quarta-feira, novembro 05, 2008

A vitória da mestiçagem

A cada dia aprendemos um pouco mais sobre as possibilidades que temos em criar novos caminhos.

Minhas mais antigas lembranças sobre os Estados Unidos da América me levam ao início da minha adolescência; estava entre onze e doze anos. Então eu via as primeiras imagens através da televisão do Seminário Menor Imaculada Conceição, que funcionava na Várzea. Ainda carrego a visão de aviões americanos ameaçando navios russos que navegavam em direção da ilha de Fidel Castro. Como hoje eu sei, não sei bem essas imagens são as que ficaram na minha memória ou se, o que trago hoje são as imagens que foram sendo fixadas posteriormente por outras imagens e novas memórias atualizadas. Porém, não há como esquecer o ambiente de tensão que dominava os mais velhos e contagiava aos mais jovens. Eram os tempos de John Kennedy, o presidente católico, em um país protestante, que juntava seus atos aos do pastor batista Martin Luther King Junior, na luta pelos direitos civis, estabelecendo uma norma que obrigava escolas racistas a aceitarem alunos negros. Era um presidente branco e católico que estava ao lado de um negro protestante.

Essa luta pelo reconhecimento dos direitos humanos, a luta para superar a segregação racial e social, é uma outra lembrança distante e que me acompanhou o resto da minha vida, e acredito, a quase todos da minha idade.

Havia já, nos Estados Unidos da América do Norte, escolas e universidades para negros, inclusive a que formou o doutor Luther King. Mas se tratava de criar uma nova nação, pois havia uma parte que recusava admitir que a guerra do século XIX havia determinado a igualdade na América. Foram quase cem anos. Naqueles anos eram poucos os negros que apareciam no mundo social e artístico nos USA, ainda que fossem, como se diz no Brasil, bem educados. Parte da juventude dos meus contemporâneos foi de acompanhamento daquela luta. Do nosso lado, aqui no Brasil, embora não houvesse uma apartação física e explícita, nós, os que somos negros ou mestiços, tínhamos que trilhar caminhos semelhantes para ocupar espaços na sociedade. A dissimulação auxiliou nossa sociedade a caminhar mais lentamente na direção da igualdade de chances para todos. Ainda estamos lutando para que os bairros pobres tenham escolas que permitam aos mestiços pobres dominarem as tecnologias que nos permitam ocupar, em igualdade os espaços de oportunidades. Às vezes até já estamos nesses espaços, mas a dissimulação dos menos mestiços, os que se pensam brancos e um Brasil só de brancos, continuam a por, aos mestiços, os desafios de superação.

Pois bem, menos de cinqüenta anos depois daquelas caminhadas de Martin Luther King, daquela manhã em que a Guarda Nacional dos Estados Unidos da América forçou os portões de uma escola no sul, para que uma criança negra pudesse sentar-se ao lado de uma criança branca e estudar, com os mesmos professores, um mestiço, filho de um negro africano e de uma branca americana, foi eleito presidente dos USA. Um americano mestiço, em um país em que os “afro-descendentes” são minoria, foi eleito presidente do país. E, diferentemente do que disse o jornal de uma emissora de televisão brasileira, (essa emissora não consegue encontrar um jornalista-comentarista mestiço) não foi uma vitória do homem Barak Obama, não foi uma ação de um indivíduo, como querem nos levar a pensar: a eleição de Obama para a presidência dos Estados Unidos foi uma decisão do conjunto do país. Não foi a vitória do indivíduo, não foi a vitória do gueto, não foi a vitória do grupo étnico, essa foi a vitória da mestiçagem. Não multiculturalismo justaposto dos guetos, mas a convivência e a absorção corajosa; Essa eleição não foi a simples tolerância, da diferença. foi algo mais.

Isso é o que faz surgir o novo. O novo na humanidade nunca veio do isolamento, dos distanciamento, mas sempre tem sido conseqüência da interpenetração das culturas, dos sentimentos, dos desejos, dos projetos.

Contudo, isso não tem sido realizado sem tensões e confrontos. Como está escrito em livro sagrado para os cristãos, no corpo das mulheres e na ansiedade dos homens no momento das dores de suas mulheres: os partos vêm acompanhados de dores.

Um comentário:

Cidade Abandonada disse...

A vitória do democrata Barack Obama tem uma valor simbólico imensuravél. Como bem falou o professor uma vitória da mestiçagem, num país que há menos de meio século nem permitia que negros e brancos entrassem nos mesmo bares e sentassem juntos no ônibus.

Mesmo se deparando com um grande desafio pela frente, de ter que restabelecer uma economia bastante ferida e restaurar a imagem de um páis que está em maus lençois pelo mundo afora.

A vitória de Obama já mostra bem o que dizia seus slogan de campanha. Com certeza os EUA estão em um processo de MUDANÇA.

Diogo Cordeiro da Silva