sábado, maio 11, 2024

Maio das chuvas, das mães.

Derrama-se o mês de maio em chuvas, e em lágrimas que as sucede. Nos idos do anos setenta uma geração pensava e cantava em voz alta a sua insatisfação com a ditadura. Bem , nem toda uma geração, como bem lembrava o Raul Seixas em Ouro de Tolo. Mas lembro de que o poeta Aldir Blanco escreveu O que dá para rir dá para chorar, apontando situações sobre as quais as pessoas podem sentir diferentemente, embora estejam no mesmo lugar que,se para uns é de partida, para outros é de chegada. Em certo momento ele chama atenção que, a chuva tem errado o lugar de sua queda, pouca no Nordeste e muita no Sul do país. Por aquele tempo Tom Jobim cantava que as Águas de Março fechavam o verão. Nos sertões nordestinos elas são esperadas por anunciarem um tempo sem seca e a possibilidade de não ter a fome que mata “um pouco por dia” como escreveu o poeta Cabral de Melo. Até os anos setenta a geografia brasileira confirmava o ufanismo do Conde Afonso Celso: uma verdura permanente, ausência de furacões, tornados, terremotos, e outras reações alérgicas do Planeta, tão comuns nos outros países. Por aquelas partes do globo terrestre alguns cientistas já chamavam atenção de que o planeta é finito, seus recursos são finitos embora a ganância, o desejo de acumulação de alguns seres humanos pareçam ser infinitos. Esse desejo de acumulação tem se mostrado mais claramente após o advento da Revolução Industrial e da civilização que dela tem brotado. Logo após a Guerra ‘terminada’ em 1945, parece ter aumentado o processo de cobertura da face da terra. Esse projeto tem início com a fabricação de automóveis com as consequentes rodovias. O solo começa a ser impermeabilizado. Lembro que as crianças que podiam ir à escola quando eu era menino, possuíam um par de galochas e uma capa protetora de chuva. A importância da galocha era a proteção do sapato contra as lamas de um terra ainda não impermeabilizada com calçamento, pixe ou asfalto. Agora galocha é um utensílio que vemos apenas nos pés de trabalhadores da construção civil ou de repórteres enviados para os lugares onde a água não é absorvida pela terra. E a quantidade de água que chega à foz dos rios tem aumentado porque destruíram grande parte das matas, especialmente as que ficam próximas ao curso dos rios. Afinal, dizem, a agricultura deve alimentar a população urbana, embora nas cidades, haja quase um terço da população com fome, sem acesso aos alimentos necessários para a vida digna: sobrevivem. Aliás pensando bem essa palavra talvez esconda o desejo dos que lucram com a fome, com a destruição das matas, com a industrialização excessiva, os mais pobres conseguiram uma SOBREVIDA. Talvez os quisessem mortos, pois lhes proporcionaram uma SOBVIDA. Este mês de maio veio bem mais chuva que nos anos anteriores e, como a população das cidades cresceu, muito mais gente foi afetada, especialmente aqueles que não puderam comprar os apartamentos de luxo que a especulação territorial e imobiliária puderam construir. Os preços dos alimentos podem aumentar, como já informal Bob Fields, neto daquele que fez e ajudou fazer o "milagre brasileiro" enquanto o Nordeste sofria uma seca. Era o tempo da poesia de Aldir Blanc. Atualmente as Chuvas de Maio estão mais bravias que as Chuvas de Março e, outros maios virão, pois a sanha dos proprietários de motoserra parece ser infinita, ao contrário das matas. O Código Florestal aprovado em uma legislatura é deformado na legislatura seguinte. No Brasil ainda não se compreendeu a importância das matas, que não são apenas lugares onde gorjeiam os sabiás, as araras, as aratacas (assim fui apresentado, carinhosamente, a uma família de Erichim, RS) nos anos em que o debochado Gonzaguinha cantava, Você Merece, no programa de Flávio Cavalcanti. Os Sabiá de Tom Jobim, como a Asa Branca e Assum Preto de Luiz Gonzaga merecem suas matas, suas florestas, bem como as onças e jacarés do Pantanal. Quando eu era menino, o mês de maio era o Mês das Noivas (nunca entendi porque não se menciona os noivos) que choravam de alegria no momento do seu casamento, conforme as novelas de época mais antiga, permitem aos mais velhos lembrarem e aos mais novos saberem que as moças e rapazes casavam, com a pompa que suas classes sociais permitiam. Claro que sempre houve, entre os mais pobres, os que nunca casavam, pois os papéis eram caros e os juízes sempre seguem as regras do jogo. Neste maio, continua a destruição de Gaza e da Ucrania, ambas para preservar a civilização, salvar a cultura matando um povo. Continuam as pequenas guerras na Grande África, Mãe de todos os povos. Feliz Dia das Mães, as que perderam seus filhos nas guerras, as que morreram nas guerras, as que vivem nas favelas, as que estão aquecendo seus filhos nos acampamentos nas cidades do Rio Grande de São Pedro, as que têm seus filhos mortos nos confrontos policiais, as que perderam seus filhos para alguma bala perdida, Feliz Dia das Mães para aquelas que já cumpriram suas tarefas e descansam eternamente. Prof. Severino (Biu) Vicente da Silva, 11 de maio de 2024.

sexta-feira, abril 26, 2024

João Felisberto Cândido

Em agosto de 2008, escrevi sobre O Almirante Negro. Esta semana uma autoridade da Marinha do Brasil desmereceu a ação do marineiro João Cândido por ter lutado pelo fim do castigo da chibata, que os oficiais costumavam usar contra os marinheiros, em sua maioria negros. João Cândido foi indicado pela deputada Benedita da Silva para fazer parte do Panteão dos Herois. Agora republico aqui o que disse antes. Boa leitura. JOÃO CÂNDIDO FELISBERTO – O ALMIRANTE NEGRO Severino Vicente da Silva Leio nos jornais notícia da reparação histórica ao marinheiro João Cândido Felisberto que, no início do século XX participou da luta pelo fim do castigo físico que oficiais da Marinha Brasileira estavam autorizados a aplicar aos marinheiros comuns. Enquanto os oficiais da marinha eram provenientes das camadas mais abastadas da sociedade, os marinheiros eram negros, mulatos, outros mestiços, pobres. João Cândido foi um dos que se insurgiram após assistir a aplicação de mais de duzentas chibatadas em um dos colegas. A capital federal assistiu, mais uma vez, canhonaços e temeu por uma guerra civil. Após alguns dias e muitos mortos, ficou proibido o uso das chibatas. Algum tempo depois, João Cândido foi expulso da marinha. A medicina auxiliou a estigmatizar ainda mais o Almirante Negro, afirmando que ele era um débil mental ( a mesma coisa andaram dizendo de Antonio Conselheiro) internaram-no em um hospício. Posteriormente foi visto que houve um “erro de diagnóstico”. Antonio Cândido veio a falecer em 1950. Por iniciativa da senadora Marinha da Silva, João Cândido foi reintegrado às Forças Armadas Brasileiras. Suas famílias não tiveram direito à indenização monetária, pois teria que ser contada desde 1911, e esta verba não indenizatória não estava prevista no orçamento. Nos comentários dos jornais, leio que vários líderes de diversos movimentos que apontam para uma maior integração da população negra e mestiça (embora os mais radicais não costumam achar interessante brasileiros mestiços; para esses líderes, tem que ser negro e assumir sua africanidade quase negando alguma brasilidade) e vejo que, nos depoimentos ditos e publicados no Jornal do Commércio deste domingo (3/08/2008) há um esquecimento, proposital ou não, de lideranças e personalidades brasileiras de origem africana que viveram no século XIX. Sendo João Cândido marinheiro, é possível que ele nos faça lembrar a Marcílio Dias, um negro que se destacou na defesa do Brasil na Guerra da Tríplice Aliança (talvez se pretenda negar o grande número de negros que morreram naquela guerra apenas porque revisões históricas a apontam como parte da expansão inglesa); bem que se poderia lembrar, nessa lista de brasileiros negros ou mestiços, Castro Alves (eu sei que grande parte dos brasileiros jura, de pés juntos. que Castro Alves era branco e louro como grande parte dos jovens de nossas periferias), e José do Patrocínio, e Cruz de Rebouças, e Borges da Fonseca, Antonio Pedro de Figueiredo, Negro Balaio, Machado de Assis, entre outros. Quando os jovens brasileiros, que, como eu, têm uma de suas origens na África puderem apreciar a participação dos afrodescendentes na construção do Brasil, eles sentir-se-iam melhor e mais dispostos a assumir a sua negritude ao invés de auxiliar o enriquecimento dos vendedores de corantes para cabelos. É melhor política cultural fazer afirmações do que esquecimentos. Após alguns anos os esquecimentos serão lembrados, como agora o fez, uma mestiça de todas as etnias, a senadora Marina da Silva. Não mencionar as participações dos negros e mestiços brasileiros no século XIX, o século que “cria” o Estado Brasileiro, é colocar no lixo pérolas, diamantes, julgando serem pedras comuns. E ainda que fossem comuns, os cascalhos triturados e tornados cimentos é que fazem as construções se manterem firmes e vigorosas. As medalhas - de ouro, prata, ou bronze – são presas por simples fitas para serem vistas e admiradas. Não adianta negar a história, ela sempre volta, nas pesquisas das novas gerações, para nos lembrar que sempre a querem manipular. Se as comunidades, associações, organizações não governamentais lutam para preservar tradições como maracatu de baque virado, capoeira, acarajé, pano da costa, e outras coisas e danças nascidas no século XIX como parte da cultura brasileira, há que se cultivar também os homens e as mulheres que viveram e lutaram neste território cultural. Talvez quando fizeram o que fizeram não estavam pensando nos atuais movimentos sociais (aliás, estão tão parados que daqui a pouco não vai dar para chamar de movimento) e seus dirigentes; nossos antepassados estavam vivendo os seus presentes e superando o seu passado, mas os atuais dirigentes desses movimentos têm a obrigação de lembrá-los e explicitar a sua participação na formação do DNA cultural brasileiro. Quem sempre quis esquecê-los foi a classe social que não os reconheciam e só nos reconhece em último caso. Escrito em agosto de 2008 Severino.vicente@gmail.com www.biuvicente.blogspot.com

