quarta-feira, outubro 11, 2023
Parte do processo civilizador
Essas coisas da História da humanidade
Prof. Severino Vicente da Silva (Biu Vicente)
Ouvimos histórias, lemos histórias, contamos história, estudamos histórias, história dos homens e das mulheres, a história da humanidade. Nem sempre prestamos atenção ao que nos dizem essas histórias, essas letras, símbolos que nos deixaram os antigos para que as decifrássemos; não as notamos envoltas em sangue e as seguimos contando sem nos apercebermos que as histórias dos humanos sempre foi sanguinolenta. Rios de sangue seguem os conquistadores
A história ocorre em constante parto, e no parto há sempre uma quantidade de sangue derramado. São dores de parto, essa nossa história. Esquecemos deste detalhe quando manuseamos um livro de história e encontramos que Ciro dominou a Pérsia; que Hamurabi fez um belo Código de normas para controlar o comportamento dos seus súditos que, segundo ele, dominava os quatro cantos da terra. Mas seu império caiu diante Sargão, o assírio que teve seu reino tomado pelos Medos de Ciáxeres. Sabemos que os gregos derrotaram os troianos e temos, bem claro em nossa memória comum, que um cavalo foi dado e recebido como presente. Sabemos da bravura dos povos do Oriente que não se curvaram ao poder de Alexandre da Macedônia, aquele que pôs fim à rivalidade entre espartamos e atenienses, conquistando-os. E quem é capaz de esquecer que César atravessou o Rubicão após derrotar gauleses Poderíamos continuar contando os sucessos dos generais e dos império e, nem imaginamos o sangue vertido, o sofrimento sentido. Foram séculos de guerra permanente na formação dos povos que chamamos ocidentais e, sabemos que também rios de sangue foram base dos sucesso dos reis do povos orientais, chineses, mongóis, japoneses e outros tantos. A humanidade vive em dores de parto, teria escrito Paulo de Tarso; a história é um vampiro, alimenta-se de sangue humano, escreveu Michelet.
A guerra e tudo que lhe acompanha: o medo, o terror, a fome, a tortura, o abandono, a morte, foi o comum na existência da humanidade que, em todos os continentes e culturas sempre procurou alternativas ou justificativas para esse comportamento dos animais que se disseram sapiens. Se a descoberta da metodologia de fazer o fogo a qualquer momento foi crucial no processo de ampliar o espaço para a caça com os outros animais, com a agricultura, em seguida, veio o disputa com outros grupos de homo sapiens e, temos a invenção da guerra. Da busca por terra e seu controle, tudo veio a ser permitido. Aqui e acolá algumas normas foram sendo elaboradas para garantir a sobrevivência do grupo, de tal forma que ele fosse capaz de enfrentar outros grupos. Hamurabi, Gilgamesh, Moisés, Ciro, Dracon, Solon, Confúcio e outros estabeleceram normas de conduta. Mas a absorção de tais normas eram em sua maioria voltada para garantir a a coesão e sobrevivência de cada grupo, comunidade, tribo, etc. As guerras eram impiedosas, assim como os castigos aplicados aos que feriam as normas. As penas sempre foram maiores que os crimes cometidos. É com Cesare Beccaria (17h38-1794) que tem início um processo mais comedido na aplicação das sentenças, com os homens criando as suas leis e, não apenas seguindo as “leis que foram ditadas por alguma divindade”.
Quanto ao comportamento nas guerras, as gravuras que noticiam a Guerra dos Trinta Anos, na Europa seiscentista, dão mostra de que os soldados, que trabalhavam por saque, agrediam a todos indistintamente, sem controle. As chamadas ‘árvores dos enforcados’ são a demonstração da ação dos reis em busca de controlar seus soldados. Mas isso foi sendo conseguido aos poucos, com a criação dos exércitos nacionais, o que diminuiu em muito a violência contra os civis. A violência dos homens armados contra grupos humanos sem armas ou com armas de menor efeito, levou ao massacre e genocídio dos povos e nações do dito Novo Mundo, de nações asiáticas e africanas entre os séculos XVI e XX, período que Norbert Elias diz ter havido, na Europa Ocidental, um Processo Civilizatório, um processo de contenção, de controle social, de modo a permitir a sobrevivência social. Esse controle da violência, que garante a vida em sociedade, nem sempre tem sido apreciada pelos críticos da ‘civilização ocidental’, uma vez que a sua civilidade parece ser favorável apenas aos, povos ocidentais. Mas foi ainda no século XIX que ocorreu a Primeira convenção de Genebra (agosto de 1864) para debater o comportamento dos exércitos no cuidado com feridos, definir a proteção à população civil, além da criação da Cruz Vermelha. Outros Tratados, no total de quatro) realizados em Genebra ampliaram a legislação e proteção dos combatentes e não combatentes. A reunião de Haia (1899) com a participação do brasileiro Rui Barbosa; a reunião de Genebra (1914) com a participação de Epitácio Pessoa, e em 1949, com a participação de Osvaldo Aranha, são parte desse processo civilizador que pretende minorar os efeitos colaterais da guerra.
Mas a realidade anda mais rápido que os legisladores e a absorção dos ideais que nascem da criação de utopias.
Esses tratados são respeitados pelos 196 países signatários, aqueles que não assinaram não sente a obrigação de o fazer. Alguns preferem a barbárie, pois a civilização estabelece limites que impedem o comportamento puramente animal e aponta para a convivência com os que pensam diferente.
Ouro Preto, Olinda. 11/10/2023
quarta-feira, abril 12, 2023
A Páscoa e os cativeiros a serem vencidos
A PÁSCOA E OS CATIVEIROS A SEREM VENCIDOS
Prof. Severino Vicente da Silva
Semana da Páscoa deste ano põe em celebração conjunta os judeus, que reverenciam a ação mosaica em liderar seu povo a sair do cativeiro faraônico; a celebração cristã da ressureição de Jesus Cristo após sua paixão e morte, com as celebrações do povo cigano, amante da liberdade e cultuador de Jesus Cristo, em constante movimento por ser rejeitado por muitos povos que se autointitulam cristãos. Os cristãos, semelhantemente a Jesus, são sempre rejeitados por que Jesus sempre foi visto entre os menores e sem poderes da terra. A vida de Jesus é alegre, dispersadora de bondade, ocupado em cuidar dos pobres sem recusar o convite dos ricos para visitas. Quando vai a casa dos ricos opulentos e esbanjadores de riquezas que não lhes vem de seu trabalho direto, sempre os recorda que o verdadeiro tesouro é a vida. Este ano a Semana da Páscoa veio acompanhada da notícia de um massacre de crianças em uma creche no Rio Grande do Sul. O velho mundo de Herodes tentado evitar o crescimento do novo, esse apego à morte que, nos últimos tempos tem, em terras brasileiras, tem atacado escolas. Uma notícia pouco difundida é que a professora que foi ferida ao defender as crianças sob seus cuidados, morreu alguns dias após. Essa notícia nos faz lembrar que “prova de aor maior não há que doar a vida pelo irmão”. Essa é a Páscoa cristã.
Estamos a caminho de novas mudanças de paradigmas em nossas convivências, agora que nos alcança o que nós criamos: a Inteligência Artificial. Eis que nos encontra ainda, infelizmente, em fase de uma Ignorância Natural. Teremos que nos relacionar com as máquinas, cada vez mais, elas cada vez mais capazes de realizar ações das quais estávamos cansado de fazer. As máquinas, as criamos para que nos servissem, para que nos sobrasse tempo necessário para o aprimoramento dos espíritos. Talvez sonhássemos como os filósofos mais antigos que, defendiam a liberdade carregados por escravos; pois alguém cuidava de suas roupas, de suas comidas, de seus afazeres enquanto, no ócio obsequioso, as poesias jorravam e as explicações eram dadas. Contudo, a maior parte de nós cuidou de usar o tempo, não para aprimorar o espírito, mas para cuidar da vaidade, da ganância, do falar mal, de pensar como prejudicar o outro em benefício próprio. Máquinas foram criadas, diminuíram as distâncias, puderam aproximar as pessoas, ajudaram a produção de alimentos de tal forma que, desde o final do século XIX, a fome poderia ter sido extinta e nenhum ser humano deveria morrer por falta de alimentos. Entretanto, a fome grassa enquanto poucos carregam para si o que falta para muitos. Teria isso acontecido por termos ficado parecidos com as máquinas que agiam a partir de nossa vontade? E será que o medo que vemos crescer, o medo da Inteligência Artificial, é elas nos repliquem? Ou será que tememos que elas possam desenvolver a bondade que falta aos muito guardam o excesso e sorriem diante da morte dos humanos e do planeta?
Uma grande crítica que se faz ao Papa Pio XII é que ele desenvolveu, praticou, uma diplomacia bastante afável ao ditador Adolfo Hitler; seria a mesma que o querido Papa Francisco está aplicando ao ditador da Nicarágua?
sexta-feira, março 31, 2023
QUE VEIO COM MARÇO
Prof. Severino Vicente da Silva
Último dia de março de 2023, término de uma expectativa a respeito de um passado que parece jamais ser passado, o 31 de março de 1964 e madrugada do 1º de abril, quando os militares mais uma vez, à serviço dos interesses de uma pequena parte da população brasileira e de interesses de grupos de fora do país, deram início à uma ditadura que durou até 1985. Entretanto, derrotada pelo movimento que levou à anistia de presos políticos e pelas eleições diretas em todos os níveis, essa ditadura, continuadora de outras que vieram antes, parece ser invencível. A política de Conciliação que tem marcado a história do Brasil, evitou revoluções e, os mesmos grupos continuam a se suceder no poder, estabelecendo os caminhos que a nação brasileira tem trilhado desde que deixou de ser portuguesa. Os que sucederam Dom João e Dom Pedro I encontraram meios de mudarem sem permitir que as mudanças ocorressem ou ocorram. Cada época os grande proprietários de terra encontram o seu Bernardo Vasconcelos, esse “grande político” que se dispõe a “fazer a revolução antes que o povo a faça”, o que vem acontecendo desde a “maioridade de Pedro II”. Por esse caminho trilharam Prudente de Moraes, Getúlio Vargas, Castelo Branco (na ausência de um civil), Collor de Mello, o falso civil Bolsonaro e agora Artur Lira. Talvez eu esteja exagerando, mas vivemos em tempos de absurdos, mas a união de Lira, Bolsonaro e Campos IV me põe a ter pesadelos. Mas sempre tem aparecido algo que não estava nos planos, como um leve pneumonia. E Lira e está sendo obrigado a tocar outra música e o candidato a ditador percebeu que pode ir para a prisão, como seu amado Trump que está cada vez mais próximo de uma condenação por pagar mal os serviços de uma atriz pornô. Às vezes os grandes bandidos são condenados por pequenos delitos, assim como Al Capone não foi condenado pelas mortes que fez e mandou fazer, mas por mentir ao Imposto de Renda.
As elites econômica, latifundiária e financeira que governa o Brasil sempre encontram meios para agraciar os frequentadores dos alpendres de suas residências, o que antigamente chamava-se “clientes”, sempre convidados para servirem de moldura para o retrato “atual”. Para calar alguns clientes insatisfeitos com os caminhos tomados pela ditadura do Estado Novo, Getúlio definiu que portador de diploma de curso universitário teria direito a cela especial, como eram poucos os portadores de diplomas, e todos relacionados, de alguma maneira, com as famílias de poder, essa “regalia”, algo que dado por algum rei, se manteve ao longo do século XX, quando poucos brasileiros entendiam que havia Direitos Humanos e que a Constituição define que todos os cidadãos são iguais perante a lei. Agora, com o fracasso da tentativa de retomar, com feições piores, a ditadura de 1964, finalmente o STF pôs fim a esta excrecência, a este excremento ditatorial. Foi a luta contra a Ditadura que levou os brasileiros a tomar consciência da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e o paladino primeiro desse caminho foi o então Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, com o movimento Pressão Moral Libertadora e o seu sucedâneo, Justiça e Paz, nos anos iniciais do período mais terrível do poder militar aliado a civis, os anos de 1968 e 1969.
A “elite” brasileira sempre resolveu os impasses que viveu com a violência. Ela se fez pela violência sistemática contra os povos que habitaram primeiramente o Brasil, e quando digo isso não me refiro ao massacre que os portugueses realizaram entre 1500 e 1810. Precisamos estudar ainda como ocorreu a ocupação do Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Santa Catarina, Acre, depois de 1822. A matança dos indígenas brasileiros não pode ser creditada apenas ao período português na América, os brasileiros fizeram sua parte neste genocídio. Uma leitura na revista O Cruzeiro, especialmente nos anos cinquenta nos lembraria algumas barbaridades próximas. A violência é a marca da conquista do Pantanal. Aliás era cantada nos carnavais: “lá no bananal mulher de branco, levou Prá índio colar esquisito...” , a violência que continua sendo aplicada a todos que não se adequam ao modelo vigente, seja o modelo dominante, seja o subsidiário, que parece contrapor-se, mas que como se dizia no império: nada mais parecido com o conservador como um liberal no poder.
