sexta-feira, janeiro 30, 2009

Olinda 25 anos de patrimônio da humanidade

Cidade quatrocentona, Olinda está comemorando Bodas de Prata do título de Patrimônio Cultural da Humanidade. Ser Patrimônio da Cultura é quase redundante, pois a cultura, por si, já é um patrimônio, algo que se recebe e a ela agrega novos aspectos desse patrimônio. Dizer que Olinda é Patrimônio da Humanidade significa afirmar que, em seus espaços culturais, os tangíveis e aqueles que “as mãos não ousam tocar”, são espaços em que os homens e as mulheres de todos os recantos do mundo reconhecem como próprios, comuns e seus. A humanidade se reconhece em Olinda.

Vivendo em Olinda desde os anos setenta, Plínio Victor quase se confunde com a história recente da cidade por seu ofício de arqueólogo, por sua paixão pelos espaços olindenses, pela sua amizade com a boemia e pela luta em busca de proteger o patrimônio já conhecido, mas também de continuar a buscar novos documentos que atestem a universalidade Olindense. Plínio entende Olinda como uma cidade “cabeça de ponte” da Europa renascentista em sua expansão mundial do século XVI, capitaneada, então pelos iberos, notadamente os portugueses. Ele consegue enxergar nos monumentos olindenses, ou no monumento olindense, as diversas mudanças políticas, econômicas, sociais que foram aqui vivenciadas. Olinda não é só construto lusitano mas também é o construção flamenga à medida que destrói e obriga a reconstrução.

Essas idéias estão postas no texto de Plínio, quase colando com as belas fotografias de Hans von Manteuffel, em um ensaio que expõe ângulos de visão tradicional e novos olhares, panorâmicos ou aproximações, da cidade que testemunha a caminhada de quase meio milênio de mudanças e permanências que a levaram a ser reconhecida como patrimônio de todos. A essas novas visões do artista nosso contemporâneo, as coleções de fotos guardadas por Petrônio Cunha que, segundo diz Plínio na apresentação do livro, é autor intelectual do livro; também o acervo do Arquivo Histórico de Olinda (como deveria receber mais atenção e investimentos!!!) e o acervo da Fundação Joaquim Nabuco oferecem a possibilidade de comparar algumas mudanças ocorridas ao longo do tempo. É a dinâmica da história, é assim que se constrói uma humanidade, na lapidação e na construção constante.
Um outro aspecto que chamará atenção ao leitor é a historização que Plínio faz do processo que levou à Concessão do prêmio pela UNESCO. O reconhecimento de fora veio à medida que no interior da cidade, cidadãos comuns e aqueles que receberam encargo de governança e outros ainda que não no governo, mas imbuídos de sentimento artístico, humano, universal, subsidiaram com suas idéias e talentos a apresentação da cidade à Unesco. O texto de Plínio Victor é simples, científico, sério e apaixonado. Sim, apaixonado pois ele se fez olindense.

Uma palavra de elogio para o belo trabalho da Gráfica Santa Marta e, agradecer a Publikimagem pela demonstração de confiança em alimentar tão belo projeto gráfico e que servirá como arquivo de pesquisa para muitos.

Estou convidando a todos que puderem a comparecer na noite deste sábado, 31 de janeiro, às 19:30h, na Livraria Cultura para uma conversa de lançamento de OLINDA 25 ANOS DE PATRIMÔNIO CULTURAL DA HUMANIDADE.

domingo, janeiro 25, 2009

Renato Teixeira e umas lembranças de Dom Hélder

Parte desta tarde foi-me concedida, ou me concedi, a ouvir músicas diversas, especialmente as escritas e cantadas por Renato Teixeira. Normalmente não sou comprador de material dito pirata, embora eu saiba que os maiores piratas, no sentido muito clássico, são os quem lutam contra a pirataria. Mas, deixando isso de lado, ouvi que naquela mídia que comprei estava sendo cantada parte de minha vida. Pouco importa aos que, por alguma razão lerem essas páginas, entendam que a importância que eu estou dando ao que ouvi nesta tarde de domingo está além daquilo eu dimensiono. Afinal, há tanta coisa bem mais importante que as coisas a que eu dou importância!

O que mais me tocou nesse conjunto de música cantadas por Renato Teixeira foram as cantadas com Pena Branca, um das maiores e mais belas voz entre os cantores ditos sertanejos. Entre as músicas estão o Chuá Chuá e de Papo pró Á. Essas músicas se juntaram a uma recente correspondência que recebi de Bete, sobre o centenário de Dom Hélder Câmara. Poucos se lembram, e ninguém é obrigado a lembrar, inclusive aqueles que aderiram mais vagarosamente aos projetos helderianos, embora estejam, agora, no front desse centenário, o que ocorria no Recife nos anos de 1968.

Quando, em plena ditadura, Dom Hélder pôs em andamento o Pressão Moral Libertadora, um movimento e uma ação inspirado em Gandhi e Martin Luther King, alguns poucos ocuparam o espaço do auditório do Colégio São José para dizer que estávamos ali com o objetivo de garantir, pela não violência, a permanente luta por aqueles direitos que nos eram negados. Eu ainda era um menino de 18 anos que era animado e animava grupos de jovens de Nova Descoberta e da Arquidiocese. Vivi esses momentos tensos ao lado de Zildo Rocha e outros. Depois, no espaço da Paróquia do Bom Jesus do Arraial fizemos uma apresentação em que fui chamado a cantar as músicas Chuá Chuá, de Papo pró Á. Nunca fui um grande cantor, na verdade nem sei cantar, mas era o disponível para se expor, naquela noturna noite da pátria para cantar músicas que falavam do povo que continuo amando e dele sendo parte. Depois, em 72, quando estava na prisão, o vigário do Vasco da Gama, que me conhecia desde criança, me acusou de ser comunista por ter participado daquela vigília pela liberdade. Ao sair da prisão fui à sua casa e esclarecemos muitas coisas. Sei que ele foi um dos homens mais importantes na construção da sociedade recifense, embora não tenha entendido o mal que a ditadura militar fez ao Brasil, como agora a destruição dos movimentos está fazendo, também em nome de manter a ordem.

Agora, são cem anos nascimento de dom Hélder que se celebra, mas são milhares de anos de luta pela liberdade e pela dignidade humana, continúo emocionando-me cada vez que escuto as músicas que cantei, naquela noite, acompanhado por Orlando e outros rapazes que, como eu, moravam em Nova Descoberta. Hoje tudo é uma Boa Viagem, nenhuma Nova Descoberta ou alto de qualquer Refúgio, Brasileira, Caetés, Conceição, e muitos outros.

Mas, nessa caminhada "ando devagar porque já tive pressa", diz Renato Teixeira, que aparenta saber "o sabor das massas e das maçãs".

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Uma contínua luta pelos direitos sociais

Neste dia 20 de janeiro, quando se festejavam santos católicos, vindo da Europa e entidades originárias da África, tomava posse como presidente dos Estados Unidos da América um afro-americano mestiço. 41 anos antes, outro afro-americano foi assassinado por ter sonhado que poderia haver um mundo no qual os seres humanos cuidassem mais daquilo que os aproxima do que as coisas que os separa. Em um período geracional, assumindo a existência do racismo em sua sociedade e se comprometendo a vencê-lo, os estadunidenses mostraram que é possível fazer o que parecia ser impossível. Na América Latina tivemos algo semelhante, quando o Brasil elegeu um antigo metalúrgico para o cargo de presidente da República. Vimos que é possível promover mudanças, embora nem sempre consigamos todas as mudanças que desejamos no curto espaço de tempo. Mas as conquistas podem ser maiores se maiores forem os sonhos, os compromissos.

Um dos comentários que ouvi na televisão dizia sobre o não deslumbramento das filhas do Obama nos espaços do poder. Em verdade elas já viviam nesse espaço, pois seus pais são pessoas que se cultivaram e que a sociedade permitiu que se cultivassem. Não que não tivessem tido problemas de aceitação no mundo dos poderosos onde seus pais foram se infiltrando pelo trabalho, pelo talento, pelos méritos que foram conquistando. Os Obama forjaram-se para o poder e o foram exercendo á medida que ascenderam socialmente, resultado de seus esforços e das mudanças que ocorreram na sociedade americana desde que nasceram na segunda metade do século XX. Daí a presença de Mahomed ali, a constante lembrança de Marthin Luter King, Malcon X e muitos outros. As filhas de Obama são filhas de uma sociedade em mudança, são filhas de um senador da República, já conviviam com os espaços do poder e ele lhes já lhe familiar.

O que assistimos na posse de Obama foi a posse de um passado de lutas pelos direitos humanos e sociais. Daí decorre o compromisso com a mudança da qual fizera parte, já como beneficário, mas também como cidadão atuante em sua comunidade. Essas podem ser razões que levam Obama a enfrentar o lobby, ao estabelecer que os seus auxiliares se comprometem a não viverem nos corredores do Congresso após a sua saída do governo, ao estabelecer limites de salários para sua equipe. Ele poderá até vir a se beneficiar com o exercício da presidência, e terá benefícios sim, pois o cargo exige certas proteções aos seus ocupantes, mas, parece, isso não será buscado, nem se fará o escândalo de mandar buscar lençóis no Egito.

