terça-feira, agosto 05, 2008

Dia Estadual do Maracatu


O primeiro de agosto deste ano de 2008 conheceu, em Olinda, uma nova festividade. Desde as dezessete horas daquele dia começou a se formar uma pequena multidão na Praça Frei Casimiro que fica bem em frente ao Palácio dos Governadores, um prédio que André Vidal de Negreiros preferiu para residir, quando foi governador de Pernambuco no século XVII. É certo que ele estava, por conta de seu amor a Olinda, indo contra a tendência histórica que se encaminhava para por o Recife como capital., pois já era o centro econômico da capitania. Mas a multidão estava se formando para celebrar uma data, O Dia Estadual do Maracatu.

Entretanto o Primeiro de Agosto como referência ao maracatu já fora estabelecido no ano de 1998. Por um lapso qualquer, jamais a data havia sido comemorada. Sabemos que a memória é carregada de lembranças e que lembranças provocam, também, esquecimento de outras efemérides. As cronologias estão repletas de esquecimentos, e também os atos que fazemos. Ao tempo que explicitam alguns desejos também escondem, ou negam, outros. Devemos pensar porque certas datas são criadas e esquecidas.

Como dizia o poeta “todo dia é dia de índio” e, contudo, temos uma data para nos lembrar que somos índios; mas a utilizamos para dizer que índios são os outros. Talvez as datas sejam criadas para satisfazer algum grupo, alguma pessoa; talvez criem as datas para que as pessoas esqueçam-se delas. Contudo, dez anos após a criação do Dia do Maracatu, uma pequena multidão postou-se na frente do Palácio dos Governadores para reverenciar uma tradição, ao tempo em que foi sendo lembrada do centésimo décimo ano do nascimento de Luiz de França que, na Bomba do Hemetério, manteve vivo o Maracatu Leão Coroado, o mais antigo maracatu de Baque Virado do Recife.

O Maracatu de Baque Virado, que surgiu em dois grandes centros urbanos – Igarassu e Recife - é resultado de festividades religiosas, interferência policial e manifestação leiga e política de uma comunidade. Do ponto religioso, o Maracatu remete às Irmandades Religiosas que existiam na cidade do Recife que congregavam homens e mulheres negras, fossem escravos ou livres. A maior dessas irmandades foi a de Nossa Senhora dos Homens Pretos. Na festa da Senhora do Rosário ocorria a coroação do Rei do Congo, uma tradição que já ocorria em Portugal e foi trazida para o Brasil. Um rei negro era coroado e, ao tempo em que os detentores do poder na sociedade escravocrata reconheciam alguma dignidade nos homens e mulheres negras, admitindo que, entre eles, havia uma hierarquia, um poder que os poderosos não conseguiam tangenciar, mas utilizaram essa hierarquia para a manutenção da ordem social.

Coroado, o rei saía em desfile desde a Igreja do Rosário dos Homens Pretos e tomava as principais ruas da cidade. Mas, semelhantemente às cronologias, os atos processionais carregam em seu interior experiências que não são percebidas pelos assistentes. Só os amantes sabem o significado do amor. Os demais apenas intuem como os ex-amantes o fazem ao verem os amores dos outros.






Rosário dos Pretos de Igarassu
Enquanto se manteve a união perfeita entre o Estado e a Igreja n Império Brasileiro esses cotejos reais eram vistos como salutares. Contudo, mudanças provocaram a dissolução das relações sociais e, ainda no século XIX, as Irmandades perderam espaços para novas instituições, da mesma forma que a sociedade, ao superar as relações de trabalho escravocrata também dispensou a atuação do Rei do Congo. Entretanto, comunidades negras mantiveram o cotejo, a procissão do Rei do Congo, e esse cotejo foi se tornando maracatu.

Os maracatus foram importantíssimos para a organização das populações negras após a abolição da escravatura, pois ele se tornou a referência que era possível aos negros que ficaram livres de seus donos, de suas canseiras, de suas obrigações doloridas. Como disse o sociólogo alemão, ficaram tão livres que seus corpos eram tudo que tinham para vender na nova sociedade.

Nos lugares em que se preparavam para o desfile no carnaval do Recife, um carnaval que nascia no final do século XIX; durante o ano, as tradições eram reorganizadas, e as nações foram sendo criadas. O desfile do Maracatu era leigo, mas estava vinculado ao sagrado de uma nação. Como Dona Santa, Badia e Eudes, Luiz de França representava essa tradição da nação pernambucana.





Rei menino




Sem negro não há açúcar, sem açúcar não há Pernambuco. Sem negro não há Pernambuco e, por isso, mesmo sem saber é que a Assembléia Legislativa criou o Dia do Maracatu, homenageando, na pessoa de Luiz de França, todos os Reis de Congo que mantiveram os povos negros unidos em suas nações enquanto construíam Pernambuco e inventavam o Maracatu de Baque Virado.

Pensando bem, é capaz de nós desconfiarmos porque é que depois de criar a data esqueceram, durante dez anos, de promover a festa. Mas este ano nós começamos mais uma tradição na nossa nação que junta todas as nações. Um bom início para o Mês da Cultura.

2 comentários:

Alexandre L'Omi L'Odò disse...

PERNAMBUCO É TÃO ATRASADO EM SUAS POLÍTICAS CULTURAIS E ESPECIALMENTE NO CONTEXTO DO SIGNIFICADO DIRETO DE AUTOESTIMA QUE SÓ DEPOIS DE DEZ ANOS SE COMEMORA ALGO TÃO ÓBVIO COMO O DIA DO MARACATÚ. MARACATÚ ESTE QUE PELO MENOS A 350 ANOS EMBELEZA ESTE ESTADO O DANDO O STATUS DE ÚNICO COM TAL MANIFESTAÇÃO RELIGIOSA/CULTURAL. EU FICA A ME PERGUNTAR, SERÁ QUE SE ESTÁ COMEMORANDO OS DEZ ANOS DE VACANCIA DA LEI, OU AINDA SE CELEBRA A MEMÓRIA DOS ESQUECIDOS?
KKKK

ENTREM NO MEU BLOG: ALEXANDRELOMILODO.BLOGSPOT.COM
L'OMI L'ODò.

Iedo Ferraz disse...

"Talvez criem datas para que as pessoas esqueçam-se delas". Pena o lapso para a comemoração!
O dia do maracatu é para lembrar que somos negros sim, e que não há indivíduo que consiga esconder (pelo menos de si mesmo) ou evitar o sentimento de identidade ao escutar os bumbos tocando. A tradução é simultânea, não há pernambucano que não se enxergue ainda mais pernambucano - mas como dói!