domingo, abril 07, 2024

Abril e algumas observações

Abril e algumas observações Prof. Severino Vicente da Silva Bem, estamos em abril, quarto mês gregoriano, mas um ano interminável para os habitantes do Território Palestino, que sofre uma luta interminável desde que os descendentes de Abrão, chefe de uma das famílias de Sem filho de Noé, decidiram que as terras habitadas pelos descendente de Cam, filho de Noé deveria ser deles e, sob a liderança de Moisés e Josué começaram uma guerra que vem até os dias de hoje. Esse é o mito, e ele foi inscrito e escrito no Antigo Testamento judaico, no livro do Gênesis. Um briga de família, poderíamos dizer, de quem se agarra ao passado e impede a geração de novos tempos e esperanças. E o atual primeiro-ministro de Israel parece que se entende como uma dádiva de seu deus para conquistar definitivamente o território que era habitado pelos descendentes de Cam, os cananeus. Estou dizendo parece, não tenho a certeza de Bibi Natanyahu. No início de abril de 2024, quase se completava o genocídio promovido pelo Estado de Israel que, com suas atitudes demonstram que o verdadeiro vencedor da guerra terminada em 1945 foi o pensamento e a obra de Adolfo Hitler, o organizador da Banalização do mal. Benjamin, casualmente significa “o filho da direita”. // Esta guerra pelo controle da terra, pela apropriação da terra – quem tem a terra tem o homem – tem sido uma constante da ação humana desde que os Sapiens Sapiens começaram a se verem diferentes dos outros animais, aqueles que foram dominados por eles. Agora quando desejam justificar a matança de algum grupo humano, logo começam a chamá-los de animais. Aliás essa prática sempre existiu, mas os europeus, desde o Renascimento cultural se esforçaram para inibir essa tendência, foram aperfeiçoando o que Norbert Elias chamou de processo civilizador. Esse conceito de civilizado foi aplicado basicamente para os grupos sociais que tinham o poder, um vez que eram os possuidores das terras e dos homens que nela viviam. Claro que, mutatis mutantis, podemos pensar que processo semelhante ocorreu fora da Europa e, como não conhecemos muito bem, admira-se muito o jeito dos indianos, chineses, japoneses que, com sua “sabedoria”, seduzem os que não os conhecem ou, não querem admitir que eles são tão humanos quanto os europeus. Sabemos que enquanto construíam suas civilizações, os povos civilizados promoveram alguns genocídios, eliminando ut que se interpunham em seus processos. É a história da humanidade, a qual ainda está no início da sua madrugada, como escreveu, um dia, um utópico jovem da Baviera, exilado na Londres ‘civilizada’ enquanto a Alemanha procurava a sua cultura ou civilização. Alguns desses ‘alemães’ chegaram ao sul do continente americano, outros foram o norte do mesmo continente e, finalmente, alguns foram ‘civilizar” a África do Sul, criando o apartheid. Para civilizados, ‘aqueles animais’ não tinham sentimentos , podiam ser caçados como foi feito com uma enorme quantidade de espécies de seres vivos, sacrificados para a ereção e glorificação das sociedades civilizadas. Em um tempo foram as lutas as lutas dos gladiadores nas arenas romanas, depois os torneios de cavalheiros em honra de alguma dama; em tempos mais recentes as matanças no Congo Belga. Agora os novos gladiadores, treinados em quartéis preparatórios, alguns, e outros por boas mães em seus condomínios fechados, saem em busca de presas, não em cavalos, mas em seus Porsche. // Desde o calendário Juliano que o mês de abril é dedicado ao deus da guerra, Marte ou Aries, conforme a sua escolha cultural. Grécia e Roma não parece terem sido criadores de futuro. Nelas não há utopias; encontram-se reflexões sobre o homem daquele momento e, suas reflexões servem para ajudar o comportamento dos homens nas suas sociedades, mas não há sonhos, esses são suprimidos no seu nascedouro, ou tentam, como Herodes, matar o que promete ser, e o que promete ser é sempre uma ameaça o que é. Toda novidade deve morrer quando está a nascer, pois assim é que se mantém os impérios. As guerras organizadas matam os jovens, as mulheres e as crianças. Jovens mulheres e crianças são um perigo para os poderosos. Quando não matam fisicamente os jovens, matam o espírito em salas de aulas, em caminhadas excessivas, atividades físicas que levam à exaustão e são premiadas com luzes, gestos e festas rapidamente esquecidas, que se tornam nostalgias, lembranças. Fazer algo para ser esquecido, ou lembrado de maneira isolada, perder-se sem história, sem relação com quem o rodeia, com quem o preparou, com que pagou, com que levou seus pratos sujos e roupas manchada. O discóbolo é o auge grego, como o álbum de fotografias sem datas ou nomes. // O grande desafio é superar o discóbolo, é não seguir o ensinamento de uma pessoa que, em órgão de preservação do patrimônio histórico de uma cidade que disse: historiadores são saudosistas.

terça-feira, março 12, 2024

Duas cidades aniversariam: Olinda e Recife

Duas cidades aniversariam; diz a lenda que há poucos anos de diferença entre elas, pois que são quase gêmeas, com diferentes topografias, o que provocou outras diferenças, tornando-as, em diversos momentos, quase inimigas. Mas elas têm muito em comum, entre elas e com outras cidades com idade semelhantes, cidades que começaram como pequenos povoados, faz quase meio milênio. Uma das cidades recebeu o reconhecimento e o título de Patrimônio Cultural, Artístico e Natural da humanidade. Ambas estão à beira do Oceano Atlântico e parte de seus territórios eram manguezais, berço de inúmeras espécie de peixes e crustáceos. Hoje esse ecossistema está quase desaparecido para as cidades crescessem em espaços para acomodar a gente que vinha de terras longínquas para viver, domando a terra e tentando vencer o mar. A bela Olinda nasceu da guerra entre a gente de Duarte Pereira e os Caeté, o povo que vivia na colinas e nos espaços estre elas. A derrota dos Caeté foi possível com a aliança matrimonial entre o irmão de Dona Brites Albuquerque e Muira Ubi, mais conhecida como Maria do Espírito Santo Arco Verde, filha do cacique Uira Ubi, da tribo dos Tabira do ramo Tabajara. Esse enlace amoroso garantiu a criação do povoado que, dois anos depois foi dita vila/cidade, no Foral de Olinda. Era, então a colina onde Duarte Coelho fez seu castelo, construiu a igreja dedicada ao São Salvador do mundo. E então veio o açúcar dos engenhos que fez a riqueza de Olinda, riqueza que a colocou no furacão da guerra das Províncias dos Países Baixos e a Espanha, e Olinda foi invadida pelos povos daquelas províncias lideradas pela Holanda. Ocorreu o incêndio da cidade, a depredação de suas residências e prédios. O holandeses olhavam mais para o Recife, cujo porto lhes interessava. Inicialmente, a população do Recife vivia do mangue, mas veio a ser o porto, um porto natural, que Olinda não possuía. Esta foi a razão da guerra holandesa: controlar o comércio do açúcar produzido nos engenhos de propriedade dos habitantes de Olinda. Os interesses dos batavos fez o povoado crescer durante a guerra, e para controlar a violência e garantir o lucro, os sócios da Companhia das Índias Ocidentais contrataram um nobre e o puseram no governo das terras que os holandeses vinham tomando dos portugueses de Portugal e dos portugueses de além e aquém mar. Na ocorrência da guerra da Restauração Pernambucana, que ocorria correlata com a Restauração Portuguesa, os holandeses derrotados militarmente, destruíram o que haviam construído nos tempo em que colonizaram Pernambuco, Paraíba Rio Grande e Ceará. Mas o Recife cresceu em importância e população, pois o centro do poder é atrativo. Ao longo de um século, governadores, bispos, ordens religiosas mudam-se para o Recife. Mas não sem guerra entre as irmãs gêmeas, ou entre a mãe e a filha bem-sucedida. Quinhentos anos depois, as duas cidades estão em crise, elas têm dificuldade de contar as suas histórias que, neste mundo performático, parece só existirem uma vez por ano, no período carnavalesco. As duas cidades não cuidaram de guardar suas memórias, como pode ser comprovado pelo estado decadente de seus arquivos públicos, entre outros aspectos. Mas hoje é dia de festa, assim devemos parecer alegres, pois a ignorância, como a inocência, assim o exige. FELIZ ANIVERESÁRIO. VAMOS COMER BOLO. Prof. Dr. Severino Biu Vicente da Silva, Presidente do Instituto Histórico de Olinda. Ouro Preto, Olinda,12 de março de 2024

domingo, março 03, 2024

INÍCIO DE MARÇO

Início de Março Prof. Severino Vicente da Silva Todos os meses guardam segredos, tão secretos que estão nas conversas dos botequins de esquina, das igrejas nas praças centrais, bem como naquelas que se estabelecem apressadamente em antigos cinemas ou nas salas apertadas em ruas de periferia. Sim, quase todos, padres, pastores e vendedores das rosas de Hebrom, falam da do Estado de Israel e o Grupo Hamas. Na confusão há quem confunda o Estado de Israel com o povo judeu, e há aqueles que, juram pelo plim plim que todo Palestino é militante do Hamas, inclusive os que ainda estavam no ventre de suas mães quando essas foram mortas. Esses são, como dizia Cazuza: segredos de liquidificador. Outro segredo que estava sendo esquecido é a existência da guerra iniciada pela anexação de territórios ucranianos pela Rússia, processo iniciado em 2018, mas este é outro esquecimento, bem como a política de expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte. No final de fevereiro o Macron, o presidente francês que evita um tratado de comércio com a América Latina enquanto defende o direito de proteger seus agricultores ultrapassados da livre concorrência do mercado, principal dogma dos sacerdotes do capitalismo, falou que talvez fosse necessário mandar mais armas e homens para ajudar a Ucrania derrotar a Rússia; então o presidente da Rússia lembrou outro segredo: ele tem mísseis que podem alcançar qualquer cidade da Europa e, os que os tais mísseis carregam ogivas nucleares. Macron calou-se, lembrou-se de outro segredo: a França faz tempo que não é levada a sério. Nem vamos mencionar as “pequenas” guerras que ocorrem na África, mesmo porque elas estão matando menos que as hostes de Natanyaho, o Bibi. Também não é segredo que Março é o mês dedicado a Marte (Aries) o mitológico deus da guerra. Mas algumas coisas, algumas ações escapam ao deus da Guerra, como o aniversário de nascimento de minha caçula, no dia 6. Ocorre que este dia, recentemente foi ‘descoberto’ pelos pernambucanos como o início da Revolução Pernambucana, que também envolveu a Paraíba e o Rio Grande do Norte, e na virada do século passou a ser celebrado como a Data Magna de Pernambuco. Era uma data tão esquecida que nem nome de rua tem. Mas tem o Primeiro de Março, para lembrar uma vitória do Brasil contra o Paraguai, a Batalha de Aquidabã, que pôs fim à guerra contra iniciada com o aprisionamento do governador do Matogrosso pela marinha paraguaia. O Seis de Março continua sendo, para alguns com problemas de audição e escolaridade a “gata magra”. Aliás, em toda minha vida de estudante – 1955 a 1986 – jamais ouvi a expressão Data Magna, embora sempre foi ensinado que houve uma Revolução dos Padres, embora que mais recentemente os mações estão mais presentes no atual momento de revisão histórica. O dia de hoje, 3 de março, foi muito interessante para mim, que presidi a reunião ordinária do Instituto Histórico de Olinda, que me deu a oportunidade de ser lembrado pelo confrade Hely Ferreira, que neste mês, no ano de 1982, ocorreu o assassinato do procurador Pedro Jorge, que havia demonstrado a existência, com conivência de algumas autoridades, de desvio de verbas, no que ficou conhecido como o Escândalo da Mandioca, no Sertão pernambucano. A reunião continuou com a apresentação de uma pesquisa interessante, inclusive por tratar de um bairro da periferia de Olinda: o Matadouro e o Bairro de Peixinhos. A palestre do confrade João Henrique provocou um aluvião de notas e notícias por parte da assembleia. À tarde, tive outra alegria, indo ao Bairro de Peixinho para assistir a culminância de uma residência promovida pelo Projeto Recordança, no Ponto de Cultura Darué Malungo, onde encontrei muitos malungos com os quais vivi alguns bons momentos de minha vida. Alguns que se apresentaram eram de minha geração, outros mais jovens, e todos dançando a vida como a vida lhes fez e eles a fizeram, ali e em outros lugares onde se brinca capoeira, caboclinhos, frevo, rap. Bonito e renovador ver meu povo contar a sua dança, a sua história, e nelas estão a vida dos que tiveram de ser em uma sociedade que lhes nega os meios de serem. Daruê Malungo bem que poderia ser reconhecido, pelos “homens escolhidos para as rédeas do poder” aquilo que ele já é: Patrimônio Vivo da Cultura de Pernambuco. Prof. Severino Vicente da Silva