O deslumbramento de alguns de nossos políticos, oriundos das camadas pobres, é decorrente da ausência de mudanças sociais amplas; as pequenas mudanças que ocorreram nos últimos cinqüenta anos foram as permitidas – e aqui no sentido de concessão – pelos donos do poder, atingindo alguns poucos, e esses poucos parece sentir-se eternos tributários desse “favor”. As mudanças não atingem a maior parte da sociedade que não se sente sujeito partícipe do processo social. São chamados a participarem como consumidores, semelhantes a bichinhos de estimação em apartamentos. Ainda temos que continuar a nossa luta profunda pela aquisição dos Direitos Humanos, pois ainda os vemos como concessões que são dadas por algumas famílias que se revezam nesse brutal esforço de não permitir aos brasileiros a mínimas condições de vida decente. Se ainda temos um José Ribamar Sir Ney, ex-presidente da Arena, ex-presidente do PDS, ex-presidente do Brasil, conselheiro do atual presidente do Brasil, brigando no senado para manter a “sabiduria” dos grilheiros, isso demonstra que ainda temos muito que lutar para, verdadeiramente mudar a nossa história.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

A formatura de Wanessa

Wanessa é uma jovem que conheci assim, meio por acaso, quando visitei a Faculdade de Formação de Professores de Nazaré da Mata procurando entusiasmar estudantes do curso de História para o projeto do Ponto de Cultura que assessoro na cidade de Aliança. Tivemos uma boa adesão, mais de estudantes iniciaram conosco essa caminhada. Wanessa Kariny estudava geografia, como a sua irmã Bárbara Gonçalces e, ao lado de Susana, Tamar Thalez, Dhiogo Rezende, Ivaldo Junior, Rafael Bastos, Ruth Lemos, Bruna Pires, estudantes de História, nos auxiliaram em um projeto pedagógico livre, criado com todas as mãos, inclusive com as mãos e as idéias das crianças, dos jovens, das mulheres de Chã de Camará. Com o mínimo apoio, mas com entusiasmo, esses jovens, a cada sábado saíam de suas casas (moravam no Recife e em Olinda) e percorriam 70 quilômetros para criar aulas de alfabetização, sessão de leituras para as crianças, atividades de recreação, debates em cine-clube, etc. Evidentemente, à medida que se formavam cada um foi buscar e criar os caminhos de suas vidas. Todos estão formados e a maioria em sala de aula, agora como professores. Wanessa, que já está em sala de aula, formou-se hoje, e vim com muita alegria para a sessão solene de sua formatura. Ela e Bárbara continuam a atender as crianças da Chã de Camará, utilizando a Biblioteca Mestre Batista para sessões de leitura e sessões de criatividade.

Estar em Nazaré da Mata para testemunhar o juramento de Wanessa, com ela outros trezentos jovens, de que se dedicará ao magistério foi reconforto para mim, que este ano completo quarenta anos do meu juramento. As palavras do diretor da FFPNM lembraram as dificuldades que envolvem a profissão, quase sempre vista como sacerdócio, nem sempre bem remunerado. Isso não é de hoje, pois Cícero, famoso político romano já advertia que a “muitos é orgulho saber aquilo enquanto é vergonhoso ensinar”. Não havia paga para os primeiros pedagogos e professores. Ainda recentemente, um político sociólogo que foi professor, menosprezou aqueles que ensinam e, o mais recente presidente uma vez disse que poderia ser mais proveitoso pagar a quem corta cana que a quem ensina. Entretanto, como conhecimentos devem ser ensinados e vividos para serem aprendidos, não há como, em nossa sociedade dispensar professores, exceto se se deseje ficar permanentemente no atraso, correndo para chegar mais próximos daquelas sociedades que garantem tratamento mais digno e apoiador do trabalho dos seus professores. Mas é reconfortante verificar que, apesar desses hábitos negativos, sempre vemos pessoas, como Wanessa, decidirem pelo magistério. Vi com alegria a aluna laureada no curso de matemática receber sua láurea sem a vestimenta que a comissão de festa exigiu, (custa caro! Deixa-se de comprar livros mas não se deixa de vender a formatura a uma dessas empresas) uma adesão aos modelos das escolas anglo-americanas em detrimento da tradição mais coimbrã de nossa universidade. A melhor aluna do curso de matemática não teve a verba necessária para alugar a toga e participar dos festejos. Nesse ato, como no esforço de muitos que ali estavam togados para receber anéis e diplomas, está, talvez, um indicativo de que classes sociais vêem os que se dedicam ao magistério.

Parabéns a Wanessa, a Tâmisa e a todos os que decidiram a se tornarem professores, inclusive os que, não cursando licenciatura, a princípio, investem a sua existência na tarefa, que deve ser encarada profissionalmente (responsabilidade, honestidade, moralidade, bons salários, condições dignas no ambiente de de trabalho, etc).

O bom é que Wanessa continua no nosso projeto no Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança, juntamente com Amélia, outra licenciada na FFPNM. Tomara que neste ano recebamos mais voluntários da Faculdade que é um dos campi da UPE.

domingo, janeiro 18, 2009

Novas visões sobre maracatuzeiros e maracatus

Neste pequeno recesso que estou fazendo de meus encontros mais habituais, não pude deixar de trazer comigo alguns livros, entre eles o “MARACATUS E MARACATUZEIROS, DESCONSTRUINDO CERTEZAS, BATENDO AFAYAS E FAZENDO HISTÓRIAS, RECIFE 1930 -1945”, escrito por Ivaldo Marciano de França Lima, publicado no Recife pela Editora Bagaço no ano de 2008. O tema é do meu agrado, pois recentemente tenho dedicado algumas horas de minha vida na pesquisa e na reflexão sobre aspectos da cultura pernambucana, especialmente aqueles mais populares, como os maracatus. A leitura de livro de Ivaldo é fácil, apesar de ter sido escrito para uma banca de doutores lhe permitirem utilizar o título de mestre, o que lhe obrigou a muita citação e perorações com o objetivo de demonstrar conhecimento adquirido, em leituras e arquivos, sobre o assunto e defender, na sociedade dos mestres e doutores as suas novas proposições. A forma escolhida para tornar o texto mais facilmente aceito pelo leitor, foi de provocá-lo, constantemente, como se estivesse em sua presença, chamando-o de “caro leitor”, “cansado leitor”, “ilustre leitor” etc.. Além disso, cada parágrafo está escrito como emoção, paixão pelo objeto de estudo e com a gana que sente um descobridor.

Dividido em três grandes capítulos, cada um com sua singularidade, foi assim que Ivaldo concebeu e realizou o seu livro. Claro que lá se encontram uma apresentação feita por um professor fluminense, além da introdução escrita pelo próprio autor, e um posfácio com a autoria da orientadora professora doutora Isabel Guillen.

O primeiro capítulo trata de como foram sendo construídos, no início do século XX, os conceitos e a definição do que são maracatus. O autor está sempre chamando atenção que essa conceituação foi feita na busca (inútil) de uma origem pura e inatacável dos maracatus; assim ele mostra que para alguns estudiosos o importante foi colocar a primazia e supremacia da presença africana, enquanto para outros o estabelecimento desses conceitos teria se dado a partir dos acontecimentos vividos no pátio das irmandades religiosas, especialmente as de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Essa bela arenga de Ivaldo tem como objetivo relativizar a preocupação com “origem”, como algo que ocorreu em um determinado momento no passado. Afastando essa idéia ele pode ficar pensando origem como sendo, criatividade, inventividade dos que forjaram, no seu cotidiano a dança, o folguedo, a alegria dos maracatus. Afinal, se maracatu fosse totalmente africano e, plenamente viesse das irmandades, pergunto eu, por que não está presente em todo o território nacional e apenas em Pernambuco? Mas esta questão específica não é tratada nem neste nem nos demais capítulos. Não era esse o objeto de estudo de Ivaldo, além do que não se presume que alguém tenha a presunção responder todas as questões. Mas, quando ele trata sobre a vida de alguns maracatuzeiros, fica claro que a pureza que alguns buscam para os maracatus e para os cultos religiosos não existem, exceto nos conceitos criados por setores externos a essas representações sociais.

O segundo capítulo deixa para trás a discussão sobre as tradições e origens do maracatu mas põem-se a discutir que há muitas tradições que podem ter levado o maracatu a terem, distinções e muitas semelhanças. Folguedos como Aruendas, Pretinha de Congo são mencionados, mas da forma como o foram mencionadas nos indicam que há muita pesquisa a ser realizada nesta direção. Mas, neste capítulo, o tema central é essencialmente sobre a querela a respeito da definição dos termos maracatu de Baque Virado e Maracatu de Baque Solto; é uma discussão sobre como foram sendo construídos esses conceitos, Baque Solto ou Rural. O autor acaba nos deixando entender que a paternidade e maternidade desses conceitos fiquem com Guerra Peixe e Katarina Real, respectivamente; ele por ter feito a classificação separando-os pelos baques, e ela por sua atuação junto aos órgãos públicos oficiais e definidores e distribuidores das verbas (Comissão Organizadora do Carnaval e sucedâneos), para que ocorresse a aceitação do Maracatu de Baque Solto como uma brincadeira que existe no carnaval do Recife. Aqui me parece que Ivaldo, ainda que pretenda desconstruir certezas, assume que não existe outro lugar de nascimento de tradições que não seja as localidades litorâneas: Recife ou Goiana. Toda a sua a discussão desconhece a existência de tradições além do Recife e Goiana. Como os muitos estudiosos da cultura popular pernambucana, ou mesmo Pernambuco, Ivaldo parece manter o conceito de que Pernambuco é essencialmente Recife e Olinda. Embora em diversos tenha tido a oportunidade de mencionar que um dos autores por ele citado menciona a existência do Maracatu em Nazaré da Mata, essa informação não é passada para os doutores que o examinaram nem para os “nobres leitores” que acompanham o seu raciocínio. No fundo, parece que tudo se organizou nos livros, seja de Pereira da Costa, Gilberto Freyre, Artur Ramos, Guerra Peixe, Katarina Real e não em mundo geográfico e dinâmico. As novas pesquisas que estão sendo realizadas parece que não tocaram ou não chegaram ao autor desse livro muito bom. Creio que, especialmente no tange ao Maracatu Rural, ou de Baque Solto, esse Maracatu que nasceu depois que as senzalas foram esvaziadas, esse maracatu que se define como Brasileiro desde os primeiros momentos, pois se nomeia Cambinda Brasileiro, é um maracatu de homens livres e que nasceu sem as coroas dos reis, tenham sido eles portugueses ou congoleses essa tradição dos terreiros caboclos, que aponta a criatividade dos mestiços, virá a ser mais bem apreciada por Ivaldo Marciano. Quando se pergunta a qualquer homem que vive do corte da cana o que cambinda é, ele diz: um peixe pequeno, que nada rápido difícil de pegar com a mão. Assim me disse o fundador do Maracatu de Baque Solto Piaba de Ouro.

