domingo, março 23, 2008

Reflexão em um domingo chuvoso - Feliz Páscoa

Famílias de tradição católica encontram-se na sexta feira santa para um pequeno almoço. Ocorre um pouco antes da cerimônia das três horas, quando se dá a adoração da cruz, uma vez que naquele dia não ocorre a celebração da missa. Como sempre nossa família reuniu-se no que foi possível, na casa de mamãe, com a ausência de um irmão que está no Rio de Janeiro e uma irmã que acompanha o marido em sua atividade comercial na cidade de Gravatá. Estávamos os demais, como filhos e netos na casa construída por meu pai nos idos de 1954.

Como sempre a comida era toda no coco: o feijão, o arroz, os peixes, o bredo. E então veio a chuva, forte e, rapidamente tomou conta da rua, que foi transformada em um rio. As águas foram invadindo os espaços e finalmente tomou toda a casa. As crianças mais jovens, assustadas, foram postas sobre cadeiras. Os mais velhos cuidavam de colocar no alto o que não podia ser molhado. E continuar o almoço esperando a chuva passar, as águas diminuírem.

Lembro que sempre houve a transformação da rua em rio, em Nova Descoberta. Desde a sua construção, nossa casa subiu o piso seis vezes. Quando a casa foi construída, não havia calçamento, o que ocorreu na administração de Augusto Lucena. Mas, como ainda hoje se faz, pouco se pensou no escoamento das águas pluviais e, saneamento e rede esgoto, essas coisas, pelo que vejo, não passam muito pela imaginação dos administradores. Assim é que para conter a queda das casas que foram construídas nos morros, sem qualquer atenção e assistência dos poderes públicos, assistimos a impermeabilização do solo. As águas apenas passam e quase nada delas é assimilada pela terra. Onde nos anos sessenta havia uma mata de eucaliptos, hoje há uma aglomeração de casas construídas pela pertinácia e coragem dos homens e mulheres sem apoio. Após a construção, o governado Miguel Arraes fez a concessão dos títulos de propriedade. Mas esqueceu que deveria criar um posto de saúde, escolas, projetar a coleta de esgoto, etc. Organizou-se a situação de miséria, não a possibilidade de sua superação.

As águas que a cada chuva tornam a nossa rua em um rio correm na direção do extinto rio do Brejo, que desaguava no rio Passarinho que se dirigia para o rio Beberibe. Os rio viraram córregos ocupados que foram por pobres sem casa e por indústrias sem senso ecológico, sem sentido de irmandade com os seres vivos.
O processo de ocupação urbana da Zona Norte da cidade foi semelhante à ocupação de outras áreas mais antigas da cidade. Mas não precisava ser desse modo, uma vez que já havia conhecimento suficiente para criar condições de vida decentes para todos. Hoje Nova Descoberta é um Bairro, mas tem uma infra-estrutura de um aglomerado dos anos cinqüenta do século passado.

Bem, mas nós estávamos no almoço familiar da Sexta Feira Santa e nós tivemos a casa lavada duas vezes pela águas que vieram da rua; mas também tivemos a casa lavada pelo suor e pela alegria de todos o que nela estavam naquela Sexta Feira. O trabalho da família como que nos anunciava a alegria da Páscoa, da Ressurreição, que se faz em conjunto, em comunidade. As águas da Sexta Feira nos fizeram mais próximos, nos alegraram; não pelo incômodo de ter a casa atingida pela sujeira que a enchente traz da rua, mas por temos aproveitado a oportunidade de, mais uma vez, nos tornamos irmãos, primos, tios, netos. Todos com vassouras e rodos na mão, limpando a casa, nos tornando limpos e, sem maldizer o mal que nos afligia, cultivávamos o sentido de família. Todos estávamos cuidando da casa onde crescemos e nos tornamos o que somos, sob a influência de nossos pais. Além de nos alegrarmos com a comida e a bebida, nos alegramos no trabalho comum, na construção e recuperação de nossas vidas, de nossas amizades, de nossos amores. Estávamos vivendo a Páscoa.

Nesta manhã do Domingo de Páscoa, quando os cristãos celebram a vitória da vida contra a morte, fico pensando na necessidade de superar os aspectos negativos da vida, os sinais de morte, como dizia o nosso Dom Hélder Câmara. São sinais de morte essa concentração de riqueza cultivada por algumas famílias em detrimento da maioria dos habitantes; são sinais de morte, esse cultivo incessante de um consumo incessante; são sinais da morte essa ganância de poder que torna tantos mentirosos e cegos para os reais problemas. Com todos esses problemas, com todas as omissões nossas e dos que nos pediram permissão para administrar o país, e o fazem apenas para a manutenção da situação de pobreza para muitos e bem riqueza para poucos, desejo, a todos que freqüentam esse espaço, uma vida melhor e mais feliz. Feliz Páscoa

2 comentários:

Nanan disse...

caro amigo e irmão
nossa paixão não é tanto carregar a cruz, mas viver, pleno, em ser a luz
feliz pascoa
tt catalão - brasilia

hilda.elaine disse...

Professor Biu Vicente:

Fico impressionada com o seu otimismo, com a sua capacidade de resgatar um sorriso, mesmo numa situação como esta. Muito sábia a associação entre a assepsia do lar e a união familiar, união instigada pelas cerimônias pascais,mas também pela necessidade de manter a casa limpa "pelo suor e pela alegria de todos os que nela estavam", quando "de vassouras e rodos nas mãos... sem maldizer o mal que nos afligia, cultivávamos o sentido da família". Uma associação como esta só pode partir de alguém iluminado espiritualmente. Só pode partir do meu eterno mestre. Novamente o "fenômeno" das enchentes nos une... É mera coincidência.
Com carinho:
Hilda.