sexta-feira, outubro 03, 2008

O largo do Rosário e das Três Culturas

Estamos quase no dia de São Francisco, um dia reservado para refletir sobre os inconvenientes que praticamos sobre o meio ambiente. É só olharmos ao nosso redor e nos depararemos com resultados pouco recomendáveis e que colocam em risco a nossa existência. É certo que a vida tem um ação regenerativa surpreendente e, é essa sua capacidade que pode nos tornar menos atento à sua conservação. Como, por exemplo, os acontecimentos mexicanos de 2 de outubro de 1968, em Tlatelolco, México. Na Praça das Três Culturas, jovens acadêmicos, apontavam o distanciamento do Partido Revolucionário Institucional dos desejos do povo mexicano. Ainda hoje o governo mantém a informação de que apenas 30 pessoas morreram, mas os jornais da época falavam de mais que três centenas de jovens estudantes que foram mortos, com a utilização de tanques de guerras e outras armas pesadas. Esse acontecimento tem sido apontado como momento de inflexão da política mexicana e ele faz parte, de um momento ímpar na história dos povos de tradição ocidental, como Paris, Praga, Rio de Janeiro, Woodstock.

No século XVI, na Batalha de Lepanto ocorreu a vitória das tropas papais contra os turcos e essa vitória foi contada como uma intervenção da mãe de Jesus, auxiliando a Europa a não sucumbir ao domínio dos muçulmanos. Assim é que se presta louvores à Nossa Senhora da Vitória, a Nossa Senhora Auxiliadora, a Nossa Senhora do Rosário. Esta última invocação tornou-se muito popular no império português e, na sua Colônia americana; a tradição disseminou-se nos diversos estamentos sociais, representados em Irmandades diversas, como a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, Irmandade do Rosário dos Homens Pardos.

Nas cidades brasileiras, as criadas quando ainda os portugueses dominavam essas terras, os negros – escravos ou livres – eram incentivados a tornarem-se membros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos; os numerosos mestiços, especialmente aqueles que se dedicavam ao comércio, integravam-se nas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pardos. Tal divisão tem sua lógica: em mundo monárquico, onde o poder político está sob o controle dos homens brancos, a Rainha-Mãe sempre intercede pelos súditos junto ao seu filho rei. Ao rei, branco e dominador, a devoção a Nossa Senhora da Vitória faz mais sentido, enquanto que o lento desfiar das contas dos rosários representa melhor o árduo trabalho dos explorados trabalhadores manuais.

Pois bem, nesse início do mês do Rosário, foi inaugurada a Praça do Rosário, no bairro de Bonsucesso, em Olinda. Na ocasião foi plantado um Baobá, árvore nativa da África, de onde vieram povos que semearam gens, suor, idéias e crenças que se miscigenaram com as crenças, gens, suores e ideais de portugueses e indígenas; um Babalorixá da Nação Xambá, vindo de outro bairro, fez a sagração nos ritos religiosos de matriz africana; também foi rezada missa no interior do templo, assistida por gente da comunidade local, participante da Irmandade que vem sendo mantida desde o século XVII, hoje assumida como Patrimônio Imaterial de Olinda. Também o sacerdote católico fez a sagração do espaço. Agora a Praça está abençoada oficialmente pelos santos e sacerdotes das duas religiões que convivem, embora quando um esteja o outro já tem saído ou ainda não tenha chegado.

No local onde está a praça, foi um quartel e, segundo estudos recentes, foi alojamento do Terço dos Henriques, grupamento militar formado por negros e que tem esse nome em homenagem a Henrique Dias, um dos líderes militares da Restauração de 1654. Escavações comprovaram a existência do quartel. Pa ra que a praça exista, o quartelfoi devidamente soterrado, ficando oculto aos olhos esse pedaço da ocupação social do Largo do Rosário. Esse Largo, no século XX, tomou nova importância cultural pela inventividade popular que criou o Homem da Meia Noite, personagem que costumava abrir, à meia noite do sábado de Zé Pereira, o carnaval de Olinda, quando o carnaval era uma brincadeira de três dias. Hoje o Homem da Meia Noite é mais um espetáculo do carnaval.

O mundo social pós 1968 tornou tudo um grande espetáculo, um grande Woodstock que nos faz esquecer as Praças das Três Culturas, em Tlatelolco ou Olinda, onde se apresentam sem se tocarem, embora convivam uma a sombra da outra, as mais diversas tradições.

2 comentários:

Humberto disse...

Grande
Bio Vicente,
Só faltou lembrar à plebe ignara que foi alí, à beira de uma cacimba, que, nos idos de 1964, foi fundado o glorioso Clube Crnavalesco A Burra do Rosário, de tão honrosas tradições.
Humberto Maia

Anônimo disse...

Olá Prof Biu!
Lembrar a Batalha de Lepanto, suas investidas religiosas num período de decadência da Cristandade, de enfrentamento de grupos,de cobiça dos reis,do papel de Dom João e a consagração em outubro à Nossa Senhora da Vitória é uma tradição que precisa ser lembrada e comemorada pela sua tamanha importância histórica e sócioreligiosa. O aporte aos anos 60 foi maravilhoso! Profª Maria de Fátima Di Gregorio UNEB/BA