Hoje é o Dia do Livro Infantil, aquele escrito para que as crianças, com seus cérebros em crescimento recebam informações sobre o mundo; o livro, além de ter um perfume característico, desenvolve o tato, o prazer de tocar, senti-lo áspero e suave enquanto atiça a imaginação, levando a criança, depois o adolescente, a imaginar coisas que o autor imaginou, mas o leitor sempre põe mais uma cor na imaginação, uma curva no caminho. É na infância e adolescência que o cérebro cresce, guarda informações que nos chegam pelos sentidos. Neste mês de março soubemos que pessoas e instituições que criaram, usam e ensinam a usar a Inteligência Artificial, mostraram-se preocupados com a evolução dessa AI e o risco que a sociedade humana está vivendo. Desde o final do século XX que a arte mostrava a possibilidade de as máquinas tomarem decisões pelos humanos que as criaram e, mesmo contra os seus criadores. 2001, uma Odisseia no espaço e O Exterminador do Futuro são exemplos desses alertas que agora nos vem de cientistas e mesmo dos chefes das grandes empresas, com Google e Twiter. Eles sabem que um bom número de pessoas dessas novas gerações cresceram sem os desafios que a leitura de um livro traz, pessoas que já encontram tudo pronto e que vivem ao toque do teclado. A nossa cultura humana criou a crença em uma possibilidade de viver sem dor, sem esforço e que já não precisa nada além de uma máquina que faça o que ela deseja. Agora já temos máquinas que são capazes de dizer aos humanos o que eles devem desejar e, como a maioria da população humana do planeta tem sido educada para crer em tudo que vem da máquina, percebem que as máquinas podem, sim, dominar os humanos. Os guindastes foram benvindos, passaram a fazer o trabalho dos estivadores, e os engenheiros sorriam pois não precisariam cuidar de tantas pessoas. Os estivadores foram desempregados, tornaram-se inúteis. Agora as máquinas estão começando a fazer os trabalhos dos engenheiros, que ficaram preocupados e não mais sorriem, pedem que se dê uma pausa na programação, nos estudos, no aperfeiçoamento da Inteligência Artificial. Talvez tenham percebido tarde que a evolução não se está dando mais no homem, e sim nas máquinas. O ser humano evoluiu para as máquinas que fazem café, que movimentam a produção de uma fábrica. Os engenheiros inventaram máquinas que dispensaram o homem e a mulher, tiraram dos homens e das mulheres aquilo que as faz humanas: o trabalho. Trabalho é uma ação com objetivo e, também uma ação que gera novos objetivos. Mas só percebe os novos objetivos quem educou o cérebro para pensar, e essa seria a evolução humana; contudo, os engenheiros resolveram que os cérebros deveriam ser treinados para fazer ações que completassem as atividades das máquinas. Aos poucos os humanos forma perdendo a capacidade de pensar, e de sentir, e de ter compaixão, e de sofrer com o outro humano. Agora a principal ocupação dos homens é cuidar de algumas máquinas para que elas não apresentem defeitos. A grande preocupação não é mais entender o paciente, mas verificar o que a máquina disse a respeito do sangue que foi levado a máquina. Lembro de um livro, lá nos anos oitenta do século passado, que instava que os médicos dedicassem “cinco minutos” aos seus pacientes. Mas se as máquinas são capazes de oferecer o diagnóstico, para que os médicos? Não sem razão aos poucos tiraram da formação do médico a reflexão ética e moral, afinal essas coisas só se aplicam aos humanos e, preocupar-se com isso pode impedir a lucratividade da atividade médica que deixou de ser a cura, mas a organização do grande placebo que é o consultório cheio de máquinas. Afinal é necessário cuidar da saúde financeira. Quanto ao economistas, lembro de um que estabeleceu um pequeno apiário; quando recolheu os primeiros litros, mostrou aos amigos e um deles perguntou: trouxe para nos presentear? E ele respondeu: ninguém dar aquilo que vende. No decorrer da conversa, um professor disse que estava com livro novo sobre suas pesquisas, seus novos conhecimentos e, com naturalidade, o economista disse, “não esqueça de trazer o meu, terei prazer de ler o presente que você me dará.” O professor continuará “dando aulas” e livros, desde que não conteste as orientações dos engenheiros, médicos, economistas que estão sendo substituídos pelas máquinas e, pedem: diminuam o ritmo das pesquisas, pois nos perdemos.
Já faz algum tempo que as escolas estão sendo atacadas, estudantes mortos enquanto recebem a possibilidade do conhecimento, professores são mortos em plena atividade de ensinar, e morrem enquanto procuram meios para educar os cérebros e os sentimentos daqueles que chegam até a sua sala de trabalho. A grande sociedade não quer conversar sobre esses acontecimentos que mostram os primeiros resultados de uma sociedade que parou de evoluir moralmente, amorosamente. Debater tal assunto por mais que cinco minutos usando as máquinas que comandam os horários das famílias, que decidem que os programas mais cerebrais devem ser apresentados após as 23 horas, pois os operadores das máquinas já foram dormir, após terem sido imbecilizados enquanto estavam acordados ou em movimento. Os operários precisam descansar um pouco para sentirem as máquinas quando estiverem operando-as. A boa administração da sociedade ensina que não se deve distrair os operadores de máquinas com assuntos que possam trazer ansiedades humanas; isso diminuirá a sua taxa de produtividade. Aliás essa palavra está cada vez mais usada nos espaços dedicados à formação dos cérebros que já estão formados, os cérebros dos universitários.
Para crescer saudáveis os cérebros carecem de receber carinhos e os grandes “inimigos” das máquinas são aqueles criadores, transmissores de carinho e conhecimento. Com tempo, assim como os cachorros aprenderam a amar, as máquinas poderão vir a ser grandes amantes. E então, vitória total: não teremos mais professores, pois o antropoceno terá sido ultrapassado.
sábado, março 04, 2023
EM DEFESA DO POVO BRASLEIRO NOS CASOS DAS UVAS GAÚCHAS E DO AÇÚCAR PERNAMBUCANO
EM DEFESA DO POVO BRASILEIRO NOS CASOS AS UVAS GAÚCHAS E DO AÇÚCAR PERNAMBUCANO.
Prof. Severino Vicente da Silva
ORCID 000000189111409
Viver , parecer ser surpreender-se cotidianamente com as manifestações da vida e os desejos da morte, essas pulsões básicas que S. Freud nos desvendou. Saber dessas forças antagônicas que carregamos, nos auxilia a compreender alguns comportamentos, algumas tendências que vemos ao nosso redor e, às vezes, dentro de nossa própria alma. Seja de nossa alma individual, seja a coletiva que, aparece de múltiplas formas em nossas fidelidades a esse ou àquele grupo. Não poucas vezes vivenciamos esse antagonismo pois que pertencemos a muitos grupos simultaneamente. Pertencemos a um grupo nacional e, nele sentimos o quanto alguns dos nossos sócios nos temem e, por isso, procuram nos diminuir, destruir o que construímos.
Nesta semana tivemos o caso de um vereador de uma cidade do Rio Grande do Sul, talvez descendente de algum europeu que chegou aqui no Brasil após 1870, puxando uma corda pensando que ele ainda possuía uma cachorro. É que lhe haviam tomado tudo, menos a imbecil ideia de que havia um “fardo do homem branco”, como dito pelo poeta Rudyard Kipling, condenado a distribuir civilização e ganhar ódio por isso. É que a civilização que levavam a quem não desejava, estava carregada de cobiça e ódio. A cobiça destruía a riqueza dos lugares aonde chegaram e o ódio fez aforar a mais funesta forma de destruição humana: o racismo, a negação da humanidade do outro, como cultura. Arraigado aos modos de pensar dos séculos anteriores, quando os europeus, em busca de riquezas espalharam a morte nas terras e nos mares nunca antes conhecidos, aquele vereador da cidade de Caxias do Sul, quis justificar a prática da utilização do trabalho escravo nos vinhedos do Sul Maravilha, acusando-nos, “os de lá cima” de sermos um povo que gosta de festa, praia e tambor. Sim, nós gostamos disso, pois amamos a vida e sua pulsão, mas não fazemos apenas isso, como os trisavós do vereador constaram ao chegar nesta terra e foram ajudados a nela se fixarem e viverem. Fizeram isso, mas não se despiram dos conceitos tendentes à morte. Como seus antepassados tinham escravos, viviam em uma sociedade escravocrata, fortaleceram, quem sabe, as más lições que aprenderam do outro do Oceano, pois foi a escravidão, como método, um dos principais fatores da riqueza europeia. Este mesmo vereador, ao ver-se interpelado pela sociedade por conta da sua defesa da escravidão e do preconceito contra o Brasil e os brasileiros, veio pedir desculpas e chorar lágrimas de crocodilo, mas não pediu desculpa quando, algumas semanas passadas, acusou os Ianomami de preguiçosos e responsáveis pela morte das suas crianças, pois defendia os garimpeiros que destruíam a fauna e flora dos rios e da floresta. Como não foi pressionado ao atacar os indígenas, senhores primeiros dessa terra brasileira, sentiu-se à vontade para atacar os brasileiros, especialmente os do Norte e Nordeste. Seu racismo, o seu ódio ao Brasil é visceral, estrutural. Ele é incapaz de ser um humano, pois nem soube seguir a orientação de seu advogado que o mandou chorar, ao contar a vergonha que alcançou toda a sua família. Quem odeia não chora.
Mas esse ódio ao brasileiro não exclusividade de parte da população do sul do Brasil, esse ódio ao que o povo pobre cria, apesar de todo o sofrimento e exploração a que tem sido submetido desde que os europeu trouxeram a cana de açúcar e iniciaram o processo de escravização dos indígenas e dos africanos. Sempre lembro que um famoso e amado escritor ficou estupefato com a beleza de cores e movimentos dos caboclos de Tracunhaém surgindo em uma pequena elevação. Na Ocasião disse que era incompreensível que, após tantos anos de exploração, o povo ainda criasse tanta beleza. Ele poderia ter dito: após termos explorado esse povo durante quinhentos anos, como é possível ele ainda está com tanta vida, com tanta criatividade. Pois bem, Valéria Vicente revela em um de seus livros, que famoso colunista social acusava os caboclos do Maracatu Rural de levarem o cheiro de urina e mal gosto de suas fantasias para o carnaval do Recife. Dez anos depois, de muitas lutas e demonstrações de vitalidade, o mesmo cronista, no mesmo jornal, saudava os Maracatus que chegavam da Zona da Mata, especialmente de Nazaré da Mata, pois que traziam com os seu chocalhos, com seu vestuário colorido e alegre, um novo vigor ao carnaval da capital. O povo, os caboclos da Mata Norte, venceu o preconceito do cronista da elite conservadora de Pernambuco. E o que temos hoje em Nazaré da Mata, município que desse sua manutenção à cultura imaginada e criada pela dança dos caboclos que afirmam sua presença desde que seus antepassados, em guerra, perderam suas terras para um povo que, em diversas ocasiões, não cumpria o que havia sido acordado. Os Caboclos de Lança fizeram renascer o município de Nazaré da Mata e muitos outros da região, por isso o governo estadual cedeu terra para um monumento ao Caboclo de Lança, reconhecido como símbolo nacional na capital da Inglaterra, anunciando as Olimpíadas a serem realizadas no Brasil; um artista criou belos caboclos gigantes que foram cobertos de azulejos pela mulheres da Associação das Mulheres de Nazaré da Mata. Um espaço para os Maracatus, para os caboclos que são os cortadores de cana, os criadores das duas principais riquezas do município e da região. Mas a elite local, ignorante e pouco versada na história do seu país, ou mesmo envergonhada do povo que a alimenta, fez eleger um prefeito que, durante o carnaval, mandou avisar por de seus secretários – terá sido o da cultura? – que o monumento aos caboclos, ao maracatu, aos trabalhadores rurais será destruído para construir um “parque de eventos”. Talvez ele esteja pensando trazer, para o “seu parque de eventos”, algumas atrações que são exatamente isso: É VENTOS.
Ao caso do racista do Rio Grande do Sul, cabe processos jurídicos. Que ele seja punido no rigor da lei para aprender a ser gente e não envergonhar seus pais, e seu país. No caso de Nazaré da Mata, devemos pedir a intervenção do Secretário de Cultura do Estado que defenda o patrimônio cultural da região.
Talvez o secretário de Educação possa ser chamado para que o prefeito e seu secretariado assista algumas aulas (debates) de história da região e do Estado, mesmo sabendo que cimento duro não absorve água.
Bibliografia
VICENTE, Ana Valéria. Maracatu Rural: o espetáculo como espaço social. Recife: Associação Reviva, 2006.
https://ensinarhistoria.com.br/o-fardo-do-homem-branco-exaltacao-do-imperialismo/
terça-feira, fevereiro 28, 2023
UMA VIAGEM PARA VER O PASSADO NO PRESENTE.
UMA VIAGEM PARA VER O PASSADO NO PRESENTE.
Prof. Severino Vicente da Silva, Professor Associado UFPE; sócio correspondente do IHAGGO, sócio da CEHILA, sócio do IHO.
