sábado, setembro 27, 2008

Óbulo da viúva indeniza príncipes

Meus heróis morreram de overdose

Construída em uma poesia em que canta o seu retorno ao Brasil e celebra a Assembléia Nacional Constituinte, nesta frase Cazuza diz suas perplexidade em ver que pessoas de sua admiração estavam se acomodando no muro, nos centros e nos esquecimentos dos compromissos tomados nos dias de luta. “Meus heróis morreram de overdose”, uma overdose da materialidade que desmantelava, que dissolvolvia os ideais. O projeto que se havia proposto realizar estava sendo mercadejado, trocado por algumas moedas ou espaços por onde caminham os sons que alcançam nossos rádios e televisores. Foi muito difícil aceitar que os ideais fossem sendo transformados em mercadoria, como sói acontecer com tantos valores que se liquidificam diante nossos olhos. Tão difícil foi, que partido houve que expulsou alguns dos seus fundadores por terem eles aceitado assinar a carta constitucional. Mas o poder de corroer, de corromper que o tempo e o dinheiro possuem é quase sem medida, ou incomensurável, para citar uma palavra bem ao gosto de um que se elegeu "sem ódio e sem medo".

Entretanto, um filósofo antigo, fora de moda, escreveu que tudo que é sólido desmancha no ar. São frase que aprendemos, muitos repetem e nem mesmo se dão conta do significado, ainda que passem a maior parte dos seus dias repetindo-as, como as jaculatórias monásticas.

Mas tem outras frases como “onde está teu tesouro aí estará o teu coração”. Esta é uma dessas que aprendemos na infância e nem mesmo sabemos quem nos disse primeiro, se algum parente mais antigo – avó, avô, pai, mãe, tio, tia – ou o orientador espiritual da família, um padre ou pastor. Como disse e ensina Eduardo Hoornaert, o processo de evangelização na parte americana do Império Português, com poucos padres, foi feito mesmo pelos leigos, ou seja, avô, avó, mãe, pai, tia, tio, fossem eles escravos ou fossem eles senhores. Contavam essa frase que ouviram de algum padre que lera a Bíblia, e queria nos ensinar que o coração do justo procura sempre a Deus e o coração do idolatra está sempre próximo a alguma botija, banco, ou o que sirva para guardar ouro, dependendo do tempo histórico. Quase sempre, essa lição vinha acompanhada de uma outra frase: que se deve "buscar as riquezas que a cobiça e a ferrugem não corrompem". E as frase vinham acompanhadas de exemplos de homens, mulheres, jovens e até crianças que morriam por amor de Deus e não buscavam recompensa nem compensação nesta terra. Os que fazem o que fazem por amor de Deus já carregam consigo a recompensa. Assim, eu e muitos outros aprendemos e dar mais valor àquilo que não há dinheiro que pague, coisas como honra, ideal e outras quizilas que aprendemos a amar. Aliás, essa é outra frase que os pobres repetem muito – "não há dinheiro que pague" – quando comentam suas perdas espirituais. Imateriais, se diz hoje.

No século IV, em meio a tanta perseguição no Império Romano, com tantos relapsos que cederam aos encantos de baal e deixaram, parte de seus corações, próximo a algum posto no sistema, os concílios admitiram que se todos morressem por amor ao ideal não haveria como continuar o ideal. Pensamento pragmático. Como dizia o título de um filme americano estrelado por Rock Hudson, Elizabeth Taylor e James Dean – ultima participação de James Dean – Assim Caminha a humanidade.

Trocar os ideais por trinta moedas: assim fez Judas, ensinaram-nos os padres, ao sentir-se traído em seus projetos. Disseram que Judas não entendeu o que é a economia da salvação, essa sotereologia que nos garante a parusia, embora estivesse a serviço dela e dela fizesse parte. Se Judas era um caso perdido, por outro lado sempre existiram os Estevãos, as Cecílias, as Catarinas, os Franciscos, os Antonios Conselheiros. Esses depositaram suas graças no grande banco das indulgências.

Mas estamos em outros tempos e podemos, não perguntar, mas talvez sofismar, também. A questão é: Agora, depois que se lutou tanto, por amor ao povo e por a Deus, como dizia o Frei Tito, torturado até à morte, temos o direito de ficarmos surpresos com uma ação perpetrada contra o Estado brasileiro por um eminente Príncipe da Igreja, em busca de indenização por caausa de seus sofrimentos em celas da ditadura da ditadura militar. Estará ele trocando a glória de ser "confessor da fé" “por um punhado de dólares”?

Penso que essa se deve à senilidade desse homem que sempre esteve com o coração para o alto, como o seu nariz; talvez se deva a algum parente que deseje receber algo do povo. Não creio que essa excelência eclesiástica tenha esquecido que o Estado não existe por si e que a indenização será tirada dos impostos, pagos pelo povo que ele pretendeu tirar da exploração do faraó e levá-lo à Terra Prometida. Que os fariseus assim façam, que os fariseus esqueçam que o povo não os chamou para lutar por ele; o povo não organizou exércitos. Na verdade, em grande parte, o povo foi convocado pelos generais que hoje recebem estipêndios tirados dos cofre públicos, a gente pode até entender, mas se é para se comportar como os fariseus, qual é o sentido de tantas palavras e tantas alabações ao Deus dos Pobres?

Se se lutava contra os que explorava o povo de Javé, qual uma solitária no organismo da sociedade, a produção dos povos, como se pedir, agora, pedaços do óbulo da viúva?

É Overdose!

quinta-feira, setembro 25, 2008

Corrupção: banqueiro solto no Brasil e dinheiro preso na Inglaterra

A cada dia temos a oportunidade de ver as mais possíveis e estranhas realidades. Uma das mais recentes é que um grupo de pessoas e instituições, preocupado com o possível desaparecimento do livro por conta da internet, resolveu produzir um livro que custa 265 mil reais. Foi uma pequena tiragem de 33 exemplares, todos já totalmente vendida. O livro tem como tema a obra de Miguel Ângelo; um volume pesa apenas 24 quilos e sua confecção durou seis meses. é uma obra artesanal. Estão previstas edições de outras preciosidades que terão 99 exemplares. Assim alguém guardará a memória. Além de, como se imagina, vai aumentar o interesse por livros. Li na BBC.


Também na BBC li, e em outros lugares, que o Brasil continua entre os melhores países do mundo para corruptos e corruptores. É uma posição que se mantém nesse nível, nota 3,5. Atenção: quanto mais leniente com a currupçõa mais próximo de zero. Em 2001, neste mesmo painel, a nota do Brasil era 4,0. Baixamos um pouco, nos tornamos mais tolerantes com os corruptos nos últimos sete anos; Talvez, com mais alguns aloprados, alguns mensalões, alguns outros "caixa dois" (todo mundo em uma, disse uma autoridade para justificar o seu caixa dois partidário), um pequeno aumento de morosidade no judiciário, manutenção de fórum privilegiado e outras regalias ao pessoal do primeiro andar, não demora muito e a gente alcança a nota zero. "Os altos e persistentes níveis de corrupção e pobreza que assolam muitas das sociedades mundiais são o equivalente a um desastre humanitário e não podem ser tolerados".

Por outro lado, dos doze meses que trabalhamos por ano, ainda estamos pagando apenas 5 meses e alguns dias como imposto; ao mesmo tempo não nos é permitido receber bons serviços de saúde, educação e segurança. Nossos bairros cada vez parecem grandes corredores, com muros cada vez mais altos escondendo os jardins e as pessoas. Há solidões andando nas ruas dos bairros residenciais e solidões temerosas de saírem e andarem nas ruas. Criam leis para criminalizar pessoas que, na volta do trabalho param em algum bar por uma dose, enquanto não existe policiamento sério após as 16 horas. Após as 22 horas a responsabilidade é do atrevido que sai às ruas. Nossas escolas continuam a ser de tempo parcial, inclusive por que não há o que fazer fora das salas e dentro dos muros dos colégios, onde mal se consegue andar. Mas a aprovação é quase compulsória nas escolas. Quem sabe algum dia os secretários de educação irão perceber que educação é mais que carteiras, quadros, pincéis, professores! Sem áreas de lazer para a prática de esportes – simplesmente correr e gritar, já seria interessante para descarregar a agressividade dos jovens; necessitamos de teatros para que os jovens apresentem as sua criatividades várias, etc. Claro que não adianta apenas ter professores ou pagar um pouco melhor aos professores. Precisamos de professores motivados e com projetos de vida. Enquanto se mantiver essa política que envia para a sala de aulas pessoas sem outra motivação exceto o salário, vai ser difícil. Mas para que tenhamos professores com projetos capazes de motivar os seus alunos é necessário que vejamos uma mudança de postura nas autoridades e assistamos a penalização dos culpados.

Chega de passar a mãos em corruptos, chega de buscar um jeitinho para garantir a permanência dos amigos em postos quando eles estão sob suspeição. Aquele reitor da universidade de Brasília deveria ter se afastado do posto logo no dia em que foi feita a acusação para que a investigação não fosse comprometida. O mesmo deveriam ter feitos alguns ministros que assumiram parte da direção do país depois de 2001. Essas pessoas agarram-se aos cargos sob a complacência dos seus chefes. Deram exemplos ruins enquanto o seu chefe dizia que todos eram inocentes e dançavam e comiam pizza. Um escárnio e um exemplo, péssimo, para a sociedade.

Não adianta reclamar do resultado dos exames, deve-se mudar o comportamento.

Ah! li também que um juiz inglês mandou bloquear alguns milhões do banqueiro brasileiro Daniel Dantas, aquele mesmo que recebeu dois habeas corpus em uma semana - o que pode ser apresenttado como prova da não morosidade da justiça no Brasil - Pergunto-me se os advogados de Daniel Dantas terão, na Inglaterra, a mesma facilidade para defender os interesses do banqueiro de comportamento desviante.
Lá eles também têm corrupção, mas tenta, seriamente evitar que corruptos zombem dos honestos com tanta facilidade.

terça-feira, setembro 23, 2008

Esperanças no Recife

Embora já tenha escrito nesta manhã, depois de ter lido o Diário de Pernambuco e ter tido a alegria de ler o que escreveu Michele Assumpção, não me contenho em expressar a meus sentimentos. Vi que foi uma série de reportagens produzida pela equipe sobre como a periferia da cidade do Recife mantém e organiza a vida. Sem apelações, o texto de Michele apresenta um retrato que poucos entendem e, nem mesmo sabem que existe.

