quarta-feira, junho 04, 2008

Malunguinhos de Catucá e Caboclos da Chã de Camará




  1. O transcorrer dos dias nos trazem muitas surpresas, inclusive porque cada dia é uma surpresa, nunca o havíamos vivido. Cada dia é uma maravilha de novidades escondida no que nos parece cotidiano. Ontem, tive um encontro interessante. Sílvio, que trabalha como ascensorista aqui no CFCH, apresentou-me uma senhora que estava procurando o professor Severino Vicente, pois ela queria comprar o livro Estela de Ouro de Aliança. Este fato já foi uma alegria enorme. Levei-a até a minha sala e entreguei-lhe o livro. A alegria cresceu quando a vi juntar cédulas de um e dois reais para completar os quinze reais. Disse-lhe que já era suficiente quando ela chegou aos doze. Mas ela fez questão de alcançar a cifra de quinze reais. Perguntei por que ela queria o livro e ela disse que gostava do que eu escrevia e iria dar o livro como presente para alguém, depois de lê-lo. Todos que somos autores sabemos a alegria que isso nos causa e a responsabilidade.

    Por conta dessa responsabilidade, hoje voltei a ler LIBERDADE, o excelente livro de Marcus Carvalho sobre o Recife do século XIX. A leitura, releitura, desse livro é indispensável para a escrita do meu próximo livro, também uma imposição do Maracatu Estrela de Ouro, sobre os caboclinhos de Goiana. Além de nos mostrar como era o cotidiano do Recife, Marcus nos envereda no mundo criativo do Brasil. Não estou falando do Brasil criativo, mas da criação do Brasil. Ela comenta como a Jurema Sagrada, culto dos nossos ancestrais indígenas assimilou a luta dos escravos no seu panteão. Mas não na sua forma africana, MALUNGO, que significa companheiro, mas na forma brasileira MALUNGUINHO, como a nos dizer que houve não uma aceitação do africano, mas uma criação nova. Ver transcrever o que diz um dos maiores historiadores vivos deste Pernambuco.


Todavia, o emprego da forma diminutiva do termo “malungo” – Malunguinho é o nome do chefe – é um indício de um processo de transformação cultural bastante dinâmico. Há muito notou Sérgio Buarque de Holanda, que o “inho” é um traço característico do falar rural brasileiro. Malungo, portanto, é um termo banto, mas malunguinho é uma derivação plenamente brasileira crioula. (...) esse abrasileiramento é uma expressão própria da reconstrução da nova identidade americana representada pelo quilombo, onde todos são eram apenas malungos, mas malunguinhos.

Da mesma forma que encontro o Caboclo Malunguinho no Centro Nossa Se nhora da Conceição na Chã de Camará, o encontro nas tribos de Caboclinhos.

Que bom que Dona Maria veio comprar o livro Estrela de Ouro de Aliança – a saga de uma tradição. Ela me lembrou que sou malunguinho, como ela também o é, Por isso, penso, ela gosta do meu livro: é a história dela, de malunguinhos como ela, não africanos, mas brasileiros.


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CARVALHO, Marcus J. M. Liberdade, rotinas e rupturas do escravismo . Recife, 1822-1850. Recife: Editora Universitária UFPE, 1998.

SILVA, Severino Vicente da. Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, a saga de uma tradição. Recife: Editora Associação Reviva, 2008.

Um comentário:

alexandre l'omi l'odò disse...

malunguinhos do cotidiano, vida nas matas do catucá/reciffe/olinda...

parabens pela postagem e esperamos vc em nossas discuções sobre malunguinho e sua lei de número: 13.298/07. vamos comemorar juntos esta vitória do povo negro pernambucano!!!

indico ler a matéria do jornal folha de pernambuco do dia 03/06/2008, fala sobre nosso trabalho no linc:

http://www.folhape.com.br/folhape/materia.asp?data_edicao=03/06/2008&edt=8&mat=97015#
Cidadania negra resgatada em disciplina escolar.

vamos em frente!

alexandre l'omi l'odò
joão monteiro
coordenadores.

quilombo cultural malunguinho.