domingo, agosto 31, 2008

Tributo a Mestre Salustiano


Pouco antes de iniciar a reunião mensal do Instituto Histórico de Olinda, nesta manhã, recebi a ligação de Afonso Oliveira informando da morte do Mestre Manuel Salustiano, o Mestre Salu, aquele matuto nascido em Aliança a 12 de novembro de 1945 e, crescido, veio morar em Olinda, tornando-se famoso por sua maneira de tocar a sua rabeca.


Salustiano foi menino de engenho, não o Menino de Engenho que foi José Lins do Rego, mas o menino pobre de engenho, quando os engenhos já eram pobres e os seus senhores tinham virado, desde muito, fornecedores de cana. Foi ele, mais que menino de engenho, foi um menino de sítio, como muitos.

No meado da década de quarenta, quando nasceu Manuel Salustiano, filho de João Salustiano, quem dominava economicamente aquela região era a Usina Aliança, para quem quase todos os “engenhos” botavam cana. Muitas das casas dos senhores haviam sido derrubadas, outras estavam abandonadas, pois os seus proprietários viviam no Recife, indo até à usina para acompanhar o que os gerentes e administradores faziam.


João Salustiano cortava cana e aprendera a tirar sons da rabeca. Vivia alegrando os bailes nos terreiros, quase sempre, na frente da casa dos administradores ou daqueles que trabalhavam com maior liberdade e podiam oferecer uma festa, vez por outra. Assim, João Salustiano exercia sua arte enquanto criava seus filhos, entre eles Mané, que queria tudo, menos acabar a sua vida cortando e sendo cortado pela cana.


Mané Salustiano acompanhava o pai e aprendia as coisas das brincadeiras. A rabeca era o instrumento de tudo nos bailes que ocorriam em toda a Zona da Mata: a rabeca era usada para o forró, para acompanhar as cantigas do Cavalo Marinho. Em um tempo em que não havia luz elétrica e só os ricos podiam ter acesso às vitrolas, João Salustiano era muito requisitado nos finais de semana. E o menino-rapaz Manuel Salustiano, Mane, como se pronuncia na região, foi aprendendo com o pai, e com outros, a dança do Cavalo Marinho, as poesias do Cavalo Marinho, as músicas dos pastoris, as canções dos pastoris, os pantins dos manulengos, os volteios das cirandas, as batidas do coco, os passos guerreiros dos caboclos. E foi aprendendo. Tocou no banco do maior mestre daquela época, o Mestre Batista, ali nas festas no terreiro do Sítio Chã de Camará. E tanto aprendeu que aprendeu que não podia ficar tocando e dançando de engenho em engenho, de terreiro em terreiro, como seu pai, como Biu Roque e outros.


Depois de ver o Mestre Batista fundar o Maracatu Estrela de Ouro, migrou para Olinda. Vendeu picolé, foi ajudante de pedreiro, foi guardando dinheiro e, como muitos, invadiu terreno para construir uma casinha. Tempos depois tudo foi posto no papel do cartório.

Olinda o adotou pela indicação do Lord de Olinda que compreendeu o seu talento e o apresentou a quem podia o apoiar. Tocando nas feiras, conheceu Leda Alves que levou o seu brinquedo para mostrar nos colégios, no mês do folclores, este, o mês de Agosto. Depois conheceu Ariano Suassuna.

Fundou em 1975 o Maracatu de baque Solto Piaba de Ouro. Esse brinquedo já aparecia no carnaval do Recife desde a década de 1930, mas foi subjugado, visto como debitário do maracatu de Baque Virado. Outra tradição, outra história. O povo tem muitas histórias e não apenas aquela contada pelos “meninos de engenho e das casas grandes”. Mestre Salustiano sempre amou o maracatu, aprendeu desde cedo a admirar esses gigantes que o povo da Mata Norte criou para assustar os meninos mimados e as moças e, ao mesmo tempo, animar a sua vida com a alegria de ser um guerreiro. Até os anos 80 os Maracatus de Orquestra ou Baque Solto eram temidos,mas Mestre Batista (Estrela de Ouro de Aliança) e Biu Hermenegildo (Águia Misteriosa de Carpina), Mestre Salustiano (Piaba de Ouro) decidiram fundar a Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco, e o fizeram de tal forma que hoje esse brinquedo é uma manifestação cultural pernambucana das mais importantes.

A morte do Mestre Salustiano, o Mestre Salú da Rabeca é um momento especial na vida da cultura pernambucana. A ele saudamos. Nele Saudamos todos os criadores de danças, músicas, teatro, mamulengos, cirandas, que são a vida da gente.


Conheci o Mestre Salu, tirei prosas com ele, brinquei no Lumiara Zumbi, dancei na Casa da Rabeca, joguei vozes e ditos de "Mateus" com João Salustiano numa festa de Reis. Estou com a dor dos filhos, especialmente a de Manuelzinho, de Maciel, os dois filhos com quem mais convivo e admiro, como admiro seu pai: Mestre Manuel Salustiano, um homem que fez mais pelo povo da Mata Norte de Pernambuco do que todos os barões e baronetes criados pela orgulhosa e decadente sucralocracia pernambucana a serviço do império.

A bênção Mestre Salú! Leva nossas saudações a Batista e Biu Hermenegildo.

Teu Povo te homenageia.
SALVE A NOSSA CULTURA

3 comentários:

Turismo disse...

Grande Mestre Salu!! foi abrilhantar o céu e pôr um pouco mais de ritmo lá em cima! assim o fez Chico Science que tanto o admirou!!parabéns prof. Biu Vicente, palavras como estas suas são fundamentais para alertas desavisados que nossa cultura perdeu um de seus mestres1 mas nada está perdido, apenas um pouco mais obscuro neh!

Augusto disse...

Perda incomensurável para a cultura pernambucana.
Pena que a cultura da bostamusic faz com que
a maioria dos nossos jovens, desconheçam talentos
como do grande Mestre.Com certeza o palco cultural
do festival de Inverno de Garanhuns não será mais
o mesmo, serás sempre o mestre de Cerimônias daquele
espaço ,tua presença permanecerá em cada um dos que a
cada ano via renovada a nossa maior riqueza , nossa CULTURA.
Sentiremos saudades do grande Salu. Cidadão do mundo,divulgava
como poucos nosso PERNAMBUCO.Sua simplicidade e a maneira
como tratava os fãs me conquistou ainda mais.
VIVA O MESTRE SALU!! VIVA A CULTURA PERNAMBUCANA!!

Di Gregorio disse...

Parabéns professor. Seus escritos são uma riqueza para a memória pernambucana!
Profª Maria de Fátima Di Gregorio UNEB /Bahia