Após as delícias do carnaval, este mês terminou com uma experiência desejada, faz tempo: conhecer alguns engenhos da antiga Capitania de Itamaracá no município de Goiana. Quando conversamos sobre o Goiana, quase sempre nos voltamos ao seu passado e, mais explicitamente, sobre os seus aspectos externos, o material artístico, arquitetônico construído na parte central da cidade, os lugares para onde se dirigiam os que iam cultuar a sua religião, seus santos e seu Deus. Esses lugares importantes testemunhas da longa, e ainda curta, história dos brasileiros, refletem a riqueza que era produzida nos canaviais e engenhos desde o tempo que os portugueses tomaram para si as terras dos tabajara, dos caeté tantos outros povos que viviam na região. Mas ainda hoje esses canaviais são importantes fonte de riqueza para a município. Sempre quis saber onde estão, com estão, qual o segredo que hoje escondem esses canaviais que vemos da janelas dos ônibus ou dos automóveis particulares, ao cruzarmos essa BR 101. O que há além dessa paisagem?
O Instituto Histórico Arqueológico Geográfico de Goiana – IHAGGO, promoveu a realização desse desejo. No dia 25 de fevereiro, saímos em 20 pessoas para conhecer três engenhos: Miranda, Itapirema do Meio e Itapirema de Cima.
Miranda é um engenho está localizado próximo à rodovia PE &@, na direção de Condado que, antigamente, era Goianinha. A Casa Grande que visitamos não é a original, e recentemente foi vitalizada, e apresenta mobiliário do século XIX e XX. Fomos recebidos com atenção pelos proprietário que, à medida que falavam da família, nos indicavam os pontos que eles organizaram para mostra, desde a sala de entrada até à cozinha. Observamos o cuidado na restauração do imóvel, ainda que não tenha sido recuperada com a assistência de restauradores profissionais. Há uma segunda casa senhorial, não recuperada, que apresenta melhor como se vivia no início do século XX em casa anterior à chegada do ferro e vidros. Esses apetrechos chegaram com os acenos da Revolução Industrial. Mais abaixo está situada a Moita, ou que resta dela, pois foi reordenada para ser uma cocheira, um recolhimento para os bois. Com a morte do fogo, o engenho passou a fornecer cana para as usinas, e fez o trajeto de mudança do carro de boi para o caminhão, como atesta a pequena oficina de manutenção próxima à casa do administrador. O Engenho Miranda também está mais conhecido pela particularidade de que, em sua capela, dedicada à Senhora Santana, encontra-se os restos mortais da família, especialmente de uma adolescente que tem sido cultuada como santa, a Xaninha, morta na epidemia ocorrida nos anos sessenta e setenta do século XIX. Dela é dito que tinha grande preocupação pelos escravos trabalhadores do engenho. Na segunda metade do século XX seu culto foi ativado e pequenas romarias eram realizadas duas vezes por mês, com missa, até o período da epidemia de COVID. Pelo que ouvimos, os proprietários estão interessados em tornar mais comum as missas, pois a presença de público ajudaria a preservação do espaço.
Em seguida voltamos ao canavial e seguimos em direção ao Engenho Itapirema do Meio, onde chegamos já um pouco depois das 11 horas. As estradas de cana estavam molhadas da chuva recente, vimos que houve queimada recente, mas não encontramos nenhum caminhão de transporte. É dito que Dom Pedro II ficou hospedado nesse engenho, quando se dirigia à Goiana. Mas a casa grande que encontramos não reflete a antiguidade, esperada, mas parecendo ser uma construção do início do século XX, como pode ser observada pela data da capela, 1913, e pela chaminé da usina, que ostenta a data de 1937. Vimos que foi construída pequena vila para os trabalhadores no local onde pode ter existido a construção a que se refere a tradição, mas apenas escavações arqueológicas poderão sanar essa dúvida. A casa grande, não colonial, está sendo bem cuidada e não tivemos a permissão de nela entrar.
Foi Itapirema de Cima o nosso terceiro destino, o que nos levou a atravessar o povoado de Sapé, onde pudemos observar, de passagem, a feira semanal, restos do posto de televisão comunitária que era comum nos anos de 1970, que hoje serve de praça. Notamos que o povoado é bem surtido em serviços como mercados, escola, manicure, barbearia, mercado municipal. Esse povoado, como outros da região da Mata Norte, é formado pelos descendentes dos escravos. Mutatis mutantes, essas periferias são as antigas senzalas, distantes dos olhos dos senhores que não desejam ver o que a cana produz com o açúcar, o melaço, a cachaça e o vinagre. Após Sapé, seguimos pelo canavial até o Engenho, com sua majestática Casa Grande, construída acima de todos. Passamos pelo rio que fazia girara a roda da moenda do engenho, encontramos gado solto pastando e, chegamos à Casa Grande que só não está completamente abandonada porque seus proprietários contratam pessoas para lá viverem e evitar a sua destruição. Atualmente é um casal que cuida da casa que está quase em ruínas. Com andar térreo, local da oficina e onde teria sido posto um depósito de açúcar. Para ter acesso à parte superior, seja dizer, a residência, com mais de uma dezena de cômodos, subimos um escada com vinte degraus, de cada lado; abaixo do encontro dos degraus há espaço para um nicho onde, nos tempos de ouro, deveria ter sido a morada de algum santo protetor. Na parte posterior da casa grande está um pomar e a capela do engenho, completamente dominada por caca de morcegos, e parece ter sido transformada em local para guarda de fertilizante. Comi deliciosa goiaba, arrancada do pé por Josué.
Um brinde especial nos foi ofertado por Basílio Augusto que nos levou a um local que a tradição aponta como sendo o início de um túnel que teria sido construído pelos holandeses, ligando o Itapirema de Cima ao Engenho Ubu. São muitas as questões a serem levantadas em torno dessa tradição, baseada em escrito de Pereira da Costa que quase sempre oculta os sujeitos das ações e os documentos de onde tira as informações. Fala-se de minas de ouro, existência de vulcões, etc, mas tudo dito em frase de sujeitos ocultos, quais fantasmas. O buraco que vimos é capaz de passar o corpo de um jovem adolescente e tem a profundidade de cera de 1.70cm.
Agradeço aos amigos do IHAGGO pela oportunidade de conhecer o mundo que se esconde nos canaviais.
Em cada um desses locais visitados foram lidos textos alusivos, ora pelo professor Bartolomeu e Victor Romanelli, tudo registrado pelas múltiplas câmeras de nossos fotógrafos.
quinta-feira, janeiro 14, 2010
novo endereço
Caro Amigo que vem acompanhando minhas reflexões neste espaço, algumas vezes com sugestões e debates que nos aproximam, outras vezes apenas com a leitura, estou informando que tais reflexões estão sendo postas em enovo endereço http://www.biuvicente.com , mais precisamente em www.biuvicente.com/blog
A sua companhia tem dada a este blog uma média de 160 vsitantespor semana. Comecei a fazer este contagem a partir de 30 de abril de 2009 em desde então, recebemos 13800 visitas.
Continuarei a fazer ao menos uma postagem semanal no site. Lembro que você pode acompanhar o nosso programa QUE HISTÓRIA É ESSA, toda quarta feira, às 9 horas da manhã, na Rádio Universitária AM, da UFPE. O endereço é www.tvu.ufpe.br/am.htm
Nos veremos no novo endereço e continuaremos a manter contato
Obrigado por sua atenção e acompanhamento
seu de sempre
Biu Vicente
A sua companhia tem dada a este blog uma média de 160 vsitantespor semana. Comecei a fazer este contagem a partir de 30 de abril de 2009 em desde então, recebemos 13800 visitas.
Continuarei a fazer ao menos uma postagem semanal no site. Lembro que você pode acompanhar o nosso programa QUE HISTÓRIA É ESSA, toda quarta feira, às 9 horas da manhã, na Rádio Universitária AM, da UFPE. O endereço é www.tvu.ufpe.br/am.htm
Nos veremos no novo endereço e continuaremos a manter contato
Obrigado por sua atenção e acompanhamento
seu de sempre
Biu Vicente
sábado, janeiro 02, 2010
Sobre porcos e sabedoria rural
Uma das mais interessantes fábulas criadas no século XX foi a Revolução dos Bichos, ou a Fazenda dos Animais, na qual o autor faz uma crítica à revolução de 1917, ocorrida na Rússia, especialmente em suas conseqüências quanto ao uso do poder e dos grupos que o tomaram para si. Chama atenção ao fato de que foram os porcos que passaram a governar a fazenda em nome de todos os bichos que a habitavam. Enquanto governavam, os porcos, seus parentes e amigos, ganhavam gordura e agiam com a arrogância que sempre foi própria dos antigos governantes. Antes, magros e com olhares quase sempre de insatisfação e permanente irritação com tudo que não fosse ligado aos seus interesses imediatos, os porcos se tornaram bem alegres, sempre presentes em banquetes e prontos a darem soluções aos problemas que afetavam ao resto da fazenda, enquanto aumentavam as suas cotas de gordura e satisfação para consigo mesmos. A Fazenda dos Animais, ou seja, a fábula de Orson Wells chegava o final com a fazenda sendo bem administrada a partir do interesse dos porcos sempre alegres e felizes, os ratos alegres com as sobras dos banquetes, os cachorros sempre com rabos balançando com a chegada dos poderosos e prontos para defendê-los, enquanto os burros, os cavalos,os bois continuavam a trabalhar e a pastar. Fez por outra a ração de aveia dava uma pequena melhorada, o que permitia que as críticas arrefecessem um pouco, diminuindo o trabalho dos cachorros na manutenção da nova ordem que necessitava uma nova história que justificasse aquilo que os porcos definiam como sendo a verdade social e comum a todos: a sua verdade.
Sobre porcos, havia uma ditado popular que se referia à necessidade de entabular conversa com os seus iguais, era um tempo em que fazendeiros tinham muitos empregados e preferiam entabular conversa entre si e, deixar claro para os demais que eles, os proprietários, preferem conversar entre si. Assim diziam: “não quero conversar com os porcos, mas com os donos dos porcos”. A frase era dita para lembrar aos não proprietários a sua insignificância social. Os estudos sobre sociedade demonstram que processos de assimilação de novos valores sociais tomam tempo. Creio que é mais ou menos isso que nos ensina Norbert Elias em sua análise do processo civilizacional europeu entre o Renascimento e a Grande Guerra do início do século XX, a que gerou oportunidade para o sucesso de alguma revolução.
Talvez isso explique a mais recente hilária e lamentável exposição da sabedoria popular pelo presidente da República ao chamar prefeitos de donos de porcos e o povo de porco. Esses códigos do mundo rural, quando dito por quem cresceu no universo urbano e de maquinárias, levam ao desrespeito e a demonstração de distância daquilo que se quer mostrar intimidade. Mas uma coisa é certa, o presidente não pensava na fábula de Orson Well, que ele poderia ter lido na tradução de seu amigo, o poeta da classe média, Chico Buarque de Hollanda.
Sobre porcos, havia uma ditado popular que se referia à necessidade de entabular conversa com os seus iguais, era um tempo em que fazendeiros tinham muitos empregados e preferiam entabular conversa entre si e, deixar claro para os demais que eles, os proprietários, preferem conversar entre si. Assim diziam: “não quero conversar com os porcos, mas com os donos dos porcos”. A frase era dita para lembrar aos não proprietários a sua insignificância social. Os estudos sobre sociedade demonstram que processos de assimilação de novos valores sociais tomam tempo. Creio que é mais ou menos isso que nos ensina Norbert Elias em sua análise do processo civilizacional europeu entre o Renascimento e a Grande Guerra do início do século XX, a que gerou oportunidade para o sucesso de alguma revolução.
Talvez isso explique a mais recente hilária e lamentável exposição da sabedoria popular pelo presidente da República ao chamar prefeitos de donos de porcos e o povo de porco. Esses códigos do mundo rural, quando dito por quem cresceu no universo urbano e de maquinárias, levam ao desrespeito e a demonstração de distância daquilo que se quer mostrar intimidade. Mas uma coisa é certa, o presidente não pensava na fábula de Orson Well, que ele poderia ter lido na tradução de seu amigo, o poeta da classe média, Chico Buarque de Hollanda.
segunda-feira, dezembro 28, 2009
Natal e Cavalo Marinho
Este foi um final de semana sem visitar um centro de compras, mas com duas visitas à Casa da Rabeca. Lugar sonhado e criado por Manuel Salustiano, tem sido movimentado agora por seus filhos. No momento em que escrevo, Pedrinho Salustiano está fazendo aula de Cavalo Marinho, em um projeto financiado pelo governo do estado, através da Fundarpe.
O sonho da Rabeca, a Casa da Rabeca é uma criação de um ex-cortador de cana, mas que, tangido pela expansão do canavial que está tornando a Zona da Mata um imenso canavial, pondo fim a sítios, cultivo de mandioca, criação de galinha, fruteiras, etc, soube articular-se na cidade. Poucos migrantes da cana foram tão bem sucedidos quanto ele. Para aqui vencer, ele negociou, resistiu e trabalhou com a criatividade que aquela região exige dos mais pobres. Os mais ricos da região quando migram não precisam da criatividade, eles estão ligados a outras redes, a redes bancárias e políticas.
