quarta-feira, dezembro 05, 2007

CANAVIAL e violência de gênero

Entre as muitas coisas que aconteceram em Chã de Camará durante o Festival Canavial, chama atenção a realização de debates teóricos sobre a cultura do povo brasileiro. Às vezes essa cultura se expressa na forma de violência que atinge as mulheres no interior de suas casas. Esse dado que alguns gostariam de poder afirmar que é uma característica da Zona da Mata e entre os pobres, devemos afirmar que ele é encontrado em todas as camadas sociais e em todos os lugares onde haja grupos humanos. O diferencial é que os ricos pagam para que nada seja publicado, o que gera a impressão que ela só existe entre os pobres. Todos nós sabemos que as camadas da base da pirâmide social tendem a replicar os comportamentos das camadas mais próximas do pico da pirâmide. No festival CANAVIAL encontrou-se tempo para discutir com as mulheres e os homens, a questão da violência de gênero. Não foi fácil para os moradores do lugar assistir pequenas peças teatrais que tocavam na violência diária que atinge as mulheres e as crianças. Entretanto, é função dos que se aproximam, ou retornam para o seu povo, alertar para a necessidade de modificar certas maneiras de comportamento, especialmente aqueles que põem em risco a vida física das pessoas, mas também aqueles que provocam a diminuição da estima de si mesmo. Um homem que bate em mulher, que bate em uma criança, é um covarde; uma mulher que repete esse ato batendo em uma criança também está cometendo um ato covarde. Ambos estão ensinando as crianças a serem covardes, violentamente covardes no futuro.
Os que fazem o CANAVIAL sabem que temos que preservar alguns aspectos de nossa cultura, mas também sabemos ser nosso devers erradicar a cultura da violência nas relações humanas que ocorrem nos canaviais; uma violência que vem sendo estimulada desde a tomada das terras dos primeiros habitantes para que a cana fosse plantada, passando pela violência da utilização do trabalho de homens e mulheres que foram comprados a africanos na África, como também as relações de violência dos senhores de engenho contra os seus escravos, sobre seus filhos, suas filhas e suas mulheres.
O Festival CANAVIAL quis apontar novas relações no canavial de cultura que estamos cultivando. De certa maneira, estamos seguindo a decisão dos fundadores da Associação dos Maracatus de Baque Solto, que exigem que seus associados não usem de violência nas suas apresentações. Não nos importa apenas fazer apresentações musicais, teatrais. O Festival CANAVIAL quer, com os seus apoiadores, a mesma beleza dos caboclos, dos cavalo marinho, dos cocos, da ciranda e dos maracatus, sem assumir a violência que gerou a riqueza descomunal para alguns e a dor para muitos.

Um comentário:

Natália Barros disse...

Olá! Que bom trazer à tona essa discussão. É um tema delicado, mas, enfrentado com respeito, atitudes e proposições significativas, pode, sim, gerar mudanças de posturas e tornar o mundo menos violento. O mais repugnante,atualmente, é assistir os noticiários alardeando a violência contra a mulher e não proporem nem um fórum consistente de discussão. Para a mídia, é apenas um tema que dá ibope!
Na academia não pode ser assim! Discutir sim, mas também provocar mudanças, mesmo que miúdas.