quase sem medida, ou incomensurável, para citar uma palavra bem ao gosto de um que se elegeu "sem ódio e sem medo".
Entretanto, um filósofo antigo, fora de moda, escreveu que tudo que é sólido desmancha no ar. São frase que aprendemos, muitos repetem e nem mesmo se dão conta do significado, ainda que passem a maior parte dos seus dias repetindo-as, como as jaculatórias monásticas.
Mas tem outras frases como “onde está teu tesouro aí estará o teu coração”. Esta é uma dessas que aprendemos na infância e nem mesmo sabemos quem nos disse primeiro, se algum parente mais antigo – avó, avô, pai, mãe, tio, tia – ou o orientador espiritual da família, um padre ou pastor. Como disse e ensina Eduardo Hoornaert, o processo de evangelização na parte americana do Império Português, com poucos padres, foi feito mesmo pelos leigos, ou seja, avô, avó, mãe, pai, tia, tio, fossem eles escravos ou fossem eles senhores. Contavam essa frase que ouviram de algum padre que lera a Bíblia, e queria nos ensinar que o coração do justo procura sempre a Deus e o coração do idolatra está sempre próximo a alguma botija, banco, ou o que sirva para guardar ouro, dependendo do tempo histórico. Quase sempre, essa lição vinha acompanhada de uma outra frase: que se deve "buscar as riquezas que a cobiça e a ferrugem não corrompem". E as frase vinham acompanhadas de exemplos de homens, mulheres, jovens e até crianças que morriam por amor de Deus e não buscavam recompensa nem compensação nesta terra. Os que fazem o que fazem por amor de Deus já carregam consigo a recompensa. Assim, eu e muitos outros aprendemos e dar mais valor àquilo que não há dinheiro que pague, coisas como honra, ideal e outras quizilas que aprendemos a amar. Aliás, essa é outra frase que os pobres repetem muito – "não há dinheiro que pague" – quando comentam suas perdas espirituais. Imateriais, se diz hoje.
No século IV, em meio a tanta perseguição no Império Romano, com tantos relapsos que cederam aos encantos de baal e deixaram, parte de seus corações, próximo a algum posto no sistema, os concílios admitiram que se todos morressem por amor ao ideal não haveria como continuar o ideal. Pensamento pragmático. Como dizia o título de um filme americano estrelado por Rock Hudson, Elizabeth Taylor e James Dean – ultima participação de James Dean – Assim Caminha a humanidade.
Trocar os ideais por trinta moedas: assim fez Judas, ensinaram-nos os padres, ao sentir-se traído em seus projetos. Disseram que Judas não entendeu o que é a economia da salvação, essa sotereologia que nos garante a parusia, embora estivesse a serviço dela e dela fizesse parte. Se Judas era um caso perdido, por outro lado sempre existiram os Estevãos, as Cecílias, as Catarinas, os Franciscos, os Antonios Conselheiros. Esses depositaram suas graças no grande banco das indulgências.
Mas estamos em outros tempos e podemos, não perguntar, mas talvez sofismar, também. A questão é: Agora, depois que se lutou tanto, por amor ao povo e por a Deus, como dizia o Frei Tito, torturado até à morte, temos o direito de ficarmos surpresos com uma ação perpetrada contra o Estado brasileiro por um eminente Príncipe da Igreja, em busca de indenização por caausa de seus sofrimentos em celas da ditadura da ditadura militar. Estará ele trocando a glória de ser "confessor da fé" “por um punhado de dólares”?
Penso que essa se deve à senilidade desse homem que sempre esteve com o coração para o alto, como o seu nariz; talvez se deva a algum parente que deseje receber algo do povo. Não creio que essa excelência eclesiástica tenha esquecido que o Estado não existe por si e que a indenização será tirada dos impostos, pagos pelo povo que ele pretendeu tirar da exploração do faraó e levá-lo à Terra Prometida. Que os fariseus assim façam, que os fariseus esqueçam que o povo não os chamou para lutar por ele; o povo não organizou exércitos. Na verdade, em grande parte, o povo foi convocado pelos generais que hoje recebem estipêndios tirados dos cofre públicos, a gente pode até entender, mas se é para se comportar como os fariseus, qual é o sentido de tantas palavras e tantas alabações ao Deus dos Pobres?
Se se lutava contra os que explorava o povo de Javé, qual uma solitária no organismo da sociedade, a produção dos povos, como se pedir, agora, pedaços do óbulo da viúva?
É Overdose!
quinta-feira, setembro 25, 2008
Corrupção: banqueiro solto no Brasil e dinheiro preso na Inglaterra
A cada dia temos a oportunidade de ver as mais possíveis e estranhas realidades. Uma das mais recentes é que um grupo de pessoas e instituições, preocupado com o possível desaparecimento do livro por conta da internet, resolveu produzir um livro que custa 265 mil reais. Foi uma pequena tiragem de 33 exemplares, todos já totalmente vendida. O livro tem como tema a obra de Miguel Ângelo; um volume pesa apenas 24 quilos e sua confecção durou seis meses. é uma obra artesanal. Estão previstas edições de outras preciosidades que terão 99 exemplares. Assim alguém guardará a memória. Além de, como se imagina, vai aumentar o interesse por livros. Li na BBC.
Também na BBC li, e em outros lugares, que o Brasil continua entre os melhores países do mundo para corruptos e corruptores. É uma posição que se mantém nesse nível, nota 3,5. Atenção: quanto mais leniente com a currupçõa mais próximo de zero. Em 2001, neste mesmo painel, a nota do Brasil era 4,0. Baixamos um pouco, nos tornamos mais tolerantes com os corruptos nos últimos sete anos; Talvez, com mais alguns aloprados, alguns mensalões, alguns outros "caixa dois" (todo mundo em uma, disse uma autoridade para justificar o seu caixa dois partidário), um pequeno aumento de morosidade no judiciário, manutenção de fórum privilegiado e outras regalias ao pessoal do primeiro andar, não demora muito e a gente alcança a nota zero. "Os altos e persistentes níveis de corrupção e pobreza que assolam muitas das sociedades mundiais são o equivalente a um desastre humanitário e não podem ser tolerados".
Por outro lado, dos doze meses que trabalhamos por ano, ainda estamos pagando apenas 5 meses e alguns dias como imposto; ao mesmo tempo não nos é permitido receber bons serviços de saúde, educação e segurança. Nossos bairros cada vez parecem grandes corredores, com muros cada vez mais altos escondendo os jardins e as pessoas. Há solidões andando nas ruas dos bairros residenciais e solidões temerosas de saírem e andarem nas ruas. Criam leis para criminalizar pessoas que, na volta do trabalho param em algum bar por uma dose, enquanto não existe policiamento sério após as 16 horas. Após as 22 horas a responsabilidade é do atrevido que sai às ruas. Nossas escolas continuam a ser de tempo parcial, inclusive por que não há o que fazer fora das salas e dentro dos muros dos colégios, onde mal se consegue andar. Mas a aprovação é quase compulsória nas escolas. Quem sabe algum dia os secretários de educação irão perceber que educação é mais que carteiras, quadros, pincéis, professores! Sem áreas de lazer para a prática de esportes – simplesmente correr e gritar, já seria interessante para descarregar a agressividade dos jovens; necessitamos de teatros para que os jovens apresentem as sua criatividades várias, etc. Claro que não adianta apenas ter professores ou pagar um pouco melhor aos professores. Precisamos de professores motivados e com projetos de vida. Enquanto se mantiver essa política que envia para a sala de aulas pessoas sem outra motivação exceto o salário, vai ser difícil. Mas para que tenhamos professores com projetos capazes de motivar os seus alunos é necessário que vejamos uma mudança de postura nas autoridades e assistamos a penalização dos culpados.
Chega de passar a mãos em corruptos, chega de buscar um jeitinho para garantir a permanência dos amigos em postos quando eles estão sob suspeição. Aquele reitor da universidade de Brasília deveria ter se afastado do posto logo no dia em que foi feita a acusação para que a investigação não fosse comprometida. O mesmo deveriam ter feitos alguns ministros que assumiram parte da direção do país depois de 2001. Essas pessoas agarram-se aos cargos sob a complacência dos seus chefes. Deram exemplos ruins enquanto o seu chefe dizia que todos eram inocentes e dançavam e comiam pizza. Um escárnio e um exemplo, péssimo, para a sociedade.
Não adianta reclamar do resultado dos exames, deve-se mudar o comportamento.
Ah! li também que um juiz inglês mandou bloquear alguns milhões do banqueiro brasileiro Daniel Dantas, aquele mesmo que recebeu dois habeas corpus em uma semana - o que pode ser apresenttado como prova da não morosidade da justiça no Brasil - Pergunto-me se os advogados de Daniel Dantas terão, na Inglaterra, a mesma facilidade para defender os interesses do banqueiro de comportamento desviante.
Lá eles também têm corrupção, mas tenta, seriamente evitar que corruptos zombem dos honestos com tanta facilidade.
