terça-feira, dezembro 23, 2008

Um natal de uma quase potência

Dezembro chegando ao seu término, completando-se o tempo da espera do Natal de Jesus, hoje, como a muito tempo, simbolizando milhares de crianças que nascem sem casa, apenas com o carinho de uma mulher, o silêncio de um homem e a imensa incógnita do seu futuro. As lojas continuam cheias e os reportes de economia saltitam de alegria, pois a crise não nos chega. Sim, nos assegura o presidente, essa crise não nos incomodará, especialmente se todos continuarem a passear nos campos e templos do consumo.

Pequenos problemas surgem, mas eles são decorrentes da ação da natureza, há quem diga. A natureza física, com precipitações pluviais que, em contato com o resultado das ações daqueles que possuem a natureza humana nas encostas de morros, produzem alagamentos, derrubadas de casas. Nas semanas de dezembro, no final da primavera, os estados de Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais, receberam muitas chuvas, e as águas puderam desnudar os efeitos da busca ensandecida por lucros, pela riqueza a qualer custo. As encostas dos morros desmatados para construção de casas em Santa Catarina, para a retirada de minérios em Minas Gerais, mostraram como está sendo construído o status de potência a que chegamos. Ser uma potência, não estar na rota da crise, não quebrar financeiramente, pois os nossos bancos estão bem, diferentemente dos bancos dos Estados Unidos da América do Norte, é o que importa. Por isso, na mensagem de Natal do presidente da nossa nação na houve uma palavra de consolo para os brasileiros que, nesta primavera, viram seus pertences serem destruídos pelas águas, como o sistema de busca de lucro incessante já destruiu as encostas dos morros, já assoreou os leitos dos rios.

Quando eu era menino, uma brincadeira dos mais velhos nos mostrava os limites da beleza, ironizava com quem se gaba. “Tirando a cara e o bucho, fica um rapazinho de luxo”. Assim estamos nós nesse natal. Se não notarmos os defeitos e malfeitos do sistema, se não nos preocuparmos com jovens sem esperança de empregos e de futuro, se não nos preocuparmos com o fato de haver mais mortes violentas no Brasil que em países em guerra, se não percebermos que o aumento de bolsas de ajuda às famílias carentes é decorrente de políticas que as inserem na sociedade apenas como recebedoras e não produtoras, se continuarmos a achar normal que bandidos pobres sejam presos e bandidos ricos sejam protegidos por leis criadas para beneficiar quem pode pagar um advogado, se não levarmos em conta que escritórios de juízes nos palácios das diversas justiças poderiam receber três ou quatro salas de aulas, se não considerarmos nada disso, estamos todos muito bem. Estamos bem porque melhoraram os nossos indicadores financeiros, nosso mercado interno está mais forte, nossa economia está indo cada vez melhor.

Como dizia Garraztazu Médici, “a economia vai bem, mas o povo vai mal”. E quando ele dizia essas coisas ele não se escondia de assistir jogos no Maracanã; sua popularidade era muito boa, pois a sua face de avô acalmava os que não pensavam muito e os pensavam como ele.

Um comentário:

Rosa disse...

Engraçado Biu, ontem ouvindo a "fala" do nosso Presidente, me lembrei da nossa luta e de quão distante ainda estamos do nosso sonho de justiça e de como Lula ficou cego aos problemas reais da nação. Será que ele está dando uma de otimista para não desanimar o povão? Infelizmente tenho minhas dúvidas. Já faz muito tempo que ele não ganha o salário mínimo e deve ter esquecido o que é viver com ele. Não vou me desgastar explicando como viver com o nosso salário mínimo, mesmo trabalhando o máximo. Pois é a época da escravidão voltou - nosso trabalhador não tem mais tempo pra nada a não ser para trabalhar e encher os bolsos do patrão. Parece que já ouvi esta frase! Trabalhar de domingo a domingo, como se fosse natural. Isso é escravidão total, e ainda ganhar slário mínimo. Ta tudo muito bom. Bom demais...