O terceiro capítulo é de uma bela intervenção na pesquisa sobre a vida de maracatuzeiros que, talvez pela ampliação que os estudiosos deram a alguns, com o objetivo de confirmar as suas teses, obnubilou trajetórias outras, essas que apontam para dimensões que são as novas construções apresentadas por Ivaldo.

Mas o livro que resultou de sua pesquisa para a obtenção do título de Mestre em História, deve ser uma leitura para os que estudam o processo de formação constante a cultura, um universo de conflitos de interesses e de negociações permanentes.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

O livro do padre Isaias sobre Dom Távora

Uma das boas surpresas no final de 2008, a recebi na sala do coordenador do mestrado em ciências da Religião da Universidade Católica, o professor Gilbraz. Então ele entregou-me um livro, após perguntar se eu lembrava de Isaias. Assim, de supetão, apenas com a menção ao nome de batismo, a memória trouxe uma pequena variedade de faces e situações relacionadas a algum Isaias. Novas informações, agora sobre um padre em uma paróquia no Sergipe e, ex-aluno, veio a lembrança de sugestões para a realização de uma pesquisa sobre alguma personagem na história local. Lembrei que, a uma determinada turma fiz essa sugestão. A partir daí, recebi várias pequenas monografias sobre paróquias, associações religiosas, padres, freiras. Uma dessas monografias teve como tema a paróquia de Itapetim. Anos mais tarde, Marcos Silva a transformou em um livro sobre a sua cidade, publicando-a como parte da coleção História Municipal. Marcos Silva hoje é doutor e professor na Unicap.

Mas então veio um livro para minhas mãos e foi com alegria que recebi um exemplar do livro do padre Isaias Nascimento, “Dom Távora, o bispo dos operários: um homem além do seu tempo”, publicado pela Edições Paulinas, como um dos volumes da série Testemunhos de Santidade. Também este livro é uma conseqüência daquela indicação em sala de aula, conforme atesta o autor em seu próprio texto. A gente nunca imagina que certos estudantes tornam-se eternos estudantes, e alguns trabalhos escolares levam tempo para serem terminados e escritos.

Neste ano de 2009 em que alguns setores da Igreja Católica em Pernambuco celebra, com toda justiça o centenário de nascimento de dom Hélder Câmara, creio que foi de grande oportunidade o lançamento do livro de padre Isaias Nascimento. O seu tema é o “Eu”, o constante companheiro de Hélder desde que os dois se conheceram no Rio de Janeiro, ainda padres. “Eu”, era assim que dom Hélder referia-se a dom Távora.

José Vicente Távora, nasceu em julho de 1910, em Orobó, aqui em Pernambuco, veio a ser Dom Távora, terceiro arcebispo de Aracaju, padre conciliar do Vaticano II e lídimo animador dos trabalhos de aggiornamento da Igreja Católica no Brasil, organizador do Movimento de Educação de Base - MEB, um dos primeiros a entender a importância do Rádio como meio de educação, especialmente em um país de cuja população, ainda nos dias de hoje, é analfabeta ou semi-alfabetizada.

A escrita leve do padre Isaias, a organização dos temas e a riqueza documental que nos oferece, torna seu livro um leitura necessária para aqueles que estudam os caminhos da Igreja Católica no Brasil e no Nordeste. A família humana é composta de vários ramos, entre eles os membros do catolicismo e, neste, o catolicismo de preocupação social. Pois bem, Dom Távora e um desses membros da família humana que fez o seu trabalhão e, em uma época de grandes ele sempre manteve-se entre os grandes (ele próprio é uma grande personalidade), mas na forma de serviço de apoio. Estamos pensando em no próximo mês de fevereiro fazer um lançamento festivo do livro da padre Isaias Nascimento. O evento pode ser parte das festividades do centenário do DOM e o início de ações comemorativas do centenário do nascimento de Dom José Távora, o bispo do MEB e dos operários.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Lvros de Lucilo e Olímpio

A semana terminou com uma pequena confraternização que os sócios do Instituto Histórico de Olinda realizamos em um dos espaços do Hotel Samburá, uma vista privilegiada da orla marítima olindense. Um agradável encontro com colegas bem mais vividos, como o Djalma Paes, o Olímpio Bonald Neto, e gente mais jovem, como Lana, André, George, Maria Lana e Elaine.

O Instituto Histórico de Olinda tem mais que cinqüenta anos e é formado, em sua maior parte, por jornalista que escreveram e escrevem sobre a história de Olinda. Poucos são historiadores de profissão e formação, entretanto todos cultivam um respeito e uma veneração pelos fatos, pelos feitos, pela formação olindense. Escritores de histórias e sobre a história de Olinda, são literatos e, por isso, a confraternização também ocorreu simultânea à da Academia Olindense de Letras. Livros passavam de mão em mão, presentes eram trocados e alguns foram sorteados. Recebi dois. Um deles de Lucilo Varejão Neto, colega da Universidade Federal de Pernambuco, ele no Departamento de Letras, professor adjunto de Língua Francesa. Presidente do Conselho de Preservação dos Sítios Históricos de Olinda, gentilmente fez-me proprietário de um exemplar do seu “Escritos e Escritores”, uma coletâneas de alguns de seus artigos e palestras, alguns deles já publicados anteriormente. Dos dezesseis textos, três interessam aos estudantes de História. O primeiro, acerca da condição pós-moderna é uma inteligente e agradável resenha, ao mesmo tempo em que é uma leitura crítica do livro "A Condição Pós-Moderna" de Jean-François Lyotard. Outro texxto que será de interesse do estudante de história é o que é dedicado ao historiador Vanildo Bezerra Cavalcante. Como os demais textos: enxuto e claro, Lucilo Varejão Neto nos permite uma aproximação concisa da biografia do autor de "Olinda do Salvador do mundo" e "Recife do Corpo Santo", ao tempo em que apresenta comentários de outros autores sobre a obra e a personalidade de Vanildo Bezerra Cavalcante. O terceiro texto que chama a atenção do estudante de história é a resenha que faz do Dictionaire Portugais-Français de manifestations Folkloriques du Pernambouc, feito pela doutora Yaracilda Farias Coimet, professora do Departamento de Letras da UFPE. Dois outros textos chamam atenção especial: o Pleonasmo e Literatura e Por que Ler?

O segundo livro é de autoria de Olimpio Bonald Neto, "Tango-Reggae y otros cuentos", publicado em Buenos Aires. Uma seleta da criatividade de Olímpio e de seu constante refletir sobre a sua Olinda, a quem ama, pinta fotografa e recria.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Os Sertões do São Francisco, a Progresso e a ANTT

Ao final de cada ano somos, de certa maneira, bombardeados com informações sobre o transporte de passageiros que estão indo para as suas férias nas diversas regiões do Brasil. Vez por outra somos informados da existência de um inominável caos nos transportes aéreos. Essa é uma preocupação tão grande que, em determinadas circunstâncias, o próprio presidente da República intervém, chegando a substituir o ministro da defesa.Uma verdadeira comoção pública, ver aquelas famílias, acompanhadas de suas malas cheias de presentes, ou simplesmente de roupas recentemente compradas para a viagem de férias em alguma praia brasileira, mas que bem pode ter sido programada para algum ponto no hemisfério norte do planeta. Pois bem, quando acontece esse sufoco para quem pode pagar uma viagem de avião, alugar quarto de hotel, com mais de duas estrelas, nós vemos como o nosso Estado se preocupa com esses cidadãos. Então ficamos orgulhosos pelas iniciativas que eles tomam, e quase não notamos que são as mesmas que tomaram no ano anterior. E existe até uma Agência Nacional Viação Aérea para exigir que os horários sejam cumpridos. Até mesmo se pensou em colocar, em cada aeroporto um Tribunal de Pequenas Causas! Isso é que providência para garantir o direito dos viajantes aéreos.

O mesmo se diga a respeito do cuidado com os carros nas rodovias do Brasil. A cada ano a Polícia Rodoviária se mobiliza para educar os ineducáveis motoristas que saem com suas famílias, especialmente as da capital paulista, em direção das praias, ou dos cariocas que se “mandam”, a alta velocidade, para a Região dos Lagos. Pelo menos é isso que vemos, a cada ano, no noticiário. Férias, Viagens, Rodovias lotadas de carros lotados e a polícia tentando educar os ineducáveis senhores proprietários de automóveis que não entenderam ainda a razão de terem construído essas máquinas. Os herdeiros de Henry Ford, no Brasil, julgam que o que compram nas concessionárias é o direito de passar por cima de quem não pode comprar um carro, ou um carro mais potente. Isso deve estar relacionado com o número de cavalos-força ou a força do cavalo. Bem, mas, de alguma maneira o Estado está lá, protegendo e ensinando que faixa de acostamento não é faixa de rolamento, que velocidade máxima não significa velocidade obrigatória, etc.