Também na BBC li, e em outros lugares, que o Brasil continua entre os melhores países do mundo para corruptos e corruptores. É uma posição que se mantém nesse nível, nota 3,5. Atenção: quanto mais leniente com a currupçõa mais próximo de zero. Em 2001, neste mesmo painel, a nota do Brasil era 4,0. Baixamos um pouco, nos tornamos mais tolerantes com os corruptos nos últimos sete anos; Talvez, com mais alguns aloprados, alguns mensalões, alguns outros "caixa dois" (todo mundo em uma, disse uma autoridade para justificar o seu caixa dois partidário), um pequeno aumento de morosidade no judiciário, manutenção de fórum privilegiado e outras regalias ao pessoal do primeiro andar, não demora muito e a gente alcança a nota zero. "Os altos e persistentes níveis de corrupção e pobreza que assolam muitas das sociedades mundiais são o equivalente a um desastre humanitário e não podem ser tolerados".
Por outro lado, dos doze meses que trabalhamos por ano, ainda estamos pagando apenas 5 meses e alguns dias como imposto; ao mesmo tempo não nos é permitido receber bons serviços de saúde, educação e segurança. Nossos bairros cada vez parecem grandes corredores, com muros cada vez mais altos escondendo os jardins e as pessoas. Há solidões andando nas ruas dos bairros residenciais e solidões temerosas de saírem e andarem nas ruas. Criam leis para criminalizar pessoas que, na volta do trabalho param em algum bar por uma dose, enquanto não existe policiamento sério após as 16 horas. Após as 22 horas a responsabilidade é do atrevido que sai às ruas. Nossas escolas continuam a ser de tempo parcial, inclusive por que não há o que fazer fora das salas e dentro dos muros dos colégios, onde mal se consegue andar. Mas a aprovação é quase compulsória nas escolas. Quem sabe algum dia os secretários de educação irão perceber que educação é mais que carteiras, quadros, pincéis, professores! Sem áreas de lazer para a prática de esportes – simplesmente correr e gritar, já seria interessante para descarregar a agressividade dos jovens; necessitamos de teatros para que os jovens apresentem as sua criatividades várias, etc. Claro que não adianta apenas ter professores ou pagar um pouco melhor aos professores. Precisamos de professores motivados e com projetos de vida. Enquanto se mantiver essa política que envia para a sala de aulas pessoas sem outra motivação exceto o salário, vai ser difícil. Mas para que tenhamos professores com projetos capazes de motivar os seus alunos é necessário que vejamos uma mudança de postura nas autoridades e assistamos a penalização dos culpados.
Chega de passar a mãos em corruptos, chega de buscar um jeitinho para garantir a permanência dos amigos em postos quando eles estão sob suspeição. Aquele reitor da universidade de Brasília deveria ter se afastado do posto logo no dia em que foi feita a acusação para que a investigação não fosse comprometida. O mesmo deveriam ter feitos alguns ministros que assumiram parte da direção do país depois de 2001. Essas pessoas agarram-se aos cargos sob a complacência dos seus chefes. Deram exemplos ruins enquanto o seu chefe dizia que todos eram inocentes e dançavam e comiam pizza. Um escárnio e um exemplo, péssimo, para a sociedade.
Não adianta reclamar do resultado dos exames, deve-se mudar o comportamento.
Ah! li também que um juiz inglês mandou bloquear alguns milhões do banqueiro brasileiro Daniel Dantas, aquele mesmo que recebeu dois habeas corpus em uma semana - o que pode ser apresenttado como prova da não morosidade da justiça no Brasil - Pergunto-me se os advogados de Daniel Dantas terão, na Inglaterra, a mesma facilidade para defender os interesses do banqueiro de comportamento desviante.
Lá eles também têm corrupção, mas tenta, seriamente evitar que corruptos zombem dos honestos com tanta facilidade.
terça-feira, setembro 23, 2008
Esperanças no Recife
Embora já tenha escrito nesta manhã, depois de ter lido o Diário de Pernambuco e ter tido a alegria de ler o que escreveu Michele Assumpção, não me contenho em expressar a meus sentimentos. Vi que foi uma série de reportagens produzida pela equipe sobre como a periferia da cidade do Recife mantém e organiza a vida. Sem apelações, o texto de Michele apresenta um retrato que poucos entendem e, nem mesmo sabem que existe.
No mesmo jornal deste dia 23 de setembro, tem uma pequena nota em que o atual Deputado e candidato a vice-prefeito de Olinda, diz horrorizado que, nesses dias de campanha por votos, visitando áreas pobres, viu que meninos estavam caçando animais para a alimentação. Creio que horror do candidato nem mesmo lembrou ou fez relação com o tempo em que ele entrou na política defendendo presos políticos. Será que não se percebe que a situação está tão ruim, ou será que todos se tornaram seguidores e consumidores do Ouro de Tolo? Na Revista Veja desta semana está dito que um artista vendeu uma escultura de um touro com cascos e coroa de ouro puro. Mas o que Michele Assumpção mostra é como, na periferia da cidade do Recife, há pessoas jovens que depositam muita esperança no futuro; jovens que dedicam seu tempo a ensinar o que sabem, a organizar a sociedade em que vivem. Lá estão pessoas que moram na beira da maré e no Alto do Mandu. Em cada um há um projeto de vida que os lança para além de si mesmos, que os lança para o futuro e para os outros. Há, nas linhas escrita por Michele, um certo entusiasmo, uma alegria por perceber vida.
Michele é uma jornalista que se dedica ao conhecimento e a publicização daquilo e daquelas criações improváveis. O nome dessa jornalista está sempre associado à alma e criatividade popular. Ela consegue, como poucos, enxergar que Recife é sempre uma manhã de sol.
No mesmo jornal deste dia 23 de setembro, tem uma pequena nota em que o atual Deputado e candidato a vice-prefeito de Olinda, diz horrorizado que, nesses dias de campanha por votos, visitando áreas pobres, viu que meninos estavam caçando animais para a alimentação. Creio que horror do candidato nem mesmo lembrou ou fez relação com o tempo em que ele entrou na política defendendo presos políticos. Será que não se percebe que a situação está tão ruim, ou será que todos se tornaram seguidores e consumidores do Ouro de Tolo? Na Revista Veja desta semana está dito que um artista vendeu uma escultura de um touro com cascos e coroa de ouro puro. Mas o que Michele Assumpção mostra é como, na periferia da cidade do Recife, há pessoas jovens que depositam muita esperança no futuro; jovens que dedicam seu tempo a ensinar o que sabem, a organizar a sociedade em que vivem. Lá estão pessoas que moram na beira da maré e no Alto do Mandu. Em cada um há um projeto de vida que os lança para além de si mesmos, que os lança para o futuro e para os outros. Há, nas linhas escrita por Michele, um certo entusiasmo, uma alegria por perceber vida.
Michele é uma jornalista que se dedica ao conhecimento e a publicização daquilo e daquelas criações improváveis. O nome dessa jornalista está sempre associado à alma e criatividade popular. Ela consegue, como poucos, enxergar que Recife é sempre uma manhã de sol.
Aprendizes de feiticeiro e suas perguntas
Quero conversar um pouco sobre duas perguntas que me foram feitas durante a semana. A primeira foi «por que ter um blog»? e a outra foi sobre o que pensava a respeito do fato de um candidato a ser prefeito na cidade do Recife estar utilizando a, segundo dizem, a máquina administrativa a seu favor. Penso que só poderia dizer a resposta da segunda pergunta se eu tenho o instrumento que chamaram de blog. Como eu poderia publicar em algum jornal que o que este candidato está fazendo é o mesmo que o presidente de honra de seu partido estar a fazer?
Muito fácil acusar o discípulo, evitando tangenciar a figura do mestre, se este mestre tem o poder “da caneta”, como sempre mencionaram os políticos e os jornalistas do passado. Todos sabemos dos filtros que permitem a continuidade de certos comportamentos, filtros sociais e que, garantem a ascensão ou queda de alguns alguéns. A Roda da Fortuna não empurrada pelas mãos do acaso, mas pelas mãos dos criadores dos acasos. É necessária certa sabedoria para perceber a mudança dos tempos. Ora, os tempos, não o físico, porém os sociais pedem dos produtores de ventos fortes em passado recente que produzam, agora, a calmaria. Necessária se faz a cautela dos destemidos do passado, aconselha-se a não perder o que já se conseguiu, mesmo que o que se conseguiu não foi nem de perto o que se sonhava nos tempos da insatisfação. As grandes cuecas deixaram de ser apenas pano de fundo e protetoras de certos “documentos”, deixaram de ser simples proteção de partes da anatomia física para salvaguardar e esconder o resultado de novas posturas morais. E, parece ser óbvio, que o que se esconde e quem ficou calado diante dos diversos desvios, é até capaz de criticar o pequeno aprendiz de feiticeiro, mas jamais o feiticeiro maior. E depois, ficam, muitos analistas que se beneficiam do seu silêncio diante das impropriedades do feiticeiro, surpresos por nada tocar a figura do feiticeiro. E que eles, como aquele militante de um partido mais à esquerda do que o do candidato mencionado por ele, por não ter sido escolhido como o aprendiz principal, sabendo que depende do Feiticeiro, faz parte do mesmo jogo. E querem nos iludir com perguntas que, aparentemente são de oposição. Na verdade, é um discurso protetor, uma parede que protege o Feiticeiro que despacha tranqüilo na sala principal da casa. Depois as paredes irão reclamar que as pedras e ovos podres não alcançam aqueles que estão na sala sob a sua proteção. Uma reclamação que pode ser ouvida, e quem sabe, atendida por mais uma ação do feiticeiro, um pequeno recipiente com alguma porção mágica, algo que os alopre, algo que os faça sentir parte do grande jogo. Quem sabe, alguma recompensa pelos serviços prestados no passado, quando estavam juntos e ainda todos aprendiam os truques dos antigos feiticeiros.