No mesmo jornal deste dia 23 de setembro, tem uma pequena nota em que o atual Deputado e candidato a vice-prefeito de Olinda, diz horrorizado que, nesses dias de campanha por votos, visitando áreas pobres, viu que meninos estavam caçando animais para a alimentação. Creio que horror do candidato nem mesmo lembrou ou fez relação com o tempo em que ele entrou na política defendendo presos políticos. Será que não se percebe que a situação está tão ruim, ou será que todos se tornaram seguidores e consumidores do Ouro de Tolo? Na Revista Veja desta semana está dito que um artista vendeu uma escultura de um touro com cascos e coroa de ouro puro. Mas o que Michele Assumpção mostra é como, na periferia da cidade do Recife, há pessoas jovens que depositam muita esperança no futuro; jovens que dedicam seu tempo a ensinar o que sabem, a organizar a sociedade em que vivem. Lá estão pessoas que moram na beira da maré e no Alto do Mandu. Em cada um há um projeto de vida que os lança para além de si mesmos, que os lança para o futuro e para os outros. Há, nas linhas escrita por Michele, um certo entusiasmo, uma alegria por perceber vida.

Michele é uma jornalista que se dedica ao conhecimento e a publicização daquilo e daquelas criações improváveis. O nome dessa jornalista está sempre associado à alma e criatividade popular. Ela consegue, como poucos, enxergar que Recife é sempre uma manhã de sol.

Aprendizes de feiticeiro e suas perguntas

Quero conversar um pouco sobre duas perguntas que me foram feitas durante a semana. A primeira foi «por que ter um blog»? e a outra foi sobre o que pensava a respeito do fato de um candidato a ser prefeito na cidade do Recife estar utilizando a, segundo dizem, a máquina administrativa a seu favor. Penso que só poderia dizer a resposta da segunda pergunta se eu tenho o instrumento que chamaram de blog. Como eu poderia publicar em algum jornal que o que este candidato está fazendo é o mesmo que o presidente de honra de seu partido estar a fazer?

Muito fácil acusar o discípulo, evitando tangenciar a figura do mestre, se este mestre tem o poder “da caneta”, como sempre mencionaram os políticos e os jornalistas do passado. Todos sabemos dos filtros que permitem a continuidade de certos comportamentos, filtros sociais e que, garantem a ascensão ou queda de alguns alguéns. A Roda da Fortuna não empurrada pelas mãos do acaso, mas pelas mãos dos criadores dos acasos. É necessária certa sabedoria para perceber a mudança dos tempos. Ora, os tempos, não o físico, porém os sociais pedem dos produtores de ventos fortes em passado recente que produzam, agora, a calmaria. Necessária se faz a cautela dos destemidos do passado, aconselha-se a não perder o que já se conseguiu, mesmo que o que se conseguiu não foi nem de perto o que se sonhava nos tempos da insatisfação. As grandes cuecas deixaram de ser apenas pano de fundo e protetoras de certos “documentos”, deixaram de ser simples proteção de partes da anatomia física para salvaguardar e esconder o resultado de novas posturas morais. E, parece ser óbvio, que o que se esconde e quem ficou calado diante dos diversos desvios, é até capaz de criticar o pequeno aprendiz de feiticeiro, mas jamais o feiticeiro maior. E depois, ficam, muitos analistas que se beneficiam do seu silêncio diante das impropriedades do feiticeiro, surpresos por nada tocar a figura do feiticeiro. E que eles, como aquele militante de um partido mais à esquerda do que o do candidato mencionado por ele, por não ter sido escolhido como o aprendiz principal, sabendo que depende do Feiticeiro, faz parte do mesmo jogo. E querem nos iludir com perguntas que, aparentemente são de oposição. Na verdade, é um discurso protetor, uma parede que protege o Feiticeiro que despacha tranqüilo na sala principal da casa. Depois as paredes irão reclamar que as pedras e ovos podres não alcançam aqueles que estão na sala sob a sua proteção. Uma reclamação que pode ser ouvida, e quem sabe, atendida por mais uma ação do feiticeiro, um pequeno recipiente com alguma porção mágica, algo que os alopre, algo que os faça sentir parte do grande jogo. Quem sabe, alguma recompensa pelos serviços prestados no passado, quando estavam juntos e ainda todos aprendiam os truques dos antigos feiticeiros.
Creio que esse espaço virtual, esse meu diário público me permite escrever essas coisas. Vou aprender um pouco mais e utilizar um pouco mais esse instrumento criado pelas feitiçarias humanas. Pena que os feiticeiros só muito lentamente permitem que os aprendizes livres alcancem e usem essa maravilha.

quinta-feira, setembro 18, 2008

O Estado do mínimo prejuízo aos bancos

Pois bem, não é que o Estado-Mínimo para atender a previdência, prover a saúde, a educação, a segurança e bem estar dos cidadãos deve ser mínimo só para essas tarefas? É exatamente isso. Quando é para garantir os direitos dos cidadãos mais pobres, vem a latumia a ensinar que o “mercado” é que deve ser respeitado e definir o preço da fatura. É assim com os salário: os trabalhadores devem se organizar e lutar para que tenham os valores de seus salários reajustados; por outro lado, os preços dos produtos são definidos unilateralmente pelo dito “mercado” que é controlado pelos donos das empresas que lutam para que os salários cresçam poucos e não diminuam os seus lucros.

Nós estamos vendo e experimentando essa situação desde os tempos em que Collor de Mello resolveu que o mercado é que deveria governar o Brasil. A política continuou com Fernando Henrique Cardoso que sedimentou essa situação do Estado-mínimo, retirando forças das instituições que garantiriam a segurança, a educação, a saúde e a velhice dos cidadãos. Cada um deve cuidar de si, diziam; o Estado não pode intervir na economia, os agentes econômicos e o “mercado” é que devem decidir os caminhos a serem trilhados; os cidadãos devem ser responsáveis por seus atos. Foi a cartilha neoliberal ensinada pela Margareth Tatcher e pelo Ronald Regan (não me contive e um dos cachorros da minha casa recebeu esse nome sugestivo). Muitos brasileiros foram estudar em Chicago e voltaram com a cartilha decorada. Fizeram tudo conforme o figurino. Assim como a “dama de ferro” inglesa quebrou a espinha dos sindicatos dos mineiros, o “príncipe dos sociólogos” quebrou a estrutura do sindicato dos petroleiros. Depois tudo foi cedendo e sendo cedido. O País foi privatizado. As empresas estatais foram vendidas por darem prejuízo e passaram a dar lucros. Os planos de saúde privados, como vampiros, passaram a controlar as doenças da população, cada vez mais privada dos serviços públicos de saúde; as universidades públicas tiveram planos para aposentadoria dos professores e funcionários, enquanto se favorecia o surgimento de universidades privadas, criadas por empresários da educação. Tudo tem que dar lucro: educação é um negócio e todo colégio uma empresa. Além disso, o governo não podia gastar dinheiro do Estado com essas bobagens de saúde e educação. Nunca há dinheiro para essas coisinhas. Mas quando alguns bancos começaram a ter problemas, o “príncipe dos sociólogos” e seus economistas inventaram o Proer, um programa para evitar que os cidadãos possuidores de bancos viessem a ter prejuízo. Uma das conseqüências do Proer é que hoje não concorrência entgre os bancos nos Brasil. Também foram tomadas iniciativas para garantir que os bancos estrangeiros seriam honrados por devores honrados, teve um candidato a presidente que foi aos Estados Unidos da América, e de lá veio com uma “carta aos brasileiros” com essa garantia. Apesar do titulo, a carta parece que foi escrita por assessores de banqueiros para os banqueiros. Tinha-se de acalmar o "mercado". O candidato foi eleito e está cumprindo o compromisso e todos estão muito felizes: os banqueiros por terem as suas bolsas garantidas, e os não banqueiros e sem condições de comprar o que comer com os salários, também recebem as suas bolsas. Os valores são diferentes, mas são valores. Tudo isso é possível graças à nossa criatividade: “o príncipe dos sociólogos” tem entre os seus desafetos os seus seguidores. Ele criou o Proer, o continuador de sua obra inventou um tal de superávit primário para que ficasse garantido o pagamento dos juros.

Agora somos um país que ri dos seus (nossos) professores. Pois não é que os alunos se tornaram professores de seus professores? Em uma visita ao Brasil, o senhor Bush disse que jamais imaginara que viria aprender algo com o Brasil, e ele disse isso se referindo ao programa de produção de etanol como energia automobilística e de tantos outros aplicativos. Essa semana vimos que os norte-americanos resolveram se curvar à inventividade brasileira, mais uma vez. Com a crise financeira se desenhando no mundo, a partir dos irresponsáveis do mercado imobiliário norte-americano, os Estados Unidos e países capitalistas defensores da liberalização do mercado e da ausência do Estado nas relações entre os agentes econômicos, criaram um Proer internacional. No mínimo, o Estado mínimo não pode deixar que os bancos quebrem. Afinal, eles são os donos do Estado. É o mínimo que o Esatdo mínimo pode fazer pelo "mercado", assim ele se acalma mais uma vez com o dinheiro dos contribuntes. Na verdade, devíamos cobrar royalties por essa nossa invenção econômico financeira. Prêmio Nobel de Economia para a equipe econômica de FHC, formada em Chicago.

Nossos índices melhoram a cada dia, nos dizem e juram as estatísticas do IBGE. Os juros que são pagos aos bancos auxiliam a nos fazer potência, embora nossas escolas não tenham os equipamentos necessários para nos alavancar (eita palavra querida por jornalistas econômicos!) ainda. Mas chegaremos lá. Já tem esgoto em 51% das casas brasileiras e 60% dos brasileiros são donos de suas casas, inclusive nas favelas. Não é uma glória? Parece que ninguém deve aos bancos as prestações da “casa própria”.
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terça-feira, setembro 16, 2008

A Esperança e as bolsas

A caminhada matinal me fez encontrar uma pessoa a colocar nas calçados retratos de um dos muitos interessados em prefeiturar a cidade, e de outros que desejam apenas a vereança. Por ordem de um juiz eleitoral, eles devem deixar espaço para os pedestres. Na verdade, pela maneira que os retratos são postos em exibição, podemos supor que o supervisor daquela pessoa está mais interessado em que os retratos sejam vistos pelos motoristas dos automóveis do que pela possível parada dos olhares dos pedestres. Interessante é que todos os personagens retratados expõem um belo sorriso. Alguém já disse que eles estão rindo dos eleitores. Não creio. Afinal, todos os que se dispõem a expor suas vidas no cuidado das coisas públicas, são pessoas altruístas, dedicadas à construção do bem comum e, jamais pensam em tirar vantagem pecuniária do exercício do cargo público. Assim eu penso, embora conheça muitos que fizeram ótimo pé-de-meia e garantem uma bela aposentadoria após oito ou doze anos de serviço público. Mas creio são exceções.

