domingo, novembro 23, 2008

Antonio Melo, cidadão de Nova Descoberta, do Recife e do mundo

O Ano de1938 foi o ano do nascimento de Antonio Melo lá, na cidade de Bom Jardim. Era o tempo do Estado Novo, uma ditadura que seus pais seus pais, possivelmente, não sabiam que estava acontecendo. Eles estavam preocupados em criar Antonio e seus muitos irmãos. Os períodos de seca eram, quase sempre no Sertão ou no Agreste, mas Bom Jardim fica próximo do Agreste e foi atingindo pelas estiagens, além de ser sempre atingido pelo latifúndio, pela gulodice de terras que certos grupos sociais sempre cultivaram em nossa região. Assim, em 1957 Antonio Melo chegou em Nova Descoberta, na época um pedaço de Casa Amarela, que crescia populacionalmente com gente descida da Mata Norte. Lá já estávamos a minha família, chegada alguns anos antes e também a família de “seu Teté”. Seu Teté é o pai de Cristina, com quem Antonio Melo veio a se casar, além do fato de Seu Teté, a esposa Dona Maria e sua filha Cristina eram padrinho e madrinhas de meu irmão José Vicente, a quem chamamos de “Doutor”. Seu Teté, de certa maneira foi “meu primeiro morto”, das pessoas que conheci e com quem tratei foi ele, com sua morte, que me pôs em contato com o mistério. Eu era muito menino, não fui ao enterro, mas dei por sua falta, jamais explicada oficialmente. Como nunca o vi morto, ainda carrego a lembrança dele vivo, em sofrimento, sentado na sala.

A gente morava na mesma rua, a Nova Descoberta, hoje pomposamente chamada de Avenida e, agora é um bairro. Pois bem, se não for engano meu, “seu Teté” morava a casa 1340 – (mais tarde veio a ser a venda de Manoel Lopes, meu primo, sobre quem falei já neste espaço) e a nossa casa ainda é a de 1420. Bem, Antonio Melo ficou gostando de Cristina e casou com ela. Fez uma família, que é bonita, no meio de muito sofrimento. Passaram um tempo morando no morro em frente a nossa casa. Outro período foram morar próximo à entrada do Córrego da Areia.

Antonio Melo, embora eu vá repetir várias vezes esse nome “Antonio Melo”, a gente, lá em casa só chamava “Tonho de Cristina” ou “Toninho de Cristina”, conseguiu emprego de tecelão na Fábrica Othon Bezerra de Melo, na Macaxeira, como grande parte dos homens e mulheres que iniciaram o populacionamento de Nova Descoberta. Aquela era uma fábrica de tecidos e tuberculosos. Ela, como as fábricas da torre e Yolanda forneceram os clientes do Hospital do Sancho por muitos anos. Quem sabe algum estudante de História queira estudar e verificar essa relação que minha memória faz. Bem, na Fábrica da Macaxeira havia um forte movimento sindical e ali trabalhavam bravos cristão-católicos jocistas. (Caso não seja meu engano, já está escrita uma dissertação de mestrado em História, na UFPE, sobre a Macaxeira). Antonio, que havia aprendido as primeiras letras da dignidade com seus pais, logo se envolveu na luta sindical. Em março de 1964 foi preso. Isso aconteceu outra vez.

Enquanto os golpistas de 1964 procuraram por fim à luta sindical, o Vaticano enviou Dom Hélder para ser arcebispo de Olinda e Recife. Também ocorreu uma das periódicas cheias, e o Rio Capibaribe invadiu seus antigos espaços, e a chuva derrubava as casas empinadas nos morros de Nova Descoberta. Dessa conjunção e da fé ativa e transformadora de Dom Hélder, nasceu a Operação Esperança e lá estávamos, eu menino de quinze anos aprendendo e Antonio Melo, com muitos outros, organizando a reconstrução de casas e as vidas. Também foi importante a presença dos padres Jorge, Miguel e Heriberto, americanos que vieram atender as solicitações do papa João XXIII.

Depois veio o Conselho de Moradores de Nova Descoberta. E a gente lá. Antonio veio a ser eleito Presidente do Conselho de Moradores de Nova Descoberta. Aquele foi o primeiro Conselho de Moradores que se estabeleceu na cidade do Recife. E a gente fazia eleição. E a população ia participar, para o desespero dos políticos. Para um cargo que não tinha salário e também não tinha poder nenhum, houve um ano que dessas eleições participaram mais de 5000 eleitores. Era fazer democracia em tempo de ditadura. Eu fui crescendo naquele meio, enquanto também estudava e ia ficando professor de profissão. E teve o Encontro de Irmãos e, faz quarenta anos que, estávamos juntos, no mesmo palanque, Dom Hélder, Antonio Melo, Zildo Rocha, Reginaldo Veloso, (e eu ali também, com meus professores de democracia e sonhos sociais) no ato do Movimento por Justiça e Paz, no pátio interno da Matriz de Casa Amarela.