Tendo aprendido as tradições, as danças, os brinquedos da região, como fazem os caboclos, ouvindo, testando e enfrentando situações difíceis, Salu pode oferecer ao Recife e à Olinda os ritmos e danças da Mata Norte. Semelhantemente a Luiz Gonzaga encontrou nortistas e “nordestinados” nas feiras do Rio de Janeiro e São Paulo que apreciaram suas canções, e alimentaram esperanças e saudades com os ritmos nordestinos que se tornaram brasileiros, Salu encontrou no final dos aos setenta um auditório natural com os muitos migrantes que desceram da Zona da Mata, desde os anos quarenta e se encantaram ao ver mais uma vez o Cacvalo Marinho, o Caboclo de Lança. Os morros da zona norte do Recife e a Olinda para além dos limites do Sítio Histórico foram lugares de reconhecimento e fornecimento de caboclos. Da feira foi para as escolas, passando pelo jardim de algum político e a simpatia de um secretário de cultura. Salustiano não foi o primeiro a criar um maracatu rural no Recife, mas com o Piaba de Ouro, ele trouxe a experiência mais administrativa para empolgar o carnaval do Recife, em uma época que a classe média já nem sabia que pastoril existia.
Neste final de semana natalino, fui, na Casa da Rabeca, rever meus amigos, minha tradição pernambucana. A verdadeira tradição cultural republicana de Pernambuco, a tradição criada pelos homens e pelas mulheres dos sítios da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Lá encontrei Mestre Zé Duda, Mestre Biu Alexandre, Mestre Biu Roque, Mestre Mariano Teles, Mestre Araújo (Pedra de Fogo), Maciel Salu, Dinda, Manezinho Salustiano, e muitos jovens mestres dançando e se revezando com os mais velhos nos cantos das toadas, na marcação do ritmo, na sonoridade da rabeca. E ainda havia muitos olhos puxados, desse Brasil que vem sendo criado em São Paulo, gente que veio para aprender como se dança o Cavalo Marinho.
Foi um feliz natal regado a muito marguio, Valentões, brincadeiras de Mateus e Batiãos. Manés chorões, Véias do bambu e arcos de São Gonçalo do Amarante abençoando a “nossa nação brasileira”.
No próximo final de ano, no próximo natal, todo mundo para o 16º Encontro Nacional de Cavalo Marinho.
O sonho da Rabeca, a Casa da Rabeca é uma criação de um ex-cortador de cana, mas que, tangido pela expansão do canavial que está tornando a Zona da Mata um imenso canavial, pondo fim a sítios, cultivo de mandioca, criação de galinha, fruteiras, etc, soube articular-se na cidade. Poucos migrantes da cana foram tão bem sucedidos quanto ele. Para aqui vencer, ele negociou, resistiu e trabalhou com a criatividade que aquela região exige dos mais pobres. Os mais ricos da região quando migram não precisam da criatividade, eles estão ligados a outras redes, a redes bancárias e políticas.
Tendo aprendido as tradições, as danças, os brinquedos da região, como fazem os caboclos, ouvindo, testando e enfrentando situações difíceis, Salu pode oferecer ao Recife e à Olinda os ritmos e danças da Mata Norte. Semelhantemente a Luiz Gonzaga encontrou nortistas e “nordestinados” nas feiras do Rio de Janeiro e São Paulo que apreciaram suas canções, e alimentaram esperanças e saudades com os ritmos nordestinos que se tornaram brasileiros, Salu encontrou no final dos aos setenta um auditório natural com os muitos migrantes que desceram da Zona da Mata, desde os anos quarenta e se encantaram ao ver mais uma vez o Cacvalo Marinho, o Caboclo de Lança. Os morros da zona norte do Recife e a Olinda para além dos limites do Sítio Histórico foram lugares de reconhecimento e fornecimento de caboclos. Da feira foi para as escolas, passando pelo jardim de algum político e a simpatia de um secretário de cultura. Salustiano não foi o primeiro a criar um maracatu rural no Recife, mas com o Piaba de Ouro, ele trouxe a experiência mais administrativa para empolgar o carnaval do Recife, em uma época que a classe média já nem sabia que pastoril existia.
Neste final de semana natalino, fui, na Casa da Rabeca, rever meus amigos, minha tradição pernambucana. A verdadeira tradição cultural republicana de Pernambuco, a tradição criada pelos homens e pelas mulheres dos sítios da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Lá encontrei Mestre Zé Duda, Mestre Biu Alexandre, Mestre Biu Roque, Mestre Mariano Teles, Mestre Araújo (Pedra de Fogo), Maciel Salu, Dinda, Manezinho Salustiano, e muitos jovens mestres dançando e se revezando com os mais velhos nos cantos das toadas, na marcação do ritmo, na sonoridade da rabeca. E ainda havia muitos olhos puxados, desse Brasil que vem sendo criado em São Paulo, gente que veio para aprender como se dança o Cavalo Marinho.
Foi um feliz natal regado a muito marguio, Valentões, brincadeiras de Mateus e Batiãos. Manés chorões, Véias do bambu e arcos de São Gonçalo do Amarante abençoando a “nossa nação brasileira”.
No próximo final de ano, no próximo natal, todo mundo para o 16º Encontro Nacional de Cavalo Marinho.
segunda-feira, dezembro 21, 2009
Feliz Natal
Esta é a semana que vem com um natal, uma festa de aniversário, o aniversário que foi escolhido como marcador do início de um era. O tempo do cristianismo que se consolidou na construção da Europa medieval e quis, ao longo dos últimos setecentos anos, impor-se aos povos dos demais continentes. Esse domínio não veio a ser total, não há como negar que a península européia conseguiu levar aos povos dos outros continentes alguns conceitos que ela criou; coisas como Direitos Humanos, Democracia, Fraternidade, e outros valores que parecem ter sido possível a partir da concepção de uma divindade que se quis humana. Homens foram chamados a serem deuses e o serão à medida que reconheçam a divindade dos outros, como os Reis Magos que reconheceram a realeza de um recém-nascido em uma estribaria. A questão é que esse processo na história tem sido doloroso e não é contínuo, mas segue nos contraditórios das esquinas do tempo e dos lugares – fiscos e sociais.
E, às vezes, dá um desânimo por conta dos desencantos, pois nem todos os reis reconheceram a criança. Foi assim com Herodes. Aliás, os reis só conseguem ver a criança como problema, como algo que deve ser afastado, ainda que a custo de muitas outras crianças. Herodes julgava que teria o trono permanentemente, e nada cedeu, nada quis compreender além dos projetos pessoais que carregava. Assim os novos herodes. Essa gente se julga eterna, e, pensam que todos devem fazer seguir as suas normas. O lixo da história é feito de gente como Herodes, gente que acha não ter existido nada antes dele e que nada virá após.
Os grandes reis foram mais silenciosos, quedaram-se diante do mistério de uma criança, uma criança que depois, quando adulta disse que grande é quem serve. Mas essa lição a Europa e seus descendentes não entenderam. As lições daquele Menino e de seus parentes, ou lições de Krishna não podem ser impostas, e perdem sentido quando são ditas em forma de falsete, para sedução de platéias.
A semana do Natal, a festa do nascimento do menino cuja vida e morte deram ensejo à divisão do tempo de um e de muitos povos, vem carregada do fracasso da Cop15, pois muitos que cantarão em lembrança daquele nascimento, não conseguiram ultrapassar os salões do palácio de Herodes. Ficaram com ele após despediram os reis que continuam a procurar o menino, rei da simplicidade, da amizade, da esperança. Os Reis Magos, contudo, saíram do palácio de Herodes e, podem ser vistos em alguns lugares, ao som música e dividindo presentes entre os pobres, ainda hoje. Eles sabem que nos palácios não encontrarão o Rei e o reinado que lhe foi anunciado.
Feliz Natal.
E, às vezes, dá um desânimo por conta dos desencantos, pois nem todos os reis reconheceram a criança. Foi assim com Herodes. Aliás, os reis só conseguem ver a criança como problema, como algo que deve ser afastado, ainda que a custo de muitas outras crianças. Herodes julgava que teria o trono permanentemente, e nada cedeu, nada quis compreender além dos projetos pessoais que carregava. Assim os novos herodes. Essa gente se julga eterna, e, pensam que todos devem fazer seguir as suas normas. O lixo da história é feito de gente como Herodes, gente que acha não ter existido nada antes dele e que nada virá após.
Os grandes reis foram mais silenciosos, quedaram-se diante do mistério de uma criança, uma criança que depois, quando adulta disse que grande é quem serve. Mas essa lição a Europa e seus descendentes não entenderam. As lições daquele Menino e de seus parentes, ou lições de Krishna não podem ser impostas, e perdem sentido quando são ditas em forma de falsete, para sedução de platéias.
A semana do Natal, a festa do nascimento do menino cuja vida e morte deram ensejo à divisão do tempo de um e de muitos povos, vem carregada do fracasso da Cop15, pois muitos que cantarão em lembrança daquele nascimento, não conseguiram ultrapassar os salões do palácio de Herodes. Ficaram com ele após despediram os reis que continuam a procurar o menino, rei da simplicidade, da amizade, da esperança. Os Reis Magos, contudo, saíram do palácio de Herodes e, podem ser vistos em alguns lugares, ao som música e dividindo presentes entre os pobres, ainda hoje. Eles sabem que nos palácios não encontrarão o Rei e o reinado que lhe foi anunciado.
Feliz Natal.
sábado, dezembro 12, 2009
Que coisa!
Primeira semana de dezembro chegando ao seu termo e, como costumam dizer os artistas antes da apresentação de um espetáculo teatral: merda para todos! Assim, nesta semana, após sete anos de governo, o nosso presidente quer saber se o povo está no meio da “obra” deixada pelo governo que saiu faz sete anos. Nesse período poucos foram os canos postos para acabar com os esgotos a céu aberto nas cidades grandes. Por isso é que se sente odores negativos tão fortes, cheiro de titica. Evidentemente o presidente sempre soube que o povo mais pobre não tem saneamento básico em suas casas e nos bairros periféricos, hoje chamados por alguns de “aglomerado urbano irregular”, mas que costumava ser chamado de favela e, mais recentemente de comunidade. Mas tudo é a mesma coisa, e coisa é o que se diz para não dizer o que normalmente sai pelo orifício inferior, mas que, nosso presidente prefere que saía pelo orifício superior, pois isso aumenta a insatisfação dos seus opositores que assistem a popularidade presidencial crescer a cada vez que ele esquece que, como presidente é o responsável pelas coisas boas e pelas coisas menos boas que ocorreram nos últimos sete anos. Se ele ainda não sabe se o povo ainda se encontra na situação em que ele estava nos anos cinqüenta, é que ele tem uma m**** de assessoria que lhe informa pouco.
Aliás, por falar em assessor especial, parece que o Frei Beto, que sempre esteve ao lado de Lula enquanto sindicalista e nos momentos iniciais e nos mais tensos de sua carreira, não teve espaço no filme do Filho do Brasil. Isso é uma caca. Afinal Beto não teve nada a ver com o mensalão do Valério nem com o caixa dois, assim ele não é mais da casa. Ruim para Beto, pois agora o nosso presidente é uma personalidade internacional e está definindo o destino do mundo. Só não está conseguindo acabar com excrementos a céu aberto. Mas, creio, que breve, breve, virá o PAC da M****, que era assim que se escrevia nos jornais, nos tempos da ditadura militar, a m**** dita e a m**** feita pelos governantes e pelos governados. Era no tempo em que não se podia dizer m**** em tão alto e bom som.
Mas, depois da “bosta na Geni” de Chico Buarque, dos “pentelhos” dominicais do Faustão, a Merda presidencial é palavrão, sinal franqueza ou pobreza vocabular?
Aliás, por falar em assessor especial, parece que o Frei Beto, que sempre esteve ao lado de Lula enquanto sindicalista e nos momentos iniciais e nos mais tensos de sua carreira, não teve espaço no filme do Filho do Brasil. Isso é uma caca. Afinal Beto não teve nada a ver com o mensalão do Valério nem com o caixa dois, assim ele não é mais da casa. Ruim para Beto, pois agora o nosso presidente é uma personalidade internacional e está definindo o destino do mundo. Só não está conseguindo acabar com excrementos a céu aberto. Mas, creio, que breve, breve, virá o PAC da M****, que era assim que se escrevia nos jornais, nos tempos da ditadura militar, a m**** dita e a m**** feita pelos governantes e pelos governados. Era no tempo em que não se podia dizer m**** em tão alto e bom som.