Vendo aqueles retratos lembrei-me de eleições passadas e, uma dessas lembranças veio a ser uma campanha para governador, aquela em que todos acreditávamos que a Esperança voltava, após os anos da ditadura. Naquela eleição, pusemos, mais uma vez, Miguel Arraes no Palácio das Princesas, de onde ele havia sido arrancado, mas não derrotado. Digo pusemos, pois naquela campanha tive alguma participação mais ostensiva.

Como a direita escalara um descendente de senhor de engenhos e terras da Mata Sul para se opor a Miguel Arraes. Escrevi vários textos tendo como mote o seguine: às vezes o velho é novo e o novo é velho. Entretanto sabemos que há velhos que são velhos e jovens que são jovens, jovens que não envelhecem e jovens que, por maldição histórica, sempre serão velhos. José Múcio era um jovem que continuava a tradição de umas coisas velhas do nosso estado. Hoje ele é um dos mais importantes ministros do presidente Luiz Inácio da Silva. Um jovem ministrando para um jovem.

Mas além daquele exercício cívico-literário e anônimo (mas foram bem reproduzidos pelo pessoal da campanha e distribuídos, especialmente nos comícios realizados nos bairros mais ricos), na época eu estava vice-diretor, professor de História da Igreja e um dos coordenadores de estudos do Instituto de Teologia do Recife. Alunos e professores não queriam ficar alheios ao clima de mudança, euforia e esperança que corria em Pernambuco e no Brasil. Era evidente que cada um, como cidadão podia participar da campanha política. Mas estávamos de arcebispo novo e, diferentemente do seu antecessor, Dom José Cardoso não permitia que pessoas ou instituições eclesiásticas assumissem compromisso público com qualquer dos candidatos. Todos entendíamos que o novo arcebispo não desejava que os católicos fossem orientados a votar em um candidato progressista, afinal ele havia sido escolhido para arcebispo de Olinda e Recife, entre outras tarefas, com o intuito de estancar as reflexões da teologia da Libertação. Os professores e alunos do ITER desejavam uma manifestação pública.

Contatos foram feitos e, uma noite, ocorreu uma reunião de Miguel Arraes com a direção do ITER, os Coordenadores de Estudo, professores e representantes de alunos. Foi uma conversa muito instrutiva para mim: aprendi que os médicos estavam se tornando uma força política por conta de seus contatos diretos com a população; aprendi que a Segurança Pública era uma área muito sensível e de difícil equação; entendi que a educação era uma prioridade no futuro governo e que Arraes continuava a focar os trabalhadores do campo. Depois desse encontro, uma reunião produziu um manifesto e eu fui escalado para levar pessoalmente o documento ao nosso candidato. Terminei por ser figurante de um dos guias eleitorais, entregando o tal manifesto àquele que era visto como a esperança e, ao mesmo tempo, um desejo de retomar o caminho que havia sido truncado em 1964.

Nunca saberemos realmente se a presença do Instituto de Teologia do Recife no guia eleitoral de Arraes auxiliou algo na sua eleição. Mas, penso que a lição de que devemos participar do processo democrático foi dada, mesmo que essa participação inclua riscos. O resultado da eleição foi favorável a Arraes, embora a sua eleição tenha causado desgosto a alguns dos aliados e, alguns anos depois, um deles se uniu a José Múcio para derrotar Arraes. Quanto ao Instituto de Teologia do Recife, algum tempo depois foi fechado por ordem romana aplicada pelo arcebispo. Deixei de ser vice-diretor do ITER, perdi o direito de ensinar História da Igreja em estabelecimentos eclesiásticos. Mas participei dessa e de outras campanhas eleitorais em que as pessoas acreditavam no que diziam e vibravam nas ruas. Depois vieram os marqueteiros e todos os candidatos passaram a ter o mesmo sorriso e a barba aparada e cabelos alinhados. Ganha-se em beleza perde-se em debate.

A esperança hoje são as “bolsas”: para alguns a eterna BM&F e para outros a que é dada nos bolsões, com os restos da BM&F. Todos os candidatos garantem que a bolsa vai continuar, a esperança é que a bolsa continue.

sexta-feira, setembro 12, 2008

A semana da Pátria

Esta foi uma semana que me pareceu quase típica. Digo assim pois o domingo, dia 7 de setembro eu não fui a nenhuma demonstração cívica: nem a oficial, com a presença das autoridades e do povo; nem a de protesto e advertência, conhecida como o Grito dos Excluídos, que vem sendo organizada desde que FHC era presidente e a atual administração do país era oposição e apoiava ações como essas da CNBB. Fiquei em casa, não como protesto, mas como um elogio à preguiça.

Mas, ficando em casa, dificilmente ficamos sem fazer nada. O ócio pode ser bastante produtivo e, naquele dia atendi a várias demandas atrasadas, depois de dormir. As poucas informações que as emissoras de televisão nos mandam, são realmente poucas, pois muitos dos jornalistas não correm mais em busca da notícia. Os donos dos jornais compram as notícias. As agências de notícias, sempre alguns, selecionam as notícias e as vendem aos jornais que, não por acaso são também donos dos canais de televisão, apesar da constituição (essa lei “arremendada” e chamada às falas sempre que sua aplicação prejudica alguém da elite – os antigos e os recém acomodados) proibir.

É salutar para nossa formação pessoal comprar os jornais domingueiros e compará-los. As manchetes são exercícios de dizer de forma diferente as mesmas notícias; as matérias são em sua maioria escritas fora do estado; os colunistas locais nunca discutem entre si e se esmeram em elogiar sempre algo ou alguém, mas raramente se encontra um debate. Pelos jornais percebemos o quanto os nossos escritores e filósofos pensam sempre a mesma coisa, supomos assim por conta da ausência de debate. Mas também pode ser que a fluidez do tempo e dos acontecimentos já não mais permita que sejam perdidas horas em busca de pensamentos. Por outro lado, já não se fabrica notícias desde a quinta feira, pois na tarde do sábado já estamos lendo as notícias do domingo, e elas foram impressas na sexta feira. Mas parece que isso é assim no mundo inteiro. Também ocorre com as revistas semanais que nós ouvimos antes de as comprarmos nas bancas ou as recebamos em casa. O domingo é uma continuação do sábado que só tem acontecimento fora de nosso mundo imediato, o Brasil.

Felizes aqueles que não deixaram crescer em suas casas locais como bibliotecas, ou lugar onde se guarde algum livro que possa ser acionado. Isso os impediria da glória de assistir a mediocridade em andamento nos programas televisivos. Evidentemente que a televisão pode trazer para dentro do lar o glorioso esporte da Fórmula Um, um esporte que garante o sucesso de muitos proctologistas, por conta das hérnias anais que podem ser provocadas pelo imenso esforço de ficar sentado ouvindo um dos maiores oráculos brasileiros.

Mas neste domingo do dia da independência, algumas pessoas dedicaram-se a ficar até tarde para ver um dos mais belos retratos da mediocridade atual, que é a legião de estrangeiros que formam a seleção brasileira de futebol, brilhantemente orientada pelo intangível e elegante Dunga. O empate-derrota nos garante o segundo lugar (acima da Argentina) neste momento da eliminatória, o que é quase uma ‘bolsa-classificação’, pois, se garante o momento atual, sem mudanças estruturais não há garantia de sucesso futuro.

Durante a semana participei de uma atividade promovida pelo Diretório Acadêmico de História, que pretendeu discutir relações interdisciplinaridades da história com outras ciências. Acho uma ótima idéia, mas, parece que, da mesma forma que químicos, físicos e matemáticos julgam que as humanas não são ciências (falam de ciências moles), os jovens do Diretório Acadêmico não convidaram nenhum estudioso ou cientista das físicas, químicas e matemáticas (dizem ciências duras) para pensarem alguma possível relação com a ciência histórica. Aqui fico ainda na esperança que nossos conceitos avancem um pouco mais, para que possamos entender - realmente entender, que, para além do populismo acadêmico, gente como Josué de Castro, médico de formação, deve ser considerado para uma conversa interdisciplinar. Essas incapacidades de atualizar o discurso interdisciplinar é que provocou o telefonema de uma universitária, escandalizada por saber que eu, professor de história estarei participando de um encontro a respeito de literatura. É nisso que dá esse negócio de ter que repetir o professor em tudo, caso haja o desejo de aprovação e ascensão na carreira acadêmica. E aí voltamos à questão do “bolsa” que tudo resolve e nos faz agora um país de classe média.

E dentro de 36 horas será domingo de novo. Tomara que meu filho traga meu neto para brincarmos na piscina plástica.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Pelópidas, o Prefeito do Recife

Pelópidas Silveira que morreu aos 93 anos de idade neste final de semana, foi prefeito da cidade do Recife logo após o término da ditadura denominada Estado Novo, foi o primeiro prefeito do Recife eleito após aquela ditadura e, foi o último prefeito da capital pernambucana antes da ditadura iniciada em 1964. A sua vida política, como militante, ocorreu ao longo da construção democrática, depois foi preso, teve seus direitos políticos cassados e, talvez desalentado, passou a ser um permanente conselheiro aos novos que se dispuseram a continuar parte de seu ideário. Entrementes, Pelópidas tem uma obra como professor na Universidade Federal de Pernambuco.

Quando minha família migrou da margem do Rio Capibaribe, em Carpina, para estabelecer-se em Nova Descoberta, antigo Beco da Tamancaria, aquela rua ainda não era calçada, mas o percurso que sai da Avenida Norte até a igreja Matriz de Nossa Senhora de Lourdes, foi calçada por Pelópidas. A parte da rua onde está a minha casa teve que esperar um pouco mais e foi obra da administração Augusto Lucena. Mas o tempo e os estudos me levaram a conhecer Pelópidas através dos estudos e pesquisas.

Durante algum tempo fui estagiário no Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano e, enquanto limpava e organizava documentos do governo do Estado, tomei algumas notas e transcrevei alguns documentos que interessavam à minha pesquisa sobre a arquidiocese de Olinda e Recife. Como católico, em meu tempo de infância ouvi falar de maneira pouco favorável a respeito de Pelópidas, especialmente um dos vigários de Nova Descoberta. Talvez eu quisesse compreender porque. Alguns dos documentos que copiei comentavam a eleição de Cid Sampaio que tinha, como companheiro de chapa, Pelópidas Silveira. Comecei a copiar o que podia e, algum tempo depois, dediquei-me a ler e refletir o que havia em minhas mãos. As reflexões levaram-me a entender que Pelópidas, quando foi prefeito na segunda metade da década de quarenta, estabeleceu a prática de garantir a venda de pescado para que a população católica pudesse cumprir suas práticas religiosas; verifiquei que ele estabeleceu a semana inglesa, realizando, de certa maneira, os anseios do Arcebispo Dom Miguel Valverde, para que fosse guardado o domingo como Dia do Senhor. Depois aprendi que a prefeitura do Recife, sob a administração de Pelópidas, concedeu um terreno, no bairro da Várzea, para que fosse construído o Seminário Menor Nossa Senhora da Conceição, local de início de preparação para a formação de sacerdotes. Mas, Dom Antonio de Almeida Moraes Junior não admitia que o Recife fosse administrado por uma coligação política formada por socialistas e comunistas e passou a fazer campanha contra a Frente, acusando Pelopidas de Comunista.

