terça-feira, dezembro 02, 2008

Uma cidade histórica põe fim a um curso de História?

Os acontecimentos surpreendem a cada dia. Algum tempo passado, algumas pessoas que foram criadas e vivem na Zona da Mata Sul de Pernambuco andaram a perguntar-me sobre a cultura da região. É que estava pesquisando o mundo cultural da Mata Norte, esse mundo cultural que vem invadindo as ruas do Recife desde os anos quarenta, e que foi responsável pelo crescimento populacional da zona norte da capital, por conta disso veio a pergunta.

Comecei a visitar algumas cidades da região, uma região que cresce com construções de hotéis para turistas e, mais recentemente, com o porto de Suape, e sua promessa de riqueza para os muitos de sempre. Assim, aos poucos vou descobrindo pequenas maravilhas escondidas na poeira do tempo e das memórias. Aqui e acolá sempre aparece algo surpreendente, como saber que havia um grupo de caboclinho no Cabo de Santo Agostinho, até recentemente. Penso que o peso dos pães de açúcar e dos bolos de dúzias de ovos tem sido muito pesado para a memória dos mais pobres.

Esse hábito de ser homem livre em sociedade escravocrata não é fácil.

Ora, a cada dia estou mais convencido que um dos caminhos para a liberdade do homem é o conhecimento de sua história. Creio mesmo que o estudo, a reflexão da história sobre a história é uma quase uma psicanálise de um povo. Por isso é muito importante que conheçamos as mais diferentes versões dos acontecimentos, pois elas podem nos aproximar da verdade possível.

No Brasil temos estudado unicamente a história dos senhores dos escravos e, quando estudamos a história dos escravos temos a tendência de vê-los como heróis ou como coitadinhos. Ora nossos avós africanos, que ficaram algum tempo aqui como escravos, não eram semi-deuses nem eram o opróbrio da humanidade. Também não o eram os que os tinham como coisas. Todos eram e são humanos, com chicote nas mãos, com lombo lanhado, com os assassinatos, com os envenenamentos, com a morte nas fornalhas, com as tocaias no caminho dos quilombos, com a luta com os bois para vencer o massapê molhado, seja no transporte das canas seja no transporte das sinhazinhas que saíam para visitar os parentes dos outros engenhos. Todos: escravos e senhores, escravas e senhoras, homens livres e homens alforriados, mulheres livres e mulheres alforriadas. todos eram e são humanos e criadores de suas histórias. Ocorre que nos contam as histórias dos nossos antepassados de um jeito só.

Ainda bem que agora, desde a segunda metade do século XX, está havendo escolas públicas para os mestiços descendentes dos escravos e das escravas, dos homens e mulheres pobres, livres e libertas; ainda bem que a atual sociedade carece, cada vez mais, de gente que saiba ler escrever e contar e fazer de novo a sua história.

E é tão bom saber que a Zona da Mata Sul tem ensino superior formando historiadores e professores de História nas cidades de Palmares e Cabo de Santo Agostinho. Essas escolas, ainda que alguns pernosticos digam que são fracas, são fundamentais na construção da identidade do povo da Mata Sul. Pois é o povo da Mata Sul que está aprendendo a organizar os documentos de sua história, aprendendo a questionar esses documentos e, lenta, mas permanentemente, reconstruindo os seus passados e construindo novos futuros. Sim, pois há futuros que as varandas das casas grande não conseguem perceber.

Pois, nesse espírito, tenho dificuldade em acreditar que tenha passado pela cabeça dos educadores responsáveis pela Faculdade de Ciências Humanas do Cabo de Santo Agostinho em por termo à formação de professores de história, acabando o curso de história. Eu tenho dificuldade em aceitar a idéia de que as autoridades municipais da cidade histórica do Cabo de Santo Agostinho permitam a continuidade dessa idéia histérica. Afinal, parece-me que a FACHUCA é uma autarquia e, como tal, está ligada à Prefeitura ou à Câmara Municipal. Em um tempo em que cada região do mundo está assumindo a sua história, fator crucial para a assumpção de sua identidade e, dessa maneira não se perder neste mundo globalizado, os cidadãos cabenses não devem admitir o encerramento do curso de história na sua cidade histórica. Não apenas os cabenses, mas todos os pernambucanos, todos os brasileiros, estão interessados em manter todos os caminhos de acesso ao conhecimento abertos para o povo brasileiro.

Então cabe perguntar:
1. A quem interessa manter o povo distante do conhecimento de sua História?
2. Quem pretende negar o futuro ao Cabo de Santo Agostinho?