Mas, depois da “bosta na Geni” de Chico Buarque, dos “pentelhos” dominicais do Faustão, a Merda presidencial é palavrão, sinal franqueza ou pobreza vocabular?
sábado, dezembro 05, 2009
Estética dos poderosos
Em dos espaços do Engenho Poço Comprido, na tarde do 03 dezembro, mais um vez fiquei alumbrado vendo e sentindo a força e magia da cultura criativa do povo dos engenhos, dos antigos moradores dos engenhos da região de Nazaré da Mata. Fiquei deslumbrado, ou seja, sem a minha luz, ofuscado pela poesia do Mestre Deca Eulálio, o mestre do Bloco Andaluza. Andaluza de Abreu. Fui aos poucos compreendendo que Abreu era um engenho de fogo morto e que foi engolido pelas canas e ganâncias de uma das usinas. Por isso seus moradores foram tangidos para a periferia urbana, fazendo crescer a população urbana enquanto a cidade crescia e estagnava. Crescia em população e estagnava em produção de riqueza acessível aos trabalhadores. A riqueza era produzida, mas o processo de concentração não permitia a sua disseminação. Contudo, no Engenho Abreu havia a família Eulálio, da qual o Mestre Deca é representante, e essa família tinha um bloco que saía no carnaval. Isso desde 1963. O ritmo rápido da marcha era parado pelo apito do mestre que improvisava os versos em louvação da casa do morador, do senhor do engenho, do administrador, de todos, mas sempre afirmando que não há bloco melhor do que o Andaluza de Abreu. Foi assim que ele, Deca Eulálio, fez ao tomar o microfone e dizer que queria saber se tinha alguém que soubesse dançar com o seu bloco e, ao som do violão de Valdir Afonjá, o bombo de Zé Mário, a rabeca de Ederlan Fábio e o pandeiro de Luiz Caboclo, deitou a improvisar versos, contando a sua história e se alegrando por ter encontrado o Mestre Zé Duda, cujo sogro também tinha um bloco e conhecia o Andaluza desde o tempo em Biu Eulálio, também saia com o Andaluza.
O aparecimento de Deca Eulálio aconteceu durante o seminário que tinha como tema Interações Estéticas, a possibilidade de troca de experiências de expressões do belo. E o belo vinha sendo expressado nas palavras, depois nos sons e na dança coletiva que veio a ser criada com toadas de Cavalo Marinho e dançadas com os movimentos de caboclinhos, cocos, caboclos, cirandas e frevos.
Entre os muitos temas abordados pelos seminaristas foi a imposição, pelos que comandam o carnaval de Pernambuco, de uma estética aos grupos que desejam se apresentar no desfile da Avenida Dantas Barreto. Pelo que ouvi, está ocorrendo algo semelhante ao período fascista dos anos trinta, quando Mário Melo, na Comissão Organizadora do Carnaval, impôs cabeças coroadas aos caboclos de lança, para que a estética criada pelos cortadores de cana e moradores dos sítios ficasse mais parecida com os quadros mentais das salas dos sobrados, habitados pelos que sobraram das casas grandes. Atualmente, parece que um novo grupo, ou filhos do grupo de trinta, um grupo que parece formar um bloco com saudade dos carnavais do Estado Novo, está impondo antigos padrões estéticos como se novos fossem. Julgando que são cortesões da corte dos Luizes, (alguns passam férias nas praias do Rio Sena. Houve um tempo em que confundiram Recife com Amsterdan, depois com Veneza e agora, bem agora é o ano da França) querem que os bandeiristas dos maracatus vistam-se como criados de libré, ostentando uma peruca que os diferencie dos demais servos. Ah! Quando será que esses estetas da servidão irão desaparecer, ou ao menos desistir de ficar clamando que o povo brasileiro é para os servir! Talvez seja por isso que eles se apegam tanto aos anos dos Avis e Bragança. E eles ficam distribuindo prêmios de até R$ 12.000.00, aos maracatus e caboclinhos enquanto pagam (?) além de R$30.000.00 aos estetas dos ditos forrós estilizados nas diversas cores de calcinhas misturadas com outras cocadas, produzidas em oficinas eletrônicas.
Os que se armaram em donos dos folguedos, com apoios dos seus primos políticos possuem o direito de defender suas estéticas e colocá-las a serviço dos que lhes pagam salários ou propinas, mas deviam evitar de dar continuidade a perversa prática de utilizar a necessidade dos mais pobres para lhe impor vestuário francês. Isso é ridicularizar o cortador de cana após lhes pagar tão pouco por tonelada cortada.
Bergman tinha razão quando disse que o fascismo é uma hidra. E foi com promessas bobas que a feiticeira Sisi cegou Ulisses, cumulando-o de prazeres, impedindo que ele percebesse que sua tripulação estava transformada em animais para que ele ficasse feliz. Pena que Hermilo não esteja aqui para defender a estética de seu povo.
O aparecimento de Deca Eulálio aconteceu durante o seminário que tinha como tema Interações Estéticas, a possibilidade de troca de experiências de expressões do belo. E o belo vinha sendo expressado nas palavras, depois nos sons e na dança coletiva que veio a ser criada com toadas de Cavalo Marinho e dançadas com os movimentos de caboclinhos, cocos, caboclos, cirandas e frevos.
Entre os muitos temas abordados pelos seminaristas foi a imposição, pelos que comandam o carnaval de Pernambuco, de uma estética aos grupos que desejam se apresentar no desfile da Avenida Dantas Barreto. Pelo que ouvi, está ocorrendo algo semelhante ao período fascista dos anos trinta, quando Mário Melo, na Comissão Organizadora do Carnaval, impôs cabeças coroadas aos caboclos de lança, para que a estética criada pelos cortadores de cana e moradores dos sítios ficasse mais parecida com os quadros mentais das salas dos sobrados, habitados pelos que sobraram das casas grandes. Atualmente, parece que um novo grupo, ou filhos do grupo de trinta, um grupo que parece formar um bloco com saudade dos carnavais do Estado Novo, está impondo antigos padrões estéticos como se novos fossem. Julgando que são cortesões da corte dos Luizes, (alguns passam férias nas praias do Rio Sena. Houve um tempo em que confundiram Recife com Amsterdan, depois com Veneza e agora, bem agora é o ano da França) querem que os bandeiristas dos maracatus vistam-se como criados de libré, ostentando uma peruca que os diferencie dos demais servos. Ah! Quando será que esses estetas da servidão irão desaparecer, ou ao menos desistir de ficar clamando que o povo brasileiro é para os servir! Talvez seja por isso que eles se apegam tanto aos anos dos Avis e Bragança. E eles ficam distribuindo prêmios de até R$ 12.000.00, aos maracatus e caboclinhos enquanto pagam (?) além de R$30.000.00 aos estetas dos ditos forrós estilizados nas diversas cores de calcinhas misturadas com outras cocadas, produzidas em oficinas eletrônicas.
Os que se armaram em donos dos folguedos, com apoios dos seus primos políticos possuem o direito de defender suas estéticas e colocá-las a serviço dos que lhes pagam salários ou propinas, mas deviam evitar de dar continuidade a perversa prática de utilizar a necessidade dos mais pobres para lhe impor vestuário francês. Isso é ridicularizar o cortador de cana após lhes pagar tão pouco por tonelada cortada.
Bergman tinha razão quando disse que o fascismo é uma hidra. E foi com promessas bobas que a feiticeira Sisi cegou Ulisses, cumulando-o de prazeres, impedindo que ele percebesse que sua tripulação estava transformada em animais para que ele ficasse feliz. Pena que Hermilo não esteja aqui para defender a estética de seu povo.
sexta-feira, dezembro 04, 2009
É preciso muito amor
Interessante e carregada de informações foi esta semana que começou em novembro e acabou em dezembro. Uma leitora escreveu a perguntar o que penso da atitude do papa Bento XVI em mostrar-se disposto a aceitar padres casados da Igreja Anglicana para virem a exercer o sacerdócio presbiteral na Igreja Romana. Será essa atitude um indício de que o líder católico estaria disposto a por um término à exigência do celibato para os católicos romanos que desejam ser presbíteros? Ora, nós sabemos que esta não é a primeira vez que o pontífice romano aumenta o número de seus padres com dissidentes anglicanos. Isso ocorreu após a guerra finda em 1945 e, como agora, essa recepção não significou mudança nessa disciplina para os católicos que desejarem ser clérigos. O Celibato continuará sendo uma exigência da Cúria Romana, ainda que isso venha a custar uma diminuição crescente do contingente dos separados para o serviço. Nem mesmo a eclosão pública dos escândalos causados por personalidades desfocadas, abusadoras de menores tem conseguido fazer os detentores do poder refletir sobre as suas fraquezas.
E isso acontece e outras esferas e em outros mundos, quando assistimos a defesa de corruptos da fé pública, pois sabem que dessa fé já foram causadores de perda. E pouco adianta que sejam mostradas imagens, pois como as palavras, as agendas, as gravações, os documentos, elas “não dizem nada” quando não queremos ouvir, ver ou perceber o que elas nos dizem. Poucas sociedades resistem tanto à incúria de seus gerentes como as igrejas e as religiões; de modo semelhante poucos países são tão tolerantes com dirigentes corruptos quanto o nosso. Talvez porque todos aprendemos ser corruptos e estejamos esperando a nossa chance de poder dizer, de preferência em algum jardim francês, que “isso sempre foi assim e todo mundo faz a mesma coisa” e, em tom de ameaça, diz um jovem político, aprendiz de feiticeiro: eu aceito que se faça uma cpi, desde que ela também faça pesquisa sobre o governo anterior. Como se aprende rápido a fazer ameaças veladas e, dessa maneira, calar o oponente lembrando-lhe que ele tem “o rabo preso”. Isso é coisa de pai para filho, coisa que sobrinho aprende ouvindo o tio conversando com o avô na borda da piscina.
Esta semana os católicos comemoram a concepção, sem pecado, de Maria. Mas o Brasil não foi concebido sem pecado, entretanto, tem gente criando uma geração que além de sentir-se sem culpa (tudo é conseqüência do processo de colonização) e agora sem responsabilidade pessoal (tudo está ligado e justificado pelo ambiente social). Mas, como Noca da Portela cantava esta semana, em homenagem à quem ele julga será presidente do Brasil, mas eu estou pensando em nesta vida: "é preciso muito amor para suportar essa mulher..."
E isso acontece e outras esferas e em outros mundos, quando assistimos a defesa de corruptos da fé pública, pois sabem que dessa fé já foram causadores de perda. E pouco adianta que sejam mostradas imagens, pois como as palavras, as agendas, as gravações, os documentos, elas “não dizem nada” quando não queremos ouvir, ver ou perceber o que elas nos dizem. Poucas sociedades resistem tanto à incúria de seus gerentes como as igrejas e as religiões; de modo semelhante poucos países são tão tolerantes com dirigentes corruptos quanto o nosso. Talvez porque todos aprendemos ser corruptos e estejamos esperando a nossa chance de poder dizer, de preferência em algum jardim francês, que “isso sempre foi assim e todo mundo faz a mesma coisa” e, em tom de ameaça, diz um jovem político, aprendiz de feiticeiro: eu aceito que se faça uma cpi, desde que ela também faça pesquisa sobre o governo anterior. Como se aprende rápido a fazer ameaças veladas e, dessa maneira, calar o oponente lembrando-lhe que ele tem “o rabo preso”. Isso é coisa de pai para filho, coisa que sobrinho aprende ouvindo o tio conversando com o avô na borda da piscina.
Esta semana os católicos comemoram a concepção, sem pecado, de Maria. Mas o Brasil não foi concebido sem pecado, entretanto, tem gente criando uma geração que além de sentir-se sem culpa (tudo é conseqüência do processo de colonização) e agora sem responsabilidade pessoal (tudo está ligado e justificado pelo ambiente social). Mas, como Noca da Portela cantava esta semana, em homenagem à quem ele julga será presidente do Brasil, mas eu estou pensando em nesta vida: "é preciso muito amor para suportar essa mulher..."
terça-feira, dezembro 01, 2009
Ordem do Mérito Cultural, IDH, IML e um pacto pela vida
Estive recentemente degustando, uma vez mais, as maravilhas do conforto que a modernidade é capaz de oferecer. Neste mundo de divisões de classes, embora há quem diga que as classes não mais existam e por isso não há mais conflitos entre elas, nem todos podem usufruir diariamente aquelas bondades que a técnica vem produzindo ao longo dos séculos. Claro que essas separações entre os que têm acesso às benesses e os que a vêem longinquamente não foram criadas nos tempos de hoje, mas já se pode perceber a sua existência em épocas tão antigas quanto a formação das primeiras dinastias egípcias. E nosso tempo essas situações podem ser percebidas de maneira mais ampliada, mas é que somos cada vez mais exagerados. Assim alguns curtem o exagero do consumo e não o entendem como tal, outros, contudo, quase nenhum acesso ao consumo, mas também consideram esse não acesso como normal, algo dado, natural, vontade divina ou pagamento de alguma dívida de vidas passadas e não lembradas. Aliás, as explicações religiosas estão se tornando tanta que já se pode dizer que há um excesso de oferta, embora a demanda por esse produto pareça ser infinitamente elástica.