Creio que esse espaço virtual, esse meu diário público me permite escrever essas coisas. Vou aprender um pouco mais e utilizar um pouco mais esse instrumento criado pelas feitiçarias humanas. Pena que os feiticeiros só muito lentamente permitem que os aprendizes livres alcancem e usem essa maravilha.
Muito fácil acusar o discípulo, evitando tangenciar a figura do mestre, se este mestre tem o poder “da caneta”, como sempre mencionaram os políticos e os jornalistas do passado. Todos sabemos dos filtros que permitem a continuidade de certos comportamentos, filtros sociais e que, garantem a ascensão ou queda de alguns alguéns. A Roda da Fortuna não empurrada pelas mãos do acaso, mas pelas mãos dos criadores dos acasos. É necessária certa sabedoria para perceber a mudança dos tempos. Ora, os tempos, não o físico, porém os sociais pedem dos produtores de ventos fortes em passado recente que produzam, agora, a calmaria. Necessária se faz a cautela dos destemidos do passado, aconselha-se a não perder o que já se conseguiu, mesmo que o que se conseguiu não foi nem de perto o que se sonhava nos tempos da insatisfação. As grandes cuecas deixaram de ser apenas pano de fundo e protetoras de certos “documentos”, deixaram de ser simples proteção de partes da anatomia física para salvaguardar e esconder o resultado de novas posturas morais. E, parece ser óbvio, que o que se esconde e quem ficou calado diante dos diversos desvios, é até capaz de criticar o pequeno aprendiz de feiticeiro, mas jamais o feiticeiro maior. E depois, ficam, muitos analistas que se beneficiam do seu silêncio diante das impropriedades do feiticeiro, surpresos por nada tocar a figura do feiticeiro. E que eles, como aquele militante de um partido mais à esquerda do que o do candidato mencionado por ele, por não ter sido escolhido como o aprendiz principal, sabendo que depende do Feiticeiro, faz parte do mesmo jogo. E querem nos iludir com perguntas que, aparentemente são de oposição. Na verdade, é um discurso protetor, uma parede que protege o Feiticeiro que despacha tranqüilo na sala principal da casa. Depois as paredes irão reclamar que as pedras e ovos podres não alcançam aqueles que estão na sala sob a sua proteção. Uma reclamação que pode ser ouvida, e quem sabe, atendida por mais uma ação do feiticeiro, um pequeno recipiente com alguma porção mágica, algo que os alopre, algo que os faça sentir parte do grande jogo. Quem sabe, alguma recompensa pelos serviços prestados no passado, quando estavam juntos e ainda todos aprendiam os truques dos antigos feiticeiros.
Creio que esse espaço virtual, esse meu diário público me permite escrever essas coisas. Vou aprender um pouco mais e utilizar um pouco mais esse instrumento criado pelas feitiçarias humanas. Pena que os feiticeiros só muito lentamente permitem que os aprendizes livres alcancem e usem essa maravilha.
quinta-feira, setembro 18, 2008
O Estado do mínimo prejuízo aos bancos
Pois bem, não é que o Estado-Mínimo para atender a previdência, prover a saúde, a educação, a segurança e bem estar dos cidadãos deve ser mínimo só para essas tarefas? É exatamente isso. Quando é para garantir os direitos dos cidadãos mais pobres, vem a latumia a ensinar que o “mercado” é que deve ser respeitado e definir o preço da fatura. É assim com os salário: os trabalhadores devem se organizar e lutar para que tenham os valores de seus salários reajustados; por outro lado, os preços dos produtos são definidos unilateralmente pelo dito “mercado” que é controlado pelos donos das empresas que lutam para que os salários cresçam poucos e não diminuam os seus lucros.
Nós estamos vendo e experimentando essa situação desde os tempos em que Collor de Mello resolveu que o mercado é que deveria governar o Brasil. A política continuou com Fernando Henrique Cardoso que sedimentou essa situação do Estado-mínimo, retirando forças das instituições que garantiriam a segurança, a educação, a saúde e a velhice dos cidadãos. Cada um deve cuidar de si, diziam; o Estado não pode intervir na economia, os agentes econômicos e o “mercado” é que devem decidir os caminhos a serem trilhados; os cidadãos devem ser responsáveis por seus atos. Foi a cartilha neoliberal ensinada pela Margareth Tatcher e pelo Ronald Regan (não me contive e um dos cachorros da minha casa recebeu esse nome sugestivo). Muitos brasileiros foram estudar em Chicago e voltaram com a cartilha decorada. Fizeram tudo conforme o figurino. Assim como a “dama de ferro” inglesa quebrou a espinha dos sindicatos dos mineiros, o “príncipe dos sociólogos” quebrou a estrutura do sindicato dos petroleiros. Depois tudo foi cedendo e sendo cedido. O País foi privatizado. As empresas estatais foram vendidas por darem prejuízo e passaram a dar lucros. Os planos de saúde privados, como vampiros, passaram a controlar as doenças da população, cada vez mais privada dos serviços públicos de saúde; as universidades públicas tiveram planos para aposentadoria dos professores e funcionários, enquanto se favorecia o surgimento de universidades privadas, criadas por empresários da educação. Tudo tem que dar lucro: educação é um negócio e todo colégio uma empresa. Além disso, o governo não podia gastar dinheiro do Estado com essas bobagens de saúde e educação. Nunca há dinheiro para essas coisinhas. Mas quando alguns bancos começaram a ter problemas, o “príncipe dos sociólogos” e seus economistas inventaram o Proer, um programa para evitar que os cidadãos possuidores de bancos viessem a ter prejuízo. Uma das conseqüências do Proer é que hoje não concorrência entgre os bancos nos Brasil. Também foram tomadas iniciativas para garantir que os bancos estrangeiros seriam honrados por devores honrados, teve um candidato a presidente que foi aos Estados Unidos da América, e de lá veio com uma “carta aos brasileiros” com essa garantia. Apesar do titulo, a carta parece que foi escrita por assessores de banqueiros para os banqueiros. Tinha-se de acalmar o "mercado". O candidato foi eleito e está cumprindo o compromisso e todos estão muito felizes: os banqueiros por terem as suas bolsas garantidas, e os não banqueiros e sem condições de comprar o que comer com os salários, também recebem as suas bolsas. Os valores são diferentes, mas são valores. Tudo isso é possível graças à nossa criatividade: “o príncipe dos sociólogos” tem entre os seus desafetos os seus seguidores. Ele criou o Proer, o continuador de sua obra inventou um tal de superávit primário para que ficasse garantido o pagamento dos juros.
Agora somos um país que ri dos seus (nossos) professores. Pois não é que os alunos se tornaram professores de seus professores? Em uma visita ao Brasil, o senhor Bush disse que jamais imaginara que viria aprender algo com o Brasil, e ele disse isso se referindo ao programa de produção de etanol como energia automobilística e de tantos outros aplicativos. Essa semana vimos que os norte-americanos resolveram se curvar à inventividade brasileira, mais uma vez. Com a crise financeira se desenhando no mundo, a partir dos irresponsáveis do mercado imobiliário norte-americano, os Estados Unidos e países capitalistas defensores da liberalização do mercado e da ausência do Estado nas relações entre os agentes econômicos, criaram um Proer internacional. No mínimo, o Estado mínimo não pode deixar que os bancos quebrem. Afinal, eles são os donos do Estado. É o mínimo que o Esatdo mínimo pode fazer pelo "mercado", assim ele se acalma mais uma vez com o dinheiro dos contribuntes. Na verdade, devíamos cobrar royalties por essa nossa invenção econômico financeira. Prêmio Nobel de Economia para a equipe econômica de FHC, formada em Chicago.
Nossos índices melhoram a cada dia, nos dizem e juram as estatísticas do IBGE. Os juros que são pagos aos bancos auxiliam a nos fazer potência, embora nossas escolas não tenham os equipamentos necessários para nos alavancar (eita palavra querida por jornalistas econômicos!) ainda. Mas chegaremos lá. Já tem esgoto em 51% das casas brasileiras e 60% dos brasileiros são donos de suas casas, inclusive nas favelas. Não é uma glória? Parece que ninguém deve aos bancos as prestações da “casa própria”.
