domingo, dezembro 28, 2008

Reveillon: Uma festa mestiça

Recebo uma ligação telefônica e, de súbito sou levado ao século XVI, à corte francesa. A pergunta é sobre a diferença entre os alimentos que são servidos nos sertões daquela alimentação servida nas mesas litorâneas na noite do ano novo. E foi esta questão me levou à corte francesa, ainda renascentista, em luta para não sucumbir à tristeza das Reformas e Contra-Reformas que religião cristã estava a realizar e sofrer no período. Interessante é que foi nesse período que a gastronomia francesa começa a se impor como modelo. Mas e os sertões do Brasil, o que poderiam ter em comum com essas brincadeiras dos Valois e dos Bourbons? Os sertões estão tão distantes dos que vivem à beira do mar que, não poucas vezes, achamos seus habitantes e seus hábitos mais estranhos que os franceses.

Ora, no século XVII, quando a corte francesa começou celebrar uma festa que chamaram de reveillon, nos sertões de Rodelas, que envolvia parte de territórios da Bahia e Pernambuco, o alimento mais comum era a carne de veado, hoje, é mais comum a carne de bode, carneiro ou boi, uma vez que os veados, animais que carecem de selva para a sua vida, foram sendo extintos na região, assim como o foram as tribos de índios, primeiros habitantes, cujo nome virou toponomia. Mas o que isso tem a ver com a questão que me veio pelo telefone?

A festa de reveillon não está no calendário religioso dos europeus. O ano novo dos europeus, o ano religioso tem início na festa da natividade, ou natal, como a conhecemos com mais facilidade. Mas a festa de Natal, ou do nascimento de Jesus veio sendo, desde o século XIII, animada pelo presépio que, segundo a tradição, foi iniciado por Francisco, o santo da cidade de Assis. A simulação da cena do nascimento do filho de Maria, com a montagem de um cenário em que aparecem animais, pessoas, foi uma inovação na catequese cristã em uma época em que as pessoas não tinham acesso a textos escritos, especialmente por não saberem ler. A catequese cênica era acompanhada dos sermões explicativos ou rememorativos da cena do nascimento. Também havia a dança Pastoril, com pastoras cantando o nascimento do Menino Deus. Mas, o sentimento de reforma do monge Lutero, no radicalismo próprio dos momentos iniciais de qualquer reforma, retomou a idéia de que todas as imagens são ídolos e um cristão não pode aceitar nada além da palavra como caminho, como pedagogia, como meio para se chegar á compreensão do Mistério. Em reação ao impulso dos reformadores, que também se apresentaram como iconoclastas, os católicos e não católicos passaram a suspeitar das manifestações tradicionais e, as festas religiosas da transição de um ano litúrgico para outro foi perdendo a alegria. O estabelecimento, indicado pelo Concílio de Trento, mas tornado oficial pelo Papa Gregório XIII, em 1582, não foi imediatamente aceito nas regiões que assumiram o protestantismo. A festa de um início de ano não religioso, primeiro de janeiro, embora estabelecida no Império Romano, o nome francês denuncia a sua moderna origem. As festas realizadas pela corte do Valois e Bourbons, com fogos de artifícios e outras especiarias, além das frutas locais, terminaram por serem aceitas em outras cortes. O enriquecimento burguês da Revolução Industrial veio a tornar essa festa um momento cada vez mais popular, saindo de Paris e tomando Nova Iorque, a cidade símbolo dos novos tempos. Embora Paris continuasse sendo uma festa, a cultura americana impôs um novo formato ao reveillon através do cinema. Após a segunda grande guerra do século XX, as destas do Primeiro de Janeiro, o “acordar” do ano veio sendo cada vez mais celebrado e, como não podia deixar de ser, foi agregando as mais diversas tradições.

Embora seja um festa civil, o reveillon agregou crendices das religiões populares, dos cultos da fertilidade que foram massacrados pelos reformadores dos séculos XVI a XVIII. Assim vieram as crenças de usar tal cor atrairá sorte, que roupa de tal cor trará riqueza, que comer uvas (eram especiarias para muita gente no Brasil), castanhas do Pará (eram exportadas para as cortes européias e consumidas nesta festa), avelãs (especiaria no Brasil) e, evidentemente o vinho branco e borbulhante da região de champagne. No Brasil, além da influência européia, o reveillon acolheu as homenagens aos Orixás, especialmente a Iemanjá. As feéricas luzes que iluminam as noites das cidades, litorâneas ou não, unem as fadas européias aos orixás brasileiros.

Nessa época de espetáculo permanente, as televisões mostram os mais diferentes, e iguais, modos de celebrar o início de um novo ano. Esta é uma festa cívica em que se encontram as mais diversas religiões e alimentos do mundo. É uma festa mestiça, como o mundo está sendo chamado a se assumir.

2 comentários:

Daniel disse...

Grande Biu!

Saudações...

É interessante perceber como cada lugar vai criando e recriando seus elementos...
E, ao mesmo tempo, algo que é criado, recriado, refeito, é, também, visto como "dogma" por outros...

É a beleza de estudar a humanidade...

Um abraço

Rosa disse...

Amigo

Como sempre, seus escritos oportunistas me reportam ao passado e ao estudo da historia do homem. Como é maravilhoso ver esta História no tempo e ver o quanto somos o ontem, hoje. Podemos ser brasileiros e cidadãos do mundo. Esta visão global me dá uma alegria muito grande e me sinto privilegiada por tê-la. Aproveito a oportunidade (sei que você lê os comentários do blog), para desejar a você e toda sua grandiosa família um Feliz Ano Novo e que a união seja presente.
Amo todos vocês

Da amiga de ontem, de hoje e de amnhã.

RosAlves, Patricia e Romulo.