sábado, fevereiro 17, 2024

Os Mestres, Mestras e suas academias

OS MESTRES, MESTRAS E SUAS ACADEMIAS Prof. Severino Vicente da Silva (Biu Vicente) Grande parte das pessoas que conhecemos frequentaram escolas, tendo algumas que, após completar os anos do Ensino Básico, encaminharam-se para o Ensino Médio. Um número menor pôs-se em algum curso superior, licenciaram-se ou alcançaram o bacharelado. Menor número ainda formam os que deram o passo em direção dos cursos de pós-graduação, ficando alguns com a titulação de mestre e, poucos, em relação à população, tornaram-se doutores ou, como se diz em outras plagas, Filósofos Doutores, os PhD. Alguns continuam, alguns até a morte, a fazer pós-doutorados, pesquisando sob a direção de outros, crescendo o número de amigos no processo de globalização. Assim contamos com o crescimento da ciência dos mestres acadêmicos ao longo dos anos, séculos, até. Na tradição brasileira, tradição de um país que cuida pouco da educação formal de seus cidadãos, alguns setores lutam para afirmar-se como sendo o local da primeira escola, como é o caso das escolas fundadas pelos jesuítas Manoel da Nóbrega, em Salvador da Bahia ou José de Anchieta em São Paulo de Piratininga. Maior debate pode ocorrer se falarmos em cursos superiores, pois há a disputa entre Olinda e São Paulo por conta dos Cursos de Leis, postos no papel por Pedro I em 1827. No século XIX, o ‘Curso Jurídico’ de Olinda foi transferido para o Recife, assim como fizeram os governadores e os bispos. Claro que Jesuítas e franciscanos podem nos lembrar que os primeiros cursos especulativos, de teologia, ocorreram em seus espaços da Bahia em 1575 e os franciscanos, logo após a expulsão dos holandeses, criaram seu curso superior de teologia, no convento de Olinda, como diz uma placa comemorativa no salão de entrada. Nem os guias de turismo se dão conta dela. Aprendemos, então, que se procurava formar doutores em especulação divina. Os jesuítas criaram seu colégio em Olinda, ainda em 1560, com as benção de Dona Brites Albuqerque, viúva de Duarte Coelho, seu primeiro dono ou donatário. O mesmo Antônio Vieira que ensinava no colégio da Bahia, veio a dar algumas aulas no Colégio Nossa Senhora das Graças onde, dizem, ainda há o púlpito de onde expunha a excelência da linguagem, do pensamento da Reforma Católica, que ainda pode ser observado no falar de alguns advogados e políticos possuidores de alguma leitura barroca. O mesmo Vieira deve ter ministrado algumas aulas em São Luis do Maranhão, de onde foi expulso pela sua defesa da liberdade dos indígenas, mas silenciava sobre a escravidão a que estavam submetidos os africanos. Desse tempo podemos lembrar que os holandeses, tão louvados hodiernamente, cuidaram de destruir os espaços pedagógicos dos inacianos e dos franciscanos. Mas esses mestres retornaram logo após os comerciantes batavos terem sido derrotados nos morros das Tabocas, dos Guararapes, na várzea de Casa Forte. Também ocorreu o incidente de Tejucupapo, guardado na lembrança dos mestres populares, mas ausente nas crônicas vetustas que contam as aventuras dos flamengos, derrotados pelas mulheres daquele povoado. A expulsão dos holandeses favoreceu o retorno dos jesuítas que, apesar da liberdade religiosa então reinante na Cidade Maurícia, haviam sido expulsos pelo conde humanista do Renascimento, e assim voltou-se à prática de ensino naquele prédio que havia sido devastado pela guerra, agora recuperado. A educação de cunho religioso continuou no Colégio até que o reformador iluminista Sebastião Carvalho, o Marquês do Pombal, expulsou os inacianos do territórios portugueses, em 1759. A casa ficou no abandono, embora a Reforma do Ensino pensada por Pombal, houvesse definido que os Professores Régios tivessem residência onde antes viveram os jesuítas. Então, no final do século XVIII, foi indicado para a Diocese de Olinda Azeredo Coutinho, homem de família rica, mas que se decidiu pela vida de funcionário público e de eclesiástico. Azeredo Coutinho faz parte de uma geração de brasileiros que, de alguma maneira envolveu-se no processo de independência do Brasil, embora fosse ele um dos que não abandonaram a fidelidade à monarquia portuguesa. Escolhido bispo viu-se um homem com projeto político, educacional e econômico, e o primeiro passo foi garantir que o abandonado colégio erguido pelos jesuítas viesse a ser parte da sua diocese como centro formador de mestres. Sua pretensão foi acolhida e surgia a Seminário Nossa Senhora das Graças, o Seminário de Olinda, para o qual ele redigiu o regimento e o currículo, além de assegurar o orçamento necessário para a manutenção do prédio e pagamento dos professores. Dom Azeredo Coutinho teve pouco ou nenhum tempo para o Seminário criado por ele, pois assumiu o governo de Pernambuco, a organização do Santo Ofício e, sendo chamado a Portugal, recebeu outro bispado. Mas o seminário teve mestres, alguns como Azeredo, formados em Coimbra, outros formados pelos carmelitas do Recife ou pelos Oratorianos que mantinham colégio na Madre de Deus e foram as mãos da Reforma Pombalina. Do seminário, fundado pelo bispo Azeredo. Funcionário público conservador sempre dedicado à metrópole, nascera uma vertente da Revolução de 1817. Mas em Pernambuco sempre houve outras academias, outras casas formadoras, outras tradições. Não apenas em Pernambuco, mas em todos os lugares em que a sociedade confina uma parte de sua população na ignorância das coisas necessárias à vida social. O texto que escrevo lembra que neste dia 16 de fevereiro de 1800, foi aberto o Seminário de Olinda e, por coincidência, neste dia 16 de fevereiro de 2024 morreu a Mestra Gil, primeira mulher a assumir o apito de Mestre de Maracatu Rural, também conhecido como Maracatu de Baque Solto ou de Orquestra. Tive a honra de conhecer Givanilda Maria da Silva, ainda como bandeirista do Maracatu Feminino Coração Nazareno, um braço da Associação das Mulheres d Nazaré da Mata – AMUNAM. Quando a acompanhei em seu primeiro desfile como Mestra do Maracatu, improvisando seu versos, ela contou-me que, ouvindo os mestres de Maracatu, sentia que podia fazer versos, orientar o maracatu. Neste trajeto ela conheceu mais de perto o Garganta de Aço de Nazaré, o Mestre Zé Duda, que durante anos mestrou o Maracatu de Baque Solto Estrela de Ouro de Aliança. Trocaram experiências e, depois suas vidas confundiram-se numa grande loa de amor, até 02 de julho de 2023, quando o Mestre Zé Duda foi tirar versos com os Querubins da Corte Celestial. Mestre Gil encantou a Jorge Mautner e a Nelson Jacobina, quando desfilaram nas ruas da cidade mãe dos maracatus de Baque Solto. Mestre Gil, como a maioria das mulheres de sua região, teve negada a escola, aprendeu a ler por teimosia, como a fazer raiva aos donos de usinas que exploram os homens, empobrecendo-os fisicamente e mentalmente, e que ensinavam os cortadores de cana a explorar as suas mulheres. A Mestre Gil, como muitas outras mulheres, rompeu, as barreiras que a sociedade do açúcar amargoroso lhes punha. Assim, quando parte da sociedade que tem acesso ao saber iluminista que tem obscurecido a outra parte celebra um caminho do saber, a morte de Mestre Gil, de quem pouco se sabe, pode ser a continuidade de um caminho para as mulheres da Zona Mata, mulheres cortadoras de cana, exploradas mas que mantêm o espírito livre como o canto dos pássaros. A Mestre Gil, diferentemente do padre Antônio Vieira, não terá seu púlpito guardado e reverenciado, pois o seu púlpito é o Maracatu em andamento rápido, contando e fazendo a história do Brasil. Nosso desejo, a fé dos maracatuzeiros, a fé dos caboclos de lança é que os espíritos do mestre Zé Duda e da Mestra Gil, façam os caboclos celestiais realizarem, ao som dos seus apitos, as mais belas coreografias. Salve todos os Mestres, os Mestres de Todos os saberes. Ouro Preto Olinda, no dia de Santa Juliana.

domingo, janeiro 21, 2024

O MUNDO EM GUERRA

O mundo em Guerra Na voz de Elis Regina, música de Rita Lee, em 1991, enviava uma mensagem aos marcianos informando que "estamos em Guerra", mas o high society não tomava conhecimento dos conflitos que abundavam na terra, para variar. Atualmente também estamos em guerra, pois parece ser esta uma condição das sociedades humanas, desde que as notícias foram sendo divulgadas pelos mais diversos meios de comunicação já inventados e utilizados pelas sociedades. Os conflitos nos dão notícias até quando os mídias não as fornecem, é que vez por outra ossadas humanas são encontradas e denunciam as batalhas escondidas. Atualmente estão cartaz as guerras da Rússia com Ucrânia, Israel com Hamas, Afeganistão com o Irã, o Iêmen sofre ataques de diversos países, na África ocorrem guerras das quais ninguém fala. Há guerra dos Estados contra os traficantes de drogas e, surpreendentemente contra os traficantes de armas para aos países em guerra. Essas armas são produzidas nos países que dizem ser contra a guerras e, por ação do 'destino', os fabricantes não conseguem entender como as armas são tiradas das unidades de fabrico e guarda. Tudo é sigilo de guerra. Outra guerra é contra a natureza. Desde a invenção da agricultura que a relação do homem com a natureza é de dominação, o que parece ser uma ordem divina, de acordo com o primeiro livro da Bíblia, Gên 1:21. É o que tem sido feito, mas, nos últimos trezentos anos, o novo modo de vida que parte da humanidade escolheu e levou as outras partes a seguir, está levando a situação que vai além da subordinação podendo inviabilizar a vida dos homens e do planeta. Já faz alguns séculos que os homens separaram-se da natureza, entendem-se que dela são separados. Por não se sentirem parte da natureza, como os outros animais, os atuais dirigentes do planeta olham-no apenas como espaço a ser consumido. As guerras dos Estados entre si, matam os seres humanos, matam animais, destroem o que construíram e destróem as possibilidades de sobrevivência do planeta, ou seja, da natureza. E o fazem de maneira consciente e desejada, pois enquanto matam a Terra, pesquisam forma de sobreviver foram dela. Não é à toa que tem aumentado o número de pobres, dos morrem de famintos enquanto cinco homens concentram riquezas, de acordo com recente relatório da OXFAM, e organizam viagens para testar a possibilidade deles fugirem de uma grande rebelião. Em algum momento terá que ocorrer alguma mudança no comportamento dessa elite, que não é formada apenas pelos cinco mais ricos, ou pode vir a ocorrer a explosão da Bomba M- miséria - a revolta dos miseráveis que não são criados por alguma força divina, mas resultante da ação dos humanos. E ao lado dessa enorme questão humanitária, que não vista nem mostrada, há outra vertente que decorre do tipo de ação que os homens e mulheres construíram desde o as primeiras sociedades, é o esgotamento da natureza, explorada dessa maneira desenfreada, dessa maneira suicida. A natureza apresenta sua desconformidade com a atual gestão que dela fazem, de maneiras diversas. A reação da natureza segue as suas próprias leis, conhecidas e estudadas pelos homens, a natureza não inventa novas reações, ele age como sempre, contudo, o que fizeram com as possibilidades de sua riqueza, da natureza potencializa os movimentos naturais. Daí o degelo rápido das Polos, a ampliação dos espaços em desertificação, o deslocamento de fenômenos climáticos que afetam cidades, e nelas, os mais pobres. Os não atingidos pelas mudanças que estão ocorrendo no planeta, negam-nas e utilizam os meios que acumularam para convencer os que sofrem diretamente as consequências dessas mudanças que elas são naturais, que sempre ocorreram, e escondem que tais mudanças foram e são potencializadas pelo modo de vida escolhido nos últimos quinhentos anos. Esse modo ampliou o número de bens produzidos e, mesmo contra a vontade dos poderosos, ampliou também o acesso a tais bens. Entretanto, a velocidade com que a concentração de riqueza e poder vem ocorrendo, parece por em questão tais vitórias. Além de não fazer crescer o espírito coletivo necessário para a vida humana, o modo de viver do mundo atual detrói o que foi construído para o bem coletivo, pondo em risco a sobrevivência da sociedade e do planeta, como temos hoje. prof. Severino Vicente da Silva Olinda, 21 de janeiro de 2024.

