sábado, março 01, 2008

Esbarrões, pacotes e gigantes com ideais

Terminado o mês de fevereiro é tempo de fazer as contas do como foi administrado esse período que começou com a brincadeira do carnaval. Mês diferente este com 29 dias, menor que os comuns e um pouco maior que ele mesmo. Assim às vezes somos nós, quase sempre menor que os comuns, embora julguemos ser maiores, conquanto o sejamos vez em quando.

Mas se é maior que ele mesmo vez em quando, fevereiro jamais consegue ser maior que o março iniciado nesta manhã. Somos nós diante da realidade, diante do imenso desafio em que fomos postos sem termos sido consultados, tal qual dizia Sartre. Entretanto, pigmeus, devemos a cada dia confrontarmos com gigantes e, depois de algum esforço, sermos capazes de rir deles ou com eles.

São muitos os gigantes que nos convidam para a luta ou a simples caminhada a seu lado. Nem sempre podemos acompanhar os passos dados por eles e caminhar lado a lado. Quase sempre estamos um pouco atrás, como eu, quase perdido, acompanhando meu pai, desde a Rua Tobias Barreto até à Siqueira Campos. Vez por outra esse era o desafio. Tomávamos um ônnibus em Nova Descoberta para irmos ao centro de vendas se secos e molhados a comprar carne de charque e outros produtos para a nossa mercearia. Cada um de nós com um pacote proporcional às nossas forças. Quanta gente na rua! e eu, pequeno, querendo olhar as ruas e as pessoas ao mesmo tempo em que acompanhava os passos largos daquele gigante que, vez por outra olhava para traz e perguntava se eu estava cansado e se queria descansar. Mas ele sabia que eu “não queria”, e continuava com os seus passos em meio àquela multidão. Eu dois passos atrás. A mente e o coração dizendo que as minhas pernas agüentariam o que faltava. Eu pensava no ponto de parada do ônnibus. E apertava meus passos para não perder o gigante de vista, como faço agora com os meus ideais, dizendo a mim mesmo que não estou cansado e que vou alcançá-los. Assim, quando chegávamos à Praça da Independência, ele parava e dizia, só falta mais uma rua, como a animar-me, pois a Siqueira Campos, onde iríamos apanhar o ônnibus que nos levaria de volta para casa, estava à vista. Ainda não era o final da jornada, mas era o momento que teria para descansar o corpo do peso que me fora atribuído. Vinha o ônibus e começava a etapa quase derradeira, antes de chegar em casa. Papai, o gigante que eu seguia, às vezes conseguia um lugar para sentar e, às vezes, me encabulava ao pôr-me no colo. Quase não havia palavras, mas ele me ensinava a ser duro e suave, exigente e compassivo na caminhada, no ganho da vida ao fazê-la.

Hoje, levando esbarrões ao longo da vida, em estradas mais movimentadas que as antigas Tobias Barreto, Concórdia, Palma; sendo empurrado por outros que tomam os espaços que eu estava conquistando, ou pensava ter conquistado, tendo vontade de jogar fora os embrulhos recebidos pela vida para carregá-lo e deles cuidar até chegar ao destino, eu preciso ouvir, e parece-me ouvir, aqui, na minha Praça da Independência, ou na Praça da minha Independência, meu pai dizer: “falta só mais uma rua”.

2 comentários:

Lana disse...

Biu, obrigada por compartilhar esta terna e bonita lembrança/esperança ;-D

Mariana Borges disse...

Belo texto, e como diz o clichê: falando da sua vila, acabou sendo universal.