Pelópidas, organizador do Partido Socialista, foi um dos líderes dessas Frentes do Recife. Escolhido pelos alunos para ser o Paraninfo de uma das turmas do Colégio Arquidiocesano, estabelecido onde hoje estão prédios da UNICAP, ele foi notificado que não era uma pessoa bem vinda ao estabelecimento de ensino. Um dos diretores do Arquidiocesano era o padre Miguel Cavalcanti, aquele que veio a ser vigário na paróquia de Nova Descoberta e com quem mantive boa convivência até sua morte. O reacionarismo de Dom Antonio não o permitia enxergar as boas novidades, ele preferia evitar qualquer mudança que pusesse em risco a sua tradição mineira que ele confundia com a tradição da Igreja. Tal não acontecia com jovens intelectuais católicos que publicaram nota de apoio a Pelópidas.

Aquelas notas tornaram-se base para o meu doutorado e livro Entre o Tibre e o Capibaribe: limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife. O Dr. João Asfora, confrade no Instituto Histórico de Olinda, levou o livro a Pelópidas que, após o ler, quis conversar comigo. Asfora deu-me o número telefônico da residência do prefeito e conversamos por telefone. Comentou positivamente o livro, perguntou-me se haveria continuação de modo a debater, também, o pastoreio conservador do atual arcebispo. Não pudemos nos ver pessoalmente, conforme decidimos naquela conversa telefônica.

Comento aqui a emoção de ter conversado com alguém de minha admiração desde a minha infância e dele, que foi sujeito de tamanha importância para Pernambuco, conselheiro de tantos e ilustres personagens, ter gasto tempo para ler meus escritos e ainda dizer que foi dos melhores que ele havia lido recentemente.

A primeira obra sobre a primeira Frente do Recife parece ter sido escrita para ressaltar a necessidade de uma nova frente após a Ditadura, e em torno de Miguel Arraes. Assim, outras figuras foram postas em situação secundária. Novas leituras desses momentos históricos serão feitas e as contribuições mais permanentes e menos eleitorais aparecerão. Então veremos mais explicitado o papel de Pelópidas Silveira, guardião do pensamento livre.

sábado, setembro 06, 2008

WALDICK e FERNANDO: Artistas brasileiros

No quarto dia de setembro, como todos os dias de todos os ano, ocorreram mortes. Entretanto, duas mortes chamaram atenção. Logo cedo na madrugada ocorreu o passamento do cantor Waldick Soriano e, no começo da manhã recebemos a notícia da morte do ator Fernando Torres. Duas artes foram tocadas pela bruxa, e ela ganhou um cantor do povão e um ator mais conhecido da classe média.

Sei que está um pouco fora de moda usar expressões como essa – "classe social" – mas é que ela, além dos preconceitos e das semânticas, ela define melhor a sociedade quando a olhamos com o objetivo de fazer alguma análise para melhor conhecêla. Aliás, parece ser preconceituoso achar que não há classe social na sociedade em que existem classes e, consequentemente interesses conflitantes. Fico pensando na alegria do papa Leão XIII que era contra essa análise de sociedade baseada em classes com interesses que se contrapõem e estão em luta.

Mas voltemos a nos ocupar desses dois homens octogenários, Waldick Soriano e Fernando Torres; cada um foi, ao seu modo, retrato de uma parte da sociedade e, ao mesmo tempo, toda a sociedade viu-se neles e nas suas obras. Um era nordestino e foi mais ouvido pelas suas canções, nas emissoras de rádios e em apresentações nas mais diferentes cidades, desde o início da década de sessenta; ou outro, sudestino, foi primeiramente visto nos teatros do Rio de Janeiro, só mais tarde sendo conhcido pela população que possuía televisão após os anos setenta quando foi montada uma rede de televisão mais nacional, em extensão, que certas instituições nacionais. O primeiro mal concluiu cinco anos de escolaridade, e tornou-se escritor e autor de poesias que são repetidas por muitos, o outro, estudou até ser médico formado, mas se tornou um dos maiores atores do Brasil. Ambos amados e reverenciados pelos meios de comunicação social.


Chama atenção, nesses dois personagens da nossa cultura, o fato de que suas habilidades artísticas provocaram emoções e, enquanto o modo de apresentação das emoções em um, era considerado inferior, noutro, o seu modo de representação era motivo de orgulho, satisfação. As emoções são dos seres humanos que a vivenciam desde o lugar onde se encontram histórica e socialmente e lá fazem a sua história. Os diamantes são diamantes, ainda quando brutos, as emoções são emoções, ainda quando representadas cruamente.

Waldick, filho de uma família que o abandonou, criado no interior da Bahia, foi lavrador, garimpeiro, tropeiro, viveu as mais fortes emoções em sua juventude. E aprendeu a fazer canção das dores, suas e de seus companheiros. O primeiro sucesso foi na voz de Silvinho: Tu és o Maior amor da Minha Vida. Mas lembro que naquele período, o hoje bairro Nova Descoberta, cantava sempre Pobre do Pobre , que relatava o sofrimento de um homem que via seu amor ir ao altar com outro , um a quem ela não amava, porque, dizia ele "não tive o dinheiro para comprar a felicidade". Era o mesmo drama que fazia a classe média chorar, na mesma época, na voz de Antonio Prieto em La Novia, música tema do filme A Noiva, fenômeno de bilheteria em todas as classes sociais. Mas, se era chic chorar a dor de cotovelo de um espanhol, já era cafona a mesma dor vinda na voz e no jeito do povo brasileiro, em um bolerão ou mesmo samba canção. Outro grande sucesso de Waldick foi o pedido para que um amigo levasse uma Carta, para dizer A Paixão de Uma Homem e dizer "para aquela ingrata como está meu coração". Mais tarde veio o desabafo, cantado por todos, às claras ou na bebedeira envergonhada, dizendo que Eu não sou cachorro não. Era um desabafo para uma mulher, mas que foi assumido, mal assumido, como uma crítica social. Assim a Ditadura entendeu quando ele quis cantar Tortura de Amor, proibida numa época em que se torturava fisicamente alguns dos sonhadores brasileiros. Ainda hoje muita gente canta essa canção (hoje que a noite está calma, e mina alma esperava por ti....) sem saber que ela tem origem nos sentimentos de um ex-garimpeiro.

A propósito, José Sarney, conselheiro do atual presidente do Brasil, à época um dos premiados e responsáveis pelo sucesso da ditadura, recentemente negou que houvesse trtura no regime militar. Os tempos mudam e, para não poucos. Waldick Soriano vem se tornando um retrato de um Brasil, pouco glamoroso, mas carregado de emoções insatisfeitas, como muitas das necessidades básicas.

Em verdade. É apenas quando as necessidades básicas estão satisfeitas que os grupos e indivíduos humanos têm tempo para refletir melhor sobre as suas ações e sofisticar as maneiras de apresentar a beleza dos sentimentos de formas mais belas. Isso foi possível para o ator Fernando Torres que já chegou ao conhecimento dos telespectadores em sua maturidade de ator, depois de vários anos de teatro. Essa foi uma das vantagens da televisão, trazer para mais próximo atores como Fernando, sua mulher Fernanda Montenegro e sua filha Fernanda Torres. Personagens vividos nas novelas Dez vidas, Baila comigo e Laços de Famílias encantaram muitos que não podiam, nem podem ainda, ira aos teatros.

A morte desses dois artistas abre espaços para novos tradutores de sentimentos, embora, cada um a seu modo, tenha, criado formas próprias de tradução e comunicação com o seu povo, o povo brasileiro

quinta-feira, setembro 04, 2008

As Frentes do Recife

Participei, ontem, de banca acadêmica que aprovou o título de Mestre em História para Taciana Mendonça Santos, um texto resultante da pesquisa e reflexão sobre acontecimentos da política recifense e pernambucana entre os anos de 1955 e 1964. O título do seu trabalho já aponta o olhar de um historiador. “A(s) Frente(s) do Recife”.

Os três principais trabalhos que tratam desse tema (José Arlindo Soares, Roberto Aguiar e Antonio Lavareda) são de cunho sociológicos, e voltados para apreender os resultados das urnas, de maneira a justificar alianças políticas atuais (do tempo em que foram escritas) com alianças passadas. Assim eles conseguem ver apenas uma Frente, enquanto que Taciana Santos percebe que cada “Frente" exige alianças diferenciadas pois cada uma delas se faz em condições históricas específicas, ainda que se trate sempre de “alianças” políticas. Interessante, nota ela, que enquanto Pelópidas tem dificuldades em articular aliança com os setores de direita, Miguel Arraes faz esse trajeto com muita facilidade. A Vocação e a prática pessedista garantiu vitória tranqüilas ao mago vindo do Ararripe cearense.

Outro aspecto interessante da dissertação sobre as frentes do Recife, é a discussão feita sobre a criação e aplicação da lei que garantiu o retorno de eleições diretas para a capital pernambucana. Entretanto, ainda falta aprofundar as questões dessa história para as demais capitais, de modo a não criar mais um mito sobre Recife. O olhar do historiador é bem mais desmitologizador e deve ser mais praticado.

Penso que trabalhos posteriores irão confirmar a importância dos militantes comunistas na história política e social de Pernambuco, mormente do Recife, mas, creio, também irão demonstrar que as Frentes vitoriosas não o foram por conta dos comunistas, mas por conta da prática aliancista de setores inconformados da direita, bem casada com as orientações da "central" de decisões comunista. Pode-se verificar que as frentes vitoriosas de um aprendiz de Arraes, embora viesse a se tornar seu adversário (quase inimigo políticos), Jarbas Vasconcelos, sempre ocorreram pela direita. Pela esquerda ou só com os retalhos da esquerda, as alianças não são vitoriosas, como ocorre atualmente no Recife. Pode ser que venha a ser dito, em algum momento, que Recife é uma cidade cruel para todos, não apenas para os namoradores do fascismo, como Agamenom Magalhães. Os comunistas, como disse depois o professor Denis Carvalho, estão no centro do processo, mas é preciso ainda esclarecer se lá se encontram como principal protagonista, ou como peça que conservadores utilizam para mudar de maneira civilizada, de maneira ordeira, de modo satisfatório, sem acirramentos de ânimos, e, deposi da mudanças continuarem no poder. De certa maneira, ainda não explicitada, essa questão é posta pelas pesquisas de Taciana. Como ela disse, enquanto os outros estudiosos do tema parecia que estavam olhando os números das tabelas eleitorais, os seus olhos estavam mais voltados para o que diziam as tabelas que apontavam as letras, os partidos e, quando nas alianças não apreciam PSD, não havia vitória fácil para a Frente daquele ano, ou havia derrota.