domingo, janeiro 07, 2024

A FRANÇA E A LUTA PELA LIBERDADE

Temas Contemporâneos 1 A FRANÇA E A LUTA PELA LIBERDADE É do conhecimento e crença de todos que a França é o farol da liberdade, exemplo para todos os povos, nesse caminhar para a ereção de uma sociedade mais justa, mais igual. A história, apesar do pessimismo dos conservadores e reacionários, tem caminhado em direção de um mundo menos desigual, mas isso não tem sido feito sem lutas, sem sofrimentos. Como diria Michelet: a história é um vampiro, alimenta-se de sangue humano. Um dos pilares construtores das desigualdades contemporâneas foi o sistema de produção que tomou a utilização da escravização de humanos, especialmente os africanos, entre os séculos XVI e XX. É comum, ao brasileiro, alimentar o “complexo de vira-lata” repetindo que o Brasil foi o último país a acabar com a escravidão, embora saiba-se que a Mauritânia só a aboliu em 1981. Sabemos, por outro lado, que metade de africanos escravizados entre 1500 e 1888, foram comercializados entre 1750 e 1860, período em que a Inglaterra controlava o mercado do algodão ( era o início da Revolução Industrial) após afastar a China e a Índia do comércio de têxteis. A grande produção de algodão acontecia em Santo Domingo até 1790. A Revolta dos escravos levou à criação do Estado do Haiti. A partir de 1871, foi o sul dos Estados Unidos que passou a dominar a produção de algodão, o que fez quadruplicar o número de escravos no Estados Unidos entre 1800 e 1860, utilizando a reprodução de escravos em suas fazendas. Entre 1780 e 1790 as ilhas francesas na América e na Ásia era a área de maior concentração de escravos do mundo ocidental: 700.000; os ingleses possuíam em suas possessões 600.000 e o Sul dos Estados Unidos tinham 500.000 seres humanos de origem africana escravizados. Como sabemos, a Declaração dos Direitos do Homem, na Revolução Francesa promoveu a liberdade de todos os homens e, a população descrava de Santo Domingo – 90% do total de habitantes – exigiu a liberdade, que foi conquistada em 1791 na primeira Revolução de Escravos, criando o Haiti. Mais tarde, Napoleão Bonaparte revogou a liberdade dos haitianos levando a uma nova Guerra de Independência, com a derrota do exército francês. A pressão sobre o Haiti continuou com um bloqueio econômico. A França só reconheceu a independência do Haiti em 1825. Os franceses mantiveram a escravidão na Martinica, Guadalupe e na Ilha da União, até 1848. A Independência do Haiti foi reconhecida sob pressão intensa da frota francesa que ameaçava mais uma invasão. O governo haitiano viu-se obrigado a aceitar indenizar os proprietários dos escravizados em 150 milhões de francos-ouro, quantia que equivalia a 300% da renda do Haiti em 1825, e deveria ser paga em 5 anos. A dívida foi paga (capital e juros). Entre 1840 e 1915, foram depositados, 5% da renda nacional do Haiti, na Caisse de Dépôt e Consignation, criada durante a Revolução Francesa. A partir de 1915, após a invasão dos EUA, que durou até 1934, a dívida do país passou a ser paga ao país invasor, e foi finalmente quitada em 1950. O preço que a França cobrou pela liberdade do Haiti significou a impossibilidade da sua autonomia econômica, a sua atual pobreza. Severino Vicente da Silva. Olinda, 7 de janeiro de 2024. Os dados citados podem ser encontrados em PIKETTI, Thomas. Uma breve história da igualdade. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022. WIKIPÉDIA.

quinta-feira, dezembro 21, 2023

Professora Christine Dabat

Caros Dom Helder dizia que conheceu alguns europeus nascidos na Rua da Aurora, e conhecera brasileiros que nasceram à beira do Rio Sena. Desde 1967 encontrei a Professora Doutora Chistine Dabat, uma brasileira nascida na França. Tornou-se professora concursada da Universidade Federal de Pernambuco, assumindo a disciplina de História Medieval, dedicada aos estudos de uma parte da “invenção” da Europa que veio, em parte para o Brasil com aqueles decididos a viver em espaços que havia conhecido recentemente, e criar novas Lusitânia, York, Inglaterra, Amsterdan, mas geraram novas culturas e sociedades, mesclando tradições e cargas genéticas, alguns, enquanto outros cuidaram de manter-se separados das novidades, como se não houvesse um Atlânticos separando-os das suas terras originárias, por isso viam as novas terras apenas como lugares para o enriquecimento rápido, com vistas a um retorno quase imediato para o lugar de onde saíram. Alguns desses vivem como uma sanfona, ou como diz um samba de Martinha da Vila: “não sei se vou, não sei se fico..” Christine não vive este drama: veio para ficar. Christine dedicou-se a estudar a história social e, como está no Nordeste do Brasil, na região que se constituiu com e no açúcar, com amargo sabor de exploração, de sofrimento, mas com a doçura do sonho, da esperança. Seus estudos nos ajudam a entender o que somos, como vivem parte dos brasileiros, esses brasileiros que não são vistos por outros que nasceram ao seu lado. Seus estudos sobre os moradores dos engenhos, não os das casas grandes, mas das casas de pau-a-pique, seguradas com o mesmo barro que alimenta o canavial, que se renova anualmente, mas são casas frágeis que não lhes pertencem, onde moram “de favor”, e que podem ser derrubadas facilmente, ao primeiro sinal de insatisfação. Enquanto Christine dedicava-se a estudar o mundo do trabalho dos cortadores de cana, eu brincava com ela que eu estudava esses mesmos homens e mulheres em seus momentos de lazer e criatividade, em suas brincadeiras, e a realização da crítica que está presente no Cavalo Marinho, no Maracatu Rural, críticas não percebidas pelos frequentadores dos alpendres das casas construídas vários metros acima dos corpos dos trabalhadores, uma arquitetura do poder. Christine tem os olhos de uma brasilidade, uma brasilidade não excludente, por isso é capaz de entender que há laços profundos entre os povos asiáticos e os brasileiros, uma relação que existe desde muito antes que os filhos da Europa encontrassem o caminho para as Índias; percebe que este passado está voltado a criar novas relações, como bem demonstra o Grupo de Estudos da Ásia, que tem aberto os olhos e as mentes de seus alunos para essa realidade que está sendo gerada enquanto estamos vivendo. A minha amiga Christine está a se aposentar, pelo que entendi, deixará as aulas dos cursos de graduação, mas continuará, enquanto lhe for possível, atividades na pós graduação e nos grupos de estudos sobre a Ásia. Agradeço os momentos que trabalhamos juntos em diversas comissões no curso de História, agradeço a sempre alegre acolhida em sua sala, agradeço a ela por ter-me auxiliado a compreender um pico mais o universo cultural em que viveram meus pais na Zona da Mata Norte de Pernambuco, agradeço-lhe ter-me feito gostar mais de meu povo. Desejo que o Curso de História da Universidade Federal de Pernambuco jamais deixe de estudar seu lugar, seu povo. Finalizo dizendo que, em meu nome, em nome de seus alunos e, creio, em nome de seus colegas, declaro, desde agora, Christine Paulette Yves Rufino Dabat, Professora Emérita da UFPE. Severino Vicente da Silva Professor associado da UFPE. Ouro Preto, Olinda, 21 de dezembro de 2023

sexta-feira, dezembro 15, 2023

Calendas de dezembro

São as calendas de dezembro, o mês que, avançou duas casinhas, abandonou a dezena, tornou-se dúzia, o mês do fim anunciador do Começo ou recomeço. Recomenda-se recomeçar, ou ao menos tentar novo rumo, novos caminhos. Desde o início do mês venho pensando em escrever algo sobre o aniversário da Declaração dos Direitos Humanos, uma bela carta de intenção para que se organize o caminho em direção da humanidade. É uma carta escrita sob a influência da evidência da malvadez humana. Ocorreu em um tempo de conviver com a surpresa dos campos de concentração na Alemanha, na Rússia, no Japão, nos Estados Unidos da América, no Sudeste e no Nordeste do Brasil. No primeiro instante, e nas décadas de quarenta e cinquenta, os campos utilizados pelos nazistas para eliminar ciganos, judeus, homossexuais, polacos, comunistas, católicos, protestantes ficaram mais famosos, foram registrados pelas lentes dos fotógrafos “para que ninguém viesse a negar” a barbárie que o General Eisenhower viu. Esperava, o general que tais registros fotográficos auxiliassem a memória dos povos e tais fatos de desumanidade não voltariam a ocorrer. E desde então não esquecemos, não devemos esquecer, que ocorreu o holocausto. Infelizmente, só tem sido considerado criminoso o que ocorreu com o povo judeu, e os demais grupos humanos foram jogados no silêncio da História, no esquecimento, na ignorância. Assim, foram escolhidos os alemães como responsáveis pelos campos de extermínio, e os judeus como sendo os exterminados. E então ocorreram julgamentos e caça aos que foram os principais responsáveis pela matança provocada pelo ódio a uma parte da humanidade. Mas quando se odeia uma parte, tudo que forma o inteiro é odiado. Quanto aos demais, receberam a ignorância consentida. O passar do tempo é que, vez por outra expõe a existência de outras barbaridades realizadas pelos humanos contra os humanos, mas tal novo conhecimento depende do movimento da história, dos interesses de alguma parte da humanidade. Foi assim que soubemos das atrocidades perpetradas pelos dirigentes da União das Repúblicas Soviéticas, morrer e como ocorreria tais mortes, se haveria a morte imediata ou se a morte viria de maneira lenta nos campos da Sibéria. A notícia chegou através uma acusação formal durante um congresso, ele veio a ser consolidado pela literatura de um sobrevivente desses Gulags. Mas não foram poucos os que desejaram ignorar, cultivar a ignorância desejada para si, a ignorância justificada. Stalin, como Hitler, tinha seus soldados voluntários e sedentos pelo poder. Um ditador não se mantém sem o apoio anônimo dos ignorantes dos fatos e daqueles que são ignorantes pelo desejo de sê-lo. Ainda não chegou nas escolas brasileiras a notícia de que durante as longas estiagens nordestinas foram criados campos que concentravam os migrantes, os retirantes em busca de pão. Muitos morreram nesses campos de concentração da miséria humana, uma parte que mata e outra que de fome morre. O século XX, como os anteriores estão carregados desses atos contra a humanidade. Durante a Segunda Guerra Mundial, aquela que gerou os campos de concentração nazistas, nas regiões onde os japoneses, recentes migrantes, estavam restaurando suas vidas, ocorreram campos de concentração para onde foram levados e tratados sem consideração por sua humanidade. Os estados de São Paulo e Pernambuco isolaram os japoneses que ali viviam. Os alemães também foram incomodados, e tratados como possíveis traidores da terra que os acolheu. Povos Transplantados, como nos explicou Darcy Ribeiro, formam comunidades à parte, onde mantém seus costumes de origem, recusando-se a envolver-se com aqueles que os aceitaram. Chegaram no Brasil com o sentimento do racismo científico que estava sendo gestado nas regiões que se industrializavam e geriam a produção do saber. E o saber produzido não reconhecia, não reconhece ainda, que não faz parte de seu grupo social, por isso “não são humanos”. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, construída em 1948, marcada pelos escombros físicos e morais pela guerra que findara em 1945, pretende ser uma orientação para humanidade. Mas como alcançar esse objetivo se tem sido cultivada a ignorância sobre eles e, simultaneamente ocorra a celebração da miséria moral, leva milhares de cidadãos e cidadãs a optarem por dirigentes sem cultura, cultivadores de ódio aos seres humanos e ao planeta? Enquanto não assumirmos a Declaração Universal dos Direitos Humanos é de nossa responsabilidade, estaremos no caminho oposto à humanidade, como nos comprovam as guerras que, agora não têm mais pejo de criar campos de concentração à vista de todos, que os ignoram enquanto embebedam-se orgulhosamente de sua ignorância; Severino Vicente da Silva. Olinda 15 de dezembro de 2023. Este texto, entre outras influências, reconhece sua dívida a Peter Burke (Ignorância: uma história global) e Jesse Souza O( A guerra contra o Brasil).