Mas o que acontece nas estações rodoviárias? Será que lá encontramos o Estado, será que encontramos nas rodoviárias algum sinal da Agência Nacional de Transportes Terrestres? Bom, aí parece que é exigir demais daqueles que gerenciam o Brasil, querer que eles também se preocupem com essas pessoas que não construíram patrimônio para comprar um automóvel! Por que fazem questão de viajar para regiões que não têm aeroporto? Ocorre que saindo do Recife, se alguém quiser viajar até o sertão do São Francisco, há a possibilidade de uma viagem aérea, especialmente se se vai até Petrolina. Mas o que ocorre para quem deseja ir até Itacuruba, Floresta, Ibimirim, Jatobá e outras cidades? Para esses está reservado o monopólio da empresa ou Expresso Progresso. Deve ser por isso que o progresso demora tanto a chegar à região. Poucos ônibus, pouco conforto, muito atraso. São tantos os atrasos que as pessoas não entendem que um ônibus que deveria sair da Terminal Rodoviário Antonio Farias às 22 horas, se ele sair às 22:o5 já está atrasado. E não se pode reclamar, pois a reclamação é feita à empresa que diz que irá tomar providências. A impressão que se tem é que eles tomam a providência de sair com mais atraso. Foi o que ocorreu com o ônibus que deveria sair do Recife às 22 horas do dia 5 de janeiro, mas só saiu às 23 horas. Isso depois que foram feitas cinco ligações reclamando. Em uma das vezes, o funcionário disse que “estava se fazendo possível para oferecer o maior conforto aos passageiros”. O ônibus que saiu do Recife teve que ser trocado por outro em Caruaru, noventa minutos depois. E a quem reclamar se não há um guichê da ANTT no Terminal Rodoviário?

Claro que as sessenta pessoas esperaram em silêncio a chegada dos ônibus! Todos estavam convictos que não adianta reclamar. Uma das passageiras, que pertence ao quadro de funcionários do Estado, disse que já telefonara muitas vezes para a empresa, uma vez que ela faz a viagem a cada semana. Também já ouvi isso de vários professores que, procuram trazer alguma colaboração à região. Mas os da região ficam acuados. Eles são pobres, não podem brigar com os ricos – esses possuem seus próprios automóveis e não utilizam os ônibus -. Afinal os ricos sempre viram prefeitos e quem pode viver sem essas famílias que governam a região por centúrias, quase? Essas famílias poderosas, das quais lemos nos jornais, vemos nas televisões seus sobrenomes, bem que poderiam, seja como moradores do local, seja como detentores dos votos locais, seja como possuidores das terras, fazer algo para melhorar a condição de transporte dos que precisam utilizar a Empresa Progresso. Isso pode ser feito de maneira democrática, acionando os mecanismos legais, mas pode ser realizado da forma tradicional, aquela da beira da piscina, ou do cochicho na próxima viagem de avião com o governador. Ela vai dizer ao Secretário de Turismo: “Há que se melhorar o serviço de transporte de passageiros para o Sertão para que as pessoas se interessem em 'ver Pernambuco'”.

sábado, janeiro 03, 2009

Festas de Ano Novo

Pois se hoje é quase o quarto dia do ano, sei que neste momento está começando o Coco de Umbigada no Bairro de Guadalupe, aqui em Olinda. Nesta noite, um motivo especial: um ato de desagravo contra a violência sofrida por Beth de Oxum, no mês passado.

O Coco é uma dança tradicional das camadas pobres do Nordeste do Brasil, uma dança mestiça, nascida, como a maior parte das danças culturais, nos rituais do trabalho. Interessante é que esta dança veio a nascer no meio do trabalho escravo, mas também tem ligações com ex-escravos que viviam nos quilombos. Já é tempo de sabermos que os negros aquilombados não eram escravos, eram livres, embora esses negros livres tivessem escravos entre eles. Mas isso são as contradições na História em sua confecção. Mas a dança do Coco era perseguida pelas polícias, que estão a serviço de alguém ou de alguns, por sua origem, por não fazer parte do cânone oficial da civilização. Agora que já estamos nos aceitando como povo mestiço, o Coco vem sendo reconhecido como parte de nossa formação. Afinal não somos apenas descendentes da Europa cristã (católica ou protestante), e os negros não foram criados por Deus ou Oxalá apenas para servir de trabalhador sem direito a recriar o mundo enquanto dança e canta. Axé!!! Aleluia !!!

Bem, um dos assuntos que a imprensa quis colocar na ordem do dia, mas os nossos políticos evitaram falar, foi o aniversário da Revolução Cubana. Fez cinqüenta anos que se deu por terminada a fase de Cuba ser a zona de meretrício de parte da sociedade estadunidense. Não sei bem as razões que fizeram políticos que foram apoiados, protegidos, financiados pelo governo de Fidel Castro, ficarem em silêncio. Deve ter sido a influência dos fogos de artifícios! Talvez lembraram-se de que Fulgêncio Batista tomou o avião no momento dos fogos de artifícios. Mas parece estranho que os jornalistas não conseguiram, ao menos aqui na “província de Pernambuco”, fazerem políticos dizerem algumas palavras sobre Cuba. Ora, o que aconteceu na noite de 31 de dezembro de 1958 e 1º de janeiro de 1959 foi de uma transcendência que ultrapassou os limites físicos da geografia e os limites do tempo, da imaginação, dos desejos. A América Latina mudou com a Revolução Cubana; a política estadunidense mudou com a Revolução Cubana; a política internacional mudou com a Revolução Cubana. É por isso que ficamos sem entender a razão de tantas celebrações a respeito de 1968 e 1989 e tão poucas menções a 1959. Será que é que em 1968 e 1989 ocorreram eventos europeus, algo em um mundo civilizado, e em 1959 ocorreu alguma coisa sem importância, pois essa ocorrência foi na América Latina? Ou será que tudo se refere à necessidade de não estragar o vinho de champagne – para os ricos, revolucionários, contra revolucionários, ex-revolucionários, – ou o bom espumante nacional não francês? Seja o que for, é necessário entender que o ocorreu na Ilha foi mais importante do que a contratação de Ronaldo para jogar no Corintians, time do Grande Guia. Pois é, quase sempre algumas convicções são tão belas quanto a explosão de fogos em noites de festas. Recentemente ocorreu um festival que unia Cuba e Pernambuco que pretendeu mostrar o quanto esses povos possuem tradições comuns. Beth de Oxum este em Cuba ensinando o Coco de Umbigada. Até se diz que somos PERNANCUBANOS.

O Ano de 2009 tem início com o Estado de Israel celebrando a Guerra de 1967; a África continua com seus ditadores gordos e seu povo famélico de alimentos e, como parece haver objetivos maiores, os meios de comunicação – rádio, jornais e televisões – com o apoio das muitas secretarias de turismos e culturas, já começam a anunciar que todos nós gostamos de carnaval e que ele se confunde com a nossa cultura e nós com ele.

Vamos consumir, vamos nos consumir, vamos consumir as bolsas enquanto as bolsas nos consomem.

Feliz ano novo!

terça-feira, dezembro 30, 2008

MONUMENTO AOS MIGRANTES - Parque Dona Lindu

Assim, neste final de ano, sem maiores cerimônias, pois isso já é um hábito dos nossos políticos, sempre serelepes em deixar seus nomes em obras construídas, com o dinheiro do povo, este quase nunca mencionado, o prefeito que deixa o cargo amanhã, inaugura uma pequena parte de uma obra monumental, dedicada à genitora do atual presidente da República. Esta foi uma obra polêmica. Parte da população que desejava ver o bairro da Boa Viagem com mais espaço verde, viu levantar-se um obra de concreto, pensada pelo arquiteto Oscar Niemayer. Saiu caro, pois o arquiteto fez gratuitamente projetos para algumas capitais de estados vizinhos. Mas o terreno, que era da aeronáutica, foi doado pelo governo federal com o objetivo explícito de homenagear a mãe do Presidente Lula. Tinha que ser construído e, hoje, ao menos uma parte dele, está sendo inaugurado pelos filhos da homenageada. Sabemos que isso não tem nada a ver com interesse de agradar a quem está no poder.

Uma das razões para a realização desse monumento é que ele é uma homenagem aos migrantes. Recife é uma cidade de mascates e de migrantes. Boa parte da atual população do Recife é filha de migrantes que, escorraçados pelas secas do século XX, desceram principalmente desde o Agreste Setentrional e Zona da Mata Norte, para formar a capital do Estado. A maior parte desses migrantes forma a população da periferia da Cidade. Onde não há grandes parques!!!

Os migrantes das periferias e das cidades da região metropolitana constroem, no dia a dia, transportando-se em péssimo sistema de transporte coletivo, a vida e a riqueza da cidade do Recife, recebendo salários aviltantes, como ocorreu com o pai do atual prefeito.

Ontem foi inaugurado, em ao frente do Aeroporto dos Guararapes, hoje dito Gilberto Freyre, um monumento a outro migrante, este vindo de Ceará e com grande participação na história da cidade e do estado de Pernambuco, Miguel Arraes de Alencar. Em que pese ter tomado o lugar de um outro monumento, uma alegoria ao frevo, do escultor Abelardo da Hora, esta é uma justa homenagem a um dos construtores do Recife e Pernambuco modernos. Em tempo, a alegoria ao frevo foi, ou vai, para a Rua da Aurora.

