sexta-feira, maio 01, 2009

Dia do Trabalhador

Hoje é o dia Primeiro de Maio. Quando menino, lá em Nova Descoberta, eu aprendi que este é um dia dedicado ao Trabalhador. Hoje dizem que é o dia do trabalho. Mas prefiro sempre pensar que é o dia em homenagem ao Trabalhador, ao operário. Talvez porque comecei a saber dessas questões por conta da Juventude Operária Católica, a JOC, que conheci ainda bem menino, nas reuniões que os jocistas faziam em uma casa na Subida do Olho d’Água, dirigidas por Pedro, cada sábado, e eu os ouvia cantar o hino da JOC, que dizia mais o menos assim “ó trabalhador, é teu labor fecundo, sem ti, o que será do mundo? Conhece agora o teu valor, ó trabalhador!”.

Nova Descoberta era um bairro operário e grande parte de seus moradores produziam a riqueza nas fábricas da Macaxeira e da Torre. Lembro de “seu” Passarinho, um operário que tinha mais que oito filhos, ele morava no Córrego do Eucalipto e fazia suas compras na mercearia de meu pai. Como a maioria dos habitantes de Nova Descoberta, pagava foro à família Marinho e Rosa Borges, pelo terreno onde construiu sua casa. Os Rosa Borges se diziam propriedades daquelas terras. Anos mais tarde, quando já não mais existia a JOC, e “seu Passarinho estava velho e três dos seus filhos haviam ido para São Paulo, grupos ligados à pastoral da Igreja Católica – o Movimento da Cebola - provou que aquelas terras não pertenciam àquelas Famílias. Durante anos os pobres de Nova Descoberta foram espoliados com o pagamento semanal de uma dívida indevida. Meu pai, como muitos outros, comprou o terreno onde construiu a nossa casa à Imobiliária Marinho, daquela família que deu o terreno para a construção da Igreja Matriz.

Mas hoje é o dia do Trabalhador, e quero dirigir minhas lembranças nessa direção. Vez por outra ocorriam greves, havia demissões, e tudo isso repercutia na economia de nossa família e fazia sofrer homens honestos, como seu Aurino, que morava no morro que ficava por trás de nossa casa e muitos outros que se perderam no labirinto do meu tempo. A caderneta do fiado muitas vezes acumulava dívidas que não foram pagas por conta do desemprego, que muito cresceu após o golpe de sessenta e quatro, pois aquela foi década da falência das fábricas de tecidos, apesar dos operários terem perdido a estabilidade no emprego, recebendo em troca o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço e a criação de Banco Nacional da Habitação. Depois as fábricas fecharam, o desemprego cresceu e Nova Descoberta foi crescendo em direção de ser uma favela, um lugar com população superior às possibilidades de uma vida humana decente. Hoje Nova Descoberta é um bairro com uma população de uma média cidade do Sertão.

Pedro, que me lembre, se casou com Lindalva, filha de seu Frederico, um dos primeiros intelectuais que eu conheci, sempre com um jornal debaixo do braço e disposto a uma boa discussão. Aberto ao mundo e ao amor, seu Frederico era um católico ecumênico, casado com uma Batista. Nunca mais soube de Pedro e de Lindalva!

Acordei neste Primeiro de Maio, com saudades dos jocistas dos anos sessenta, com quem aprendi que os operários tinham alegria no meio do sofrimento. Foram meus primeiros contatos com a mística do padre José Cardjin, o belga filho de um operário fundador da JOC. Mais tarde conheci os seguidores do pensamento de Karl Marx, também em Nova Descoberta, que também combatiam a exploração que sofrem os operários, nas fábricas, nos seus lugares de viver. Ainda gosto de cantar o estribilho do hino da JOC.

Parece que o que restou na memória é um projeto de vida que vi na vida de muitos operários, como José Francisco, preso durante a ditadura e militante até o último dia de sua vida; como Lorena, uma das mulheres mais corajosas que conheci e refundadora da JOC, quando ela se transformou em Ação Operária Católica, sob a orientação de Padre Romano e, mais recetemente em Movimento dos Trabalhadores Cristãos – MTC.

Ó Trabalhador,
É teu labor fecundo.
Sem ti, o que será do Mundo?
Ò trabalhador!

2 comentários:

nanda disse...

Bom feriado professor!

Zélia Gominho disse...

Estava tomando o meu café, quando na televisão aparece Ana Maria Braga anunciando o papo que ia ter com a irmã de Ayrton Senna; diz ainda que o Primeiro de Maio agora é do herói piloto de fórmula 1. Embora reconheça o valor positivo da imagem de Senna para o país aquilo me incomodou; então, passei a manhã escrevendo uma postagem para o blog comentando justamente a questão: dia do trabalho ou dia do trabalhador? Agora, quando acessei o painel pra postar vi seu tx, professor, complementando o que estava remoendo, e, melhor, apresentando o cotidiano das lutas que deveriam ser lembradas e relembradas nesse dia. Os jovens precisam ouvir essas histórias. Um abraço.