domingo, dezembro 03, 2023

Dezembro e o sonho

Já vai longe o mês de novembro, é passado, recente, mas passado. O passado está sempre presente, assim não surpreende que mais da metade de dezembro é novembro. A guerra iniciada em outubro, tomou novembro, dominará dezembro e poderá continuar indefinitivamente, apesar dos esforços de Bibi, em “terminar o que começou”, como espera o presidente estadunidense, preocupado com a duração da guerra entre o grupo terrorista Hamas e o Estado de Israel que, sofrendo algum dos efeitos da Síndrome de Estocolmo, está cada vez mais parecido com um terrorista. Será possível que continuemos a esquecer a Guerra da Ucrânia, para desespero do palhaço que parece ter perdido o tablado? E o Iêmen? E o drama dos haitianos em Santo Domingo, onde os bispos católicos apontaram que o rosto de Cristo é o rostos nos negros, índios, brancos pobres e todos os desvalidos? E o que dizem os bispos sobre a Nicarágua, cada vez mais afundada no terror de uma revolução que era bonita no livro e que até virou livro de uma Pedagogia da Revolução? A era de Aquarius foi tão frustrante quanto ao balado Hare Krishna. Ainda bem que Henry Kissinger morreu quase obscuro e desconhecido das gerações da Nutella (nunca foram a uma favela), das ‘redes sociais ‘que não socializam. Novembro seguiu Outubro e vai ser seguido por Dezembro, o enunciador do permanente Ano Velho, vestido de novo. Esta semana sonhei que estava no Vaticano, assistindo uma reunião dos cardeais presidida pelo Papa. Eu devia estar no lugar de algum anjo, o que não surpreende, pois nunca estou no lugar que, pensam, me reservaram na vida. Assim assistia a reunião sem dela participar, pois para isso eu teria que ter a permissão de Nega Fulô, convidada para o céu. Vi quando um bispo – cardeais são bispos vestidos de vermelho – que parecia ter sido amigo de infância e juventude do papa, disse: Mas Antônio, você não me disse que era bispo. Ao que Antônio retrucou: Nem você, Francisco, disse-me que era papa. Os dois abraçaram-se choraram pelo reencontro. Os cardeais, ou outro, deviam estar chorando, mas eu não estava preocupado com eles. Francisco tomou aquele olhar sério que os pais costumavam ofertar aos filhos, e disse: pois Antônio, agora que você é bispo, lembre-se que deve ser um bispo para o mundo, como dizia Dom Hélder Câmara. E. lá do meu posto de observação, eu vis os cardeais levantarem-se e aclamarem o arcebispo de Olinda e Recife e do Mundo, a sua diocese. Não tenho a menor ideia do que este sonho signifique, ou se tem significado. Talvez vocês saibam. É muito estranha esta sensação de que alguns anos de sua vida você conviveu com um santo, uma pessoa que sabia ter defeitos e diariamente estava nos encantando com a simplicidade divina. Gosto muito do Dom e, neste mundo impessoal, convivo com jovens que nasceram no ano da da morte de Hélder, mas não sabem quem foi, o que ele fez. Nessa sociedade impessoal que está sendo gestado, por nós, os de setenta + e os de setenta - , é também uma sociedade que se desmemorializa. Sem memória, não há história, não há choro, não há alegria, não há amigos nem encontros pessoais, apenas mesa de negócios e janelas de oportunidades. Quem vive de oportunidades é apenas um consumido pelo seu consumo, não cria relações além da clientela. Boa Noite. 03/12/2023 Severino Vicente da Silva

domingo, novembro 19, 2023

Preconceitos

Fui educado, como todos os brasileiros que já viveram mais de que seis décadas, a aceitar e repetir que o Brasil era o país que não havia preconceitos. Passei parte de minha vida acreditando nessa afirmação, de maneira tal que, sendo prejudicado (prejulgado) a cada movimento realizado, não o percebia. Foram e são muitos os preconceitos que os seres humanos criaram para defender-se dos outros grupos sociais com os quais esbarravam e esbarram. Expressões simples, constantemente repetidas aos nosso ouvidos e que corríamos a replicar, sem pensar sobre elas. Éramos, somos, ensinados a não pensar. Os que escapavam e escapam das armadilhas, amorosas ou maldosas, logo recebiam algum rótulo, mais um dado para que fosse afastado. Entretanto começamos a descobrir e ver além das nuvens. Uma amiga dizia uma palavra que me forçou ao dicionário e algumas horas de meditação: desnublar. Descobrir conceitos escondidos na falas. Observei, mas não compreendi no início da minha adolescência, que os colegas mais ricos, parentes ou amigos dos diretores, jamais eram culpados por algum desastre ocorrido, a responsabilidade sempre cabia aos que não tinham padrinhos. Aliás esta é a frase “quem tem padrinho não morre pagão”. Alguns sociólogos começaram a mostrar que o “você sabe com quem está falando” era dita por pessoas sem razão mas com padrinho ou boa conta bancária. Durante a ditadura militar zombava-se, em uma anedota, de um militar que fazia tal pergunta juntando-a à patente, fazendo-o a ouvir: “sinto muito por você ter conseguido apenas ser um militar”. Mas havia outras manifestações de preconceitos e diminuição do outro, especialmente voltadas para as etnias. Aprendi, aprendemos, que o índio era preguiçoso, que era dissimulado. Hoje sabemos que a razão dessa “preguiça” era o trabalho mal pago, que a dissimulação era uma tentativa de ludibriar quem dele queria se aproveitar. Quanto aos negros que tudo ouviam calados, expressões as mais depreciadoras da sua humanidade e, se em algum momento reclamavam, logo ouviam dizer que devia “procurar o seu lugar”, que “esse povo é assim, a gente dá os pés e eles querem logo a mão”, e “esses negrinhos pensam que é gente”. Quanto aos pardos, eram ditos “desbotados”, “sarará”, e isso ouvíamos de todos os lados, pois que não eram índios, negros ou brancos, eram uma gente “sem eira nem beira” que nem sabe quem são seus avós. Ouvíamos tudo isso, e diziam-nos, que não havia preconceito no Brasil, que era tudo uma questão de “classe social” e que os não preguiçosos iriam subir na vida. Afinal de contas, na Carta de ABC que educou tantos brasileiros tem um verso decorado por gerações: "A preguiça é a chave da pobreza", definindo o pobre como preguiçoso; o que impediu a muitas gerações entender que a pobreza, a miséria, resulta da apropriação da riqueza produzida pelos pobres, pelos que não herdaram as terras nas quais seus avós trabalharam durante séculos, terras que foram tomadas dos indígenas originários. Ideias como essas é que tem provocado o preconceito em relação ao trabalho, atividade humana – pois trabalho é uma ação livre, realizada com um objetivo, o de assegurar a sobrevivência do indivíduo e da comunidade a que pertence. Contudo, a exploração que tem ocorrido ao longo de nossa história, tem sido de tal monta que ele é apontado como um castigo, o pagamento permanente de uma dívida impagável desde escreveram o capítulo 3 do livro do Gênesis. Esse mito fundador, impediu a nossa compreensão do valor do trabalho, de sua função humanizante, transformando aquece que trabalha em um animal, uma besta. Não é o trabalho que torna o homem uma besta que age sem sentido, realizando o projeto de outrem, mas é a apropriação, a negação da produção da ação dos homens, que gera e reforça os preconceitos que definem negativamente os seres humanos. Nesta semana que lembramos a permanente luta pela liberdade, inclusive a liberdade dos preconceitos que nos prendem ao passado e podem comprometer nosso futuro, nesta semana que dedicamos a cultivar nossa consciência negra, não nos esqueçamos que, o que sofreram nossos pais e sofremos nós ainda agora, que somos humanos e, temos que vencer todos os preconceitos. Pro. Severino Vicenre da Silva

quarta-feira, novembro 15, 2023

A República e o povo brasileiro

Vivenciamos neste dia o último feriado cívico do ano. Com o declínio das religiões como justificativa e organização das sociedades no espaço da dita Civilização Ocidental, cada Estado cuidou de aglutinar seus súditos em torno de alguns símbolos e heróis, personagens e expressões artísticas, capazes de os manter unidos. Criou-se a religião civil, com suas normas, suas leis, e até mesmo com alguns dogmas, certas CLÁUSULAS PÉTREAS que não podem ser removidas das constituições, as sagradas escrituras das religiões nacionais. Os Estados escolhem alguns dias do ano para celebrar e fortalecer os laços dos cidadãos, são feriados, que devem ser, como eram os dias santos das religiões, momentos para reflexão sobre as virtudes exigidas para a manutenção das nações que se uniram em um Estado. Não é incomum que essas datas sejam de louvação aos símbolos, com a Bandeira Nacional, reverenciada, no Brasil, no dia 19 de novembro. Tem o dia dedicado ao Exército, à Marinha, a Aeronáutica que, embora não sejam feriado são mencionados nos calendários e nos espaços específicos. Entre os brasileiros, o Dia do Exército é mais lembrado, pois é a parte das forças armadas formada por cidadãos provenientes das camadas mais populares e pobres, portanto, da maioria da população. Data muito festejada é a da Independência do Brasil do Brasil, no Sete de Setembro, convencionado para ser símbolo da unidade nacional, procurando superar as datas locais de outros movimentos que separaram parte do Brasil de seu antigo colonizador, o Reino de Portugal, como é o caso da Revolução de 1817 e da Confederação do Equador, lideradas por Pernambuco. a Revolução de 1817 e da Confederação do Equador, lideradas por Pernambuco. Se as elites pernambucanas cumprem rigorosamente o acordo para esquecer o Gervásio Pires, Frei Caneca e outros, a Bahia festeja gostosamente a sua tardia (1823) adesão ao Império brasileiro que se formou em torno da família Bragança e dos líderes paulistas. O 15 de novembro é feriado, um dia cívico, no qual os brasileiros devem, ou deveriam, celebrar que vivemos em um Estado que superou os governo pessoais e personalistas, pois que vivemos em uma República, uma sociedade voltada e dirigida para o bem-estar do público, por suposto. Mas esses feriados quase nunca são celebrados desse modo, normalmente são vistos como oportunidades de encontro de amigos para a dança, a bebida, a celebração da vida comum. Além dos feriados e dias de celebração nacional, há os feriados estaduais e municipais, quase sempre tratados de igual modo, pois as tradições são preservadas á medida que elas apresentem importância para a vida da comunidade. Se não há uma relação de afetividade, esses feriados serão momentos para fazer nada, ou fazer qualquer coisa que o cotidiano não permite fazer. Na manhã do 15 de novembro de 1889, o Marechal Deodoro da Fonseca, saiu de seu leito (estava adoentado), para acalmar a tropa que, alimentada pelo boato de sua prisão (o que não havia ocorrido) e, ouviu gritos de Viva a República. Houve apenas um tiro, o governo do Barão de Ouro Preto foi deposto. O Imperador tomou o trem em Petrópolis e desceu ao Rio de Janeiro disposto a formar um novo ministério. Soube que já não imperava e, em poucos dias, ele e sua família estavam expulsos do Brasil. No dizer de um dos articuladores do Golpe de 15 de Novembro, “o povo assistiu bestificado” o movimento da tropa. Depois cuidou de fazer sua república paralela, como vive até hoje, com alguns momentos de intersecções. Até os dias de hoje, o povo luta para deixar de bestializado. Como o Império e a República brasileiras. Prof. Severino Vicente da Silva

sábado, novembro 11, 2023

Dez de novembro em Olinda

• Olinda, 11 de novembro de 2023 Resolvi escrever um pouco sobre duas ações realizadas pelo Instituto Histórico de Olinda com o objetivo de fazer com que todos acompanhem nossos movimentos como instituição comprometida com a manutenção de nossa memória, nossa cultura, o que significa dizer com a nossa manutenção como cidade, mais especificamente, Cidade Patrimônio da Cultura da Humanidade, conforme reconhecimento da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura – UNESCO, criado em 1972 e recebido por Olinda em 1982. Mas se o título conferido pela UNESCO reconhece a obra arquitetônica, urbanista e natural da cidade iniciada pela ação de Duarte Coelho, tais obras do patrimônio físico veem acompanhadas de ideias, sonhos, realizações não materiais que, ao longo de três séculos mantiveram as característica básicas de um processo civilizacional. Uma dessas ideias e projetos é a República que, ao longo da invenção de civilização vem sendo buscada e cultivada em diferentes momentos históricos. Um desses, ocorreu a 10 de novembro de 1710, quando a insatisfação da aristocracia do açúcar que dominava Olinda veio à tona por conta da decisão da coroa portuguesa de elevar a povoação do Recife à categoria de Vila independente de Olinda. Então, o Senado da Câmara de Olinda, em reunião na data acima mencionada, ouviu que alguns de seu membros pretendiam dispensar o rei, tornar-se um governo separado de Portugal. Essa apreciação foi apresentada por nosso confrade o Prof. Doutor George Cabral, em sua alocução no Mercado da Ribeira, próximo às ruínas do Senado da Câmara, onde reuniram-se alguns associados do IHO, Secretários da Cidade de Olinda. Uma pequena cerimônia para nos alertar que sem o cultivo de nossa herança imaterial, pouco sentido têm os prédios, os espaços; é que são as memórias, as tradições cultivadas que sustentam as cidades a humanidade. À tarde, o Instituto Histórico de Olinda recebeu a palestra de clausura, professores e estudantes da Universidade Federal de Pernambuco para ouvir palestra do Professor Eduardo França Paiva da Universidade Federal de Minas Gerais E foi dessa maneira que celebramos a memória do Primeiro Grito de República da história da América. Lembramos que no primeiro domingo de Dezembro, teremos nossa reunião mensal. Severino Vicente da Silva, presidente do IHO

