quarta-feira, março 26, 2008

Primeiro Quilombo Urbano do Brasil continua a Resistência

No final do ano passado, a Prefeitura de Olinda anunciou a existência de um Quilombo urbano em seu território. No dia 30 de dezembro escrevi um comentário sobre esse assunto, aqui. Terminei texto dessa maneira: O primeiro Quilombo Urbano do Brasil é uma afirmação do povo brasileiro. Um povo que agrega, na bela tradição ibérica, uma tradição mais includente que excludente. Como todas as tradições, ela é gerada na dor, mas dores geradoras de novas maneiras de viver.

Para mim foi interessante assistir o ato oficial, na mesma casa onde dona Biu – Severina Paraíso, desde a década de cinqüenta do século passado estabeleceu seu povo, um povo que cultiva uma tradição ancestral, vinda Niger, dos Camerons, lá no coração da África. Foi ressaltado nos discursos, que, em torno daquela família, ali, onde havia uma fábrica de gelo, foi sendo organizada uma sociedade, uma povoação, hoje parte do bairro de São Benedito. Da mesma forma que os mais antigos africanos que foram trazidos pela necessidade de braços para o plantio da cana e produção do açúcar, e, por seu saberes e por seus suores se tornaram parte constituinte do Brasil, sendo portando seu povo, a Casa da Nação Xambá, construída nas areias do rio Beberibe, parte do reino de Oyá, foi geradora daquele bairro, conforme a pesquisa da historiadora Valéria Costa. A fábrica de Gelo já não existe, poucas pessoas ainda sabem que existe um lugar de Olinda chamado Portão do Gelo, mas lá está viva a obra e a Nação Xámbá, reconhecida como patrimônio da cidade que é Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade, definida assim pela UNESCO. Todos sabem da “Casa de Dona Biu”

Mas, nem passados seis meses do reconhecimento da importância cultural da Organização Religiosa Santa Bárbara – Nação Xambá, ouve-se o barulho de que, naquele espaço, a Prefeitura de Olinda pretende construir um terminal rodoviário. Ótimo que a Prefeitura tome iniciativas que melhorem as condições de transporte urbano a que está sendo submetida a comunidade de São Benedito e outros bairros da cidade, mas isso deve ser feito sem por em risco o patrimônio cultural que foi reconhecido pela edilidade. Com certeza o Conselho de Preservação dos Sítios Históricos da Cidade de Olinda ainda não soube dessa proposta que pode destruir a tradição que se quis salvar ao definir aquela região como Primeiro Quilombo Urbano do País. Mesmo os que não sabiam da existência desse local de resistência cultural, devem sentir-se obrigado a dizer à Prefeitura da Cidade que há outros lugares para se construir um terminal rodoviário. Aliás, parece que se falava de um espaço que localizado próximo à antiga fábrica da cerveja antártica. Pode ser que ali sim, seja “uma boa” construir o terminal rodoviário. Caso se mantenha a idéia de utilizar o espaço quase frontal ao Terreiro da Nação Xambá, estará sendo consumada uma outra forma de destruição, mais branda, embora bem mais destrutiva. Faz lembrar o verso do poeta que dizer ser o que abraça o mesmo que maltrata.

Parece-me evidente que a atual administração da cidade de Olinda não está pretendendo assemelhar-se ao período do famigerado Estado Novo, destruidor de uma de nossas mais populares tradições. Talvez, melhor benefício para si e para a cidade, seria a prefeitura complementar o que foi iniciado pelo Conselho de Preservação dos Sítios Históricos, e desapropriar, ou conseguir um comodato, o prédio da antiga CELPE e permitir que ali se organize um centro cultural, com biblioteca, sala de jogos, sala de teatro, local de conferências, etc. celebrando convênio com a comunidade local e as secretarias de Educação, Cultura e Turismo.

2 comentários:

carlosbsanto disse...

prof.Doutor Biu Vicente, fa�o-lhe o seguintte paralelo sobre a cria�o de uma rodovia em port�o do Gelo no Bairro de S�o Benedito, com o Arraial de Canudos.
Canudos resistiu de forma her�ica as investidas de uma rep�blica que engatinhava, pois, n�o poderia existir duas formas de governo dentro de um mesmo territ�rio; S� com o advento da tecnol�gia que Canudos padeceu,a guerra foi injusta, Canudos n�o tinha nem de longe armas que desse para se defender dos ataques.
Com isso, apesar de especialistas defederem o contr�rio, foi feito uma BARRAGEM com a desculpa que aquela regi�o era perfeita para que podesse ser construida.Pois, em minha opini�o vejo de forma contr�ria, na minha �tica afogaram um lugar de resist�ncia de um povo que achou uma forma alternativa de se autogovernar!
Se for realmente verdade esse barulho de que, onde fica a casa de M�e Biu ser� constru�da uma esta�o rodovi�ria,ir� refor�ar a minha d�vida, que, em Canudos a resist�ncia foi afogada.E em port�o do Gelo ser� atropelada por �nibus e carros demonstrando intrisicamente que a sociedade "adotiva", sempre vence e que atropela nossa cultura, assim como foi no Arraial de Canudos,todos AFOGADOS

carlosbsanto disse...

continuando o assunto: O quilombo urbano Portão do Gelo faz seus seminários, tem negro na tela com participação CANIBAL, ROGER, PÁCOA E escola pernambucana de circo; show musical, inclusive um grupo musical da propia nação Xamba, será que tudo isso será destruida?
já saiu de Campo Grande e veio para São Benedito e agora vão para onde????????
Será que a Nação Xambá vai ser e ter a sua sede na casa da PREFEITA? (NÃO) NA BEIRA MAR DE CASA CAIADA não tem espaço para um quilombo urbano,ou será que vai para o cemitério de Àguas Compridas ?=??????

Fonte: minha Mãe, Alcilene Braga do Espírito Santo.
carlosbsanto@hotmail.com