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Nós estamos vendo e experimentando essa situação desde os tempos em que Collor de Mello resolveu que o mercado é que deveria governar o Brasil. A política continuou com Fernando Henrique Cardoso que sedimentou essa situação do Estado-mínimo, retirando forças das instituições que garantiriam a segurança, a educação, a saúde e a velhice dos cidadãos. Cada um deve cuidar de si, diziam; o Estado não pode intervir na economia, os agentes econômicos e o “mercado” é que devem decidir os caminhos a serem trilhados; os cidadãos devem ser responsáveis por seus atos. Foi a cartilha neoliberal ensinada pela Margareth Tatcher e pelo Ronald Regan (não me contive e um dos cachorros da minha casa recebeu esse nome sugestivo). Muitos brasileiros foram estudar em Chicago e voltaram com a cartilha decorada. Fizeram tudo conforme o figurino. Assim como a “dama de ferro” inglesa quebrou a espinha dos sindicatos dos mineiros, o “príncipe dos sociólogos” quebrou a estrutura do sindicato dos petroleiros. Depois tudo foi cedendo e sendo cedido. O País foi privatizado. As empresas estatais foram vendidas por darem prejuízo e passaram a dar lucros. Os planos de saúde privados, como vampiros, passaram a controlar as doenças da população, cada vez mais privada dos serviços públicos de saúde; as universidades públicas tiveram planos para aposentadoria dos professores e funcionários, enquanto se favorecia o surgimento de universidades privadas, criadas por empresários da educação. Tudo tem que dar lucro: educação é um negócio e todo colégio uma empresa. Além disso, o governo não podia gastar dinheiro do Estado com essas bobagens de saúde e educação. Nunca há dinheiro para essas coisinhas. Mas quando alguns bancos começaram a ter problemas, o “príncipe dos sociólogos” e seus economistas inventaram o Proer, um programa para evitar que os cidadãos possuidores de bancos viessem a ter prejuízo. Uma das conseqüências do Proer é que hoje não concorrência entgre os bancos nos Brasil. Também foram tomadas iniciativas para garantir que os bancos estrangeiros seriam honrados por devores honrados, teve um candidato a presidente que foi aos Estados Unidos da América, e de lá veio com uma “carta aos brasileiros” com essa garantia. Apesar do titulo, a carta parece que foi escrita por assessores de banqueiros para os banqueiros. Tinha-se de acalmar o "mercado". O candidato foi eleito e está cumprindo o compromisso e todos estão muito felizes: os banqueiros por terem as suas bolsas garantidas, e os não banqueiros e sem condições de comprar o que comer com os salários, também recebem as suas bolsas. Os valores são diferentes, mas são valores. Tudo isso é possível graças à nossa criatividade: “o príncipe dos sociólogos” tem entre os seus desafetos os seus seguidores. Ele criou o Proer, o continuador de sua obra inventou um tal de superávit primário para que ficasse garantido o pagamento dos juros.
Agora somos um país que ri dos seus (nossos) professores. Pois não é que os alunos se tornaram professores de seus professores? Em uma visita ao Brasil, o senhor Bush disse que jamais imaginara que viria aprender algo com o Brasil, e ele disse isso se referindo ao programa de produção de etanol como energia automobilística e de tantos outros aplicativos. Essa semana vimos que os norte-americanos resolveram se curvar à inventividade brasileira, mais uma vez. Com a crise financeira se desenhando no mundo, a partir dos irresponsáveis do mercado imobiliário norte-americano, os Estados Unidos e países capitalistas defensores da liberalização do mercado e da ausência do Estado nas relações entre os agentes econômicos, criaram um Proer internacional. No mínimo, o Estado mínimo não pode deixar que os bancos quebrem. Afinal, eles são os donos do Estado. É o mínimo que o Esatdo mínimo pode fazer pelo "mercado", assim ele se acalma mais uma vez com o dinheiro dos contribuntes. Na verdade, devíamos cobrar royalties por essa nossa invenção econômico financeira. Prêmio Nobel de Economia para a equipe econômica de FHC, formada em Chicago.
Nossos índices melhoram a cada dia, nos dizem e juram as estatísticas do IBGE. Os juros que são pagos aos bancos auxiliam a nos fazer potência, embora nossas escolas não tenham os equipamentos necessários para nos alavancar (eita palavra querida por jornalistas econômicos!) ainda. Mas chegaremos lá. Já tem esgoto em 51% das casas brasileiras e 60% dos brasileiros são donos de suas casas, inclusive nas favelas. Não é uma glória? Parece que ninguém deve aos bancos as prestações da “casa própria”.
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terça-feira, setembro 16, 2008
A Esperança e as bolsas
A caminhada matinal me fez encontrar uma pessoa a colocar nas calçados retratos de um dos muitos interessados em prefeiturar a cidade, e de outros que desejam apenas a vereança. Por ordem de um juiz eleitoral, eles devem deixar espaço para os pedestres. Na verdade, pela maneira que os retratos são postos em exibição, podemos supor que o supervisor daquela pessoa está mais interessado em que os retratos sejam vistos pelos motoristas dos automóveis do que pela possível parada dos olhares dos pedestres. Interessante é que todos os personagens retratados expõem um belo sorriso. Alguém já disse que eles estão rindo dos eleitores. Não creio. Afinal, todos os que se dispõem a expor suas vidas no cuidado das coisas públicas, são pessoas altruístas, dedicadas à construção do bem comum e, jamais pensam em tirar vantagem pecuniária do exercício do cargo público. Assim eu penso, embora conheça muitos que fizeram ótimo pé-de-meia e garantem uma bela aposentadoria após oito ou doze anos de serviço público. Mas creio são exceções.
Vendo aqueles retratos lembrei-me de eleições passadas e, uma dessas lembranças veio a ser uma campanha para governador, aquela em que todos acreditávamos que a Esperança voltava, após os anos da ditadura. Naquela eleição, pusemos, mais uma vez, Miguel Arraes no Palácio das Princesas, de onde ele havia sido arrancado, mas não derrotado. Digo pusemos, pois naquela campanha tive alguma participação mais ostensiva.
Como a direita escalara um descendente de senhor de engenhos e terras da Mata Sul para se opor a Miguel Arraes. Escrevi vários textos tendo como mote o seguine: às vezes o velho é novo e o novo é velho. Entretanto sabemos que há velhos que são velhos e jovens que são jovens, jovens que não envelhecem e jovens que, por maldição histórica, sempre serão velhos. José Múcio era um jovem que continuava a tradição de umas coisas velhas do nosso estado. Hoje ele é um dos mais importantes ministros do presidente Luiz Inácio da Silva. Um jovem ministrando para um jovem.
Mas além daquele exercício cívico-literário e anônimo (mas foram bem reproduzidos pelo pessoal da campanha e distribuídos, especialmente nos comícios realizados nos bairros mais ricos), na época eu estava vice-diretor, professor de História da Igreja e um dos coordenadores de estudos do Instituto de Teologia do Recife. Alunos e professores não queriam ficar alheios ao clima de mudança, euforia e esperança que corria em Pernambuco e no Brasil. Era evidente que cada um, como cidadão podia participar da campanha política. Mas estávamos de arcebispo novo e, diferentemente do seu antecessor, Dom José Cardoso não permitia que pessoas ou instituições eclesiásticas assumissem compromisso público com qualquer dos candidatos. Todos entendíamos que o novo arcebispo não desejava que os católicos fossem orientados a votar em um candidato progressista, afinal ele havia sido escolhido para arcebispo de Olinda e Recife, entre outras tarefas, com o intuito de estancar as reflexões da teologia da Libertação. Os professores e alunos do ITER desejavam uma manifestação pública.
Contatos foram feitos e, uma noite, ocorreu uma reunião de Miguel Arraes com a direção do ITER, os Coordenadores de Estudo, professores e representantes de alunos. Foi uma conversa muito instrutiva para mim: aprendi que os médicos estavam se tornando uma força política por conta de seus contatos diretos com a população; aprendi que a Segurança Pública era uma área muito sensível e de difícil equação; entendi que a educação era uma prioridade no futuro governo e que Arraes continuava a focar os trabalhadores do campo. Depois desse encontro, uma reunião produziu um manifesto e eu fui escalado para levar pessoalmente o documento ao nosso candidato. Terminei por ser figurante de um dos guias eleitorais, entregando o tal manifesto àquele que era visto como a esperança e, ao mesmo tempo, um desejo de retomar o caminho que havia sido truncado em 1964.
Nunca saberemos realmente se a presença do Instituto de Teologia do Recife no guia eleitoral de Arraes auxiliou algo na sua eleição. Mas, penso que a lição de que devemos participar do processo democrático foi dada, mesmo que essa participação inclua riscos. O resultado da eleição foi favorável a Arraes, embora a sua eleição tenha causado desgosto a alguns dos aliados e, alguns anos depois, um deles se uniu a José Múcio para derrotar Arraes. Quanto ao Instituto de Teologia do Recife, algum tempo depois foi fechado por ordem romana aplicada pelo arcebispo. Deixei de ser vice-diretor do ITER, perdi o direito de ensinar História da Igreja em estabelecimentos eclesiásticos. Mas participei dessa e de outras campanhas eleitorais em que as pessoas acreditavam no que diziam e vibravam nas ruas. Depois vieram os marqueteiros e todos os candidatos passaram a ter o mesmo sorriso e a barba aparada e cabelos alinhados. Ganha-se em beleza perde-se em debate.
A esperança hoje são as “bolsas”: para alguns a eterna BM&F e para outros a que é dada nos bolsões, com os restos da BM&F. Todos os candidatos garantem que a bolsa vai continuar, a esperança é que a bolsa continue.
Vendo aqueles retratos lembrei-me de eleições passadas e, uma dessas lembranças veio a ser uma campanha para governador, aquela em que todos acreditávamos que a Esperança voltava, após os anos da ditadura. Naquela eleição, pusemos, mais uma vez, Miguel Arraes no Palácio das Princesas, de onde ele havia sido arrancado, mas não derrotado. Digo pusemos, pois naquela campanha tive alguma participação mais ostensiva.
Como a direita escalara um descendente de senhor de engenhos e terras da Mata Sul para se opor a Miguel Arraes. Escrevi vários textos tendo como mote o seguine: às vezes o velho é novo e o novo é velho. Entretanto sabemos que há velhos que são velhos e jovens que são jovens, jovens que não envelhecem e jovens que, por maldição histórica, sempre serão velhos. José Múcio era um jovem que continuava a tradição de umas coisas velhas do nosso estado. Hoje ele é um dos mais importantes ministros do presidente Luiz Inácio da Silva. Um jovem ministrando para um jovem.