domingo, novembro 05, 2023

Pensar a possibilidade de seer civilizado

Pensar a possibilidade de ser civilizado Prof. Severino Vicente Está a completar trinta dias a guerra na faixa de Gaza, entre o grupo terrorista Hamas e o Estado de Israel. O comportamento típico das guerras incivilizadas, (expressão terrível, essa) desnudam a pequena crosta de civilização que permeia as relações entre os seres humanos, esses que se se dizem sapiens sapiens. Acostumamo-nos com as ações violentas que, dizemos, eram praticadas antes que Cesare Baccaria nos ensinasse que as penas não devem ser maior que os delitos; a violência que os reis faziam aos povos usando a religião como álibi, começou a ser superada pelo temor que o Período do Terror gerou. Ao longo do século XIX. o mundo que o Iluminismo criou, parecia civilizar-se, embora isso tenha ocorrido com a colonização da África e da Ásia. Tranquilos entre o Estreito de Gibraltar e os Montes Urais, europeus entregavam-se a matanças nos continentes para alimentar os fornos e as máquinas de sua industrialização. Os mais sensíveis perceberam que a ‘civilização’ lhe enfastiava, alguns intelectuais expressão que estaria ocorrendo a Decadência do Ocidente, um Mal-estar da Civilização. Veio a Guerra, vieram a guerras, o banho de sangue tão bem-posto em memorável cena do Lawrence da Arábia, o militar e escritor inglês, T. E. Lawrence, após auxiliar a destruição do Império Otomano e criar as atuais Estados árabes. Desde então continuamos a viver um mundo em guerra, enquanto nos convencem que estamos em um grande período de paz. A Paz dos Cemitérios, dos Pântanos das diversas marcas de Cola, das viagens -são tantas as maneiras de viajar em veículos com vidros fechados com películas protetoras. Parece que não há guerras, exceto essa que está 24 horas por dia nos rádios e nos televisores, entre as campanhas publicitárias. Li hoje que Zelensky, até então o principal astro da “luta pela paz”, está a reclamar que ninguém mais lembra do que está acontecendo na Ucrânia. Mas a guerra de Zelensky, a do Hamas, do Estado de Israel, importam e estamos a acompanhá-las porque envolvem as economias industrializadas. As demais guerras, envolvendo quem não faz parte desse grupo não existem. Vivia eu meu décimo sétimo de vida quando a guerra entrou na sala de jantar. Até então a guerra era vista apenas no cinema e, até então os ‘bandidos’ eram os alemães. E o Vietnan, onde os franceses mataram tantas pessoas quanto na Argélia, começou a matar uma geração de estadunidenses, começa a fazer parte das refeições, como se Coca-Cola ou Pepsi-Cola fosse. Um escândalo pois o cinema começou a mostrar que os ‘mocinhos’ eram bandidos, também. Que grande sala de aula era o cinema que apresentava a guerra e as angústias que ela carrega. Aos poucos os sapiens sapiens foram voltando à sua condição de guerreiros e festeiros, e como a burguesia industrial do século XIX dedica-se a buscar essas bebidas espirituosas para continuarem a pensar que não há guerras. Parece que desistiu-se da ideia e do projeto civilizacional, que não deve ser confundido com os projetos que fracassaram, mas apontam que é possível viver sem guerras e sem esconder o mal-estar. Se os escondemos, não o superaremos. Ouro Preto, Olinda, 2023/11/05

quarta-feira, outubro 11, 2023

Parte do processo civilizador

Essas coisas da História da humanidade Prof. Severino Vicente da Silva (Biu Vicente) Ouvimos histórias, lemos histórias, contamos história, estudamos histórias, história dos homens e das mulheres, a história da humanidade. Nem sempre prestamos atenção ao que nos dizem essas histórias, essas letras, símbolos que nos deixaram os antigos para que as decifrássemos; não as notamos envoltas em sangue e as seguimos contando sem nos apercebermos que as histórias dos humanos sempre foi sanguinolenta. Rios de sangue seguem os conquistadores A história ocorre em constante parto, e no parto há sempre uma quantidade de sangue derramado. São dores de parto, essa nossa história. Esquecemos deste detalhe quando manuseamos um livro de história e encontramos que Ciro dominou a Pérsia; que Hamurabi fez um belo Código de normas para controlar o comportamento dos seus súditos que, segundo ele, dominava os quatro cantos da terra. Mas seu império caiu diante Sargão, o assírio que teve seu reino tomado pelos Medos de Ciáxeres. Sabemos que os gregos derrotaram os troianos e temos, bem claro em nossa memória comum, que um cavalo foi dado e recebido como presente. Sabemos da bravura dos povos do Oriente que não se curvaram ao poder de Alexandre da Macedônia, aquele que pôs fim à rivalidade entre espartamos e atenienses, conquistando-os. E quem é capaz de esquecer que César atravessou o Rubicão após derrotar gauleses Poderíamos continuar contando os sucessos dos generais e dos império e, nem imaginamos o sangue vertido, o sofrimento sentido. Foram séculos de guerra permanente na formação dos povos que chamamos ocidentais e, sabemos que também rios de sangue foram base dos sucesso dos reis do povos orientais, chineses, mongóis, japoneses e outros tantos. A humanidade vive em dores de parto, teria escrito Paulo de Tarso; a história é um vampiro, alimenta-se de sangue humano, escreveu Michelet. A guerra e tudo que lhe acompanha: o medo, o terror, a fome, a tortura, o abandono, a morte, foi o comum na existência da humanidade que, em todos os continentes e culturas sempre procurou alternativas ou justificativas para esse comportamento dos animais que se disseram sapiens. Se a descoberta da metodologia de fazer o fogo a qualquer momento foi crucial no processo de ampliar o espaço para a caça com os outros animais, com a agricultura, em seguida, veio o disputa com outros grupos de homo sapiens e, temos a invenção da guerra. Da busca por terra e seu controle, tudo veio a ser permitido. Aqui e acolá algumas normas foram sendo elaboradas para garantir a sobrevivência do grupo, de tal forma que ele fosse capaz de enfrentar outros grupos. Hamurabi, Gilgamesh, Moisés, Ciro, Dracon, Solon, Confúcio e outros estabeleceram normas de conduta. Mas a absorção de tais normas eram em sua maioria voltada para garantir a a coesão e sobrevivência de cada grupo, comunidade, tribo, etc. As guerras eram impiedosas, assim como os castigos aplicados aos que feriam as normas. As penas sempre foram maiores que os crimes cometidos. É com Cesare Beccaria (17h38-1794) que tem início um processo mais comedido na aplicação das sentenças, com os homens criando as suas leis e, não apenas seguindo as “leis que foram ditadas por alguma divindade”. Quanto ao comportamento nas guerras, as gravuras que noticiam a Guerra dos Trinta Anos, na Europa seiscentista, dão mostra de que os soldados, que trabalhavam por saque, agrediam a todos indistintamente, sem controle. As chamadas ‘árvores dos enforcados’ são a demonstração da ação dos reis em busca de controlar seus soldados. Mas isso foi sendo conseguido aos poucos, com a criação dos exércitos nacionais, o que diminuiu em muito a violência contra os civis. A violência dos homens armados contra grupos humanos sem armas ou com armas de menor efeito, levou ao massacre e genocídio dos povos e nações do dito Novo Mundo, de nações asiáticas e africanas entre os séculos XVI e XX, período que Norbert Elias diz ter havido, na Europa Ocidental, um Processo Civilizatório, um processo de contenção, de controle social, de modo a permitir a sobrevivência social. Esse controle da violência, que garante a vida em sociedade, nem sempre tem sido apreciada pelos críticos da ‘civilização ocidental’, uma vez que a sua civilidade parece ser favorável apenas aos, povos ocidentais. Mas foi ainda no século XIX que ocorreu a Primeira convenção de Genebra (agosto de 1864) para debater o comportamento dos exércitos no cuidado com feridos, definir a proteção à população civil, além da criação da Cruz Vermelha. Outros Tratados, no total de quatro) realizados em Genebra ampliaram a legislação e proteção dos combatentes e não combatentes. A reunião de Haia (1899) com a participação do brasileiro Rui Barbosa; a reunião de Genebra (1914) com a participação de Epitácio Pessoa, e em 1949, com a participação de Osvaldo Aranha, são parte desse processo civilizador que pretende minorar os efeitos colaterais da guerra. Mas a realidade anda mais rápido que os legisladores e a absorção dos ideais que nascem da criação de utopias. Esses tratados são respeitados pelos 196 países signatários, aqueles que não assinaram não sente a obrigação de o fazer. Alguns preferem a barbárie, pois a civilização estabelece limites que impedem o comportamento puramente animal e aponta para a convivência com os que pensam diferente. Ouro Preto, Olinda. 11/10/2023

quarta-feira, abril 12, 2023

A Páscoa e os cativeiros a serem vencidos

A PÁSCOA E OS CATIVEIROS A SEREM VENCIDOS Prof. Severino Vicente da Silva Semana da Páscoa deste ano põe em celebração conjunta os judeus, que reverenciam a ação mosaica em liderar seu povo a sair do cativeiro faraônico; a celebração cristã da ressureição de Jesus Cristo após sua paixão e morte, com as celebrações do povo cigano, amante da liberdade e cultuador de Jesus Cristo, em constante movimento por ser rejeitado por muitos povos que se autointitulam cristãos. Os cristãos, semelhantemente a Jesus, são sempre rejeitados por que Jesus sempre foi visto entre os menores e sem poderes da terra. A vida de Jesus é alegre, dispersadora de bondade, ocupado em cuidar dos pobres sem recusar o convite dos ricos para visitas. Quando vai a casa dos ricos opulentos e esbanjadores de riquezas que não lhes vem de seu trabalho direto, sempre os recorda que o verdadeiro tesouro é a vida. Este ano a Semana da Páscoa veio acompanhada da notícia de um massacre de crianças em uma creche no Rio Grande do Sul. O velho mundo de Herodes tentado evitar o crescimento do novo, esse apego à morte que, nos últimos tempos tem, em terras brasileiras, tem atacado escolas. Uma notícia pouco difundida é que a professora que foi ferida ao defender as crianças sob seus cuidados, morreu alguns dias após. Essa notícia nos faz lembrar que “prova de aor maior não há que doar a vida pelo irmão”. Essa é a Páscoa cristã. Estamos a caminho de novas mudanças de paradigmas em nossas convivências, agora que nos alcança o que nós criamos: a Inteligência Artificial. Eis que nos encontra ainda, infelizmente, em fase de uma Ignorância Natural. Teremos que nos relacionar com as máquinas, cada vez mais, elas cada vez mais capazes de realizar ações das quais estávamos cansado de fazer. As máquinas, as criamos para que nos servissem, para que nos sobrasse tempo necessário para o aprimoramento dos espíritos. Talvez sonhássemos como os filósofos mais antigos que, defendiam a liberdade carregados por escravos; pois alguém cuidava de suas roupas, de suas comidas, de seus afazeres enquanto, no ócio obsequioso, as poesias jorravam e as explicações eram dadas. Contudo, a maior parte de nós cuidou de usar o tempo, não para aprimorar o espírito, mas para cuidar da vaidade, da ganância, do falar mal, de pensar como prejudicar o outro em benefício próprio. Máquinas foram criadas, diminuíram as distâncias, puderam aproximar as pessoas, ajudaram a produção de alimentos de tal forma que, desde o final do século XIX, a fome poderia ter sido extinta e nenhum ser humano deveria morrer por falta de alimentos. Entretanto, a fome grassa enquanto poucos carregam para si o que falta para muitos. Teria isso acontecido por termos ficado parecidos com as máquinas que agiam a partir de nossa vontade? E será que o medo que vemos crescer, o medo da Inteligência Artificial, é elas nos repliquem? Ou será que tememos que elas possam desenvolver a bondade que falta aos muito guardam o excesso e sorriem diante da morte dos humanos e do planeta? Uma grande crítica que se faz ao Papa Pio XII é que ele desenvolveu, praticou, uma diplomacia bastante afável ao ditador Adolfo Hitler; seria a mesma que o querido Papa Francisco está aplicando ao ditador da Nicarágua?