O Recife tem vários monumentos a migrantes que saíram de Pernambuco para construir o Brasil em outras plagas, como é o caso do poeta Manuel Bandeira, perto do lugar de sua infância. Esses monumentos a migrantes que saem de Pernambuco devem ser visto como uma condenação ao sistema (ou aos responsáveis pelo sistema) que expulsa seus filhos que não têm terra para seus filhos plantarem, escolas onde seus filhos possam ser matriculados e receberem os ensinamentos necessários para serem empregados em fábricas. Mas o sistema não permitiu a criação de fábricas, não promoveu a Reforma Agrária e, por isso, entre outras razões, não teve emprego para a família do atual presidente, obrigando Dona Lindu a deixar o Agreste Meridional, não em direção do Recife, pois aqui nem estava o seu marido. Também, como negar?, os políticos responsáveis por Pernambuco jamais pensaram em criarem meios e condições capazes de estancar a migração de braços e cérebros pernambucanos especialmente para São Paulo. Conheço muitos que cansaram de procurar empregos no Recife e foram para o Sudeste e o Sul. Lá estão muitos que, como meus pais vieram da Mata Norte, e levantaram casas em Nova Descoberta, pagando foros a falsos proprietários. Muito desses migrantes não conseguiram reter seus filhos, pois não havia ocupação para eles. Foi assim que no final dos anos setenta, a família de “seu Mane da frente” foi toda para a periferia de São Paulo. Eu o encontrei em 1987, numa tarde de domingo no Parque São Pedro e fomos para a sua casa próximo ao Tieté.

O monumento ao migrante ficaria melhor em lugares freqüentados pelos descendentes dos migrantes que fizeram e fazem a cidade do Recife.

Embora Dona Lindu jamais tenha posto os pés nesta cidade, como a maior parte dos seus filhos, ela e eles sabem que esta cidade nem sempre reúne condições para atender as suas crianças, forçando-as a seguir o caminho seguido por ela, quando não ficam vivendo em favelas e sobrevivendo com a miséria e o bolsa família, ela e os migrants pobres que foram expulsos de Pernambuco merecem a homenagem e o mea culpa da elite que ganhou o munumento em umdos seus bairros.

Penso que esse monumento terá mais sentido se for pensado dessa maneira. Assim, quem sabe, quando for inaugurado “pra valer”, a gente possa ter como primeira peça teatral ali montada, o auto escrito pelo migrante João Cabral de Melo. Ele migrou do Recife para o Sudeste e escreveu Morte e Vida Severina para refletir a vida de quem desceu desde o Agreste Setentrional, com muitos outros que desceram os caminhos do Rio Capibaribe, para fazer nascer o Recife dos dias atuais.

domingo, dezembro 28, 2008

Reveillon: Uma festa mestiça

Recebo uma ligação telefônica e, de súbito sou levado ao século XVI, à corte francesa. A pergunta é sobre a diferença entre os alimentos que são servidos nos sertões daquela alimentação servida nas mesas litorâneas na noite do ano novo. E foi esta questão me levou à corte francesa, ainda renascentista, em luta para não sucumbir à tristeza das Reformas e Contra-Reformas que religião cristã estava a realizar e sofrer no período. Interessante é que foi nesse período que a gastronomia francesa começa a se impor como modelo. Mas e os sertões do Brasil, o que poderiam ter em comum com essas brincadeiras dos Valois e dos Bourbons? Os sertões estão tão distantes dos que vivem à beira do mar que, não poucas vezes, achamos seus habitantes e seus hábitos mais estranhos que os franceses.

Ora, no século XVII, quando a corte francesa começou celebrar uma festa que chamaram de reveillon, nos sertões de Rodelas, que envolvia parte de territórios da Bahia e Pernambuco, o alimento mais comum era a carne de veado, hoje, é mais comum a carne de bode, carneiro ou boi, uma vez que os veados, animais que carecem de selva para a sua vida, foram sendo extintos na região, assim como o foram as tribos de índios, primeiros habitantes, cujo nome virou toponomia. Mas o que isso tem a ver com a questão que me veio pelo telefone?

A festa de reveillon não está no calendário religioso dos europeus. O ano novo dos europeus, o ano religioso tem início na festa da natividade, ou natal, como a conhecemos com mais facilidade. Mas a festa de Natal, ou do nascimento de Jesus veio sendo, desde o século XIII, animada pelo presépio que, segundo a tradição, foi iniciado por Francisco, o santo da cidade de Assis. A simulação da cena do nascimento do filho de Maria, com a montagem de um cenário em que aparecem animais, pessoas, foi uma inovação na catequese cristã em uma época em que as pessoas não tinham acesso a textos escritos, especialmente por não saberem ler. A catequese cênica era acompanhada dos sermões explicativos ou rememorativos da cena do nascimento. Também havia a dança Pastoril, com pastoras cantando o nascimento do Menino Deus. Mas, o sentimento de reforma do monge Lutero, no radicalismo próprio dos momentos iniciais de qualquer reforma, retomou a idéia de que todas as imagens são ídolos e um cristão não pode aceitar nada além da palavra como caminho, como pedagogia, como meio para se chegar á compreensão do Mistério. Em reação ao impulso dos reformadores, que também se apresentaram como iconoclastas, os católicos e não católicos passaram a suspeitar das manifestações tradicionais e, as festas religiosas da transição de um ano litúrgico para outro foi perdendo a alegria. O estabelecimento, indicado pelo Concílio de Trento, mas tornado oficial pelo Papa Gregório XIII, em 1582, não foi imediatamente aceito nas regiões que assumiram o protestantismo. A festa de um início de ano não religioso, primeiro de janeiro, embora estabelecida no Império Romano, o nome francês denuncia a sua moderna origem. As festas realizadas pela corte do Valois e Bourbons, com fogos de artifícios e outras especiarias, além das frutas locais, terminaram por serem aceitas em outras cortes. O enriquecimento burguês da Revolução Industrial veio a tornar essa festa um momento cada vez mais popular, saindo de Paris e tomando Nova Iorque, a cidade símbolo dos novos tempos. Embora Paris continuasse sendo uma festa, a cultura americana impôs um novo formato ao reveillon através do cinema. Após a segunda grande guerra do século XX, as destas do Primeiro de Janeiro, o “acordar” do ano veio sendo cada vez mais celebrado e, como não podia deixar de ser, foi agregando as mais diversas tradições.

Embora seja um festa civil, o reveillon agregou crendices das religiões populares, dos cultos da fertilidade que foram massacrados pelos reformadores dos séculos XVI a XVIII. Assim vieram as crenças de usar tal cor atrairá sorte, que roupa de tal cor trará riqueza, que comer uvas (eram especiarias para muita gente no Brasil), castanhas do Pará (eram exportadas para as cortes européias e consumidas nesta festa), avelãs (especiaria no Brasil) e, evidentemente o vinho branco e borbulhante da região de champagne. No Brasil, além da influência européia, o reveillon acolheu as homenagens aos Orixás, especialmente a Iemanjá. As feéricas luzes que iluminam as noites das cidades, litorâneas ou não, unem as fadas européias aos orixás brasileiros.

Nessa época de espetáculo permanente, as televisões mostram os mais diferentes, e iguais, modos de celebrar o início de um novo ano. Esta é uma festa cívica em que se encontram as mais diversas religiões e alimentos do mundo. É uma festa mestiça, como o mundo está sendo chamado a se assumir.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Um natal de uma quase potência

Dezembro chegando ao seu término, completando-se o tempo da espera do Natal de Jesus, hoje, como a muito tempo, simbolizando milhares de crianças que nascem sem casa, apenas com o carinho de uma mulher, o silêncio de um homem e a imensa incógnita do seu futuro. As lojas continuam cheias e os reportes de economia saltitam de alegria, pois a crise não nos chega. Sim, nos assegura o presidente, essa crise não nos incomodará, especialmente se todos continuarem a passear nos campos e templos do consumo.

Pequenos problemas surgem, mas eles são decorrentes da ação da natureza, há quem diga. A natureza física, com precipitações pluviais que, em contato com o resultado das ações daqueles que possuem a natureza humana nas encostas de morros, produzem alagamentos, derrubadas de casas. Nas semanas de dezembro, no final da primavera, os estados de Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais, receberam muitas chuvas, e as águas puderam desnudar os efeitos da busca ensandecida por lucros, pela riqueza a qualer custo. As encostas dos morros desmatados para construção de casas em Santa Catarina, para a retirada de minérios em Minas Gerais, mostraram como está sendo construído o status de potência a que chegamos. Ser uma potência, não estar na rota da crise, não quebrar financeiramente, pois os nossos bancos estão bem, diferentemente dos bancos dos Estados Unidos da América do Norte, é o que importa. Por isso, na mensagem de Natal do presidente da nossa nação na houve uma palavra de consolo para os brasileiros que, nesta primavera, viram seus pertences serem destruídos pelas águas, como o sistema de busca de lucro incessante já destruiu as encostas dos morros, já assoreou os leitos dos rios.