Mas além daquele exercício cívico-literário e anônimo (mas foram bem reproduzidos pelo pessoal da campanha e distribuídos, especialmente nos comícios realizados nos bairros mais ricos), na época eu estava vice-diretor, professor de História da Igreja e um dos coordenadores de estudos do Instituto de Teologia do Recife. Alunos e professores não queriam ficar alheios ao clima de mudança, euforia e esperança que corria em Pernambuco e no Brasil. Era evidente que cada um, como cidadão podia participar da campanha política. Mas estávamos de arcebispo novo e, diferentemente do seu antecessor, Dom José Cardoso não permitia que pessoas ou instituições eclesiásticas assumissem compromisso público com qualquer dos candidatos. Todos entendíamos que o novo arcebispo não desejava que os católicos fossem orientados a votar em um candidato progressista, afinal ele havia sido escolhido para arcebispo de Olinda e Recife, entre outras tarefas, com o intuito de estancar as reflexões da teologia da Libertação. Os professores e alunos do ITER desejavam uma manifestação pública.
Contatos foram feitos e, uma noite, ocorreu uma reunião de Miguel Arraes com a direção do ITER, os Coordenadores de Estudo, professores e representantes de alunos. Foi uma conversa muito instrutiva para mim: aprendi que os médicos estavam se tornando uma força política por conta de seus contatos diretos com a população; aprendi que a Segurança Pública era uma área muito sensível e de difícil equação; entendi que a educação era uma prioridade no futuro governo e que Arraes continuava a focar os trabalhadores do campo. Depois desse encontro, uma reunião produziu um manifesto e eu fui escalado para levar pessoalmente o documento ao nosso candidato. Terminei por ser figurante de um dos guias eleitorais, entregando o tal manifesto àquele que era visto como a esperança e, ao mesmo tempo, um desejo de retomar o caminho que havia sido truncado em 1964.
Nunca saberemos realmente se a presença do Instituto de Teologia do Recife no guia eleitoral de Arraes auxiliou algo na sua eleição. Mas, penso que a lição de que devemos participar do processo democrático foi dada, mesmo que essa participação inclua riscos. O resultado da eleição foi favorável a Arraes, embora a sua eleição tenha causado desgosto a alguns dos aliados e, alguns anos depois, um deles se uniu a José Múcio para derrotar Arraes. Quanto ao Instituto de Teologia do Recife, algum tempo depois foi fechado por ordem romana aplicada pelo arcebispo. Deixei de ser vice-diretor do ITER, perdi o direito de ensinar História da Igreja em estabelecimentos eclesiásticos. Mas participei dessa e de outras campanhas eleitorais em que as pessoas acreditavam no que diziam e vibravam nas ruas. Depois vieram os marqueteiros e todos os candidatos passaram a ter o mesmo sorriso e a barba aparada e cabelos alinhados. Ganha-se em beleza perde-se em debate.
A esperança hoje são as “bolsas”: para alguns a eterna BM&F e para outros a que é dada nos bolsões, com os restos da BM&F. Todos os candidatos garantem que a bolsa vai continuar, a esperança é que a bolsa continue.
sexta-feira, setembro 12, 2008
A semana da Pátria
Esta foi uma semana que me pareceu quase típica. Digo assim pois o domingo, dia 7 de setembro eu não fui a nenhuma demonstração cívica: nem a oficial, com a presença das autoridades e do povo; nem a de protesto e advertência, conhecida como o Grito dos Excluídos, que vem sendo organizada desde que FHC era presidente e a atual administração do país era oposição e apoiava ações como essas da CNBB. Fiquei em casa, não como protesto, mas como um elogio à preguiça.
Mas, ficando em casa, dificilmente ficamos sem fazer nada. O ócio pode ser bastante produtivo e, naquele dia atendi a várias demandas atrasadas, depois de dormir. As poucas informações que as emissoras de televisão nos mandam, são realmente poucas, pois muitos dos jornalistas não correm mais em busca da notícia. Os donos dos jornais compram as notícias. As agências de notícias, sempre alguns, selecionam as notícias e as vendem aos jornais que, não por acaso são também donos dos canais de televisão, apesar da constituição (essa lei “arremendada” e chamada às falas sempre que sua aplicação prejudica alguém da elite – os antigos e os recém acomodados) proibir.
É salutar para nossa formação pessoal comprar os jornais domingueiros e compará-los. As manchetes são exercícios de dizer de forma diferente as mesmas notícias; as matérias são em sua maioria escritas fora do estado; os colunistas locais nunca discutem entre si e se esmeram em elogiar sempre algo ou alguém, mas raramente se encontra um debate. Pelos jornais percebemos o quanto os nossos escritores e filósofos pensam sempre a mesma coisa, supomos assim por conta da ausência de debate. Mas também pode ser que a fluidez do tempo e dos acontecimentos já não mais permita que sejam perdidas horas em busca de pensamentos. Por outro lado, já não se fabrica notícias desde a quinta feira, pois na tarde do sábado já estamos lendo as notícias do domingo, e elas foram impressas na sexta feira. Mas parece que isso é assim no mundo inteiro. Também ocorre com as revistas semanais que nós ouvimos antes de as comprarmos nas bancas ou as recebamos em casa. O domingo é uma continuação do sábado que só tem acontecimento fora de nosso mundo imediato, o Brasil.
Felizes aqueles que não deixaram crescer em suas casas locais como bibliotecas, ou lugar onde se guarde algum livro que possa ser acionado. Isso os impediria da glória de assistir a mediocridade em andamento nos programas televisivos. Evidentemente que a televisão pode trazer para dentro do lar o glorioso esporte da Fórmula Um, um esporte que garante o sucesso de muitos proctologistas, por conta das hérnias anais que podem ser provocadas pelo imenso esforço de ficar sentado ouvindo um dos maiores oráculos brasileiros.
Mas neste domingo do dia da independência, algumas pessoas dedicaram-se a ficar até tarde para ver um dos mais belos retratos da mediocridade atual, que é a legião de estrangeiros que formam a seleção brasileira de futebol, brilhantemente orientada pelo intangível e elegante Dunga. O empate-derrota nos garante o segundo lugar (acima da Argentina) neste momento da eliminatória, o que é quase uma ‘bolsa-classificação’, pois, se garante o momento atual, sem mudanças estruturais não há garantia de sucesso futuro.
Durante a semana participei de uma atividade promovida pelo Diretório Acadêmico de História, que pretendeu discutir relações interdisciplinaridades da história com outras ciências. Acho uma ótima idéia, mas, parece que, da mesma forma que químicos, físicos e matemáticos julgam que as humanas não são ciências (falam de ciências moles), os jovens do Diretório Acadêmico não convidaram nenhum estudioso ou cientista das físicas, químicas e matemáticas (dizem ciências duras) para pensarem alguma possível relação com a ciência histórica. Aqui fico ainda na esperança que nossos conceitos avancem um pouco mais, para que possamos entender - realmente entender, que, para além do populismo acadêmico, gente como Josué de Castro, médico de formação, deve ser considerado para uma conversa interdisciplinar. Essas incapacidades de atualizar o discurso interdisciplinar é que provocou o telefonema de uma universitária, escandalizada por saber que eu, professor de história estarei participando de um encontro a respeito de literatura. É nisso que dá esse negócio de ter que repetir o professor em tudo, caso haja o desejo de aprovação e ascensão na carreira acadêmica. E aí voltamos à questão do “bolsa” que tudo resolve e nos faz agora um país de classe média.
E dentro de 36 horas será domingo de novo. Tomara que meu filho traga meu neto para brincarmos na piscina plástica.
Mas, ficando em casa, dificilmente ficamos sem fazer nada. O ócio pode ser bastante produtivo e, naquele dia atendi a várias demandas atrasadas, depois de dormir. As poucas informações que as emissoras de televisão nos mandam, são realmente poucas, pois muitos dos jornalistas não correm mais em busca da notícia. Os donos dos jornais compram as notícias. As agências de notícias, sempre alguns, selecionam as notícias e as vendem aos jornais que, não por acaso são também donos dos canais de televisão, apesar da constituição (essa lei “arremendada” e chamada às falas sempre que sua aplicação prejudica alguém da elite – os antigos e os recém acomodados) proibir.
É salutar para nossa formação pessoal comprar os jornais domingueiros e compará-los. As manchetes são exercícios de dizer de forma diferente as mesmas notícias; as matérias são em sua maioria escritas fora do estado; os colunistas locais nunca discutem entre si e se esmeram em elogiar sempre algo ou alguém, mas raramente se encontra um debate. Pelos jornais percebemos o quanto os nossos escritores e filósofos pensam sempre a mesma coisa, supomos assim por conta da ausência de debate. Mas também pode ser que a fluidez do tempo e dos acontecimentos já não mais permita que sejam perdidas horas em busca de pensamentos. Por outro lado, já não se fabrica notícias desde a quinta feira, pois na tarde do sábado já estamos lendo as notícias do domingo, e elas foram impressas na sexta feira. Mas parece que isso é assim no mundo inteiro. Também ocorre com as revistas semanais que nós ouvimos antes de as comprarmos nas bancas ou as recebamos em casa. O domingo é uma continuação do sábado que só tem acontecimento fora de nosso mundo imediato, o Brasil.
