quarta-feira, abril 09, 2008

Professora Sônia Medeiros

Enquanto estava apresentando o programa QUE HISTÓRIA É ESSA, na Rádio Universitária 820am, recebi a informação de que Sônia Medeiros havia falecido e que o seu sepultamento irá ocorrer às 16 horas deste dia. As palavras, veículos de comunicação, quando chegam ao nosso cérebro produzem as mais estranhas e inesperadas reações químicas e afetivas. Dizem os que estudam essa parte do corpo que sinapses elétricas ocorrem e ativam as lembranças, os sentimentos.

Não entendo dessa física, dessas reações materiais que ocorreram naquele instante no interior de minha cabeça, mas, de imediato vieram imagens daquela mulher que não foi, nem pretendia ser modelo de beleza física, símbolo sexual. Parecia que Sônia queria ser o oposto desses ideais que são vendidos pelos mercadores dos símbolos e consumos. Sônia quis ser a mulher feliz, a professora que encantava os alunos e colegas pela franqueza, pela disposição constante de conhecer e procurar novas maneiras de viver, de entregar-se ao amor.

Embora nunca tivesse certeza desse fato, creio que fui ensinar no Colégio e Curso Radier por indicação de Sônia Medeiros, professora de Geografia e de História. Aquele foi um período difícil, pois naquele janeiro de 1974 estava completando quatro meses que eu havia saído Doi-codi, onde fiquei 59 dias. Possivelmente Sônia sabia que estava difícil para mim encontrar trabalho. Ter sido preso pelo exército me fez perder empregos e falsos amigos. Era arriscado, em plena ditadura, acolher alguém que saíra da prisão, que estava sob observação do exército. Mas fui indicado e pude retomar a minha vida profissional naquele colégio, onde fiquei professor até que alguém soube de minha prisão e tentou reeditar a escuridão, me fazendo perder os empregos. O auxílio de Sônia Medeiros foi importante para mim, nas duas ocasiões, para que eu pudesse reconstruir a minha vida profissional. Lindo que Sônia jamais cobrou nada por isso.

Alguns anos depois, quando fui obrigado a sair de Pernambuco por não encontrar emprego, viajei após uma longa conversa com Sônia que não entendia como eu não conseguia mais emprego nos colégios do Recife. Alguns anos depois entendi que não eram apenas os seguidores de março de 64 que não queriam em sala de aula. Quando retornei do Rio de Janeiro para assumir, após concurso, a disciplina de Hisória Moderna na UFPE, Sônia Medeiros me convidou para fazer uma palestra na Universidade Maurício de Nassau sobre O Golpe de 1964. Ela me auxiliava a fazer catarse.

Apesar de termos tido pouco tempo juntos, sempre nos acompanhamos, seja na Fundação de Cultura da Cidade do Recife, seja na Secretaria de Cultura do Estado, locais onde sempre assessorou o professor Roberto Pereira. Foi de Sônia a idéia de colocar o Maluguinho no circuito do Festival de Inverno em Garanhuns, onde, estando como participante, vi-me convidado a participar daquele ato com algumas palavras.

Escrevo essas palavras em referência e reverência a uma mulher forte, atuante, corajosa, que jamais se escondeu em subterfúgios, sempre amiga e honesta, sempre pronta a acompanhar aqueles que tiveram a ventura de privar, por momentos e tempos, a sua privacidade.

A Sônia Medeiros, meus respeitos pela sua vida, meus agradecimentos pela sua prontidão em estar próximo nas nossas necessidades.

4 comentários:

Geraldo Pereira disse...

Mestre Biu Vicente
Gostaria de me associar ao seu luto e ao luto de todos quantos conheceram e conviveram com Sônia Medeiros. Uma professora de história que tinha um coração de ouro, realmente, solidária e sem cobranças. Isso é raro! Raríssimo até! Você conseguiu se superar com a crônica que produziu. Que beleza de depoimento!
Geraldo Pereira

Diogo disse...

Está de parabéns pelas palavras Biu.
Eu que trabalho como prof. de História do Fundamental II e agora ocuparei, procurando ao máximo, ser tão competente como Sônia foi, suas aulas devido a seu falecimento, não pude deixar de prestar as minhas homenagens no velório pela manhã a esta profissional de gabarito ímpar e espírito humano incomparável. Sônia era mais do que simplesmente a professora de História - era um ser humano de caráter e dignidade ímpares entre uma juventude que necessita encontrar em exemplos como ela valores para viver.
Que a mestra vá em paz.

hilda.elaine disse...

Professor Biu Vicente:

Parabéns pela sensibilização para com aqueles que já se foram.(vide publicações anteriores). Suas palavras, confortam os familiares, expressam o seu carinho para com os mesmos e, sobretudo, divulgam o legado destas pessoas, levando-nos a admirá-las mesmo sem conhecê-las. Parabéns pelas belas palavras! Parabéns por homenagear aqueles que, como diria Cecília Meireles (citada pelo Dom em:UM OLHAR SOBRE A CIDADE, P. 139),
foram para "o último andar", que:

"é mais bonito...
se vê o mar...
quando se faz lua no terraço fica todo o luar...
os passarinhos lá se escondem pra ninguém os maltratar..."

eder disse...

Professor, aqui é Eder lá da Faculdade de formação de professores de Goiana.
Fico sensibilizado com suas condolências e o quanto és sincero em demonstrar apreço e reconhecimento por alguém. O trem da vida não pára, nós é que descemos ou subimos em suas estações, onde nelas conhecemos pessoas e elas assim também conhece-nos, umas vão até o término conosco, outras ficam e outras vão depois de nós. Um abraço