Quando eu era menino, uma brincadeira dos mais velhos nos mostrava os limites da beleza, ironizava com quem se gaba. “Tirando a cara e o bucho, fica um rapazinho de luxo”. Assim estamos nós nesse natal. Se não notarmos os defeitos e malfeitos do sistema, se não nos preocuparmos com jovens sem esperança de empregos e de futuro, se não nos preocuparmos com o fato de haver mais mortes violentas no Brasil que em países em guerra, se não percebermos que o aumento de bolsas de ajuda às famílias carentes é decorrente de políticas que as inserem na sociedade apenas como recebedoras e não produtoras, se continuarmos a achar normal que bandidos pobres sejam presos e bandidos ricos sejam protegidos por leis criadas para beneficiar quem pode pagar um advogado, se não levarmos em conta que escritórios de juízes nos palácios das diversas justiças poderiam receber três ou quatro salas de aulas, se não considerarmos nada disso, estamos todos muito bem. Estamos bem porque melhoraram os nossos indicadores financeiros, nosso mercado interno está mais forte, nossa economia está indo cada vez melhor.

Como dizia Garraztazu Médici, “a economia vai bem, mas o povo vai mal”. E quando ele dizia essas coisas ele não se escondia de assistir jogos no Maracanã; sua popularidade era muito boa, pois a sua face de avô acalmava os que não pensavam muito e os pensavam como ele.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Arte sem ética en-cena corruta

Na semana que o mundo comemora a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tem gente que prefere lembrar a sua destruição celebrando o arbítrio e destruindo a credibilidade da UFPE.

A ciência é uma das muitas realizações humanas e, as relações humanas devem ser construídas honestamente. Infelizmente nem sempre as pessoas são honestas em seus relacionamentos pessoais e sociais. Entretanto, o que permite a vida cotidiana social é a expectativa da honestidade e das ações, o que gera confiança nas instituições. Mas como sabemos essa é uma construção diária. Das pessoas e das instituições.

Nos tempos passados, tempos da aristocracia absolutista, a verdade estava na vontade do rei (nas colônias era a vontade dos senhores “homens bons” [homens de bens]) que determinava o que era a verdade. O processo de mudanças que vem ocorrendo desde o século XVI vem criando e fortalecendo, na prática, a idéia de que a verdade é filha do tempo. Mas como nem sempre temos o tempo necessário para esperar a proclamação da verdade pelo tempo; nesse nosso tempo, que é um período de construção de relações democrática, exigimos transparência nas relações ocorridas no poder público. Houve um tempo em que essas exigências não eram feitas e os cargos públicos eram ocupados por indicações. Mas nesses nossos dias o poder público não pertence mais a um rei ou a um chefe de departamento de uma universidade. Sabemos que não foram poucos os que ocuparam cadeiras de professores mais por suas relações sociais que por suas habilidades em aprender e ensinar. Talvez essa seja uma das razões que levam a nossa produção científica vem a ser mais adjetiva que substantiva.

Por isso a exigência para que a ocupação de cargos seja feita através de concursos públicos. Nos concursos públicos há a possibilidade evitar a corrupção, ou ao menos diminuir a sua possibilidade; precisamos evitar que haja o aproveitamento do poder pelos que ainda não perceberam que o tempo da aristocracia passou.

Quando o Conselho Nacional de Pesquisa pede a todos os pesquisadores que tenham o seu currículo a plataforma Lattes, é com o objetivo de ampliar os espaços de informação e impedir que aproveitadores digam o que não podem provar. Todos os pesquisadores, desde o início de suas atividades, devem ter o currículo lattes atualizado. Assim todos os pesquisadores e cidadãos podem acompanhar o que eles, os pesquisadores, os cientistas estão fazendo em suas áreas de pesquisas e estudos. Isso diminui muito o espaço para que, descendentes espúrios da aristocracia continuem leiloando vagas no serviço público. Especialmente nas universidades federais que são bens e entes públicos.

Isto está sendo escrito porque, neste mês de dezembro, no concurso para provimento do primeiro cargo para professor no recém criado curso de Dança, uma comissão responsável por de concurso público aceitou a inscrição de um candidato que não tinha o seu currículo lattes atualizado, pois ainda não pode dizer que tem o título de mestre, um título necessário para que pudesse realizar a inscrição naquele concurso. E mais, essa comissão, talvez atendendo a solicitação do Chefe do Departamento, aprovou quem não poderia fazer o concurso. Aliás, a princípio, do chefe do Departamento nem estava pensando em não fazer a leitura pública da prova. Alertado da obrigatoriedade, as leituras foram feitas. Mas é impressionante e lamentável que, no primeiro concurso para provimento de cargo de professor no curso de dança da UFPE, a ética, a moralidade está dançando.

Já sabemos que a lisura do concurso foi argüida junto à pró-reitoria. Lamenta-se que professores que deveriam cuidar para que a universidade seja respeitada, esteja colaborando para que se diminua a sua respeitabilidade. Lamenta-se também que essa tentativa de negar o princípio da competência, favorecendo protegido, tenha sido corroborada pelos demais professores daquele Departamento.

Fizeram Mal às Artes, uma péssima coreografia, uma lamentável Arte Cênica.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

como tratar sábios e não sábios

Os jornais, com freqüência cada vez maior, trazem notícias de que professores sentem-se violentados em salas de aulas; informam que jovens estudantes vão à salas de aulas portando consigo, além dos cadernos e canetas – algumas vezes em lugar delas -, canivetes, facas, revolveres. Vez por outra aparecem notícias que professores foram agredidos fisicamente em sala de aula, algumas vezes no trajeto casa – escola – casa.

Mas, parece, a maior parte das agressões sofridas pelos professores é de ordem moral e psicológica: atos de insubordinação, recusa histérica em seguir as orientações recebidas, desrespeito explícito como sentar-se de costas ao professor, gritos lembrando que ele é professor apenas em sala de aula, etc. Situações como essas têm levado um razoável número de professores a serem afastados das salas de aulas por conselhos médicos, como maneira de curarem depressões geradas pelos constantes e repetidos atos de desrespeito. Professores, não poucos, sofrem de baixa estima. Professores vivem o drama de serem agentes de um processo civilizador, mal pagos pelo Estado e por ele abandonados, como ele faz com a parte pobre da população, que não se sente parte real da sociedade, recebendo como migalhas aquilo que lhe é de direito.

Essas reflexos me vieram neste final de semana, em um curso de especialização lato sensu, promovido pela Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco, a professores da rede de ensino estadual. Conversávamos sobre os efeitos do processo de mundialização, que atualmente estamos vivendo, tem sobre nossos costumes, nossas raízes, nossas tradições, nossa identidade. Nessa conversa, um dos professores participantes lembrou que em sua comunidade de origem, Conceição das Creoulas, no município de Salgueiro, há o costume de as crianças saudarem os mais velhos pedindo que eles as abençoem. O professor nos ensinava que esse costume, um costume de raiz, fortalece o sentimento de respeito aos mais velhos, àqueles que guardam a tradição, protegem e transmitem as tradições da comunidade. E fazem essa atividade, que é uma atividade de ensino, pela palavra, pelo exemplo, pela participação nas danças, nas conversas, etc. Os mais velhos são os professores e são respeitados.

Em nossa sociedade em que o tempo de velhice é mais comum para muitos, uma sociedade que fez multiplicar o acervo de conhecimentos produzidos e somados dos muitos grupos, uma sociedade que, por conta da enormidade de conhecimentos produzidos, vê-se obrigada a cultivar a especialização, e nem sempre os detentores do conhecimento são os mais velhos; ou melhor, os mais velhos, etáriamente, não conseguem acompanhar todas as produções culturais. Assim, o papel de cuidador da tradição, de transmissor dos saberes, agora é o professor. E então, o respeito aos mais velhos, um respeito que se lhe deve duplamente, pela idade e pela sabedoria, também devia vir para os professores. E não se quer que se peça a bênção aos professores, mas que se lhe respeite o trabalho, a dignidade, etc. que se deve a ele não apenas por ser professor, mas por ser um ser humano. As palavras do professor a esse respeito me tocaram profundamente pois sei que ele sempre fez assim com os seus professores e, ao menos por essa razão, é merecedor do mesmo tratamento.
E dos professores deve-se pedir que tenha conhecimento e cultivem a sabedoria. A sabedoria dos mais velhos, ou ao menos a sabedoria dos mais jovens, em ouvir os que os mais velhos e os mais jovens têm a dizer. É que assim agem os mais velhos,os velhos que são sábios, não aqueles que são apenas idosos. Assim como há professores que são sábios, e aqueles que são apenas professores. Entretanto, sábios ou não, velhos e professores merecem respeito.

Gostei muito de aquele professor me lembrar que eu devo respeitar os mais velhos que eu, ainda que eles não sejam sábios.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Uma cidade histórica põe fim a um curso de História?

Os acontecimentos surpreendem a cada dia. Algum tempo passado, algumas pessoas que foram criadas e vivem na Zona da Mata Sul de Pernambuco andaram a perguntar-me sobre a cultura da região. É que estava pesquisando o mundo cultural da Mata Norte, esse mundo cultural que vem invadindo as ruas do Recife desde os anos quarenta, e que foi responsável pelo crescimento populacional da zona norte da capital, por conta disso veio a pergunta.

Comecei a visitar algumas cidades da região, uma região que cresce com construções de hotéis para turistas e, mais recentemente, com o porto de Suape, e sua promessa de riqueza para os muitos de sempre. Assim, aos poucos vou descobrindo pequenas maravilhas escondidas na poeira do tempo e das memórias. Aqui e acolá sempre aparece algo surpreendente, como saber que havia um grupo de caboclinho no Cabo de Santo Agostinho, até recentemente. Penso que o peso dos pães de açúcar e dos bolos de dúzias de ovos tem sido muito pesado para a memória dos mais pobres.

Esse hábito de ser homem livre em sociedade escravocrata não é fácil.