No retorno encontrei-me com a realidade dura da Zona da Mata Norte de Pernambuco, que pode ser semelhante, neste aspecto que vou mencionar e em muito outros, às demais regiões desse estado nordestinado, como escreveu um poeta da região. Chegava de acompanhar o Maracatu Estrela de Ouro de Aliança na recepção da comenda da Ordem do Mérito Cultural deste ano de 2009. A República, através de seu Ministério da Cultura reconhecia como meritória a existência e as ações desenvolvidas pelo Maracatu fundado em 1966 pelo Mestre Batista, ali, perto da atualmente falida Usina Aliança.
Algumas horas após a nossa chegada, um dos filhos do Mestre Batista morreu, ali perto do local onde foi fundado o Maracatu e hoje funciona o Ponto de Cultura Estrela de Ouro e o Ponto de Leitura. Tudo normal pois a vida tem esse negócio de morrer, mas essa morte me pos diante do fato de que se uma pessoa morrer fora de um hospital na Zona da Mata, o corpo deve ser removido para o Instituto Médico Legal do Recife. Em toda a região não há um serviço desse para os cidadãos da região. São mais de 14 municípios, além os da Região Metropolitana do Recife. Isso quer dizer que é grande a angústia da família, além da perda do ente familiar. Pouco serviço para os vivos enquanto vivos, como demonstra o Índice de Desenvolvimento Humano da região, e os mortos também não o recebem, aumentando a angústia dos vivos. Mas enquanto vivo não se tem médico, depois de morto não se tem perícia. Daí os mortos viajarem desde as cidades onde morreram até o Recife, depois retornam para serem “plantados” como ouvi de amigo do defunto.
Mas aí a gente se pergunta: será que não daria para criar um IML para aquela região, promover uma assistência maior aos sofrimentos dos que perderam um ente? Não se, mas talvez isso possa vir a ser parte de um programa governamental que já existe, um certo “Pacto pela Vida”. No mínimo diminuiriam as despesas das famílias ou suas dependência para com as politicagens locais. Auxiliaria a modernizar algumas relações sociais. Quem sabe uma ação dessa um venha a receber, do povo, alguma comenda?
No retorno encontrei-me com a realidade dura da Zona da Mata Norte de Pernambuco, que pode ser semelhante, neste aspecto que vou mencionar e em muito outros, às demais regiões desse estado nordestinado, como escreveu um poeta da região. Chegava de acompanhar o Maracatu Estrela de Ouro de Aliança na recepção da comenda da Ordem do Mérito Cultural deste ano de 2009. A República, através de seu Ministério da Cultura reconhecia como meritória a existência e as ações desenvolvidas pelo Maracatu fundado em 1966 pelo Mestre Batista, ali, perto da atualmente falida Usina Aliança.
Algumas horas após a nossa chegada, um dos filhos do Mestre Batista morreu, ali perto do local onde foi fundado o Maracatu e hoje funciona o Ponto de Cultura Estrela de Ouro e o Ponto de Leitura. Tudo normal pois a vida tem esse negócio de morrer, mas essa morte me pos diante do fato de que se uma pessoa morrer fora de um hospital na Zona da Mata, o corpo deve ser removido para o Instituto Médico Legal do Recife. Em toda a região não há um serviço desse para os cidadãos da região. São mais de 14 municípios, além os da Região Metropolitana do Recife. Isso quer dizer que é grande a angústia da família, além da perda do ente familiar. Pouco serviço para os vivos enquanto vivos, como demonstra o Índice de Desenvolvimento Humano da região, e os mortos também não o recebem, aumentando a angústia dos vivos. Mas enquanto vivo não se tem médico, depois de morto não se tem perícia. Daí os mortos viajarem desde as cidades onde morreram até o Recife, depois retornam para serem “plantados” como ouvi de amigo do defunto.
Mas aí a gente se pergunta: será que não daria para criar um IML para aquela região, promover uma assistência maior aos sofrimentos dos que perderam um ente? Não se, mas talvez isso possa vir a ser parte de um programa governamental que já existe, um certo “Pacto pela Vida”. No mínimo diminuiriam as despesas das famílias ou suas dependência para com as politicagens locais. Auxiliaria a modernizar algumas relações sociais. Quem sabe uma ação dessa um venha a receber, do povo, alguma comenda?
domingo, novembro 29, 2009
Mérito Cultural para o Estrela de Ouro de Aliança
Dois dias no Rio de Janeiro acompanhando o Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, um dos agraciados pelo Ministério da Cultura com a ORDEM DO MÉRITO CULTURAL 2009. Criada em 1994, essa comenda vem reconhecendo os criadores culturais brasileiros, premiando “ações, obras e testemunhos que resumem inspirações coletivas, momentos históricos, marcas narrativas e períodos estéticos”, como diz o ministro Juca Ferreira. Foram entregues 49 comendas, sendo que além do Maracatu criado pelo Mestre Batista, nos idos de 1966, o Mamulengo Só-Riso, Balé Popular do Recife, Paulo Brusky, Samico, Mestre Vitalino foram os pernambucanos agraciados neste ano. Creio que a imprensa pernambucana ainda encontrará espaço para comentar a entrega dessas comendas.
Do barro, do movimento, das cores, das madeiras, das tintas, das tristezas, angústias e projetos esses criadores, isoladamente, mas na maior parte do tempo em coletividade, recriaram e continuam recriando o universo, o imaginário e as esperanças pernambucanas e brasileiras, vivendo as contradições próprias de seu tempo, de seu lugar. Tive a alegria de dizer a Tereza Costa Rego que, ali, eu estava ajudando a carregar as malas do Maracatu, ao que ela retrucou que fazia o mesmo com o Mamulengo Só-Riso e Fernando Augusto, o seu idealizador. Também com o Mamulengo estava a Madre Escobar, uma das mais criativas mulheres que conheci e que seduziu uma juventude nos difíceis anos sessenta. Madre Escobar continua, agora aos noventa anos, criando. E conversamos um pouco sobre o seu sonho de uma Universidade Popular Dom Hélder Câmara. Madre Escobar continua sua admirável trajetória educacional que passa pela invenção do CECOSNE e a da Escola de Circo. Foi uma alegria, de novo, olhar o gigante Paulo Brusky e lembrar que ele pôs sua imaginação na capa de um livro de poesias escritas por Natanael Sarmento, Fernando Magalhães e, alguns atentados meus, em meados dos anos oitenta.
Gosto muito de carregar as malas do Mestre Zé Duda e Luiz Caboclo. Fiquei muito feliz vendo o antigo “arrelerquin” José Lourenço receber a comenda que o seu pai, Mestre Batista começou a tecer quando, em 1966, no terreiro de sua casa em Chã de Camará, apoiado por cambiteiros, cortadores de cana e lavradores, deu continuidade a um maracatu que seu avô teria iniciado no começo da República.
Essa história eu contei no livro "Estrela de Ouro de Aliança: a saga de uma tradição", que foi entregue, por José Lourenço ao presidente da República.
Do barro, do movimento, das cores, das madeiras, das tintas, das tristezas, angústias e projetos esses criadores, isoladamente, mas na maior parte do tempo em coletividade, recriaram e continuam recriando o universo, o imaginário e as esperanças pernambucanas e brasileiras, vivendo as contradições próprias de seu tempo, de seu lugar. Tive a alegria de dizer a Tereza Costa Rego que, ali, eu estava ajudando a carregar as malas do Maracatu, ao que ela retrucou que fazia o mesmo com o Mamulengo Só-Riso e Fernando Augusto, o seu idealizador. Também com o Mamulengo estava a Madre Escobar, uma das mais criativas mulheres que conheci e que seduziu uma juventude nos difíceis anos sessenta. Madre Escobar continua, agora aos noventa anos, criando. E conversamos um pouco sobre o seu sonho de uma Universidade Popular Dom Hélder Câmara. Madre Escobar continua sua admirável trajetória educacional que passa pela invenção do CECOSNE e a da Escola de Circo. Foi uma alegria, de novo, olhar o gigante Paulo Brusky e lembrar que ele pôs sua imaginação na capa de um livro de poesias escritas por Natanael Sarmento, Fernando Magalhães e, alguns atentados meus, em meados dos anos oitenta.
Gosto muito de carregar as malas do Mestre Zé Duda e Luiz Caboclo. Fiquei muito feliz vendo o antigo “arrelerquin” José Lourenço receber a comenda que o seu pai, Mestre Batista começou a tecer quando, em 1966, no terreiro de sua casa em Chã de Camará, apoiado por cambiteiros, cortadores de cana e lavradores, deu continuidade a um maracatu que seu avô teria iniciado no começo da República.
Essa história eu contei no livro "Estrela de Ouro de Aliança: a saga de uma tradição", que foi entregue, por José Lourenço ao presidente da República.
segunda-feira, novembro 23, 2009
Festival Canavial
21/11/2009
Festival Canavial homenageia colaboradores
Este ano o Festival Canavial optou por homenagear algumas pessoas que vêm sendo parte da construção de uma nova maneira de ver e acompanhar a produção cultural e a produção da cultura na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Logo na primeira noite foram homenageados Joana D’Arc, da Associação dos Filhos e Amigos de Vicência, que recebeu o troféu Luiz Gonzaga e o professor Severino Vicente da Silva, homenageado como o troféu Mateus Danado. Essas homenagens referem-se aos trabalhos educacionais por eles realizados na Zona da Mata Norte.
Ederlan Fábio
Festival Canavial homenageia colaboradores
Este ano o Festival Canavial optou por homenagear algumas pessoas que vêm sendo parte da construção de uma nova maneira de ver e acompanhar a produção cultural e a produção da cultura na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Logo na primeira noite foram homenageados Joana D’Arc, da Associação dos Filhos e Amigos de Vicência, que recebeu o troféu Luiz Gonzaga e o professor Severino Vicente da Silva, homenageado como o troféu Mateus Danado. Essas homenagens referem-se aos trabalhos educacionais por eles realizados na Zona da Mata Norte.
Ederlan Fábio
domingo, novembro 15, 2009
Viva a República!
Nesta semana de comemoração cívica do aniversário da República do Brasil, podemos chegar ao entendimento de que ela não é uma data muito importante, afinal, o Brasil pode não ter se tornado ainda um res publica. Assistimos constantemente um grupo de pessoas apropriar-se de coisas e instituições públicas como se coisas suas fossem. Ademais, a legislação que tem sido criada, apesar de um discurso de garantias universais de direitos, quase sempre beneficia alguns, os mesmos de sempre, os que sempre se apropriaram das coisas do Estado Brasileiro.
Todos nós sabemos que ao longo do século XIX, proprietários de terras criaram o Estado Brasileiro, as suas leis básicas: a Constituição de 1824, o Ato Adicional de 1834, a Lei de Terras de 1850, as Leis que controlaram o fim do trabalho escravo no Brasil. A República começou com um golpe, governos violentos e o retorno das oligarquias que governavam antes e estão até hoje no poder. Aqui em Pernambuco, os primeiros presidentes do Estado haviam sido conselheiros do Império, como ocorreu em quase todos os recantos. O início da República foi uma repressão terrível sobre as iniciativas populares, desde Canudos, Contestado, Congaço, Revolta da Vacina, Revolta do Vintém, Revolta da Chibata. Era a criação da Nação, era o povo se mostrando e sendo recusado pelos setores de dominação. Contudo foi sendo formada a alma da nação, a sua cultura, como coisa pública, nas ruas. Dessa época é que vem a explosão da alegria dos carnavais, no Sul (Rio de Janeiro), no Norte (Recife); com o Samba, o Frevo, a Dança da Capoeira (em todo o Brasil), as diversas danças dos Bois, as Cambindas, as Negas Malucas, os Caboclos, os Caboclinhos, Cavalo Marinho, que são as novas tradições republicanas que superam, ocupam os espaços das tradições portuguesas e africanas.
As grandes tradições do povo brasileiro são criadas na República, e não na Colônia ou no Império, embora tenham bebido daquelas. As festas do século XIX, essas que se orgulham de tanta antiguidade, deveriam verificar a quem interessava os reis de Congo, delegados do Estado e da Igreja. Talvez interessasse aos mesmos que, no carnaval do Recife, tentam impor reis e rainhas e roupas do guarda-roupa da aristocracia francesa aos caboclos de lança nascidos da criatividade republicana dos cortadores de cana. Eles preferem cultivar essas antiguidades, e eles ficam em camarotes distante do povo, divertindo-se com a diversão do povo e não com o povo brasileiro. Algo parecido com a famosa frase bragantina de 7 de abril de 1831.
Os festejos em torno da República são pequenos e quase inexistentes, como observou Karine Morgana, uma das minhas sobrinhas, o que me forçou a fazer essa reflexão. Talvez porque o povo, sub-repticiamente, esteja sempre recriando a República, tomando para si o que alguns bacharéis teimam em guardar para seus parentes, é que eles não gostam de discutir essa idéia: o Estado Brasileiro, diz a Nação Brasileira, é um Res Publica, uma coisa que é de todos e não pode continuar na mão de alguns, herdeiros e continuadores dos impérios bragantinos, embora eles se apresentem em trajes burgueses.
Viva a República!