Falta ainda estudar o comportamento das Frentes em relação às eleições estaduais e federeis, como bem frisou a nova mestra em História pela UFPE.
Parabéns Taciana.

domingo, agosto 31, 2008

Tributo a Mestre Salustiano


Pouco antes de iniciar a reunião mensal do Instituto Histórico de Olinda, nesta manhã, recebi a ligação de Afonso Oliveira informando da morte do Mestre Manuel Salustiano, o Mestre Salu, aquele matuto nascido em Aliança a 12 de novembro de 1945 e, crescido, veio morar em Olinda, tornando-se famoso por sua maneira de tocar a sua rabeca.


Salustiano foi menino de engenho, não o Menino de Engenho que foi José Lins do Rego, mas o menino pobre de engenho, quando os engenhos já eram pobres e os seus senhores tinham virado, desde muito, fornecedores de cana. Foi ele, mais que menino de engenho, foi um menino de sítio, como muitos.

No meado da década de quarenta, quando nasceu Manuel Salustiano, filho de João Salustiano, quem dominava economicamente aquela região era a Usina Aliança, para quem quase todos os “engenhos” botavam cana. Muitas das casas dos senhores haviam sido derrubadas, outras estavam abandonadas, pois os seus proprietários viviam no Recife, indo até à usina para acompanhar o que os gerentes e administradores faziam.


João Salustiano cortava cana e aprendera a tirar sons da rabeca. Vivia alegrando os bailes nos terreiros, quase sempre, na frente da casa dos administradores ou daqueles que trabalhavam com maior liberdade e podiam oferecer uma festa, vez por outra. Assim, João Salustiano exercia sua arte enquanto criava seus filhos, entre eles Mané, que queria tudo, menos acabar a sua vida cortando e sendo cortado pela cana.


Mané Salustiano acompanhava o pai e aprendia as coisas das brincadeiras. A rabeca era o instrumento de tudo nos bailes que ocorriam em toda a Zona da Mata: a rabeca era usada para o forró, para acompanhar as cantigas do Cavalo Marinho. Em um tempo em que não havia luz elétrica e só os ricos podiam ter acesso às vitrolas, João Salustiano era muito requisitado nos finais de semana. E o menino-rapaz Manuel Salustiano, Mane, como se pronuncia na região, foi aprendendo com o pai, e com outros, a dança do Cavalo Marinho, as poesias do Cavalo Marinho, as músicas dos pastoris, as canções dos pastoris, os pantins dos manulengos, os volteios das cirandas, as batidas do coco, os passos guerreiros dos caboclos. E foi aprendendo. Tocou no banco do maior mestre daquela época, o Mestre Batista, ali nas festas no terreiro do Sítio Chã de Camará. E tanto aprendeu que aprendeu que não podia ficar tocando e dançando de engenho em engenho, de terreiro em terreiro, como seu pai, como Biu Roque e outros.


Depois de ver o Mestre Batista fundar o Maracatu Estrela de Ouro, migrou para Olinda. Vendeu picolé, foi ajudante de pedreiro, foi guardando dinheiro e, como muitos, invadiu terreno para construir uma casinha. Tempos depois tudo foi posto no papel do cartório.

Olinda o adotou pela indicação do Lord de Olinda que compreendeu o seu talento e o apresentou a quem podia o apoiar. Tocando nas feiras, conheceu Leda Alves que levou o seu brinquedo para mostrar nos colégios, no mês do folclores, este, o mês de Agosto. Depois conheceu Ariano Suassuna.

Fundou em 1975 o Maracatu de baque Solto Piaba de Ouro. Esse brinquedo já aparecia no carnaval do Recife desde a década de 1930, mas foi subjugado, visto como debitário do maracatu de Baque Virado. Outra tradição, outra história. O povo tem muitas histórias e não apenas aquela contada pelos “meninos de engenho e das casas grandes”. Mestre Salustiano sempre amou o maracatu, aprendeu desde cedo a admirar esses gigantes que o povo da Mata Norte criou para assustar os meninos mimados e as moças e, ao mesmo tempo, animar a sua vida com a alegria de ser um guerreiro. Até os anos 80 os Maracatus de Orquestra ou Baque Solto eram temidos,mas Mestre Batista (Estrela de Ouro de Aliança) e Biu Hermenegildo (Águia Misteriosa de Carpina), Mestre Salustiano (Piaba de Ouro) decidiram fundar a Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco, e o fizeram de tal forma que hoje esse brinquedo é uma manifestação cultural pernambucana das mais importantes.

A morte do Mestre Salustiano, o Mestre Salú da Rabeca é um momento especial na vida da cultura pernambucana. A ele saudamos. Nele Saudamos todos os criadores de danças, músicas, teatro, mamulengos, cirandas, que são a vida da gente.


Conheci o Mestre Salu, tirei prosas com ele, brinquei no Lumiara Zumbi, dancei na Casa da Rabeca, joguei vozes e ditos de "Mateus" com João Salustiano numa festa de Reis. Estou com a dor dos filhos, especialmente a de Manuelzinho, de Maciel, os dois filhos com quem mais convivo e admiro, como admiro seu pai: Mestre Manuel Salustiano, um homem que fez mais pelo povo da Mata Norte de Pernambuco do que todos os barões e baronetes criados pela orgulhosa e decadente sucralocracia pernambucana a serviço do império.

A bênção Mestre Salú! Leva nossas saudações a Batista e Biu Hermenegildo.

Teu Povo te homenageia.
SALVE A NOSSA CULTURA

quinta-feira, agosto 28, 2008

A Pressa


No altar das profusas mistificações, não é difícil vender gato por lebre. A cada nova geração de brasileiros obtém-se o que se poderia chamar de lobotomia de nascença. São safras humanas cada vez com menor desejo de informação, menor espírito crítico e mais precária composição cultural. Com essa alienação de nascença, a desfiguração da nacionalidade se dá sem choro, nem vela.

Essas palavras de Pedro Porfírio são referentes ao seu temor de que, por conta das recentes descobertas ocorridas na camada pré-sal do litoral brasileiro, conseqüência dos investimentos e pesquisas realizadas pela Petrobrás, a pressa de fazer dinheiro o mais rápido possível, venham a criar uma empresa que enfraqueça a empresa que investiu e favoreça a presença de companhias estrangeiras. Isso vem acontecendo desde que deu-se início ao desmonte do Estado brasileiro, na busca do Estado-mínimo pregado por quem mantém o Estado maior para explorar os países de estado mínimo. Esta semana é de aniversário da morte de Getúlio Vargas, aquele que criou a Petrobrás, em 1953.

Essa pressa em criar mais uma empresa para enfraquecer a Petrobrás é consonante com a pressa do Senado Federal em, na noite de ontem, criar mais de 1000 cargos para o Poder Judiciário, sendo que esses cargos não serão ocupados por concursos, mas serão cargos de confiança... dos juízes. Não necessariamente do povo.

O poder judiciário é o mesmo que criou, apressadamente a “Lei Daniel Dantas”que proíbe o uso de algemas no Brasil. Lembro que ocorreu a mesma pressa, durante a Ditadura Militar, terminada em 85, para criar a Lei Fleury. Fleury era um delegado que atuava ativamente nos porões da ditadura, sendo um dos mais ativos torturadores. Acusado por um crime comum, se temeu que, preso, ele soltasse o verbo e comprometesse muita coisa e gente. Para “protegê-lo” criou-se uma lei que diz que réu primário tem direitos especiais: não pode ser preso. Como ele era um réu primário não podia ser preso. Essa lei beneficiou muita gente, inclusive foi saudada como uma conquista de mais um direito do cidadão. O mesmo está acontecendo com a Lei Daniel Dantas. Muita gente vai ser beneficiada, especialmente os que temem que ele fale coisas que não podem ser ditas. Coisas da família de barões, do Barão de Jeremoabo.

Enquanto isso, professores de diversos departamentos das universidades federais têm que apresentar justificativa para a solicitação de realização de concurso público. Tem que se justificar que se precisa de professores para a universidade. No departamento em que trabalho, temos receio de perder duas possiveis vagas, que serão preenchidas por concurso público. Ou se faz assim ou Ministério Público pode atuar a universidade.

Enquanto isso, são criadas, na madrugada, 1000 vagas, a serem preenchidas sem concursos, para atender as necessidades do judiciário. Os salários chegam a R$ 9.000.00. Nada contra o judiciário nem contra os amigos do descendente do Barão de Jeremoabo, mas bem que essas vagas criadas poderiam ser ocupadas por concurso público.

Ah! Sim, ontem o presidente do STF esteve no congresso para lembrar que os juízes devem ter um aumento de cerca de 5% nos seus salários, de R$ 21.000.00, tão desgastados pela inflação. O aumento do salário dos juízes implicará no aumento dos salários dos senadores e deputados. É uma cascata. É o efeito cascata, isso não quer dizer que é uma "cascata".

A aprovação dessas vagas pelo Senado Federal, no meio da noite, mostra que nossos senadores estão sempre trabalhando, dia e noite. Eles são impagáveis. Não há dinheiro, nem privilégio que chegue para pagar tanta dedicação ao trabalho!

domingo, agosto 24, 2008

Uma tarde excepcional

Foi um final de semana cheio de surpresas, iniciado com a visita que fiz a Ponte dos Carvalhos, um dos distritos da cidade do Cabo de Santo Agostinho. Para mim, Ponte dos Carvalhos foi, ao longo do tempo, um lugar de passagem, quando íamos, em pic-nic à Praia de Gaibú, um recanto que sempre estava na perspectiva dos moradores da Zona Norte do Recife, entre eles, nós moradores de Nova Descoberta. Não foram poucas as vezes que a Cruzada Eucarística da Paróquia organizou excursões para as praias do litoral sul. As preferidas foram sempre Gaibú e São José da Coroa Grande. Foi durante essas viagens que conheci Ponte dos Carvalhos.