Ora, a cada dia estou mais convencido que um dos caminhos para a liberdade do homem é o conhecimento de sua história. Creio mesmo que o estudo, a reflexão da história sobre a história é uma quase uma psicanálise de um povo. Por isso é muito importante que conheçamos as mais diferentes versões dos acontecimentos, pois elas podem nos aproximar da verdade possível.

No Brasil temos estudado unicamente a história dos senhores dos escravos e, quando estudamos a história dos escravos temos a tendência de vê-los como heróis ou como coitadinhos. Ora nossos avós africanos, que ficaram algum tempo aqui como escravos, não eram semi-deuses nem eram o opróbrio da humanidade. Também não o eram os que os tinham como coisas. Todos eram e são humanos, com chicote nas mãos, com lombo lanhado, com os assassinatos, com os envenenamentos, com a morte nas fornalhas, com as tocaias no caminho dos quilombos, com a luta com os bois para vencer o massapê molhado, seja no transporte das canas seja no transporte das sinhazinhas que saíam para visitar os parentes dos outros engenhos. Todos: escravos e senhores, escravas e senhoras, homens livres e homens alforriados, mulheres livres e mulheres alforriadas. todos eram e são humanos e criadores de suas histórias. Ocorre que nos contam as histórias dos nossos antepassados de um jeito só.

Ainda bem que agora, desde a segunda metade do século XX, está havendo escolas públicas para os mestiços descendentes dos escravos e das escravas, dos homens e mulheres pobres, livres e libertas; ainda bem que a atual sociedade carece, cada vez mais, de gente que saiba ler escrever e contar e fazer de novo a sua história.

E é tão bom saber que a Zona da Mata Sul tem ensino superior formando historiadores e professores de História nas cidades de Palmares e Cabo de Santo Agostinho. Essas escolas, ainda que alguns pernosticos digam que são fracas, são fundamentais na construção da identidade do povo da Mata Sul. Pois é o povo da Mata Sul que está aprendendo a organizar os documentos de sua história, aprendendo a questionar esses documentos e, lenta, mas permanentemente, reconstruindo os seus passados e construindo novos futuros. Sim, pois há futuros que as varandas das casas grande não conseguem perceber.

Pois, nesse espírito, tenho dificuldade em acreditar que tenha passado pela cabeça dos educadores responsáveis pela Faculdade de Ciências Humanas do Cabo de Santo Agostinho em por termo à formação de professores de história, acabando o curso de história. Eu tenho dificuldade em aceitar a idéia de que as autoridades municipais da cidade histórica do Cabo de Santo Agostinho permitam a continuidade dessa idéia histérica. Afinal, parece-me que a FACHUCA é uma autarquia e, como tal, está ligada à Prefeitura ou à Câmara Municipal. Em um tempo em que cada região do mundo está assumindo a sua história, fator crucial para a assumpção de sua identidade e, dessa maneira não se perder neste mundo globalizado, os cidadãos cabenses não devem admitir o encerramento do curso de história na sua cidade histórica. Não apenas os cabenses, mas todos os pernambucanos, todos os brasileiros, estão interessados em manter todos os caminhos de acesso ao conhecimento abertos para o povo brasileiro.

Então cabe perguntar:
1. A quem interessa manter o povo distante do conhecimento de sua História?
2. Quem pretende negar o futuro ao Cabo de Santo Agostinho?

segunda-feira, dezembro 01, 2008

A água não erra na queda

Esta foi uma semana de chuvas e sol ardente em lugares diversos do globo. Lembro que Aldir Blanco fez uma canção que dizia: “reclamam no sul chuva tanta, errou de lugar na caída.” Penso que isso esta relacionado com a seca no Nordeste, nos anos setenta, ao mesmo tempo em que ocorriam chuvas excessivas no Sul, penso que no mesmo Vale do Itajaí. Agora as cenas se repetem e, o novo é que as redes de televisão mostram para o mundo os morros e os habitantes pobres pendurados nos morros de Santa Catarina, nos dizendo que a miséria também existe em um dos estados mais ricos da federação brasileira. As imagens também os mostram que, de maneira semelhante aos pobres do Nordeste que não podem comprar terrenos, os pobres do Sul vivem em barracos pendurados nos morros, como cantavam os poetas da Mangueira em canções na voz de Cartola ou de Elizete Cardoso. As canções diziam que não havia água nos morros, e, como seqüência, podemos entender que não havia serviço de saneamento, saúde e tantas outras necessidades para quais são retirados mais de seis meses de impostos dos brasileiros. Vez por outra esses desastres anunciados ocorrem e nos fazem lembrar versos de Bob Dylon sobre as lágrimas que teremos que verter até que a humanidade se torne humana. São versos da época das outras chuvas, das outras enchentes. Quem se se importa com isso?


As imagens mostram que há um descaso pela vida, que as administrações públicas preocupam-se pouco com a ocupação dos morros, com a derrubada das árvores, com a destruição da natureza. Depois o cinismo dirá, sem vergonha: “também, esse povo vai morar ali, e sabendo que pode cair?”

Quantas mortes teremos que ver, quantas lágrimas serão necessárias antes que as administrações compreendam que cuidar da natureza e preservá-la é mais importante do que promover campanhas contando as “realizações” que a gente não consegue perceber. Os rios são oprimidos por pessoas que se acomodam, forçadamente às suas margens e, quando uma chuva mais forte chega, as casas são levadas pelo rio que voltou ao seu lugar. Matamos, com a miséria da exploração imobiliária, os nossos rios. As cidades nasceram perto dos rios, dos riachos; ao mesmo tempo derrubaram-se as árvores que cuidavam dos rios e dos seus ritmos; alguns rios estão morrendo nas nascentes e outros estão morrendo ao longo do curso. Não há preocupação de salvar a vegetação dos morros, não há a preocupação de salvar a vegetação ao longo dos rios; não há a preocupação de salvar os mangues nos encontros dos rios com os mares. Há apenas a grande ocupação de saber o quanto eu posso ganhar com mais alguns hectares de árvores tombadas. Afinal algumas delas servirão nas salas de refeição dos mais ricos. E, para que o ciclo seja fechado, algumas das tábuas podem vir a servir de parede para algum casebre construído na proximidade do leito de um rio, ou na encosta de algum morro, pouco importa o nome, se do Baú, Mangueira, Refúgio, Conceição, ou qualquer outro.

Não, as águas não erram de lugar na caída, nossas sociedades, nossas culturas ainda não acertaram com o caminho para conviver com toda a natureza, inclusive com os outros homens e mulheres de culturas e sociedades diferentes da nossa. Não é uma questão de tolerância, como dizem os conservadores e reacionários, é uma questão de aceitação, de conviver e entender que conviver significa mais que tolerar quem fuma, quem bebe, quem fala, quem pensa diferente da gente, quem tem cor da pele diferente da cor da pele da gente, etc.

Esses eventos climáticos não são tragédias, são eventos que nossa ciência já é capaz de prever. Tragédia é confundir fortalecer a miséria enquanto imprudentemente continua a se louvar o egoísmo econômico e social como virtude.

sexta-feira, novembro 28, 2008

Casa da Memória do Cabo de Santo Agsotinho

Viagens são sempre instrutivas, elas oferecem aos olhos e ouvidos novas paisagens, novos sons, oportunidades de enriquecimento da sensibilidade. Ontem, dia 28 deste novembro ensolarado fui ao Cabo de Santo Agostinho para conhecer dois apaixonados pela cultura local e, por isso, universal. Antonino Junior e Ivan Marinho, um nascido na cidade, outro lá chegado treze anos passados. Cativantes as conversas em torno da preocupação em “salvar a memória do que já foi feito no Cabo” e que corre o risco de ser esquecido. Esses dois estão angustiados, mais Antonino que Ivan, com a possibilidade de que o passado venha a ser tornado totalmente passado, uma vez que os senhores que detêm o poder político têm dificuldade de entender que é necessário conservar vivo o passado para que o presente e o futuro tenham algum sentido. Em nossa conversa algumas vezes apareceram expressões como “o povo não se interessa pela história”, ninguém mais se lembra quem foi fulono ou quem foi beltrano, e eles não “sabem o quanto o Cabo de Santo Agostinho é importante na história de Pernambuco”. Mas, porque o povo estaria interessado em conhecer e amar a história dos senhores dos engenhos do morgado do Cabo, as história que o põe como simples moldura dos acontecimentos passadfos? A população do Cabo de Santo Agostinho, como a de qualquer outra cidade, só tem interesse por aquilo que é seu, pela sua história.


Antonino imaginou a Casa da Memória. Para isso ele vem guardando documentos, fotos, objetos que fazem parte do cotidiano e dos momentos em que o cotidiano tornou-se excepcional. Assim vi fotografias de muitos aspectos da vida dos cabenses do século XX, uma visão larga das modificações sofridas pela cidade, e pedaços de uma produção cultural/teatral rica. É interessante verificar como havia, e ainda há uma boa atividade no município, embora, me parece não com as pessoas e os mesmos objetivos. A Casa da Memória será de grande ajuda para entender a dinâmica das mudanças sociais ocorridas naquela região nos últimos sessenta anos, desde que foi atingida pela dinâmica das industrializações, desde as usinas até o presente.

Penso que a Casa da Memória pode vir a auxiliar o município e os atores sociais entenderem o processo que se instalou na região desde os anos cinqüenta, quando a modernidade da metade do século XX chegou ali, com estradas novas, substituindo o trem, com usinas modernas torturando as canas e canavieiros, e os sindicatos querendo novas maneiras de relações humanas e de trabalho. Nesse período começam a crescer novos espaços sociais e, a Casa da Memória auxiliará a entender que não devem ser guardadas apenas as memórias dos barões e dos moradores da cidades, mas que também há uma memória a ser conhecida, ou reconhecida, a memória dos novos bairros, dos novos espaços sociais e as novas possibilidades de criação cultural.