Todos nós sabemos que ao longo do século XIX, proprietários de terras criaram o Estado Brasileiro, as suas leis básicas: a Constituição de 1824, o Ato Adicional de 1834, a Lei de Terras de 1850, as Leis que controlaram o fim do trabalho escravo no Brasil. A República começou com um golpe, governos violentos e o retorno das oligarquias que governavam antes e estão até hoje no poder. Aqui em Pernambuco, os primeiros presidentes do Estado haviam sido conselheiros do Império, como ocorreu em quase todos os recantos. O início da República foi uma repressão terrível sobre as iniciativas populares, desde Canudos, Contestado, Congaço, Revolta da Vacina, Revolta do Vintém, Revolta da Chibata. Era a criação da Nação, era o povo se mostrando e sendo recusado pelos setores de dominação. Contudo foi sendo formada a alma da nação, a sua cultura, como coisa pública, nas ruas. Dessa época é que vem a explosão da alegria dos carnavais, no Sul (Rio de Janeiro), no Norte (Recife); com o Samba, o Frevo, a Dança da Capoeira (em todo o Brasil), as diversas danças dos Bois, as Cambindas, as Negas Malucas, os Caboclos, os Caboclinhos, Cavalo Marinho, que são as novas tradições republicanas que superam, ocupam os espaços das tradições portuguesas e africanas.
As grandes tradições do povo brasileiro são criadas na República, e não na Colônia ou no Império, embora tenham bebido daquelas. As festas do século XIX, essas que se orgulham de tanta antiguidade, deveriam verificar a quem interessava os reis de Congo, delegados do Estado e da Igreja. Talvez interessasse aos mesmos que, no carnaval do Recife, tentam impor reis e rainhas e roupas do guarda-roupa da aristocracia francesa aos caboclos de lança nascidos da criatividade republicana dos cortadores de cana. Eles preferem cultivar essas antiguidades, e eles ficam em camarotes distante do povo, divertindo-se com a diversão do povo e não com o povo brasileiro. Algo parecido com a famosa frase bragantina de 7 de abril de 1831.
Os festejos em torno da República são pequenos e quase inexistentes, como observou Karine Morgana, uma das minhas sobrinhas, o que me forçou a fazer essa reflexão. Talvez porque o povo, sub-repticiamente, esteja sempre recriando a República, tomando para si o que alguns bacharéis teimam em guardar para seus parentes, é que eles não gostam de discutir essa idéia: o Estado Brasileiro, diz a Nação Brasileira, é um Res Publica, uma coisa que é de todos e não pode continuar na mão de alguns, herdeiros e continuadores dos impérios bragantinos, embora eles se apresentem em trajes burgueses.
Viva a República!
sábado, novembro 07, 2009
De Sergipe del Rey ao Engenho de Maracatus
Tarde do sábado após pequeno período em Aracaju onde fui falar um pouco sobre a minha pesquisa a respeito do Pretinhas do Congo, considerando os espaços religiosos que são criados ao longo da história. E a Pretinha do Congo está geograficamente na parte marginal da cidade de Goiana, pois embora tendo nascido em região industrial, tudo indica que seus fundadores não eram da elite do operariado local, como hoje, nesse novo surto industrial da cidade eles não possam beneficiar-se diretamente. Religiosamente, as Pretinhas do Congo não freqüentam os grupos mais aceitos na sociedade e, o lugar onde hoje vivem, o Baldo do Rio, pequena é a presença dos grupos religiosos que fundaram Goiana. Foram essas e outras reflexões que levamos ao II Colóquio Nacional do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades da Universidade Federal de Sergipe. Além de participar de uma Mesa Redonda, tive a felicidade de participar, como ouvinte, de uma sessão de comunicação das pesquisas que estão sendo realizadas por membros desse grupo de pesquisa, quase todas voltadas para a religiosidade popular. Aliás, o povo tem religiosidade, quem não é povo tem religião, parece.
Mas neste sábado, mais uma vez participo da inauguração de um Ponto de Cultura na Zona da Mata Norte, mais especificamente na cidade de Nazaré da Mata. Trata-se do Ponto de Cultura ENGENHO DOS MARACATUS, formado pela ação conjunta do Maracatu Coração Nazareno, do Maracatu Leão Misterioso, do Maracatu Leão Cultural e do Maracatu Águia Misteriosa. Quem apresentou o projeto à FUNDARPE para a criação desse ponto de cultura foi a Associação das Mulheres de Nazaré da Mata - AMUNAM, entidade com duas décadas de lutas e conquistas de espaços e cidadania para as mulheres e os homens da Mata Norte.
Como parte dos festejos da inauguração do Ponto de Cultura Engenho dos Canaviais foi realizada uma “roda de mestres”, uma conversa de mestres, ao vivo, pela Rádio Alternativa, que pertence a AMUNAM, o primeiro programa Engenho dos Maracatus. Como em notou Afonso Oliveira, foi necessário que na terra dos maracatus, surgisse uma associação feminina, com um maracatu formado só por mulheres – Maracatu Coração Nazareno – para que viesse a ser criado um programa radiofônico dedicado apenas aos maracatus. Mas, além disso, tivemos a notícia de que agora a Rádio da AMUNAM tem concessão permanente, com portaria ministerial.
Todas essas razões de alegrias foram completadas com a inauguração de dois espaços para a realização de oficinas pelos maracatuzeiros dos quatro maracatus: um no prédio da AMUNAM, será dedicado à discussão e produção de projetos comuns e individuais para cada maracatu e, o outro, no Engenho Santa Fé (onde o Mestre Baracho foi Mestre de Cachaça), será o lugar da produção de golas, surrões e das demais indumentárias próprias dos caboclos. Um festa simples, com a participação dos maracatuzeiros, dos Mestres João Paulo(Leão Misterioso), Mané da Silva(Leão Cultural), Edilmo e Valdemar Belarmino (Águia Misteriosa) e a Mestre Gil(Coração Nazareno), e a Eliane, presidente da AMUNAM.
E o que mais deixava os mestres nervosos, é que nesta semana, eles iniciarão, em doze escolas da cidade, aulas-espetáculo para disseminar os valores e a história do Maracatu de Baque.
Como diriam Darcy Ribeiro e João Ubaldo, e nós com eles: Viva o povo brasileiro!
Mas neste sábado, mais uma vez participo da inauguração de um Ponto de Cultura na Zona da Mata Norte, mais especificamente na cidade de Nazaré da Mata. Trata-se do Ponto de Cultura ENGENHO DOS MARACATUS, formado pela ação conjunta do Maracatu Coração Nazareno, do Maracatu Leão Misterioso, do Maracatu Leão Cultural e do Maracatu Águia Misteriosa. Quem apresentou o projeto à FUNDARPE para a criação desse ponto de cultura foi a Associação das Mulheres de Nazaré da Mata - AMUNAM, entidade com duas décadas de lutas e conquistas de espaços e cidadania para as mulheres e os homens da Mata Norte.
Como parte dos festejos da inauguração do Ponto de Cultura Engenho dos Canaviais foi realizada uma “roda de mestres”, uma conversa de mestres, ao vivo, pela Rádio Alternativa, que pertence a AMUNAM, o primeiro programa Engenho dos Maracatus. Como em notou Afonso Oliveira, foi necessário que na terra dos maracatus, surgisse uma associação feminina, com um maracatu formado só por mulheres – Maracatu Coração Nazareno – para que viesse a ser criado um programa radiofônico dedicado apenas aos maracatus. Mas, além disso, tivemos a notícia de que agora a Rádio da AMUNAM tem concessão permanente, com portaria ministerial.
Todas essas razões de alegrias foram completadas com a inauguração de dois espaços para a realização de oficinas pelos maracatuzeiros dos quatro maracatus: um no prédio da AMUNAM, será dedicado à discussão e produção de projetos comuns e individuais para cada maracatu e, o outro, no Engenho Santa Fé (onde o Mestre Baracho foi Mestre de Cachaça), será o lugar da produção de golas, surrões e das demais indumentárias próprias dos caboclos. Um festa simples, com a participação dos maracatuzeiros, dos Mestres João Paulo(Leão Misterioso), Mané da Silva(Leão Cultural), Edilmo e Valdemar Belarmino (Águia Misteriosa) e a Mestre Gil(Coração Nazareno), e a Eliane, presidente da AMUNAM.
E o que mais deixava os mestres nervosos, é que nesta semana, eles iniciarão, em doze escolas da cidade, aulas-espetáculo para disseminar os valores e a história do Maracatu de Baque.
Como diriam Darcy Ribeiro e João Ubaldo, e nós com eles: Viva o povo brasileiro!
quarta-feira, novembro 04, 2009
Estou atônito, isto não é um comentário politico
Nos últimos dias o país está vivendo uma situação interessante: o Senado da República recusa-se a cumprir uma decisão do Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte de justiça do país, e não retirou o mandato de um senador que, segundo o STF, cometeu o crime de abuso de poder econômico para ser eleito por seu estado. O Senado, presidido por José Sarney, o mesmo que preside uma fundação do mesmo nome, que, tudo indica, andou usando irregularmente verba federal, não vê nada de errado na conduta daquele senador. Apesar do lamento do presidente do STF, esse acontecimento deve ser visto como uma das conseqüências das suas noites mal dormidas, quando deu plantão no STF. Naquela ocasião, ele quase não ia para casa com o objetivo de assegurar que o banqueiro Daniel Dantas não dormiria na prisão nem usaria algemas, mesmo que essa decisão “corajosa”, gilmariana, viesse a diminuir as decisões dos juízes de Primeira Instância, quase sempre ainda jovens e sem as experiências dos expedientes. O desconforto do STF hoje deve ser menor do que o sentiu quando ocorreu o bate boca e todos ficaram ao lado do ilustre presidente. Sarney também tem sido presidente e sabe que as decisões do STF devem ser cumpridas. Com tanta seriedade quanto as decisões tomadas pelo Diretor Administrativo do Congresso que, sem o conhecimento do presidente do Congresso deu emprego a parentes do presidente do Congresso.
Bem, Sarney que, vez por outra, quando é de seu interesse, repete que “decisão judicial não se discute, se cumpre”, resolveu colocar senadores subalternos para verificar se a mais alta corte de justiça pode solicitar que sejam respeitadas as leis eleitorais. É que todo esse confuso quadro é decorrente da não aceitação da decisão do Superior Tribunal Eleitoral que havia determinado a tomada do mandato senatorial conquistado irregularmente. Mas quem se importa para uma legislação eleitoral que muda a cada quatro anos com dois objetivos básicos: confundir o eleitor e induzí-lo ao erro e, muito importante, garantir que os que fazem as leis que os beneficiam, continuem sendo eleitos para criarem leis que garantam maiores imunidades aos que se habituaram a não cumprir a lei básica de ser honesto nos relacionamentos sociais.
Enquanto isso, Zelaya continua tirando foto no principal gabinete da embaixada (?) brasileira em Honduras e nosso presidente continua cumprindo a legislação e não está fazendo campanha eleitoral. Assim me diz um cientista político. Já Marina da Silva deve parar a sua campanha para a presidência da República, pois a legislação eleitoral é clara a esse respeito.
Bem, Sarney que, vez por outra, quando é de seu interesse, repete que “decisão judicial não se discute, se cumpre”, resolveu colocar senadores subalternos para verificar se a mais alta corte de justiça pode solicitar que sejam respeitadas as leis eleitorais. É que todo esse confuso quadro é decorrente da não aceitação da decisão do Superior Tribunal Eleitoral que havia determinado a tomada do mandato senatorial conquistado irregularmente. Mas quem se importa para uma legislação eleitoral que muda a cada quatro anos com dois objetivos básicos: confundir o eleitor e induzí-lo ao erro e, muito importante, garantir que os que fazem as leis que os beneficiam, continuem sendo eleitos para criarem leis que garantam maiores imunidades aos que se habituaram a não cumprir a lei básica de ser honesto nos relacionamentos sociais.
Enquanto isso, Zelaya continua tirando foto no principal gabinete da embaixada (?) brasileira em Honduras e nosso presidente continua cumprindo a legislação e não está fazendo campanha eleitoral. Assim me diz um cientista político. Já Marina da Silva deve parar a sua campanha para a presidência da República, pois a legislação eleitoral é clara a esse respeito.
domingo, novembro 01, 2009
Festa do povo
Estou em Pesqueira, início do Sertão ou final do Agreste. Vim para a inauguração do Ponto de Cultura Ororubá, formado pela união de quatro grupos criativos e criadores de ritmos, sons e movimentos: O COCO CANCÃO PIÔ, um tradição quase centenária surgida nos espaços da Serra do Ororubá, pela Família Dotô, e reanimada sob a liderança do Mestre Timóteo; a ESCOLA DE SAMBA LABARIRI, criada por Daniel que após um período de alguns anos vividos no Rio de Janeiro, retornando em 1962 e resolveu por essa escola na rua, lembrando graciosa música carnavalesca, sucesso na voz de Jorge Veiga, e a Labariri hoje mantêm-se sob a liderança do Mestre Ulisses, co-fundador; as CAMBINDAS VELHAS, criadas em 1907 e mantidas até os dias de hoje, sempre saindo nos carnavais sob a coordenação de do Mestre Rosendo; e AS CAIPORAS, nascidas a 48 anos, fruto de uma brincadeira inventada para assustar as crianças no carnaval, surgidas em uma conversa de bar de JoãoJustino, o Gilete, com um amigo, e teve em Dona Helena a artista para a criação da fantasia que encanta um maior número de pessoas a cada ano. Fico feliz em participar desta festa inaugural, de entrar na casa Ponto de Cultura Ororubá, localizado na Farroupilha, onde no passado havia um parreiral e local de nascimento da Escola de Samba Labariri e do grupo Caiporas.