Ponte dos Carvalhos foi, também, a paróquia que teve o padre Geraldo Leite como vigário. Geraldo Leite era sinônimo de inovação, na música, na liturgia, na maneira de comunicação com o povo de sua igreja. Moderno, não chegava a ser o oposto do vigário mais famoso do Cabo de Santo Agostinho, o padre Antonio Melo, homem de intenções interessantes, mas confuso na sua teologia e sociologia – sócio-teologia. Uma de suas confusões foi permitir, talvez promover, a derrubada da Igreja da Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos do Cabo. Mas essa é outra história. Voltemos a Ponte dos Carvalhos e a Geraldo Leite, que construiu um moderno templo, com belo afresco de um Jesus que se confundia com os pescadores. Pois bem, aquela bela pintura foi criminosamente modificada por ordem de um desses novos padres, pouco dados aos gostos da leitura e da apreciação artística.

Mas fui a Ponte de Carvalhos e, pela primeira, passeei nas suas ruas. Fui a convite de Daniel Xavier para assistir uma conferência que dava início, naquela localidade, da Semana Estadual do Deficiente. Daniel está sempre à escuta do nosso programa QUE HISTÓRIA É ESSA, na Rádio Universitária 820amm no ar sempre às 9 horas da manhã na quarta feira. Pode ser acionado em www.tvu.ufpe.br/am.htm.
Atraído pelo convite, terminei em uma mesa com a obrigação de dizer algumas idéias ao lado da psicóloga e professora Roze, uma especialista em educação para pessoas com necessidades especiais; e também ao lado do velho colega Manuel Aguiar. A conferência ocorreu no CENTRO CULTURAL MESTRE DIÈ, local onde funcionam várias atividades ligadas á comunidade. Nos anos passados aquele prédio servia para o Mercado da Farinha, abandonado, foi adotado pela PLAN, uma organização de origem alemã que trabalha para promoção e proteção dos direitos das crianças e dos adolescentes. Realiza hoje cerca de 50 projetos no Brasil nas áreas de Direitos, Saúde, Educação, Participação Comunitária e Segurança Alimentar e Nutricional. (http://www.plan.org.br/). O espaço é composto por um belo auditório, uma biblioteca, lugares para reuniões e jogos. No auditório viera alunos de duas escolas estaduais, com seus professores e muitas pessoas com necessidades especiais.


Entre essas estava Inês, uma menina que tem dotes especiais para a pintura e possui um grande senso de humor e alegria. Os momentos artísticos ficaram a cargo de rapazes e moças, portadoras da síndrome de dowm, chegados de Boa Viagem, que dançaram xaxado, xote. Foi uma tarde movimentada e com pessoas vivendo plenamente a sua vida, ultrapassando os limites, como dona Helena, a mãe de Inês.

Quanto ao Mestre Dié, não há retratos dele no prédio, mas todos sabem que ele foi dono de um Bumba Meu Boi, grande animador do carnaval de Ponte dos Carvalhos. Maria, que foi a mestre cerimônia da tarde, me fez prometer que eu voltarei a Ponte de Carvalhos para conversar com a família desse ilustre negro, o Mestre Dié.









Devo agradecer a Daniel Xavier, que me convidou sem informar que é um cadeirante, e que pediu que eu levasse livros para ele ler.



Esse povo não quer pena ou piedade, quer seus direitos respeitados.

segunda-feira, agosto 18, 2008

Dorival Caymmi

Nesse domingo passado, recebemos a notícia da morte, aos 94 anos, de Dorival Caymmi, um baiano que universalizou a sua poesia simples, baiana, brasileira. “Enquanto perguntava “o que é que a baiana tem”, Caaymmi cantou “Dora Rainha do Frevo e do Maracatu”, enquanto, à Marina, diz, "não pinte seu rosto que eu gosto...”, e, quando dizia que “é dengo, é dengo, é dengo que a nega tem”, não deixava de levar uma sandália para menina de “bolero” sambar quando acabasse “a sandália de lá”, pois queria ver a morena se requebrar. Esse Caymmi que descobriu que “o pescador tem dois amor”, também entendeu o segredo da “jangada que vai sair pró mar” enquanto o amor da terra ficava a “rezar pra ter bom tempo, pra não ter tempo ruim”; Esse mesmo Caymmi pôs muitas gerações de brasileiros a dormir enquanto nossas mães e tias cantarolavam o “boi da cara preta”, porque era "tão tardem a noite já vem... e mamaezinha precisa descansar...".

Creio que a primeira vez que vi Caymmi foi na revista Pererê, de quadrinhos que Ziraldo escrevia e mantinha para tentar desbancar o Pato Donald e seus asseclas. Na revista sempre aparecia um negro forte, deitado na rede com o violão deitando no peito a dizer que “no Abaeté tem uma lagoa escura, arroedeada de areia branca”. Nunca vi Caymmi, exceto em filmes, vídeos fotos e música. Embora todos soubéssemos que Caymmi estava na rede, a gente bem que penava que talvez o Caymmi fosse um outro Pererê, sempre calmo, trazendo solução para tudo, inclusive para o índio Tuiuí. Depois, só muito depois é que descobri quem era aquele negro bonito que se misturava com as lendas brasileiras. Descobri o fazedor de samba canção, o criador de músicas perenes.

Depois de Ziraldo, quem me apresentou Caymmi foi Zildo Rocha, quando ainda era presbítero católico, em visita que fez aos padres americanos que foram atuar em Nova Descoberta. Zildo tocava violão e, os padres americanos, que tinham sido alfabetizados em português com as músicas de Caymmi, pediam para Zildo, com eles, ficarem a “chamar o vento, o vento que dá na vela...”. Uma noite, entre muitos copos de guaraná, eu fiquei deliciado com os dedos de Zildo reproduzindo os acordes de Caymmi pra seus amigos Jorge van Antweerp, Miguel Jorissen, Helena e Maria. E eu, nos meus quinze anos, aprendendo a gostar de Caymmi. Tempos depois Caymmi ficou sendo o romântico que escrevia para Marina e dizia que “só louco amou como eu amei”. Assim eu pensei de minha (s) primeira (s) paixão (paixões).

Como Bandeira, Caymmi tinha a sua Pasárgada, com nome interessante, Maracangalha. Quantas explicações já ouvi para esse lugar mítico! A mais recente é de um professor de história da UNEB que estudou a primeira geração de negros libertos. Maracangalha seria um engenho onde sempre se comemorou o fim da escravidão, para onde convergiam os negros no Treze de Maio, até os anos vinte do século passado.

Caymmi, cantor de um povo Valentão “que não precisa dormir pra sonhar” foi para Marancangalha, esperar a sua Nalha, ao lado de Mãe Minininha e Olorum.

quinta-feira, agosto 14, 2008

Em torno do centenário de Dom Hélder Câmara

Em torno do centenário de Dom Hélder Câmara[1]
Severino Vicente da Silva

Em programa que mantenho na Rádio Universitária 820 AM, da Universidade Federal de Pernambuco[2], conversei com Luiz Carlos Luz Marques, doutor em História das Religiões na universidade de Bolonha, a mais antiga universidade nos moldes que conhecemos, tivemos como tema a sua pesquisa em torno das Cartas Conciliares de Dom Hélder Câmara. Essas foram as cartas que Dom Hélder escrevia para seus amigos no Brasil, comentando as ocorrências, como ele via, do Concílio Vaticano II Um dos ouvintes telefonou perguntando qual a importância do já falecido arcebispo de Olinda e Recife. O professor Luiz Carlos simpaticamente chamou atenção ao fato de que a publicação de parte das cartas de Dom Hélder na Itália, provocou um comentário de um dos sobrinhos do Papa João XXIII que dizia mais ou menos assim: somos abençoados e devemos agradecer por termos a visão de Dom Hélder sobre o Concílio Vaticano II, a Igreja não pode jamais deixar que se perca tão grande contribuição para a Igreja e sua história.

Ora, os mais jovens perguntam quem foi esse Dom Hélder Câmara de quem se comemora, no próximo ano o centenário de nascimento, pois a nossa memória é fraca e nesses tempos de rápidas mudanças e de dedicação maior às exterioridades desimportantes, rapidamente se esquece fatos, acontecimentos e pessoas que realmente tiveram importância. Dom Hélder foi cearense de nascimento e, ainda jovem padre foi para o Rio de Janeiro, onde representava os interesses da Igreja Católica no Conselho Nacional de Educação. Nos anos quarenta foi feito assessor da Ação Católica. Idealizou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB (1952) e a Conferência Latino-Americana dos Bispos - CELAN (1954). Feito bispo auxiliar do Rio de Janeiro, foi dos primeiros a entender que não basta fazer assistencialismo aos pobres, não basta dar comida, é necessário criar condições para os homens e as mulheres descubram e vivam a sua dignidade. Assim, deu início às ações que visaram humanizar as condições de vida dos cariocas que viviam pendurados em “barracões de zinco sem telhados” nos morros do Rio de Janeiro. Essa sua ação positiva lhe valeu a raiva militante de certa elite brasileira que se propõe, ainda hoje, manter o povo brasileiro escravizado na ignorância. Políticos passaram a chamar-lhe de “bispo Vermelho”. Contudo, Dom Hélder, ainda que não fizesse qualquer pronunciamento no Concílio Vaticano II, é visto hoje como o mais influente dos padres conciliares.

Logo nos primeiros dias da ditadura militar que os brasileiros inventaram em 1964, o Papa Paulo VI o enviou para substituir Dom Carlos Coelho como Arcebispo de Olinda e Recife. O professor Luiz Carlos diz que nas primeiras semanas de sua permanência no Recife, Dom Hélder fez o que muitos bispos não fizeram ao longo de anos.

As duas décadas em que Dom Hélder esteve como presidente da Província Eclesiástica de Pernambuco foram períodos de dor e sofrimento. Sob a ditadura Dom Hélder se tornou “a voz dos que não têm voz”, assumiu riscos na defesa dos direitos humanos, denunciou as torturas, passou a ser odiado tanto pelos ditadores, que a imprensa foi proibida de citar seu nome. Ainda que fosse para falar mal dele. Dom Hélder passou a ser um não ser no Brasil, enquanto o mundo o indicava para o prêmio Nobel da Paz. Naquele ano, o governo ditatorial de Garraztazu Médici promoveu ações que impediram um brasileiro ser Nobel da Paz. Dom Hélder devia ser esquecido no Brasil. De certa maneira os ditadores tiveram sucesso. Enquanto nas universidades da Austrália, Japão, Dinamarca existem cátedras para estudar e desenvolver as idéias do antigo Arcebispo de Olinda e Recife, aqui em Pernambuco pouco se sabe dele.