sexta-feira, março 31, 2023

QUE VEIO COM MARÇO Prof. Severino Vicente da Silva Último dia de março de 2023, término de uma expectativa a respeito de um passado que parece jamais ser passado, o 31 de março de 1964 e madrugada do 1º de abril, quando os militares mais uma vez, à serviço dos interesses de uma pequena parte da população brasileira e de interesses de grupos de fora do país, deram início à uma ditadura que durou até 1985. Entretanto, derrotada pelo movimento que levou à anistia de presos políticos e pelas eleições diretas em todos os níveis, essa ditadura, continuadora de outras que vieram antes, parece ser invencível. A política de Conciliação que tem marcado a história do Brasil, evitou revoluções e, os mesmos grupos continuam a se suceder no poder, estabelecendo os caminhos que a nação brasileira tem trilhado desde que deixou de ser portuguesa. Os que sucederam Dom João e Dom Pedro I encontraram meios de mudarem sem permitir que as mudanças ocorressem ou ocorram. Cada época os grande proprietários de terra encontram o seu Bernardo Vasconcelos, esse “grande político” que se dispõe a “fazer a revolução antes que o povo a faça”, o que vem acontecendo desde a “maioridade de Pedro II”. Por esse caminho trilharam Prudente de Moraes, Getúlio Vargas, Castelo Branco (na ausência de um civil), Collor de Mello, o falso civil Bolsonaro e agora Artur Lira. Talvez eu esteja exagerando, mas vivemos em tempos de absurdos, mas a união de Lira, Bolsonaro e Campos IV me põe a ter pesadelos. Mas sempre tem aparecido algo que não estava nos planos, como um leve pneumonia. E Lira e está sendo obrigado a tocar outra música e o candidato a ditador percebeu que pode ir para a prisão, como seu amado Trump que está cada vez mais próximo de uma condenação por pagar mal os serviços de uma atriz pornô. Às vezes os grandes bandidos são condenados por pequenos delitos, assim como Al Capone não foi condenado pelas mortes que fez e mandou fazer, mas por mentir ao Imposto de Renda. As elites econômica, latifundiária e financeira que governa o Brasil sempre encontram meios para agraciar os frequentadores dos alpendres de suas residências, o que antigamente chamava-se “clientes”, sempre convidados para servirem de moldura para o retrato “atual”. Para calar alguns clientes insatisfeitos com os caminhos tomados pela ditadura do Estado Novo, Getúlio definiu que portador de diploma de curso universitário teria direito a cela especial, como eram poucos os portadores de diplomas, e todos relacionados, de alguma maneira, com as famílias de poder, essa “regalia”, algo que dado por algum rei, se manteve ao longo do século XX, quando poucos brasileiros entendiam que havia Direitos Humanos e que a Constituição define que todos os cidadãos são iguais perante a lei. Agora, com o fracasso da tentativa de retomar, com feições piores, a ditadura de 1964, finalmente o STF pôs fim a esta excrecência, a este excremento ditatorial. Foi a luta contra a Ditadura que levou os brasileiros a tomar consciência da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e o paladino primeiro desse caminho foi o então Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, com o movimento Pressão Moral Libertadora e o seu sucedâneo, Justiça e Paz, nos anos iniciais do período mais terrível do poder militar aliado a civis, os anos de 1968 e 1969. A “elite” brasileira sempre resolveu os impasses que viveu com a violência. Ela se fez pela violência sistemática contra os povos que habitaram primeiramente o Brasil, e quando digo isso não me refiro ao massacre que os portugueses realizaram entre 1500 e 1810. Precisamos estudar ainda como ocorreu a ocupação do Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Santa Catarina, Acre, depois de 1822. A matança dos indígenas brasileiros não pode ser creditada apenas ao período português na América, os brasileiros fizeram sua parte neste genocídio. Uma leitura na revista O Cruzeiro, especialmente nos anos cinquenta nos lembraria algumas barbaridades próximas. A violência é a marca da conquista do Pantanal. Aliás era cantada nos carnavais: “lá no bananal mulher de branco, levou Prá índio colar esquisito...” , a violência que continua sendo aplicada a todos que não se adequam ao modelo vigente, seja o modelo dominante, seja o subsidiário, que parece contrapor-se, mas que como se dizia no império: nada mais parecido com o conservador como um liberal no poder. Hoje é o Dia do Livro Infantil, aquele escrito para que as crianças, com seus cérebros em crescimento recebam informações sobre o mundo; o livro, além de ter um perfume característico, desenvolve o tato, o prazer de tocar, senti-lo áspero e suave enquanto atiça a imaginação, levando a criança, depois o adolescente, a imaginar coisas que o autor imaginou, mas o leitor sempre põe mais uma cor na imaginação, uma curva no caminho. É na infância e adolescência que o cérebro cresce, guarda informações que nos chegam pelos sentidos. Neste mês de março soubemos que pessoas e instituições que criaram, usam e ensinam a usar a Inteligência Artificial, mostraram-se preocupados com a evolução dessa AI e o risco que a sociedade humana está vivendo. Desde o final do século XX que a arte mostrava a possibilidade de as máquinas tomarem decisões pelos humanos que as criaram e, mesmo contra os seus criadores. 2001, uma Odisseia no espaço e O Exterminador do Futuro são exemplos desses alertas que agora nos vem de cientistas e mesmo dos chefes das grandes empresas, com Google e Twiter. Eles sabem que um bom número de pessoas dessas novas gerações cresceram sem os desafios que a leitura de um livro traz, pessoas que já encontram tudo pronto e que vivem ao toque do teclado. A nossa cultura humana criou a crença em uma possibilidade de viver sem dor, sem esforço e que já não precisa nada além de uma máquina que faça o que ela deseja. Agora já temos máquinas que são capazes de dizer aos humanos o que eles devem desejar e, como a maioria da população humana do planeta tem sido educada para crer em tudo que vem da máquina, percebem que as máquinas podem, sim, dominar os humanos. Os guindastes foram benvindos, passaram a fazer o trabalho dos estivadores, e os engenheiros sorriam pois não precisariam cuidar de tantas pessoas. Os estivadores foram desempregados, tornaram-se inúteis. Agora as máquinas estão começando a fazer os trabalhos dos engenheiros, que ficaram preocupados e não mais sorriem, pedem que se dê uma pausa na programação, nos estudos, no aperfeiçoamento da Inteligência Artificial. Talvez tenham percebido tarde que a evolução não se está dando mais no homem, e sim nas máquinas. O ser humano evoluiu para as máquinas que fazem café, que movimentam a produção de uma fábrica. Os engenheiros inventaram máquinas que dispensaram o homem e a mulher, tiraram dos homens e das mulheres aquilo que as faz humanas: o trabalho. Trabalho é uma ação com objetivo e, também uma ação que gera novos objetivos. Mas só percebe os novos objetivos quem educou o cérebro para pensar, e essa seria a evolução humana; contudo, os engenheiros resolveram que os cérebros deveriam ser treinados para fazer ações que completassem as atividades das máquinas. Aos poucos os humanos forma perdendo a capacidade de pensar, e de sentir, e de ter compaixão, e de sofrer com o outro humano. Agora a principal ocupação dos homens é cuidar de algumas máquinas para que elas não apresentem defeitos. A grande preocupação não é mais entender o paciente, mas verificar o que a máquina disse a respeito do sangue que foi levado a máquina. Lembro de um livro, lá nos anos oitenta do século passado, que instava que os médicos dedicassem “cinco minutos” aos seus pacientes. Mas se as máquinas são capazes de oferecer o diagnóstico, para que os médicos? Não sem razão aos poucos tiraram da formação do médico a reflexão ética e moral, afinal essas coisas só se aplicam aos humanos e, preocupar-se com isso pode impedir a lucratividade da atividade médica que deixou de ser a cura, mas a organização do grande placebo que é o consultório cheio de máquinas. Afinal é necessário cuidar da saúde financeira. Quanto ao economistas, lembro de um que estabeleceu um pequeno apiário; quando recolheu os primeiros litros, mostrou aos amigos e um deles perguntou: trouxe para nos presentear? E ele respondeu: ninguém dar aquilo que vende. No decorrer da conversa, um professor disse que estava com livro novo sobre suas pesquisas, seus novos conhecimentos e, com naturalidade, o economista disse, “não esqueça de trazer o meu, terei prazer de ler o presente que você me dará.” O professor continuará “dando aulas” e livros, desde que não conteste as orientações dos engenheiros, médicos, economistas que estão sendo substituídos pelas máquinas e, pedem: diminuam o ritmo das pesquisas, pois nos perdemos. Já faz algum tempo que as escolas estão sendo atacadas, estudantes mortos enquanto recebem a possibilidade do conhecimento, professores são mortos em plena atividade de ensinar, e morrem enquanto procuram meios para educar os cérebros e os sentimentos daqueles que chegam até a sua sala de trabalho. A grande sociedade não quer conversar sobre esses acontecimentos que mostram os primeiros resultados de uma sociedade que parou de evoluir moralmente, amorosamente. Debater tal assunto por mais que cinco minutos usando as máquinas que comandam os horários das famílias, que decidem que os programas mais cerebrais devem ser apresentados após as 23 horas, pois os operadores das máquinas já foram dormir, após terem sido imbecilizados enquanto estavam acordados ou em movimento. Os operários precisam descansar um pouco para sentirem as máquinas quando estiverem operando-as. A boa administração da sociedade ensina que não se deve distrair os operadores de máquinas com assuntos que possam trazer ansiedades humanas; isso diminuirá a sua taxa de produtividade. Aliás essa palavra está cada vez mais usada nos espaços dedicados à formação dos cérebros que já estão formados, os cérebros dos universitários. Para crescer saudáveis os cérebros carecem de receber carinhos e os grandes “inimigos” das máquinas são aqueles criadores, transmissores de carinho e conhecimento. Com tempo, assim como os cachorros aprenderam a amar, as máquinas poderão vir a ser grandes amantes. E então, vitória total: não teremos mais professores, pois o antropoceno terá sido ultrapassado.

