quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Morte de mulheres, arquivos e sonhos

Faz cinqüenta e um dias que começou ano 2008 e, nesse curto espaço de tempo já foram assassinadas 43 mulheres em Pernambuco. Esse é um dado impressionante e dá continuidade aos números do ano passado. A violência em nosso meio parece que crescer, parece dizer que nos afastamos de uma convivência civilizada, talvez por sermos uma sociedade que não procura, firmemente, punir os destruidores sociais. Como não há punições para os criminosos das camadas que seriam a” elite”, aqueles que deveriam indicar os caminhos a serem seguidos pelos demais participantes da sociedade, torna-se indefensável a punição apenas para os mais pobres. Temos essa dificuldade em criar a nossa democracia por que não temos, não tivemos, uma elite cônscia de sua responsabilidade social. O que temos é um simulacro de lideranças que vive a pensar formas de “se dar bem”. “Se dar bem” quer significar safar-se, não se deixar pegar. Aquele que se safa de certas situações é um safado, aquele que se safou. Parece que somos uma sociedade de pessoas que se querem safadas, pois se safam de serem punidas por seus atos ilícitos. Esses atos podem ter sido mensais – daí os mensalões – podem ter sido de cartões, podem ter sido de viveram debochando dos códigos de ética, como é o caso de um ministro que também é presidente de um partido político, sob a proteção de seu chefe. Todos se safam, inclusive os matadores de mulheres, os assassinos. Quem não consegue se safar é o povo, sempre submetido às indissiocracias dos poderosos, até mesmo daqueles que eram povo e agora estão solicitando privilégios próprios das sociedades não democráticas. Não desejam ser sofrer nenhuma vigilância e procuram confundir a sua impunidade pessoal com a segurança nacional.

Nesse início de ano não morrem apenas as mulheres que são assassinadas, esses comportamentos assassinam as esperanças, algumas que os que estão no poder, auxiliaram a construir. Mas, ao chegar no poder desejaram ser seduzidos pela Mosca Azul, como diz bem o livro depoimento de Frei Beto, desiludido com o que assistiu no primeiro governo do ex-metalúrgico, ainda desatento.


Continuam a se matar as esperanças, e também o passado, como aconteceu no dia 15 de fevereiro, em uma das dependências do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano. Nós sabemos que a tradição do Brasil é não guardar documentos, não cuidar dos arquivos. Dizem que isso é uma das heranças portuguesas. Não sei até que ponto isso é uma verdade, pois temos muitos pesquisadores que atravessam o Atlântico para se beneficiar dos arquivos portugueses. Creio que é mais uma mazela das “elites” brasileiras, inclusive “aselites” que atualmente governam Pernambuco, no fundo, as mesmas que sempre o governaram. Nosso arquivo, nossos documentos são sempre colocados em prédios velhos, caindo aos pedaços. Até parece que os governantes querem o sumiço dos documentos, pois os documentos falam do que os antigos governantes fizeram ou deixaram de fazer.

Sempre há verba para construir algum prédio para que eles possam exercer os seus poderes e, confortavelmente, continuarem a tarefa de espoliação, de exploração e de concentração de renda e poder. Contudo, nunca há verba para a construção escolas, para a formação de cidadãos. Essa corrida louca para formar motoristas de tratores para trabalhar em Suape é sinal da competente política de exclusão levada a termo nos últimos cem anos. E nesse período Pernambuco não era governado pelos portugueses e quem tomava decisões sobre escolas e arquivos eram pernambucanos. Foram os governos de pernambucanos que decidiram não ter uma política de arquivo que preserve a nossa memória e história. Já é tempo de abandonar o bloco da saudade holandesa, o festival de queima de Judas português e admitir: quem tomou a decisão de manter os documentos da história pernambucana em um pardieiro foi um pernambucano, como também é pernambucano aquele que hoje permite que lá fiquem esses documentos para serem destruídos, debalde o esforço de técnicos, estudantes e historiadores que, sem verba, procuram salvar o que lhes permitem as condições.

2 comentários:

Diogo disse...

Posta lá também Biu

www.mochiladahistoria.blogspot.com

Abraço!

Maria Lana Monteiro disse...

Minha história de vida no arquivo público completa esse ano 10 anos e infelizmente como mostras ainda tenho muito que lamentar... Contudo quero aqui deixar os meus aplausos aos poquíssimos técnicos, estudantes e historiadores, a que se referiu, pois ao longo desses anos coube a eles manter a chama de que podemos escrever uma história melhor.