domingo, janeiro 25, 2009

Renato Teixeira e umas lembranças de Dom Hélder

Parte desta tarde foi-me concedida, ou me concedi, a ouvir músicas diversas, especialmente as escritas e cantadas por Renato Teixeira. Normalmente não sou comprador de material dito pirata, embora eu saiba que os maiores piratas, no sentido muito clássico, são os quem lutam contra a pirataria. Mas, deixando isso de lado, ouvi que naquela mídia que comprei estava sendo cantada parte de minha vida. Pouco importa aos que, por alguma razão lerem essas páginas, entendam que a importância que eu estou dando ao que ouvi nesta tarde de domingo está além daquilo eu dimensiono. Afinal, há tanta coisa bem mais importante que as coisas a que eu dou importância!

O que mais me tocou nesse conjunto de música cantadas por Renato Teixeira foram as cantadas com Pena Branca, um das maiores e mais belas voz entre os cantores ditos sertanejos. Entre as músicas estão o Chuá Chuá e de Papo pró Á. Essas músicas se juntaram a uma recente correspondência que recebi de Bete, sobre o centenário de Dom Hélder Câmara. Poucos se lembram, e ninguém é obrigado a lembrar, inclusive aqueles que aderiram mais vagarosamente aos projetos helderianos, embora estejam, agora, no front desse centenário, o que ocorria no Recife nos anos de 1968.

Quando, em plena ditadura, Dom Hélder pôs em andamento o Pressão Moral Libertadora, um movimento e uma ação inspirado em Gandhi e Martin Luther King, alguns poucos ocuparam o espaço do auditório do Colégio São José para dizer que estávamos ali com o objetivo de garantir, pela não violência, a permanente luta por aqueles direitos que nos eram negados. Eu ainda era um menino de 18 anos que era animado e animava grupos de jovens de Nova Descoberta e da Arquidiocese. Vivi esses momentos tensos ao lado de Zildo Rocha e outros. Depois, no espaço da Paróquia do Bom Jesus do Arraial fizemos uma apresentação em que fui chamado a cantar as músicas Chuá Chuá, de Papo pró Á. Nunca fui um grande cantor, na verdade nem sei cantar, mas era o disponível para se expor, naquela noturna noite da pátria para cantar músicas que falavam do povo que continuo amando e dele sendo parte. Depois, em 72, quando estava na prisão, o vigário do Vasco da Gama, que me conhecia desde criança, me acusou de ser comunista por ter participado daquela vigília pela liberdade. Ao sair da prisão fui à sua casa e esclarecemos muitas coisas. Sei que ele foi um dos homens mais importantes na construção da sociedade recifense, embora não tenha entendido o mal que a ditadura militar fez ao Brasil, como agora a destruição dos movimentos está fazendo, também em nome de manter a ordem.

Agora, são cem anos nascimento de dom Hélder que se celebra, mas são milhares de anos de luta pela liberdade e pela dignidade humana, continúo emocionando-me cada vez que escuto as músicas que cantei, naquela noite, acompanhado por Orlando e outros rapazes que, como eu, moravam em Nova Descoberta. Hoje tudo é uma Boa Viagem, nenhuma Nova Descoberta ou alto de qualquer Refúgio, Brasileira, Caetés, Conceição, e muitos outros.

Mas, nessa caminhada "ando devagar porque já tive pressa", diz Renato Teixeira, que aparenta saber "o sabor das massas e das maçãs".

3 comentários:

Anônimo disse...

Caro Biu,
Parabens por mais um escrito belo. De longe comemoro o centenario do Dom e sempre lembrando de voce e o Recife
Grande abraco,
Ken Serbin

Zélia Gominho disse...

Gostei muito do texto; é bom ler/ ouvir/ relatar as experiências que tivemos; a música é um código privilegiado para acionar nossa recordações, e no que diz respeito o que vivido junto a Dom Helder é sempre uma graça. Gosto sempre de lembrar: uma fila imensa para entrar no Cine Veneza, na rua do Hospício, para ver Mozart, e lá estava Dom Helder recusando o convite de passar a frente de todos; uma simpatia.

fernando disse...

Estas músicas me ajudam a perceber um outro Brasil...
Um Brasil que não aparece na tv, mas que acontece. Ou que aconteceu...
De qualquer forma, ao ouvir Renato Teixeira, ALmir Sater e, até mesmo Sérgio Reis, pra não falar de Pena Branca, Xavantinho, dentre outros, podemos ver o quanto é grande e multicultural a nossa nação.