Veio a perseguição sobre os movimentos eclesiais católicos e sobre os movimentos sociais ligados a Dom Hélder; veio a perseguição à Ação Católica Operária; veio a prisão do padre Romano por causa do documento: "Nordeste, o Homem Proibido"; vieram os primeiros movimentos para restauração do sindicalismo, veio a fundação do Partido dos Trabalhadores, veio a eleição de Luiz Inácio da Silva e, nesses lugares, lá estava Antonio Melo, fiel à sua fé católica e à sua esperança socialista. Assim, sem sair muito de seu lugar – Nova Descoberta – Antonio Melo, Antonio de Cristina, como o chamamos lá em casa, pois Antonio sempre foi de Cristina, como Cristina sempre foi de Antonio, foi um construtor do Recife e das liberdades que temos nos dias de hoje.

Hoje foi muito bom para todos que vivemos com Antonio Melo, esses recentes 50 anos de nossa História. Com ele fizemos essa história. Na manhã do dia 14 de novembro, o retirante Antonio Melo, recebeu o título de Cidadão Recifense, recebeu a medalha José Mariano. Ele disse que estava orgulhoso e feliz porque essa homenagem estava sendo prestada a todos os trabalhadores que, como ele, continuamos a sonhar com o mundo todo socialista.

5 comentários:

Di Gregorio disse...

Gostei da história do retirante Antonio Melo que sonhou com um país melhor e mais justo.

Anônimo disse...

Antonio Melo simboliza a rsistência de um povo de lutas e o seu Titulo de Cidadão é a concretização de um novo tempo...Confirmando a vitória deste povo que ousou transformar a realidade pela luta das organizações populares...Chegando hoje ao ponto de um "Homem Comum" ser reconhecido num forum onde antes só se homenageava pessoas da alta sociedade...Viva Antonio, viva a luta do povo...

Romero Meneses
92479477

Anônimo disse...

Conheço Antonio das lutas desta cidade principalmente de Casa Amarela como vc diz biu ainda eras um adolescente e também te tornasse
protagonista desta história.
Parabéns a Antonio Melo e toda sua familía. Cristina sua companheira, Maria Melo minha amiga linda e essa mulher incrivél, Goretti,Andre
e Marcos

Professor Pedro Noé. disse...

"Antonio Melo....Antonio de Cristina", tive o prazer de iniciar uma relação mais próxima com ele nos anos 70, quando foi contribuir na organização dos Jovens de Nova Descoberta com o meu amigo Tadeu. A partir daí, "Antonio Melo......Antonio de Cristina", passou a ser chamado, por mim, de Biriba. Meu Amigo Biriba mereceu as homenagens da Câmara Municipal do Recife, através do vereador Fernando Nascimento, e a do Professor Severino Vicente. Meu amigo Biriba merece muito mais....
Pedro Noé (8894.0336)

IEDA disse...

MEU NOME É IÊDA DE LEMOS VASCONCELOS, SOU FILHA DE JOAQUIM DE LEMOS VASCONCELOS (falecido),EX- FUNCIONARIO DA FABRICA DA MACAXEIRA
E CONHECIDO PELO APELIDO DE POLONES,SOU FILHA BASTARDA E ANDO A PROCURA DE QUEM CONHECEU ELE PARA DAR MAOIRES INFORMAÇÕES ,POIS
TENHO QUATRO IRMÃS POR PARTE DE PAI E GOSTARIA MUITO DE CONHECE-LAS,PORTANTO LENDO ESSE BLOG VI QUE O SR.ANTONIO MELO FOI FUNCIONARIO DA FABRICA DA MACAXEIRA E MOROU NO BAIRRO DE NOVA DESCOBERTA ONDE MEU PAI ALI MORAVA COM SUA MULHER ESTER E MAIS 4 FILHAS,E QUEM SABE ALGUEM POSSA ME AJUDAR DANDO ALGUMA INFORMAÇÃO SOBRE SUAS FILHAS.
meu e-mail ieda.lemos@gmail.com.
QUEM SABE ESTOU COM SORTE!