sábado, março 04, 2023

EM DEFESA DO POVO BRASLEIRO NOS CASOS DAS UVAS GAÚCHAS E DO AÇÚCAR PERNAMBUCANO

EM DEFESA DO POVO BRASILEIRO NOS CASOS AS UVAS GAÚCHAS E DO AÇÚCAR PERNAMBUCANO. Prof. Severino Vicente da Silva ORCID 000000189111409 Viver , parecer ser surpreender-se cotidianamente com as manifestações da vida e os desejos da morte, essas pulsões básicas que S. Freud nos desvendou. Saber dessas forças antagônicas que carregamos, nos auxilia a compreender alguns comportamentos, algumas tendências que vemos ao nosso redor e, às vezes, dentro de nossa própria alma. Seja de nossa alma individual, seja a coletiva que, aparece de múltiplas formas em nossas fidelidades a esse ou àquele grupo. Não poucas vezes vivenciamos esse antagonismo pois que pertencemos a muitos grupos simultaneamente. Pertencemos a um grupo nacional e, nele sentimos o quanto alguns dos nossos sócios nos temem e, por isso, procuram nos diminuir, destruir o que construímos. Nesta semana tivemos o caso de um vereador de uma cidade do Rio Grande do Sul, talvez descendente de algum europeu que chegou aqui no Brasil após 1870, puxando uma corda pensando que ele ainda possuía uma cachorro. É que lhe haviam tomado tudo, menos a imbecil ideia de que havia um “fardo do homem branco”, como dito pelo poeta Rudyard Kipling, condenado a distribuir civilização e ganhar ódio por isso. É que a civilização que levavam a quem não desejava, estava carregada de cobiça e ódio. A cobiça destruía a riqueza dos lugares aonde chegaram e o ódio fez aforar a mais funesta forma de destruição humana: o racismo, a negação da humanidade do outro, como cultura. Arraigado aos modos de pensar dos séculos anteriores, quando os europeus, em busca de riquezas espalharam a morte nas terras e nos mares nunca antes conhecidos, aquele vereador da cidade de Caxias do Sul, quis justificar a prática da utilização do trabalho escravo nos vinhedos do Sul Maravilha, acusando-nos, “os de lá cima” de sermos um povo que gosta de festa, praia e tambor. Sim, nós gostamos disso, pois amamos a vida e sua pulsão, mas não fazemos apenas isso, como os trisavós do vereador constaram ao chegar nesta terra e foram ajudados a nela se fixarem e viverem. Fizeram isso, mas não se despiram dos conceitos tendentes à morte. Como seus antepassados tinham escravos, viviam em uma sociedade escravocrata, fortaleceram, quem sabe, as más lições que aprenderam do outro do Oceano, pois foi a escravidão, como método, um dos principais fatores da riqueza europeia. Este mesmo vereador, ao ver-se interpelado pela sociedade por conta da sua defesa da escravidão e do preconceito contra o Brasil e os brasileiros, veio pedir desculpas e chorar lágrimas de crocodilo, mas não pediu desculpa quando, algumas semanas passadas, acusou os Ianomami de preguiçosos e responsáveis pela morte das suas crianças, pois defendia os garimpeiros que destruíam a fauna e flora dos rios e da floresta. Como não foi pressionado ao atacar os indígenas, senhores primeiros dessa terra brasileira, sentiu-se à vontade para atacar os brasileiros, especialmente os do Norte e Nordeste. Seu racismo, o seu ódio ao Brasil é visceral, estrutural. Ele é incapaz de ser um humano, pois nem soube seguir a orientação de seu advogado que o mandou chorar, ao contar a vergonha que alcançou toda a sua família. Quem odeia não chora. Mas esse ódio ao brasileiro não exclusividade de parte da população do sul do Brasil, esse ódio ao que o povo pobre cria, apesar de todo o sofrimento e exploração a que tem sido submetido desde que os europeu trouxeram a cana de açúcar e iniciaram o processo de escravização dos indígenas e dos africanos. Sempre lembro que um famoso e amado escritor ficou estupefato com a beleza de cores e movimentos dos caboclos de Tracunhaém surgindo em uma pequena elevação. Na Ocasião disse que era incompreensível que, após tantos anos de exploração, o povo ainda criasse tanta beleza. Ele poderia ter dito: após termos explorado esse povo durante quinhentos anos, como é possível ele ainda está com tanta vida, com tanta criatividade. Pois bem, Valéria Vicente revela em um de seus livros, que famoso colunista social acusava os caboclos do Maracatu Rural de levarem o cheiro de urina e mal gosto de suas fantasias para o carnaval do Recife. Dez anos depois, de muitas lutas e demonstrações de vitalidade, o mesmo cronista, no mesmo jornal, saudava os Maracatus que chegavam da Zona da Mata, especialmente de Nazaré da Mata, pois que traziam com os seu chocalhos, com seu vestuário colorido e alegre, um novo vigor ao carnaval da capital. O povo, os caboclos da Mata Norte, venceu o preconceito do cronista da elite conservadora de Pernambuco. E o que temos hoje em Nazaré da Mata, município que desse sua manutenção à cultura imaginada e criada pela dança dos caboclos que afirmam sua presença desde que seus antepassados, em guerra, perderam suas terras para um povo que, em diversas ocasiões, não cumpria o que havia sido acordado. Os Caboclos de Lança fizeram renascer o município de Nazaré da Mata e muitos outros da região, por isso o governo estadual cedeu terra para um monumento ao Caboclo de Lança, reconhecido como símbolo nacional na capital da Inglaterra, anunciando as Olimpíadas a serem realizadas no Brasil; um artista criou belos caboclos gigantes que foram cobertos de azulejos pela mulheres da Associação das Mulheres de Nazaré da Mata. Um espaço para os Maracatus, para os caboclos que são os cortadores de cana, os criadores das duas principais riquezas do município e da região. Mas a elite local, ignorante e pouco versada na história do seu país, ou mesmo envergonhada do povo que a alimenta, fez eleger um prefeito que, durante o carnaval, mandou avisar por de seus secretários – terá sido o da cultura? – que o monumento aos caboclos, ao maracatu, aos trabalhadores rurais será destruído para construir um “parque de eventos”. Talvez ele esteja pensando trazer, para o “seu parque de eventos”, algumas atrações que são exatamente isso: É VENTOS. Ao caso do racista do Rio Grande do Sul, cabe processos jurídicos. Que ele seja punido no rigor da lei para aprender a ser gente e não envergonhar seus pais, e seu país. No caso de Nazaré da Mata, devemos pedir a intervenção do Secretário de Cultura do Estado que defenda o patrimônio cultural da região. Talvez o secretário de Educação possa ser chamado para que o prefeito e seu secretariado assista algumas aulas (debates) de história da região e do Estado, mesmo sabendo que cimento duro não absorve água. Bibliografia VICENTE, Ana Valéria. Maracatu Rural: o espetáculo como espaço social. Recife: Associação Reviva, 2006. https://ensinarhistoria.com.br/o-fardo-do-homem-branco-exaltacao-do-imperialismo/

terça-feira, fevereiro 28, 2023

UMA VIAGEM PARA VER O PASSADO NO PRESENTE.

UMA VIAGEM PARA VER O PASSADO NO PRESENTE. Prof. Severino Vicente da Silva, Professor Associado UFPE; sócio correspondente do IHAGGO, sócio da CEHILA, sócio do IHO. Após as delícias do carnaval, este mês terminou com uma experiência desejada, faz tempo: conhecer alguns engenhos da antiga Capitania de Itamaracá no município de Goiana. Quando conversamos sobre o Goiana, quase sempre nos voltamos ao seu passado e, mais explicitamente, sobre os seus aspectos externos, o material artístico, arquitetônico construído na parte central da cidade, os lugares para onde se dirigiam os que iam cultuar a sua religião, seus santos e seu Deus. Esses lugares importantes testemunhas da longa, e ainda curta, história dos brasileiros, refletem a riqueza que era produzida nos canaviais e engenhos desde o tempo que os portugueses tomaram para si as terras dos tabajara, dos caeté tantos outros povos que viviam na região. Mas ainda hoje esses canaviais são importantes fonte de riqueza para a município. Sempre quis saber onde estão, com estão, qual o segredo que hoje escondem esses canaviais que vemos da janelas dos ônibus ou dos automóveis particulares, ao cruzarmos essa BR 101. O que há além dessa paisagem? O Instituto Histórico Arqueológico Geográfico de Goiana – IHAGGO, promoveu a realização desse desejo. No dia 25 de fevereiro, saímos em 20 pessoas para conhecer três engenhos: Miranda, Itapirema do Meio e Itapirema de Cima. Miranda é um engenho está localizado próximo à rodovia PE &@, na direção de Condado que, antigamente, era Goianinha. A Casa Grande que visitamos não é a original, e recentemente foi vitalizada, e apresenta mobiliário do século XIX e XX. Fomos recebidos com atenção pelos proprietário que, à medida que falavam da família, nos indicavam os pontos que eles organizaram para mostra, desde a sala de entrada até à cozinha. Observamos o cuidado na restauração do imóvel, ainda que não tenha sido recuperada com a assistência de restauradores profissionais. Há uma segunda casa senhorial, não recuperada, que apresenta melhor como se vivia no início do século XX em casa anterior à chegada do ferro e vidros. Esses apetrechos chegaram com os acenos da Revolução Industrial. Mais abaixo está situada a Moita, ou que resta dela, pois foi reordenada para ser uma cocheira, um recolhimento para os bois. Com a morte do fogo, o engenho passou a fornecer cana para as usinas, e fez o trajeto de mudança do carro de boi para o caminhão, como atesta a pequena oficina de manutenção próxima à casa do administrador. O Engenho Miranda também está mais conhecido pela particularidade de que, em sua capela, dedicada à Senhora Santana, encontra-se os restos mortais da família, especialmente de uma adolescente que tem sido cultuada como santa, a Xaninha, morta na epidemia ocorrida nos anos sessenta e setenta do século XIX. Dela é dito que tinha grande preocupação pelos escravos trabalhadores do engenho. Na segunda metade do século XX seu culto foi ativado e pequenas romarias eram realizadas duas vezes por mês, com missa, até o período da epidemia de COVID. Pelo que ouvimos, os proprietários estão interessados em tornar mais comum as missas, pois a presença de público ajudaria a preservação do espaço. Em seguida voltamos ao canavial e seguimos em direção ao Engenho Itapirema do Meio, onde chegamos já um pouco depois das 11 horas. As estradas de cana estavam molhadas da chuva recente, vimos que houve queimada recente, mas não encontramos nenhum caminhão de transporte. É dito que Dom Pedro II ficou hospedado nesse engenho, quando se dirigia à Goiana. Mas a casa grande que encontramos não reflete a antiguidade, esperada, mas parecendo ser uma construção do início do século XX, como pode ser observada pela data da capela, 1913, e pela chaminé da usina, que ostenta a data de 1937. Vimos que foi construída pequena vila para os trabalhadores no local onde pode ter existido a construção a que se refere a tradição, mas apenas escavações arqueológicas poderão sanar essa dúvida. A casa grande, não colonial, está sendo bem cuidada e não tivemos a permissão de nela entrar. Foi Itapirema de Cima o nosso terceiro destino, o que nos levou a atravessar o povoado de Sapé, onde pudemos observar, de passagem, a feira semanal, restos do posto de televisão comunitária que era comum nos anos de 1970, que hoje serve de praça. Notamos que o povoado é bem surtido em serviços como mercados, escola, manicure, barbearia, mercado municipal. Esse povoado, como outros da região da Mata Norte, é formado pelos descendentes dos escravos. Mutatis mutantes, essas periferias são as antigas senzalas, distantes dos olhos dos senhores que não desejam ver o que a cana produz com o açúcar, o melaço, a cachaça e o vinagre. Após Sapé, seguimos pelo canavial até o Engenho, com sua majestática Casa Grande, construída acima de todos. Passamos pelo rio que fazia girara a roda da moenda do engenho, encontramos gado solto pastando e, chegamos à Casa Grande que só não está completamente abandonada porque seus proprietários contratam pessoas para lá viverem e evitar a sua destruição. Atualmente é um casal que cuida da casa que está quase em ruínas. Com andar térreo, local da oficina e onde teria sido posto um depósito de açúcar. Para ter acesso à parte superior, seja dizer, a residência, com mais de uma dezena de cômodos, subimos um escada com vinte degraus, de cada lado; abaixo do encontro dos degraus há espaço para um nicho onde, nos tempos de ouro, deveria ter sido a morada de algum santo protetor. Na parte posterior da casa grande está um pomar e a capela do engenho, completamente dominada por caca de morcegos, e parece ter sido transformada em local para guarda de fertilizante. Comi deliciosa goiaba, arrancada do pé por Josué. Um brinde especial nos foi ofertado por Basílio Augusto que nos levou a um local que a tradição aponta como sendo o início de um túnel que teria sido construído pelos holandeses, ligando o Itapirema de Cima ao Engenho Ubu. São muitas as questões a serem levantadas em torno dessa tradição, baseada em escrito de Pereira da Costa que quase sempre oculta os sujeitos das ações e os documentos de onde tira as informações. Fala-se de minas de ouro, existência de vulcões, etc, mas tudo dito em frase de sujeitos ocultos, quais fantasmas. O buraco que vimos é capaz de passar o corpo de um jovem adolescente e tem a profundidade de cera de 1.70cm. Agradeço aos amigos do IHAGGO pela oportunidade de conhecer o mundo que se esconde nos canaviais. Em cada um desses locais visitados foram lidos textos alusivos, ora pelo professor Bartolomeu e Victor Romanelli, tudo registrado pelas múltiplas câmeras de nossos fotógrafos.