Nos anos posteriores à guerra que expulsou os holandeses de Pernambuco, os mestiços do litoral, iniciaram a conquista dos sertões pernambucanos. Padres da Congregação do Oratório estabeleceram uma missão na Serra do Ororubá e dessa ocupação veio a formação da Vila de Cimbres, que veio a ser a mais antiga paróquia desses sertões pernambucanos e o local do primeiro Senado do Sertão. Os padres introduziram a devoção de Nossa Senhora das Montanhas, pretendendo superar a Mãe Tamain. No alto da serra, ao longo dos séculos as tradições indígenas, africanas, portuguesas e mestiças fertilizaram-se mutuamente, criam-se e recriam-se ainda nos dias de hoje, ao tempo em que as profundas raízes Xucuru retomam o culto a Timaim. Nesse local de criatividade e sofrimento, o povo recria sua história, cria novas histórias, com as Caiporas que saíram das matas para brincar na ruas de Pesqueira, filha da Vila de Cimbres; o povo conta sua história na batida das mãos e dos pés ao canto do Cancão, na dança mestiça do coco do Cancão Pio; ou nas fantasias das Cambindas Velhas, a brincadeira dos trabalhadores da estrada de ferro que chegava em 1907, com os homens negros e mestiços cambindando, vestido-se com roupas femininas, quase recriando o maracatu de Baque Virado, mas sem as marcas da escravidão, pois que essa é um brincadeira criada na liberdade republicana, como as mais brasileiras tradições. E, se as Cambindas Velhas são filhas da movimentação dos trens entre o Recife e Pesqueira, a Escola de Samba Labariri é cria da migração gerada pela industrialização dos anos cinqüenta e das rodovias que favoreceram o vai e vem da população entre o Sudeste e o Nordeste.
Fico feliz em ser participante desses gloriosos momentos do Ponto de Cultura Ororubá, local de confluência das tradições que formam o Brasil, sem as bobagens, cultivadas por certos grupos sociais, de ficarem semelhantes aos “civilizados europeus” por utilizarem alguns dos instrumentos criados por eles. Gosto de viver com os brasileiros, como esses grupos que se uniram para formar o Ponto de Cultura Orarobá, pois têm em comum o fato de continuarem a ser a riqueza cultural de Pesqueira após a debandada dos “capitalistas” industriais. As mudanças políticas e sociais não mais permitiam acordos abusivos na contratação da mão de obra e as “indústrias” faliram. A chegada da revolução rodoviária superou o tempo dos trens. A destruição das matas tornou mais seco o tempo agreste e as goiabas e tomates não eram mais suficientes para garantir lucros exorbitantes, as leis tornaram mais difícil a exploração da população local e a rodovia federal os levou para a capital, de onde choram saudades por tempos passados, enquanto isso o povo mestiço de Pesqueira continuou a produzir a riqueza que é mais forte que o ouro, mais resistente que o diamante: a cultura.
Nos anos posteriores à guerra que expulsou os holandeses de Pernambuco, os mestiços do litoral, iniciaram a conquista dos sertões pernambucanos. Padres da Congregação do Oratório estabeleceram uma missão na Serra do Ororubá e dessa ocupação veio a formação da Vila de Cimbres, que veio a ser a mais antiga paróquia desses sertões pernambucanos e o local do primeiro Senado do Sertão. Os padres introduziram a devoção de Nossa Senhora das Montanhas, pretendendo superar a Mãe Tamain. No alto da serra, ao longo dos séculos as tradições indígenas, africanas, portuguesas e mestiças fertilizaram-se mutuamente, criam-se e recriam-se ainda nos dias de hoje, ao tempo em que as profundas raízes Xucuru retomam o culto a Timaim. Nesse local de criatividade e sofrimento, o povo recria sua história, cria novas histórias, com as Caiporas que saíram das matas para brincar na ruas de Pesqueira, filha da Vila de Cimbres; o povo conta sua história na batida das mãos e dos pés ao canto do Cancão, na dança mestiça do coco do Cancão Pio; ou nas fantasias das Cambindas Velhas, a brincadeira dos trabalhadores da estrada de ferro que chegava em 1907, com os homens negros e mestiços cambindando, vestido-se com roupas femininas, quase recriando o maracatu de Baque Virado, mas sem as marcas da escravidão, pois que essa é um brincadeira criada na liberdade republicana, como as mais brasileiras tradições. E, se as Cambindas Velhas são filhas da movimentação dos trens entre o Recife e Pesqueira, a Escola de Samba Labariri é cria da migração gerada pela industrialização dos anos cinqüenta e das rodovias que favoreceram o vai e vem da população entre o Sudeste e o Nordeste.
Fico feliz em ser participante desses gloriosos momentos do Ponto de Cultura Ororubá, local de confluência das tradições que formam o Brasil, sem as bobagens, cultivadas por certos grupos sociais, de ficarem semelhantes aos “civilizados europeus” por utilizarem alguns dos instrumentos criados por eles. Gosto de viver com os brasileiros, como esses grupos que se uniram para formar o Ponto de Cultura Orarobá, pois têm em comum o fato de continuarem a ser a riqueza cultural de Pesqueira após a debandada dos “capitalistas” industriais. As mudanças políticas e sociais não mais permitiam acordos abusivos na contratação da mão de obra e as “indústrias” faliram. A chegada da revolução rodoviária superou o tempo dos trens. A destruição das matas tornou mais seco o tempo agreste e as goiabas e tomates não eram mais suficientes para garantir lucros exorbitantes, as leis tornaram mais difícil a exploração da população local e a rodovia federal os levou para a capital, de onde choram saudades por tempos passados, enquanto isso o povo mestiço de Pesqueira continuou a produzir a riqueza que é mais forte que o ouro, mais resistente que o diamante: a cultura.
sábado, outubro 24, 2009
Luiz XIV no maracatu rural ou o samba do crioulo doido no patrimônio cultural
Neste sábado estive em dois espaços especiais, a sede de dois grupos de maracatu rural, ambos na cidade de Nazaré da Mata. Uma dessas sedes é a sede do Confiança Esporte Clube, fundado em 1973. Fiquei impressionado com a organização e a capacidade empreendedora dos seus dirigentes. O Confiança oferece aulas de reposição, oficina de artesanato, tem um centro de computação a serviço da comunidade do bairro Tancredo Neves. É dali que, no domingo de carnaval sai o Maracatu Leão Misterioso, sob a liderança do Mestre João Paulo. No outro lado da cidade, à beira do canavial, visitei a sede do Maracatu Águia Dourada, e tive alegre conversação com a sua diretoria. Nos dois casos o tema foi sobre como fazer o maracatu chegar nas escolas de Nazaré da Mata.
Nessa conversa a gente fica sabendo de assuntos, de como os poderes utilizam a sedução de uma verba para inocular certos vírus que tornam incompreensíveis as manifestações culturais populares.
Fico intrigado com a fixação que certos “intelectuais” têm com a escravidão e senzala. Querem convencer o mundo todo que o maracatu rural veio das senzalas, mas ao mesmo tempo escrevem que os mais antigos maracatus de orquestra são o Cambindinha de Aroçoiaba e o Cambinda Brasileira do engenho Cumbe, ambos datados da segunda década do século XX, quando já não mais existia escravidão no Brasil, embora os avós de certos historiadores continuassem a tratar os moradores de seus engenhos como se fossem escravos.
O Maracatu de Baque Solto é uma invenção de homens livres, trabalhadores rurais, cortadores de cana, mal pagos, mas homens livres e que contam a sua história, a história do povo brasileiro, especialmente a dos índios, que foram tornados caboclos e forçados ao silêncio.
E no processo de criação de sua manifestação cultural, a manifestação de uma parte da cultura brasileira, a dos índios e caboclos, eles não tinham rei, rainha ou corte ou qualquer coisa que lembrasse a monarquia portuguesa ou francesa. Todo mundo já sabe que a presença de rei e rainha no Maracatu Rural foi uma exigência da Comissão Organizadora do Carnaval que, usando e abusando do poder autoritário e do dinheiro, obrigou os índios e caboclos a saírem com um rei e uma rainha. Se assim não o fizessem não poderiam participar do carnaval no Recife nem receber prêmio ou dinheiro de incentivo. Os índios foram obrigados a colocarem um rei, como o “rei do congo” do Maracatu criado no terreiro da senzala e no pátio dos rosários. Hoje, depois de mais de sessenta anos desse atentado contra a criatividade dos homens da bagaceira dos engenhos, já não se pode mais tirar esse rei e rainha, incorporados que já estão à tradição.
Mas não dá para assistir sem reagir a esse negócio de exigir que o bandeirista do maracatu rural use uma cabeleira à la Luiz XIV, como se faz nas escolas de samba do Rio de Janeiro. Tudo bem que é tradição do carnaval do Rio de Janeiro imitar a corte do Dom João I, mas não é necessário essa subserviência absoluta em querer ficar parecido e igual aos outros e destruir as nossas invenções.
Soube que um desses senhores, que se julgam senhores da cultura por estarem em posto de mando, querendo convencer os donos de maracatu de que eles teriam que ter um “pálio” assim e assado, para poder receber pontos da Comissão Julgadora, percebeu que seus ouvintes não estavam entendendo o seu palavreado e perguntou se o pessoal sabia o que era pálio. A resposta: “moço, o pálio que conheço é um carro”. Pois esse pessoal que “conhece” por ouvir dizer que tem um povo em Pernambuco, está impondo a cabeleira dos franceses do século XVIII aos caboclos do Maracatu de Baque Solto.
E ainda dizem que estão guardando o nosso Patrimônio Cultural.
Nessa conversa a gente fica sabendo de assuntos, de como os poderes utilizam a sedução de uma verba para inocular certos vírus que tornam incompreensíveis as manifestações culturais populares.
Fico intrigado com a fixação que certos “intelectuais” têm com a escravidão e senzala. Querem convencer o mundo todo que o maracatu rural veio das senzalas, mas ao mesmo tempo escrevem que os mais antigos maracatus de orquestra são o Cambindinha de Aroçoiaba e o Cambinda Brasileira do engenho Cumbe, ambos datados da segunda década do século XX, quando já não mais existia escravidão no Brasil, embora os avós de certos historiadores continuassem a tratar os moradores de seus engenhos como se fossem escravos.
O Maracatu de Baque Solto é uma invenção de homens livres, trabalhadores rurais, cortadores de cana, mal pagos, mas homens livres e que contam a sua história, a história do povo brasileiro, especialmente a dos índios, que foram tornados caboclos e forçados ao silêncio.
E no processo de criação de sua manifestação cultural, a manifestação de uma parte da cultura brasileira, a dos índios e caboclos, eles não tinham rei, rainha ou corte ou qualquer coisa que lembrasse a monarquia portuguesa ou francesa. Todo mundo já sabe que a presença de rei e rainha no Maracatu Rural foi uma exigência da Comissão Organizadora do Carnaval que, usando e abusando do poder autoritário e do dinheiro, obrigou os índios e caboclos a saírem com um rei e uma rainha. Se assim não o fizessem não poderiam participar do carnaval no Recife nem receber prêmio ou dinheiro de incentivo. Os índios foram obrigados a colocarem um rei, como o “rei do congo” do Maracatu criado no terreiro da senzala e no pátio dos rosários. Hoje, depois de mais de sessenta anos desse atentado contra a criatividade dos homens da bagaceira dos engenhos, já não se pode mais tirar esse rei e rainha, incorporados que já estão à tradição.
Mas não dá para assistir sem reagir a esse negócio de exigir que o bandeirista do maracatu rural use uma cabeleira à la Luiz XIV, como se faz nas escolas de samba do Rio de Janeiro. Tudo bem que é tradição do carnaval do Rio de Janeiro imitar a corte do Dom João I, mas não é necessário essa subserviência absoluta em querer ficar parecido e igual aos outros e destruir as nossas invenções.
Soube que um desses senhores, que se julgam senhores da cultura por estarem em posto de mando, querendo convencer os donos de maracatu de que eles teriam que ter um “pálio” assim e assado, para poder receber pontos da Comissão Julgadora, percebeu que seus ouvintes não estavam entendendo o seu palavreado e perguntou se o pessoal sabia o que era pálio. A resposta: “moço, o pálio que conheço é um carro”. Pois esse pessoal que “conhece” por ouvir dizer que tem um povo em Pernambuco, está impondo a cabeleira dos franceses do século XVIII aos caboclos do Maracatu de Baque Solto.
E ainda dizem que estão guardando o nosso Patrimônio Cultural.
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