sexta-feira, setembro 12, 2008

A semana da Pátria

Esta foi uma semana que me pareceu quase típica. Digo assim pois o domingo, dia 7 de setembro eu não fui a nenhuma demonstração cívica: nem a oficial, com a presença das autoridades e do povo; nem a de protesto e advertência, conhecida como o Grito dos Excluídos, que vem sendo organizada desde que FHC era presidente e a atual administração do país era oposição e apoiava ações como essas da CNBB. Fiquei em casa, não como protesto, mas como um elogio à preguiça.

Mas, ficando em casa, dificilmente ficamos sem fazer nada. O ócio pode ser bastante produtivo e, naquele dia atendi a várias demandas atrasadas, depois de dormir. As poucas informações que as emissoras de televisão nos mandam, são realmente poucas, pois muitos dos jornalistas não correm mais em busca da notícia. Os donos dos jornais compram as notícias. As agências de notícias, sempre alguns, selecionam as notícias e as vendem aos jornais que, não por acaso são também donos dos canais de televisão, apesar da constituição (essa lei “arremendada” e chamada às falas sempre que sua aplicação prejudica alguém da elite – os antigos e os recém acomodados) proibir.

É salutar para nossa formação pessoal comprar os jornais domingueiros e compará-los. As manchetes são exercícios de dizer de forma diferente as mesmas notícias; as matérias são em sua maioria escritas fora do estado; os colunistas locais nunca discutem entre si e se esmeram em elogiar sempre algo ou alguém, mas raramente se encontra um debate. Pelos jornais percebemos o quanto os nossos escritores e filósofos pensam sempre a mesma coisa, supomos assim por conta da ausência de debate. Mas também pode ser que a fluidez do tempo e dos acontecimentos já não mais permita que sejam perdidas horas em busca de pensamentos. Por outro lado, já não se fabrica notícias desde a quinta feira, pois na tarde do sábado já estamos lendo as notícias do domingo, e elas foram impressas na sexta feira. Mas parece que isso é assim no mundo inteiro. Também ocorre com as revistas semanais que nós ouvimos antes de as comprarmos nas bancas ou as recebamos em casa. O domingo é uma continuação do sábado que só tem acontecimento fora de nosso mundo imediato, o Brasil.

Felizes aqueles que não deixaram crescer em suas casas locais como bibliotecas, ou lugar onde se guarde algum livro que possa ser acionado. Isso os impediria da glória de assistir a mediocridade em andamento nos programas televisivos. Evidentemente que a televisão pode trazer para dentro do lar o glorioso esporte da Fórmula Um, um esporte que garante o sucesso de muitos proctologistas, por conta das hérnias anais que podem ser provocadas pelo imenso esforço de ficar sentado ouvindo um dos maiores oráculos brasileiros.

Mas neste domingo do dia da independência, algumas pessoas dedicaram-se a ficar até tarde para ver um dos mais belos retratos da mediocridade atual, que é a legião de estrangeiros que formam a seleção brasileira de futebol, brilhantemente orientada pelo intangível e elegante Dunga. O empate-derrota nos garante o segundo lugar (acima da Argentina) neste momento da eliminatória, o que é quase uma ‘bolsa-classificação’, pois, se garante o momento atual, sem mudanças estruturais não há garantia de sucesso futuro.

Durante a semana participei de uma atividade promovida pelo Diretório Acadêmico de História, que pretendeu discutir relações interdisciplinaridades da história com outras ciências. Acho uma ótima idéia, mas, parece que, da mesma forma que químicos, físicos e matemáticos julgam que as humanas não são ciências (falam de ciências moles), os jovens do Diretório Acadêmico não convidaram nenhum estudioso ou cientista das físicas, químicas e matemáticas (dizem ciências duras) para pensarem alguma possível relação com a ciência histórica. Aqui fico ainda na esperança que nossos conceitos avancem um pouco mais, para que possamos entender - realmente entender, que, para além do populismo acadêmico, gente como Josué de Castro, médico de formação, deve ser considerado para uma conversa interdisciplinar. Essas incapacidades de atualizar o discurso interdisciplinar é que provocou o telefonema de uma universitária, escandalizada por saber que eu, professor de história estarei participando de um encontro a respeito de literatura. É nisso que dá esse negócio de ter que repetir o professor em tudo, caso haja o desejo de aprovação e ascensão na carreira acadêmica. E aí voltamos à questão do “bolsa” que tudo resolve e nos faz agora um país de classe média.

E dentro de 36 horas será domingo de novo. Tomara que meu filho traga meu neto para brincarmos na piscina plástica.

Um comentário:

Fábio disse...

Pois é! Sou um desses infelizes que não se conteu e criou essa "maldição pós-moderna" que é uma biblioteca! E já chego a sentir que todos os dias são um domingo, impressos numa sexta-feira da qual não mais participamos! Sobre o último parágrafo, é difícil assistir a derrota sofrida pelas Humanidades (na guerra entras as ciências moles e duras) quando uma das melhoras candidatas a construção de uma ciência humana objetiva e quantificável, debanda para o outro lado. Como se a Física pudesse substituir a Antropologia e a História na reconstrução do passado. Mas, é isso, dado negativo também é válido, nas ciências duras. Sabe-se lá o que dará...

abraços