Felizes aqueles que não deixaram crescer em suas casas locais como bibliotecas, ou lugar onde se guarde algum livro que possa ser acionado. Isso os impediria da glória de assistir a mediocridade em andamento nos programas televisivos. Evidentemente que a televisão pode trazer para dentro do lar o glorioso esporte da Fórmula Um, um esporte que garante o sucesso de muitos proctologistas, por conta das hérnias anais que podem ser provocadas pelo imenso esforço de ficar sentado ouvindo um dos maiores oráculos brasileiros.
Mas neste domingo do dia da independência, algumas pessoas dedicaram-se a ficar até tarde para ver um dos mais belos retratos da mediocridade atual, que é a legião de estrangeiros que formam a seleção brasileira de futebol, brilhantemente orientada pelo intangível e elegante Dunga. O empate-derrota nos garante o segundo lugar (acima da Argentina) neste momento da eliminatória, o que é quase uma ‘bolsa-classificação’, pois, se garante o momento atual, sem mudanças estruturais não há garantia de sucesso futuro.
Durante a semana participei de uma atividade promovida pelo Diretório Acadêmico de História, que pretendeu discutir relações interdisciplinaridades da história com outras ciências. Acho uma ótima idéia, mas, parece que, da mesma forma que químicos, físicos e matemáticos julgam que as humanas não são ciências (falam de ciências moles), os jovens do Diretório Acadêmico não convidaram nenhum estudioso ou cientista das físicas, químicas e matemáticas (dizem ciências duras) para pensarem alguma possível relação com a ciência histórica. Aqui fico ainda na esperança que nossos conceitos avancem um pouco mais, para que possamos entender - realmente entender, que, para além do populismo acadêmico, gente como Josué de Castro, médico de formação, deve ser considerado para uma conversa interdisciplinar. Essas incapacidades de atualizar o discurso interdisciplinar é que provocou o telefonema de uma universitária, escandalizada por saber que eu, professor de história estarei participando de um encontro a respeito de literatura. É nisso que dá esse negócio de ter que repetir o professor em tudo, caso haja o desejo de aprovação e ascensão na carreira acadêmica. E aí voltamos à questão do “bolsa” que tudo resolve e nos faz agora um país de classe média.
E dentro de 36 horas será domingo de novo. Tomara que meu filho traga meu neto para brincarmos na piscina plástica.
segunda-feira, setembro 08, 2008
Pelópidas, o Prefeito do Recife
Pelópidas Silveira que morreu aos 93 anos de idade neste final de semana, foi prefeito da cidade do Recife logo após o término da ditadura denominada Estado Novo, foi o primeiro prefeito do Recife eleito após aquela ditadura e, foi o último prefeito da capital pernambucana antes da ditadura iniciada em 1964. A sua vida política, como militante, ocorreu ao longo da construção democrática, depois foi preso, teve seus direitos políticos cassados e, talvez desalentado, passou a ser um permanente conselheiro aos novos que se dispuseram a continuar parte de seu ideário. Entrementes, Pelópidas tem uma obra como professor na Universidade Federal de Pernambuco.
Quando minha família migrou da margem do Rio Capibaribe, em Carpina, para estabelecer-se em Nova Descoberta, antigo Beco da Tamancaria, aquela rua ainda não era calçada, mas o percurso que sai da Avenida Norte até a igreja Matriz de Nossa Senhora de Lourdes, foi calçada por Pelópidas. A parte da rua onde está a minha casa teve que esperar um pouco mais e foi obra da administração Augusto Lucena. Mas o tempo e os estudos me levaram a conhecer Pelópidas através dos estudos e pesquisas.
Durante algum tempo fui estagiário no Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano e, enquanto limpava e organizava documentos do governo do Estado, tomei algumas notas e transcrevei alguns documentos que interessavam à minha pesquisa sobre a arquidiocese de Olinda e Recife. Como católico, em meu tempo de infância ouvi falar de maneira pouco favorável a respeito de Pelópidas, especialmente um dos vigários de Nova Descoberta. Talvez eu quisesse compreender porque. Alguns dos documentos que copiei comentavam a eleição de Cid Sampaio que tinha, como companheiro de chapa, Pelópidas Silveira. Comecei a copiar o que podia e, algum tempo depois, dediquei-me a ler e refletir o que havia em minhas mãos. As reflexões levaram-me a entender que Pelópidas, quando foi prefeito na segunda metade da década de quarenta, estabeleceu a prática de garantir a venda de pescado para que a população católica pudesse cumprir suas práticas religiosas; verifiquei que ele estabeleceu a semana inglesa, realizando, de certa maneira, os anseios do Arcebispo Dom Miguel Valverde, para que fosse guardado o domingo como Dia do Senhor. Depois aprendi que a prefeitura do Recife, sob a administração de Pelópidas, concedeu um terreno, no bairro da Várzea, para que fosse construído o Seminário Menor Nossa Senhora da Conceição, local de início de preparação para a formação de sacerdotes. Mas, Dom Antonio de Almeida Moraes Junior não admitia que o Recife fosse administrado por uma coligação política formada por socialistas e comunistas e passou a fazer campanha contra a Frente, acusando Pelopidas de Comunista.
Pelópidas, organizador do Partido Socialista, foi um dos líderes dessas Frentes do Recife. Escolhido pelos alunos para ser o Paraninfo de uma das turmas do Colégio Arquidiocesano, estabelecido onde hoje estão prédios da UNICAP, ele foi notificado que não era uma pessoa bem vinda ao estabelecimento de ensino. Um dos diretores do Arquidiocesano era o padre Miguel Cavalcanti, aquele que veio a ser vigário na paróquia de Nova Descoberta e com quem mantive boa convivência até sua morte. O reacionarismo de Dom Antonio não o permitia enxergar as boas novidades, ele preferia evitar qualquer mudança que pusesse em risco a sua tradição mineira que ele confundia com a tradição da Igreja. Tal não acontecia com jovens intelectuais católicos que publicaram nota de apoio a Pelópidas.
Aquelas notas tornaram-se base para o meu doutorado e livro Entre o Tibre e o Capibaribe: limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife. O Dr. João Asfora, confrade no Instituto Histórico de Olinda, levou o livro a Pelópidas que, após o ler, quis conversar comigo. Asfora deu-me o número telefônico da residência do prefeito e conversamos por telefone. Comentou positivamente o livro, perguntou-me se haveria continuação de modo a debater, também, o pastoreio conservador do atual arcebispo. Não pudemos nos ver pessoalmente, conforme decidimos naquela conversa telefônica.
Comento aqui a emoção de ter conversado com alguém de minha admiração desde a minha infância e dele, que foi sujeito de tamanha importância para Pernambuco, conselheiro de tantos e ilustres personagens, ter gasto tempo para ler meus escritos e ainda dizer que foi dos melhores que ele havia lido recentemente.
A primeira obra sobre a primeira Frente do Recife parece ter sido escrita para ressaltar a necessidade de uma nova frente após a Ditadura, e em torno de Miguel Arraes. Assim, outras figuras foram postas em situação secundária. Novas leituras desses momentos históricos serão feitas e as contribuições mais permanentes e menos eleitorais aparecerão. Então veremos mais explicitado o papel de Pelópidas Silveira, guardião do pensamento livre.
Quando minha família migrou da margem do Rio Capibaribe, em Carpina, para estabelecer-se em Nova Descoberta, antigo Beco da Tamancaria, aquela rua ainda não era calçada, mas o percurso que sai da Avenida Norte até a igreja Matriz de Nossa Senhora de Lourdes, foi calçada por Pelópidas. A parte da rua onde está a minha casa teve que esperar um pouco mais e foi obra da administração Augusto Lucena. Mas o tempo e os estudos me levaram a conhecer Pelópidas através dos estudos e pesquisas.
Durante algum tempo fui estagiário no Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano e, enquanto limpava e organizava documentos do governo do Estado, tomei algumas notas e transcrevei alguns documentos que interessavam à minha pesquisa sobre a arquidiocese de Olinda e Recife. Como católico, em meu tempo de infância ouvi falar de maneira pouco favorável a respeito de Pelópidas, especialmente um dos vigários de Nova Descoberta. Talvez eu quisesse compreender porque. Alguns dos documentos que copiei comentavam a eleição de Cid Sampaio que tinha, como companheiro de chapa, Pelópidas Silveira. Comecei a copiar o que podia e, algum tempo depois, dediquei-me a ler e refletir o que havia em minhas mãos. As reflexões levaram-me a entender que Pelópidas, quando foi prefeito na segunda metade da década de quarenta, estabeleceu a prática de garantir a venda de pescado para que a população católica pudesse cumprir suas práticas religiosas; verifiquei que ele estabeleceu a semana inglesa, realizando, de certa maneira, os anseios do Arcebispo Dom Miguel Valverde, para que fosse guardado o domingo como Dia do Senhor. Depois aprendi que a prefeitura do Recife, sob a administração de Pelópidas, concedeu um terreno, no bairro da Várzea, para que fosse construído o Seminário Menor Nossa Senhora da Conceição, local de início de preparação para a formação de sacerdotes. Mas, Dom Antonio de Almeida Moraes Junior não admitia que o Recife fosse administrado por uma coligação política formada por socialistas e comunistas e passou a fazer campanha contra a Frente, acusando Pelopidas de Comunista.