Será de grande auxílio para todos os aspectos da sociedade brasileira nos empenharmos para que os mais jovens saibam um pouco mais sobre esse nordestino que influenciou o processo de criação da Sudene. Tomara que os católicos, nesses tempos em que há igrejas e religiões que atendem com cartões de créditos, voltem-se para discutir as idéias de um bispo que morreu pobre como os pobres a quem queria ver livres da pobreza material e espiritual.
[1] Especial para o jornal a Província, de Goiana, PE e foi publicado na edição de junho 2008, número 182. página 10.
[2] Esse programa pode ser acessado pela internet no endereço www.tvu.ufpe.br , clicando em seguida em “am ao vivo”. O programa acontece todas as quarta-feira à nove horas da manhã.

quarta-feira, agosto 13, 2008

Medalha de Bronze, fibra de aço.

Todos nós estamos assistindo, ou ao menos acompanhando os resultados, os jogos olímpicos, este ano realizado em Pequim, na China. Enquanto algumas nações, duas delas asiáticas, disputam em número de medalhas de ouro, a delegação brasileira tem que estar alegre na conquista de três medalhas de bronze. Nada há de errado nisso e, na verdade, isto está muito correto e coerente com a situação vivida aqui em nosso país. Conquista de medalhas não é uma ação isolada, de um atleta. Uma medalha é resultado de um trabalho coletivo. É assim como nas famílias. As exceções são surpresas, não podemos as aceitar como normais.

É coletivamente que as coisas acontecem.

Todos nós sabemos que as notas conseguidas por uma criança, um jovem, na escola, é resultante de vários fatores. Assim, uma nota boa é resultado da alimentação da criança, mas não só; é resultado do estímulo que recebe da família para que estude, mas não só; é resultado de ter um espaço em casa para estudar, mas não só; é resultado do silêncio que a casa oferece a ele quando for estudar, mas não só; é resultado da tranqüilidade de seu pai no emprego, mas não; é resultado de uma assistência médica decente, mas não só; é resultado do esforço do professor para ensinar, mas não só; é resultado das condições agradáveis da sala de aula, mas não só; é resultado da existência de uma biblioteca na escola, mas não só; é resultado de ele ter boas expectativas de emprego, mas não só. É esse conjunto e muito mais que pode garantir um bom aprendizado e bons resultados. Não é um esforço de última hora que garante o aprendizado. Esforço de última hora garante recuperação, mas não garante aprendizado. O aprendizado de uma ciência, de uma atividade exige tempo e disciplina, esforço, perseverança.

Se houvesse uma disputa para ver quem esvaziava primeiro uma aeronave, os viajantes brasileiros ganhariam medalha do mais reles metal. Na verdade, se gasta mais tempo saindo de um avião no Brasil do que sair dos estádios onde estão sendo realizados os jogos olímpicos. Nós não estamos aprendendo disciplina e, se não há disciplina, não há organização, e também não se cria sentimento de cooperação.

Um país que muda a metodologia das pesquisas para enganar os seus sócios, não pode pensar em ser medalha de ouro, exceto no campeonato das desculpas, das mediocridades, do bacharelismo, das chincanas jurídicas. Pode até ganhar eleições, mas será ganho um envergonhado e de duração tênue.

Que bom que ganhamos a primeira medalha por conta do esforço de uma família pobre, negra, periférica, feminina. Exatamente o oposto de quem, em passes mágicos, torna-se milionário, sócios de multinacionais de telefonia enquanto busca outras cidadanias porque seus pais querem garantir o futuro de seus filhos.

A primeira medalha ganha pelo Brasil pôs à nu a mentira sobre investimentos em educação. Se bem que são tão poucos os que acreditam nessas mentiras ditas e reditas, como lembrou o ministro das relações exteriores, lamentavelmente falando sobre outro tema.

A medalhista Ketleyn Quadro teve que vender seus pertences pessoais para poder estudar, comprar o quimono. Não é a primeira vez que assistimos isso. É verdade que muitos já esqueceram o João do Pulo; o Joaquim Cruz, aquele que corria descalço no solo das cidades satélites de Brasília. E são tantos os que lutam contra as decisões que procuram destruir o gosto do povo por si mesmo!!!

Outro dia o presidente da República recebeu um menino do Coquem bairro do Recife, que disse que jamais havia dormido em uma cama.

Educação, saúde, trabalho, respeito. Esse conjunto dará medalhas no futuro. Mas para isso é necessário que as pessoas que estão no poder se disciplinem e parem de fabricar resultados duvidosos para enganar a população.

sexta-feira, agosto 08, 2008

À Cubana

Os eleitores brasileiros, aqueles que pagamos impostos, estão surpresos pelo fato de que os nossos juízes serem capazes de, com muita sabedoria jurídica, decidirem que todos os que cometeram algum crime, mas ainda não foram condenados na última instância, ou seja, no Supremo Tribunal, ainda que estejam constantemente cometendo crimes, podem ser candidatos a cargos eletivos. Ora, esses descumpridores de leis, ao serem eleitos, passam a ter foros especiais; só poderão ser julgados por seus pares, ou por tribunais especiais com juízes que são defensores do poder que os levou ao poder, das leis que lhes permitem estar acima de todas as leis, pois são eles os supremos.

Os juízes do supremo dizem que não podem legislar, que isso é competência do legislativo, formado, em parte, por políticos “ficha suja” que podem continuar candidatos pois o fato de terem cometido o crime não os impede de serem candidatos e eleitos. Os juízes desejam que os praticantes de crime, criem as leis que os proíbam de se candidatarem, de serem eleitos.

Como os juízes do Supremo não podem criar leis, determinaram que não se usem algemas quando certos criminosos vierem a ser importunados pelas polícias por conta de seus crimes. Elesm os juízes, dizem que isso não é uma lei, é uma norma que todas as polícias devem seguir para não serem importunadas por ações na justiça e que serão julgados por eles os juízes.

Ainda bem que nós sabemos que nenhum juiz iria tomar essa decisão pensando no futuro deles. Nós sabemos que nenhum deles jamais cometeu ou cometará nenhum crime, de nenhuma natureza. Os juízes são julgadores, são seres capazes de esclarecer a nós, pobres coitados, que nos deixamos levar pelas nossas emoções.

Na próxima vez que for a um restaurante procurarei saber se ainda existe um prato que respondia pelo nome de “supremo de frango à cubana”. Vinha com banana e abacaxi à milanesa.

terça-feira, agosto 05, 2008

Dia Estadual do Maracatu


O primeiro de agosto deste ano de 2008 conheceu, em Olinda, uma nova festividade. Desde as dezessete horas daquele dia começou a se formar uma pequena multidão na Praça Frei Casimiro que fica bem em frente ao Palácio dos Governadores, um prédio que André Vidal de Negreiros preferiu para residir, quando foi governador de Pernambuco no século XVII. É certo que ele estava, por conta de seu amor a Olinda, indo contra a tendência histórica que se encaminhava para por o Recife como capital., pois já era o centro econômico da capitania. Mas a multidão estava se formando para celebrar uma data, O Dia Estadual do Maracatu.

Entretanto o Primeiro de Agosto como referência ao maracatu já fora estabelecido no ano de 1998. Por um lapso qualquer, jamais a data havia sido comemorada. Sabemos que a memória é carregada de lembranças e que lembranças provocam, também, esquecimento de outras efemérides. As cronologias estão repletas de esquecimentos, e também os atos que fazemos. Ao tempo que explicitam alguns desejos também escondem, ou negam, outros. Devemos pensar porque certas datas são criadas e esquecidas.

Como dizia o poeta “todo dia é dia de índio” e, contudo, temos uma data para nos lembrar que somos índios; mas a utilizamos para dizer que índios são os outros. Talvez as datas sejam criadas para satisfazer algum grupo, alguma pessoa; talvez criem as datas para que as pessoas esqueçam-se delas. Contudo, dez anos após a criação do Dia do Maracatu, uma pequena multidão postou-se na frente do Palácio dos Governadores para reverenciar uma tradição, ao tempo em que foi sendo lembrada do centésimo décimo ano do nascimento de Luiz de França que, na Bomba do Hemetério, manteve vivo o Maracatu Leão Coroado, o mais antigo maracatu de Baque Virado do Recife.

O Maracatu de Baque Virado, que surgiu em dois grandes centros urbanos – Igarassu e Recife - é resultado de festividades religiosas, interferência policial e manifestação leiga e política de uma comunidade. Do ponto religioso, o Maracatu remete às Irmandades Religiosas que existiam na cidade do Recife que congregavam homens e mulheres negras, fossem escravos ou livres. A maior dessas irmandades foi a de Nossa Senhora dos Homens Pretos. Na festa da Senhora do Rosário ocorria a coroação do Rei do Congo, uma tradição que já ocorria em Portugal e foi trazida para o Brasil. Um rei negro era coroado e, ao tempo em que os detentores do poder na sociedade escravocrata reconheciam alguma dignidade nos homens e mulheres negras, admitindo que, entre eles, havia uma hierarquia, um poder que os poderosos não conseguiam tangenciar, mas utilizaram essa hierarquia para a manutenção da ordem social.

Coroado, o rei saía em desfile desde a Igreja do Rosário dos Homens Pretos e tomava as principais ruas da cidade. Mas, semelhantemente às cronologias, os atos processionais carregam em seu interior experiências que não são percebidas pelos assistentes. Só os amantes sabem o significado do amor. Os demais apenas intuem como os ex-amantes o fazem ao verem os amores dos outros.






Rosário dos Pretos de Igarassu
Enquanto se manteve a união perfeita entre o Estado e a Igreja n Império Brasileiro esses cotejos reais eram vistos como salutares. Contudo, mudanças provocaram a dissolução das relações sociais e, ainda no século XIX, as Irmandades perderam espaços para novas instituições, da mesma forma que a sociedade, ao superar as relações de trabalho escravocrata também dispensou a atuação do Rei do Congo. Entretanto, comunidades negras mantiveram o cotejo, a procissão do Rei do Congo, e esse cotejo foi se tornando maracatu.

Os maracatus foram importantíssimos para a organização das populações negras após a abolição da escravatura, pois ele se tornou a referência que era possível aos negros que ficaram livres de seus donos, de suas canseiras, de suas obrigações doloridas. Como disse o sociólogo alemão, ficaram tão livres que seus corpos eram tudo que tinham para vender na nova sociedade.

Nos lugares em que se preparavam para o desfile no carnaval do Recife, um carnaval que nascia no final do século XIX; durante o ano, as tradições eram reorganizadas, e as nações foram sendo criadas. O desfile do Maracatu era leigo, mas estava vinculado ao sagrado de uma nação. Como Dona Santa, Badia e Eudes, Luiz de França representava essa tradição da nação pernambucana.