5 comentários:

Júnior disse...

Corroboro com sua opiniao professor. Completo com as palavras de Halbwachs:
"Como uma sociedade qualquer que seja poderia existir, subsistir, tomar consciência dela mesma se não abraçasse, num olhar, um conjunto de acontecimentos presentes e passados, se não tivesse a faculdade de percorrer o curso do tempo e repassar incessantemente traços que deixou de si mesma?" (Livro MEMÓRIA COLETIVA)
Grande abraço
José Zito Júnior

André Raboni disse...

1. A quem interessa manter o povo distante do conhecimento de sua História?

Os donos do poder. A estes interessa, sobretudo, o silêncio. A manutenção de uma sociedade a-crítica parece ser um desejo daqueles que comandam política e economicamente as sociedades no interior do nosso Estado.

É triste pensar no fechamento de um curso de História. Mas, ainda mais triste é saber que o percurso rumo aos reparos histórico-sociais é longo, árduo, doloroso, e talvez, impossível.

Nossa sociedade ainda é muito patrimonialista. Ainda precisamos aprender a separar a coisa pública da coisa privada. Mas, não podemos perder o ímpeto de esclarecimentos.

Nesse sentido, o debate que se trava neste post é fundamental. Os caminhos se delineiam de forma mais clara, quando expomos nosso pensamento de forma livre e clara.

Parabéns pelo post, e pelo blog.

André Raboni disse...

Apenas complementando, à guisa de informação para os leitores que aqui pousarem, a Fachuca é sim mantida por uma Autarquia Municipal, ligada à Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho.

Segue texto disponível no site da Faculdade:

"A Faculdade de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas do Cabo de Santo Agostinho, instituída pela Lei Municipal n.º 1.214 de 29 de novembro de 1978, mantida pela Autarquia Educacional para o Desenvolvimento Cultural do Cabo – AEDECCA, iniciou suas atividades com autorização de funcionamento em julho de 1981 sob o Decreto Lei Federal n.º 85.993/81, para o Curso de Graduação de Professores da Parte de Formação Especial do Currículo do 2º grau com Habilitação em Comércio e Administração, e foi RECONHECIDA sob a portaria ministerial n.º 1.154 de 28/07/92 – D.O.U. de 29/07/92."

Cursos oferecidos:

* Licenciatura em Comércio e Administração;
* Licenciatura em História;
* Administração Bacharelado.

André Raboni disse...

Que os autor do blog e os leitores me permitam copiar comentário que coloquei em outro post mais abaixo (receio que não leiam).

"Curiosamente, neste mesmo novembro ensolarado, o prefeito do Cabo (o ex-deputado estadual), Lula Cabral, e mais um grupo de vereadores e assessores do município realizaram viagem demasiado custosa aos cofres públicos a um luxuoso hotel em Salvador, Bahia.

A história foi denunciada pelo Diário de Pernambuco, e os (ir)responsáveis estão tendo que responder pelos gastos ao Ministério Público (que instaurou procedimento investigativo) e ao Tribunal de Contas do Estado.

O promotor de Justiça do MPPE, Roberto Brayner, disse o seguinte à reportagem do DP: "“Um dos vereadores (Ricardinho - PPS) disse na reportagem do Diario que não sabe quem pagou. É sinal de que ele é que não foi. Se as investigações apontarem que houve fraude, os envolvidos terão que devolver o dinheiro para os cofres públicos e podem responder ainda por improbidade administrativa.”

Complementando, o Promotor afirmou que "“Caso fique comprovado crime de peculato (desvio de recurso público em favor de terceiro ou para proveito próprio), a pena pode ser de dois a doze anos de reclusão, além da aplicação de uma multa que pode chegar a três vezes mais do que o valor desviado.”

Enquanto isso, sabemos que as verbas para preservação da memória histórica é encolhida.

A sociedade está de olho. Temos que cobrar lisura com o erário público. Não podemos mais fechar os olhos para os desgovernos de nossos governantes.

Que a sociedade cabense esteja atenta.

Caso queiram mais informações e visualização de fotos da farra realizada pelos represenbtantes do povo cabense, copiem e colem no navegador o seguinte link:

http://acertodecontas.blog.br/politica/farra-baiana-passa-por-investigacao/

Um abraço a tod@s!

PS: Prof. Biu, este é um excelente espaço para discussões. É conversando que a gente se entende. É trocando informações e conhecimentos que a gente cresce."

Biu Vicente disse...

obrigado Ándré