Pelópidas, organizador do Partido Socialista, foi um dos líderes dessas Frentes do Recife. Escolhido pelos alunos para ser o Paraninfo de uma das turmas do Colégio Arquidiocesano, estabelecido onde hoje estão prédios da UNICAP, ele foi notificado que não era uma pessoa bem vinda ao estabelecimento de ensino. Um dos diretores do Arquidiocesano era o padre Miguel Cavalcanti, aquele que veio a ser vigário na paróquia de Nova Descoberta e com quem mantive boa convivência até sua morte. O reacionarismo de Dom Antonio não o permitia enxergar as boas novidades, ele preferia evitar qualquer mudança que pusesse em risco a sua tradição mineira que ele confundia com a tradição da Igreja. Tal não acontecia com jovens intelectuais católicos que publicaram nota de apoio a Pelópidas.
Aquelas notas tornaram-se base para o meu doutorado e livro Entre o Tibre e o Capibaribe: limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife. O Dr. João Asfora, confrade no Instituto Histórico de Olinda, levou o livro a Pelópidas que, após o ler, quis conversar comigo. Asfora deu-me o número telefônico da residência do prefeito e conversamos por telefone. Comentou positivamente o livro, perguntou-me se haveria continuação de modo a debater, também, o pastoreio conservador do atual arcebispo. Não pudemos nos ver pessoalmente, conforme decidimos naquela conversa telefônica.
Comento aqui a emoção de ter conversado com alguém de minha admiração desde a minha infância e dele, que foi sujeito de tamanha importância para Pernambuco, conselheiro de tantos e ilustres personagens, ter gasto tempo para ler meus escritos e ainda dizer que foi dos melhores que ele havia lido recentemente.
A primeira obra sobre a primeira Frente do Recife parece ter sido escrita para ressaltar a necessidade de uma nova frente após a Ditadura, e em torno de Miguel Arraes. Assim, outras figuras foram postas em situação secundária. Novas leituras desses momentos históricos serão feitas e as contribuições mais permanentes e menos eleitorais aparecerão. Então veremos mais explicitado o papel de Pelópidas Silveira, guardião do pensamento livre.
sábado, setembro 06, 2008
WALDICK e FERNANDO: Artistas brasileiros
No quarto dia de setembro, como todos os dias de todos os ano, ocorreram mortes. Entretanto, duas mortes chamaram atenção. Logo cedo na madrugada ocorreu o passamento do cantor Waldick Soriano e, no começo da manhã recebemos a notícia da morte do ator Fernando Torres. Duas artes foram tocadas pela bruxa, e ela ganhou um cantor do povão e um ator mais conhecido da classe média.
Sei que está um pouco fora de moda usar expressões como essa – "classe social" – mas é que ela, além dos preconceitos e das semânticas, ela define melhor a sociedade quando a olhamos com o objetivo de fazer alguma análise para melhor conhecêla. Aliás, parece ser preconceituoso achar que não há classe social na sociedade em que existem classes e, consequentemente interesses conflitantes. Fico pensando na alegria do papa Leão XIII que era contra essa análise de sociedade baseada em classes com interesses que se contrapõem e estão em luta.
Mas voltemos a nos ocupar desses dois homens octogenários, Waldick Soriano e Fernando Torres; cada um foi, ao seu modo, retrato de uma parte da sociedade e, ao mesmo tempo, toda a sociedade viu-se neles e nas suas obras. Um era nordestino e foi mais ouvido pelas suas canções, nas emissoras de rádios e em apresentações nas mais diferentes cidades, desde o início da década de sessenta; ou outro, sudestino, foi primeiramente visto nos teatros do Rio de Janeiro, só mais tarde sendo conhcido pela população que possuía televisão após os anos setenta quando foi montada uma rede de televisão mais nacional, em extensão, que certas instituições nacionais. O primeiro mal concluiu cinco anos de escolaridade, e tornou-se escritor e autor de poesias que são repetidas por muitos, o outro, estudou até ser médico formado, mas se tornou um dos maiores atores do Brasil. Ambos amados e reverenciados pelos meios de comunicação social.
Chama atenção, nesses dois personagens da nossa cultura, o fato de que suas habilidades artísticas provocaram emoções e, enquanto o modo de apresentação das emoções em um, era considerado inferior, noutro, o seu modo de representação era motivo de orgulho, satisfação. As emoções são dos seres humanos que a vivenciam desde o lugar onde se encontram histórica e socialmente e lá fazem a sua história. Os diamantes são diamantes, ainda quando brutos, as emoções são emoções, ainda quando representadas cruamente.
Waldick, filho de uma família que o abandonou, criado no interior da Bahia, foi lavrador, garimpeiro, tropeiro, viveu as mais fortes emoções em sua juventude. E aprendeu a fazer canção das dores, suas e de seus companheiros. O primeiro sucesso foi na voz de Silvinho: Tu és o Maior amor da Minha Vida. Mas lembro que naquele período, o hoje bairro Nova Descoberta, cantava sempre Pobre do Pobre , que relatava o sofrimento de um homem que via seu amor ir ao altar com outro , um a quem ela não amava, porque, dizia ele "não tive o dinheiro para comprar a felicidade". Era o mesmo drama que fazia a classe média chorar, na mesma época, na voz de Antonio Prieto em La Novia, música tema do filme A Noiva, fenômeno de bilheteria em todas as classes sociais. Mas, se era chic chorar a dor de cotovelo de um espanhol, já era cafona a mesma dor vinda na voz e no jeito do povo brasileiro, em um bolerão ou mesmo samba canção. Outro grande sucesso de Waldick foi o pedido para que um amigo levasse uma Carta, para dizer A Paixão de Uma Homem e dizer "para aquela ingrata como está meu coração". Mais tarde veio o desabafo, cantado por todos, às claras ou na bebedeira envergonhada, dizendo que Eu não sou cachorro não. Era um desabafo para uma mulher, mas que foi assumido, mal assumido, como uma crítica social. Assim a Ditadura entendeu quando ele quis cantar Tortura de Amor, proibida numa época em que se torturava fisicamente alguns dos sonhadores brasileiros. Ainda hoje muita gente canta essa canção (hoje que a noite está calma, e mina alma esperava por ti....) sem saber que ela tem origem nos sentimentos de um ex-garimpeiro.
A propósito, José Sarney, conselheiro do atual presidente do Brasil, à época um dos premiados e responsáveis pelo sucesso da ditadura, recentemente negou que houvesse trtura no regime militar. Os tempos mudam e, para não poucos. Waldick Soriano vem se tornando um retrato de um Brasil, pouco glamoroso, mas carregado de emoções insatisfeitas, como muitas das necessidades básicas.
Em verdade. É apenas quando as necessidades básicas estão satisfeitas que os grupos e indivíduos humanos têm tempo para refletir melhor sobre as suas ações e sofisticar as maneiras de apresentar a beleza dos sentimentos de formas mais belas. Isso foi possível para o ator Fernando Torres que já chegou ao conhecimento dos telespectadores em sua maturidade de ator, depois de vários anos de teatro. Essa foi uma das vantagens da televisão, trazer para mais próximo atores como Fernando, sua mulher Fernanda Montenegro e sua filha Fernanda Torres. Personagens vividos nas novelas Dez vidas, Baila comigo e Laços de Famílias encantaram muitos que não podiam, nem podem ainda, ira aos teatros.
A morte desses dois artistas abre espaços para novos tradutores de sentimentos, embora, cada um a seu modo, tenha, criado formas próprias de tradução e comunicação com o seu povo, o povo brasileiro
Sei que está um pouco fora de moda usar expressões como essa – "classe social" – mas é que ela, além dos preconceitos e das semânticas, ela define melhor a sociedade quando a olhamos com o objetivo de fazer alguma análise para melhor conhecêla. Aliás, parece ser preconceituoso achar que não há classe social na sociedade em que existem classes e, consequentemente interesses conflitantes. Fico pensando na alegria do papa Leão XIII que era contra essa análise de sociedade baseada em classes com interesses que se contrapõem e estão em luta.
Mas voltemos a nos ocupar desses dois homens octogenários, Waldick Soriano e Fernando Torres; cada um foi, ao seu modo, retrato de uma parte da sociedade e, ao mesmo tempo, toda a sociedade viu-se neles e nas suas obras. Um era nordestino e foi mais ouvido pelas suas canções, nas emissoras de rádios e em apresentações nas mais diferentes cidades, desde o início da década de sessenta; ou outro, sudestino, foi primeiramente visto nos teatros do Rio de Janeiro, só mais tarde sendo conhcido pela população que possuía televisão após os anos setenta quando foi montada uma rede de televisão mais nacional, em extensão, que certas instituições nacionais. O primeiro mal concluiu cinco anos de escolaridade, e tornou-se escritor e autor de poesias que são repetidas por muitos, o outro, estudou até ser médico formado, mas se tornou um dos maiores atores do Brasil. Ambos amados e reverenciados pelos meios de comunicação social.
Chama atenção, nesses dois personagens da nossa cultura, o fato de que suas habilidades artísticas provocaram emoções e, enquanto o modo de apresentação das emoções em um, era considerado inferior, noutro, o seu modo de representação era motivo de orgulho, satisfação. As emoções são dos seres humanos que a vivenciam desde o lugar onde se encontram histórica e socialmente e lá fazem a sua história. Os diamantes são diamantes, ainda quando brutos, as emoções são emoções, ainda quando representadas cruamente.