Rei menino




Sem negro não há açúcar, sem açúcar não há Pernambuco. Sem negro não há Pernambuco e, por isso, mesmo sem saber é que a Assembléia Legislativa criou o Dia do Maracatu, homenageando, na pessoa de Luiz de França, todos os Reis de Congo que mantiveram os povos negros unidos em suas nações enquanto construíam Pernambuco e inventavam o Maracatu de Baque Virado.

Pensando bem, é capaz de nós desconfiarmos porque é que depois de criar a data esqueceram, durante dez anos, de promover a festa. Mas este ano nós começamos mais uma tradição na nossa nação que junta todas as nações. Um bom início para o Mês da Cultura.

quinta-feira, julho 31, 2008

Virus da corrupção

Em um outros momentos - 09 de julho e 21 de julho - fiz cometários sobre os privilégios que estão sendo concedidos aos que decidiram viver contra qualquer ordem moral no Brasil. Privilégios que estão sendo concedidos por juízes. Preocupa mais ainda quando a gente está assistindo a tentativa de fazer dos escritórios de advocacia lugares sagrados e invioláveis para que a polícia deles não se aproxime. Algo como ocorria na Idade Média quando os criminosos corriam para as igrejas fugindo da perseguição de algum senhor e ficavam sob a proteção de Deus. Essas ações que dizem ser ealizadas para proteger os direitos dos cidadãos, escondem a intenção de eliminar qualquer tentativa da sociedade proteger-se dos criminosos, são sérias e precisam ser pensadas.
Como não sou advogado, jurista, estudioso do assunto, mas apenas um cidadão que lê a Constitução Federal, ressolvi colocar neste meu espaço as reflexões do cidadão Antonio Sebastião de Lima, um advogado que já está aposentado e que não pertence a esta geração que está gerando incerteza no país, com o auxílio de deputados e senadores - muitos deles advogados -. O texto foi publicado no jornal A TRIBUNA DA IMPRENSA, do Rio de Janeiro, no dia 31 de julho de 2008.
Boa Leitura e boa reflexão.


VIRUS DA CORRUPÇÃO
Antonio Sebastião de Lima


A manifestação do senador Heráclito Fortes, em estudada pose de indignação, denuncia ligação com o banqueiro Daniel Dantas, de quem se declara amigo. O senador incluiu-se no inquérito policial, embora a simples menção do seu nome não significasse indiciamento. Com essa manobra, ajuda o amigo, quiçá provedor, a escapar da Justiça comum. Ambos se beneficiarão com o privilégio de foro, essa vergonhosa sobrevivência monárquica em país republicano e democrático!
Os aristocráticos criminosos do colarinho branco servem-se do Supremo Tribunal Federal (STF) como porto seguro. O caso Henrique Meirelles é emblemático. O caso José Dirceu seria o contraponto se a velocidade dos trâmites superasse a do bicho-preguiça na travessia da estrada. Até o final do processo, por volta de 2080, os acusados terão desfrutado, em liberdade, o dinheiro obtido ilegalmente e deixado, aos herdeiros, considerável patrimônio. Os pósteros dirão: "O finado Delúbio estava certo".

A relação Heráclito-Dantas não é de se estranhar. A corrupção endêmica na sociedade brasileira a explica. O vírus cultural foi inoculado já na colônia portuguesa. Inteligência e esperteza andam juntas na aquisição e expansão do patrimônio. Os freios morais afrouxam-se. A compulsão pelo crescimento da fortuna elimina o senso ético.

O indivíduo se torna amoral e poderoso. A cornucópia atrai senadores, deputados, chefes de governo, ministros, magistrados e outros serviços públicos. A esperteza Heráclito-Dantas poderá ser neutralizada. Basta desmembrar o inquérito. No primitivo ficam os primeiros indiciados. Nos inquéritos desmembrados serão indiciados os personagens da ramificação da atividade criminosa, inclusive Heráclito. As provas produzidas em um inquérito servirão aos demais mediante fiel reprodução.

A responsabilidade penal é individual. O Ministério Público poderá oferecer tantas denúncias quantos forem os inquéritos, com a vantagem de não esperar a conclusão dos mais novos. A denúncia contra o senador seria oferecida pelo procurador-geral da República e o respectivo processo, se instaurado, chegaria ao fim por volta de 2108.

Estranhável foi o habeas corpus (HC) concedido a Cacciola para evitar algemas, camburão e exposição à imprensa. O HC destina-se a amparar a liberdade de locomoção (CF 5º, LXVIII). Cacciola havia perdido essa liberdade em decorrência de sentença penal condenatória. Sendo legal a prisão, o HC é incabível. Algemar criminosos não caracteriza ilegalidade ou abuso.
O constrangimento é legal, atende a fins morais e jurídicos, ocorre em todos os continentes, indiferente à riqueza, pobreza, periculosidade ou mansidão do prisioneiro. Conduzir o preso em camburão ou em outro tipo de carro oficial e usual é decisão que compete à autoridade policial.
O comando policial é que está qualificado para saber o que aconselham as circunstâncias de cada diligência, se há perigo, se há algum tipo de risco, qual o percurso mais seguro e assim por diante. O meio de transporte oficial e usual não constitui ameaça à dignidade de quem já está condenado. No caso Cacciola, houve rombo no erário, processo, prisão, soltura, fuga para a Itália.

A imprensa não perderia o lance do retorno do fugitivo. Não havia motivo algum para impedi-la de registrar e noticiar os acontecimentos. Os jornalistas e/ou populares, quando muito, poderiam ameaçar a integridade física do preso, mas aí a medida protetora seria outra, tanto da parte da polícia, como da parte do Judiciário.

Dir-se-á que o direito do prisioneiro à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem estava ameaçado pela polícia e pelos veículos de comunicação, e que o remédio era o HC. Acontece que a garantia para esse tipo de direito é o mandado de segurança e não o HC. Na situação de Cacciola, demonstrar a liquidez e certeza desse direito seria tarefa impossível. A inviolabilidade do citado direito é de quem está em situação lícita, do ponto de vista jurídico. A pessoa condenada pela Justiça criminal sofre restrição e privação de bens, como a liberdade, a propriedade e a honra.
Ao praticar crimes, o agente fica sujeito à suspensão e à perda de direitos. Inexiste igualdade daquele direito entre o prisioneiro e as pessoas livres, decentes, honestas e cumpridoras dos seus deveres. Carece de sentido o protesto por intimidade e privacidade. O regime prisional do Estado prepondera. Para que haja efetiva proteção judírica à honra é necessário que a pessoa seja honrada.

O Estado não está obrigado a proteger a imagem de criminosos. O próprio Cacciola não se preocupou com a imagem. Beneficiado pelo insólito HC, sem algemas, deu risonha e cínica entrevista à imprensa. A parcela honesta da nação brasileira, que prima pela honradez, certamente, ficou injuriada ao receber tal bofetada.

A.S. de Lima é professor e juiz de Direito aposentado

segunda-feira, julho 28, 2008

VANILDO DE POMBOS, poeta do forró


"Nessa sua maldade irás envelhecer, sem conseguir vencer minha simplicidade, quem fraqueja é covarde, a inveja é do cão, quem nasce para ser forte trás o dote na mão. Pode falar de mim que não estou nem aí".

Vitô e Darcy eram dois jovens quando se conheceram no Paraná, embora houvessem passado
a maior parte de suas vidas no mesmo município de Vitória de Santo Antão. Apaixonaram-se, casaram-se e tiveram muitos filhos, a maior parte deles nascido em Pernambuco, no mesmo município de Vitória de Santo Antão, para onde regressaram fugindo da exploração. Mas agora o lugar já era parte do município de Pombos, criado em 1964. O primogênito, Vanildo, nasceu paranaense em 1960. Ainda no Paraná ouvia seu pai tocando e fazendo festa na sala da casa, recebendo os colegas que trabalhavam na mesma roça. Em Pernambuco, o menino fugia do roçado para brincar de cantor, cantando para capins e flores silvestres. Depois quis aprender tocar sanfona, no instrumento de seu Vitô, que proibia, pois não queria que seu menino ficasse enganado com essas coisas de poesia e cantoria. Dona Darcy deixava o menino tocar escondido do pai.

Embora fosse amante da natureza, não era da sua natureza o trabalho de agricultor. Vanildo veio para o Recife, dormiu nas ruas, depois protegeu-se sob o teto do futuro Centro de Criatividade Cultural, aprendeu a fazer música enquanto guardava os instrumentos dos artistas. Plantou-se na porta da Rádio Jornal do Comércio para falar com o “Coroné Caruá”. Um dia foi atendido, cantou e conseguiu uma pontinha em um comercial. Seus primeiros dinheiros foram usados para comprar presentes para a família que se encantou com um televisor preto branco, portátil à base de pilha. Ainda hoje está guardado. Depois foi fazendo crescer o sonho de um disco.

Criador de sua vida, Vanildo foi para o sertão e manteve um programa de rádio. Voltou para o Agreste, criou o personagem GEREBA, inspirado em seu primeiro padrinho artístico, o “Coroné Caruá” e manteve um programa radiofônico em Vitória de Santo Antonio. Como cantor e compositor passou a ser Vanildo de Pombos, deixando claro seu carinho pelo lugar de seus avós, seus pais e seu.

O sonho de Vanildo de Pombos o levou à ao Rio de Janeiro, São Paulo, França, Bélgica, Alemanha, Portugal, e Nova Iorque (Festival Lincoln Center -2003). Lá visitou e cantou no Central Park, no monumento dedicado a John Lennon, com quem se identificava na luta da causa pela paz e no desenvolvimento de uma espiritualidade universal.

Essa espiritualidade parece que o auxiliava a prever certos acontecimentos de sua vida. Uma vez ele sonhou com uma equipe da Tv Globo indo atrás de seu carro. Isso aconteceu quando ele cantou os intervalos dos jogos da copa que teve o pernambucano Rivaldo como destaque.

Vanildo de Pombos com Genilval Lacerda, Terezinha do Acordeon, Santana, e Dominguinhos. Neste ano foi homenageado no São João de Gravatá. Preocupado com a violência crescente em nossas cidades, Vanildo de Pombos estava preparando um festival para promover a paz no Agreste. No sábado, dia 26 de julho, Vanildo de Pombos foi assassinado quando saia de sua casa, em companhia de Cláudia e Maria Clara sua esposa e filha. Correu para longe de seus familiares para protegê-los.

Neste domingo, mais de dez mil pessoas acompanharam o poeta de Dona Darcy, seu Vitô para sua última morada, na sua cidade.

Vanildo de Pombos gravou quatro discos e compôs mais de trezentas músicas. Eu conheci, estive em sua casa com sua família e ele também esteve na minha casa. Estamos trabalhando na construção de sua biografia, a biografia de um poeta do forró.