Waldick, filho de uma família que o abandonou, criado no interior da Bahia, foi lavrador, garimpeiro, tropeiro, viveu as mais fortes emoções em sua juventude. E aprendeu a fazer canção das dores, suas e de seus companheiros. O primeiro sucesso foi na voz de Silvinho: Tu és o Maior amor da Minha Vida. Mas lembro que naquele período, o hoje bairro Nova Descoberta, cantava sempre Pobre do Pobre , que relatava o sofrimento de um homem que via seu amor ir ao altar com outro , um a quem ela não amava, porque, dizia ele "não tive o dinheiro para comprar a felicidade". Era o mesmo drama que fazia a classe média chorar, na mesma época, na voz de Antonio Prieto em La Novia, música tema do filme A Noiva, fenômeno de bilheteria em todas as classes sociais. Mas, se era chic chorar a dor de cotovelo de um espanhol, já era cafona a mesma dor vinda na voz e no jeito do povo brasileiro, em um bolerão ou mesmo samba canção. Outro grande sucesso de Waldick foi o pedido para que um amigo levasse uma Carta, para dizer A Paixão de Uma Homem e dizer "para aquela ingrata como está meu coração". Mais tarde veio o desabafo, cantado por todos, às claras ou na bebedeira envergonhada, dizendo que Eu não sou cachorro não. Era um desabafo para uma mulher, mas que foi assumido, mal assumido, como uma crítica social. Assim a Ditadura entendeu quando ele quis cantar Tortura de Amor, proibida numa época em que se torturava fisicamente alguns dos sonhadores brasileiros. Ainda hoje muita gente canta essa canção (hoje que a noite está calma, e mina alma esperava por ti....) sem saber que ela tem origem nos sentimentos de um ex-garimpeiro.
A propósito, José Sarney, conselheiro do atual presidente do Brasil, à época um dos premiados e responsáveis pelo sucesso da ditadura, recentemente negou que houvesse trtura no regime militar. Os tempos mudam e, para não poucos. Waldick Soriano vem se tornando um retrato de um Brasil, pouco glamoroso, mas carregado de emoções insatisfeitas, como muitas das necessidades básicas.
Em verdade. É apenas quando as necessidades básicas estão satisfeitas que os grupos e indivíduos humanos têm tempo para refletir melhor sobre as suas ações e sofisticar as maneiras de apresentar a beleza dos sentimentos de formas mais belas. Isso foi possível para o ator Fernando Torres que já chegou ao conhecimento dos telespectadores em sua maturidade de ator, depois de vários anos de teatro. Essa foi uma das vantagens da televisão, trazer para mais próximo atores como Fernando, sua mulher Fernanda Montenegro e sua filha Fernanda Torres. Personagens vividos nas novelas Dez vidas, Baila comigo e Laços de Famílias encantaram muitos que não podiam, nem podem ainda, ira aos teatros.
A morte desses dois artistas abre espaços para novos tradutores de sentimentos, embora, cada um a seu modo, tenha, criado formas próprias de tradução e comunicação com o seu povo, o povo brasileiro
quinta-feira, setembro 04, 2008
As Frentes do Recife
Participei, ontem, de banca acadêmica que aprovou o título de Mestre em História para Taciana Mendonça Santos, um texto resultante da pesquisa e reflexão sobre acontecimentos da política recifense e pernambucana entre os anos de 1955 e 1964. O título do seu trabalho já aponta o olhar de um historiador. “A(s) Frente(s) do Recife”.
Os três principais trabalhos que tratam desse tema (José Arlindo Soares, Roberto Aguiar e Antonio Lavareda) são de cunho sociológicos, e voltados para apreender os resultados das urnas, de maneira a justificar alianças políticas atuais (do tempo em que foram escritas) com alianças passadas. Assim eles conseguem ver apenas uma Frente, enquanto que Taciana Santos percebe que cada “Frente" exige alianças diferenciadas pois cada uma delas se faz em condições históricas específicas, ainda que se trate sempre de “alianças” políticas. Interessante, nota ela, que enquanto Pelópidas tem dificuldades em articular aliança com os setores de direita, Miguel Arraes faz esse trajeto com muita facilidade. A Vocação e a prática pessedista garantiu vitória tranqüilas ao mago vindo do Ararripe cearense.
Outro aspecto interessante da dissertação sobre as frentes do Recife, é a discussão feita sobre a criação e aplicação da lei que garantiu o retorno de eleições diretas para a capital pernambucana. Entretanto, ainda falta aprofundar as questões dessa história para as demais capitais, de modo a não criar mais um mito sobre Recife. O olhar do historiador é bem mais desmitologizador e deve ser mais praticado.
Penso que trabalhos posteriores irão confirmar a importância dos militantes comunistas na história política e social de Pernambuco, mormente do Recife, mas, creio, também irão demonstrar que as Frentes vitoriosas não o foram por conta dos comunistas, mas por conta da prática aliancista de setores inconformados da direita, bem casada com as orientações da "central" de decisões comunista. Pode-se verificar que as frentes vitoriosas de um aprendiz de Arraes, embora viesse a se tornar seu adversário (quase inimigo políticos), Jarbas Vasconcelos, sempre ocorreram pela direita. Pela esquerda ou só com os retalhos da esquerda, as alianças não são vitoriosas, como ocorre atualmente no Recife. Pode ser que venha a ser dito, em algum momento, que Recife é uma cidade cruel para todos, não apenas para os namoradores do fascismo, como Agamenom Magalhães. Os comunistas, como disse depois o professor Denis Carvalho, estão no centro do processo, mas é preciso ainda esclarecer se lá se encontram como principal protagonista, ou como peça que conservadores utilizam para mudar de maneira civilizada, de maneira ordeira, de modo satisfatório, sem acirramentos de ânimos, e, deposi da mudanças continuarem no poder. De certa maneira, ainda não explicitada, essa questão é posta pelas pesquisas de Taciana. Como ela disse, enquanto os outros estudiosos do tema parecia que estavam olhando os números das tabelas eleitorais, os seus olhos estavam mais voltados para o que diziam as tabelas que apontavam as letras, os partidos e, quando nas alianças não apreciam PSD, não havia vitória fácil para a Frente daquele ano, ou havia derrota.
Falta ainda estudar o comportamento das Frentes em relação às eleições estaduais e federeis, como bem frisou a nova mestra em História pela UFPE.
Parabéns Taciana.
Os três principais trabalhos que tratam desse tema (José Arlindo Soares, Roberto Aguiar e Antonio Lavareda) são de cunho sociológicos, e voltados para apreender os resultados das urnas, de maneira a justificar alianças políticas atuais (do tempo em que foram escritas) com alianças passadas. Assim eles conseguem ver apenas uma Frente, enquanto que Taciana Santos percebe que cada “Frente" exige alianças diferenciadas pois cada uma delas se faz em condições históricas específicas, ainda que se trate sempre de “alianças” políticas. Interessante, nota ela, que enquanto Pelópidas tem dificuldades em articular aliança com os setores de direita, Miguel Arraes faz esse trajeto com muita facilidade. A Vocação e a prática pessedista garantiu vitória tranqüilas ao mago vindo do Ararripe cearense.
Outro aspecto interessante da dissertação sobre as frentes do Recife, é a discussão feita sobre a criação e aplicação da lei que garantiu o retorno de eleições diretas para a capital pernambucana. Entretanto, ainda falta aprofundar as questões dessa história para as demais capitais, de modo a não criar mais um mito sobre Recife. O olhar do historiador é bem mais desmitologizador e deve ser mais praticado.
Penso que trabalhos posteriores irão confirmar a importância dos militantes comunistas na história política e social de Pernambuco, mormente do Recife, mas, creio, também irão demonstrar que as Frentes vitoriosas não o foram por conta dos comunistas, mas por conta da prática aliancista de setores inconformados da direita, bem casada com as orientações da "central" de decisões comunista. Pode-se verificar que as frentes vitoriosas de um aprendiz de Arraes, embora viesse a se tornar seu adversário (quase inimigo políticos), Jarbas Vasconcelos, sempre ocorreram pela direita. Pela esquerda ou só com os retalhos da esquerda, as alianças não são vitoriosas, como ocorre atualmente no Recife. Pode ser que venha a ser dito, em algum momento, que Recife é uma cidade cruel para todos, não apenas para os namoradores do fascismo, como Agamenom Magalhães. Os comunistas, como disse depois o professor Denis Carvalho, estão no centro do processo, mas é preciso ainda esclarecer se lá se encontram como principal protagonista, ou como peça que conservadores utilizam para mudar de maneira civilizada, de maneira ordeira, de modo satisfatório, sem acirramentos de ânimos, e, deposi da mudanças continuarem no poder. De certa maneira, ainda não explicitada, essa questão é posta pelas pesquisas de Taciana. Como ela disse, enquanto os outros estudiosos do tema parecia que estavam olhando os números das tabelas eleitorais, os seus olhos estavam mais voltados para o que diziam as tabelas que apontavam as letras, os partidos e, quando nas alianças não apreciam PSD, não havia vitória fácil para a Frente daquele ano, ou havia derrota.
Falta ainda estudar o comportamento das Frentes em relação às eleições estaduais e federeis, como bem frisou a nova mestra em História pela UFPE.
Parabéns Taciana.
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