A conversa nos levou a conhecer o Teatro Barreto Junior, e lá conversamos sobre possíveis atividades que deverão ser implementadas pela Casa da Memória. Tudo dependerá do afinco dos seus idealizadores em criar condições para que os cabenses, os cidadãos comuns e aqueles cidadãos que foram eleitos pra cargos de comando na urbe, venham a compreender a importância de não esquecer de se lembrar. Claro que tudo isso tem que envolver os sistemas escolares que atuam no município e a re-invenção da história do Cabo de Santo Agostinho, uma história que entenda ser mais importante um canavieiro, um funileiro que vive e cria diariamente a Cidade que possíveis heróis nascidos na Espanha que casualmente estavam em uma nau quase cinco séculos passados.

Vamos acompanhar a construção da Casa da Memória na rememoração do Cabo de Santo Agsotinho

domingo, novembro 23, 2008

Antonio Melo, cidadão de Nova Descoberta, do Recife e do mundo

O Ano de1938 foi o ano do nascimento de Antonio Melo lá, na cidade de Bom Jardim. Era o tempo do Estado Novo, uma ditadura que seus pais seus pais, possivelmente, não sabiam que estava acontecendo. Eles estavam preocupados em criar Antonio e seus muitos irmãos. Os períodos de seca eram, quase sempre no Sertão ou no Agreste, mas Bom Jardim fica próximo do Agreste e foi atingindo pelas estiagens, além de ser sempre atingido pelo latifúndio, pela gulodice de terras que certos grupos sociais sempre cultivaram em nossa região. Assim, em 1957 Antonio Melo chegou em Nova Descoberta, na época um pedaço de Casa Amarela, que crescia populacionalmente com gente descida da Mata Norte. Lá já estávamos a minha família, chegada alguns anos antes e também a família de “seu Teté”. Seu Teté é o pai de Cristina, com quem Antonio Melo veio a se casar, além do fato de Seu Teté, a esposa Dona Maria e sua filha Cristina eram padrinho e madrinhas de meu irmão José Vicente, a quem chamamos de “Doutor”. Seu Teté, de certa maneira foi “meu primeiro morto”, das pessoas que conheci e com quem tratei foi ele, com sua morte, que me pôs em contato com o mistério. Eu era muito menino, não fui ao enterro, mas dei por sua falta, jamais explicada oficialmente. Como nunca o vi morto, ainda carrego a lembrança dele vivo, em sofrimento, sentado na sala.

A gente morava na mesma rua, a Nova Descoberta, hoje pomposamente chamada de Avenida e, agora é um bairro. Pois bem, se não for engano meu, “seu Teté” morava a casa 1340 – (mais tarde veio a ser a venda de Manoel Lopes, meu primo, sobre quem falei já neste espaço) e a nossa casa ainda é a de 1420. Bem, Antonio Melo ficou gostando de Cristina e casou com ela. Fez uma família, que é bonita, no meio de muito sofrimento. Passaram um tempo morando no morro em frente a nossa casa. Outro período foram morar próximo à entrada do Córrego da Areia.

Antonio Melo, embora eu vá repetir várias vezes esse nome “Antonio Melo”, a gente, lá em casa só chamava “Tonho de Cristina” ou “Toninho de Cristina”, conseguiu emprego de tecelão na Fábrica Othon Bezerra de Melo, na Macaxeira, como grande parte dos homens e mulheres que iniciaram o populacionamento de Nova Descoberta. Aquela era uma fábrica de tecidos e tuberculosos. Ela, como as fábricas da torre e Yolanda forneceram os clientes do Hospital do Sancho por muitos anos. Quem sabe algum estudante de História queira estudar e verificar essa relação que minha memória faz. Bem, na Fábrica da Macaxeira havia um forte movimento sindical e ali trabalhavam bravos cristão-católicos jocistas. (Caso não seja meu engano, já está escrita uma dissertação de mestrado em História, na UFPE, sobre a Macaxeira). Antonio, que havia aprendido as primeiras letras da dignidade com seus pais, logo se envolveu na luta sindical. Em março de 1964 foi preso. Isso aconteceu outra vez.

Enquanto os golpistas de 1964 procuraram por fim à luta sindical, o Vaticano enviou Dom Hélder para ser arcebispo de Olinda e Recife. Também ocorreu uma das periódicas cheias, e o Rio Capibaribe invadiu seus antigos espaços, e a chuva derrubava as casas empinadas nos morros de Nova Descoberta. Dessa conjunção e da fé ativa e transformadora de Dom Hélder, nasceu a Operação Esperança e lá estávamos, eu menino de quinze anos aprendendo e Antonio Melo, com muitos outros, organizando a reconstrução de casas e as vidas. Também foi importante a presença dos padres Jorge, Miguel e Heriberto, americanos que vieram atender as solicitações do papa João XXIII.

Depois veio o Conselho de Moradores de Nova Descoberta. E a gente lá. Antonio veio a ser eleito Presidente do Conselho de Moradores de Nova Descoberta. Aquele foi o primeiro Conselho de Moradores que se estabeleceu na cidade do Recife. E a gente fazia eleição. E a população ia participar, para o desespero dos políticos. Para um cargo que não tinha salário e também não tinha poder nenhum, houve um ano que dessas eleições participaram mais de 5000 eleitores. Era fazer democracia em tempo de ditadura. Eu fui crescendo naquele meio, enquanto também estudava e ia ficando professor de profissão. E teve o Encontro de Irmãos e, faz quarenta anos que, estávamos juntos, no mesmo palanque, Dom Hélder, Antonio Melo, Zildo Rocha, Reginaldo Veloso, (e eu ali também, com meus professores de democracia e sonhos sociais) no ato do Movimento por Justiça e Paz, no pátio interno da Matriz de Casa Amarela.

Veio a perseguição sobre os movimentos eclesiais católicos e sobre os movimentos sociais ligados a Dom Hélder; veio a perseguição à Ação Católica Operária; veio a prisão do padre Romano por causa do documento: "Nordeste, o Homem Proibido"; vieram os primeiros movimentos para restauração do sindicalismo, veio a fundação do Partido dos Trabalhadores, veio a eleição de Luiz Inácio da Silva e, nesses lugares, lá estava Antonio Melo, fiel à sua fé católica e à sua esperança socialista. Assim, sem sair muito de seu lugar – Nova Descoberta – Antonio Melo, Antonio de Cristina, como o chamamos lá em casa, pois Antonio sempre foi de Cristina, como Cristina sempre foi de Antonio, foi um construtor do Recife e das liberdades que temos nos dias de hoje.

Hoje foi muito bom para todos que vivemos com Antonio Melo, esses recentes 50 anos de nossa História. Com ele fizemos essa história. Na manhã do dia 14 de novembro, o retirante Antonio Melo, recebeu o título de Cidadão Recifense, recebeu a medalha José Mariano. Ele disse que estava orgulhoso e feliz porque essa homenagem estava sendo prestada a todos os trabalhadores que, como ele, continuamos a sonhar com o mundo todo socialista.

sábado, novembro 22, 2008

A PARTICIPAÇÃO DOS POVOS AFRICANOS NA FORMAÇÃO DO BRASIL

No dia 20 de novembro deste ano em que se comemeora 120 da publicação da lei João Alfredo, mas conhecida como Lei Áurea, que pôs fim à escravidão no Brasil; 119 anos da Proclamação da República; neste ano que comemora 60 anos da proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, particpei da Semana da Consciência Negra no Engenho Poço Comprido, na área rural de Vicência. Organnizamos um seminário para refletor com professoras da rede Municipal de Vicência e de pessoas que vieram das cidades vizianhas. Foi erguido um momumento a Zumbi dos Palmares, Herói do povo brasileiro. Às noites ocorreram manifestações de canto e danças do povo.
No Seminário, proferi a conferência que se segue:


A PARTICIPAÇÃO DOS POVOS AFRICANOS NA FORMAÇÃO DO BRASIL

Severino Vicente da Silva, Phd




Quando fui desafiado para organizar esse dia de estudos aqui, neste lugar de produção de riquezas, pois produzia açúcar com o trabalho de muitos homens e mulheres, rapidamente pensei n que ocorrera a exatos vinte anos. Naquele tempo, era o ano de 1988 e, como diretor da Divisão de Projetos Especiais da Secretaria de Educação da Cidade do Recife, fui chamado para organizar eventos que levasse a rede de ensino a pensar sobre o significado da Abolição da Escravatura no Brasil. Era um período no qual o Brasil procurava se re-inventar, saindo que estávamos de uma ditadura e acabávamos de construir uma nova Constituição para todos os brasileiros. Era aquele um momento oportuno para discutirmos sobre as nossas origens, saber que nós somos. Organizamos um seminário como esse, realizado na cidade de Camaragibe, do qual participaram professores de 25 municípios, com o objetivo de por nas escolas a temática que hoje nos une aqui. Assim, aos poucos, mas sempre, se faz a história. Naquele ano de 88 nos lembrávamos que vinte anos antes havia sido assassinado o pastor Martin Luther King e, se comemorava, então, os quarenta anos da promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela ONU. Esses fatos todos estão relacionados e, no seu conjunto mostram o quanto nós mudamos e o quanto haveremos de mudar. Ainda há muito que fazer para alcançarmos a aurora da humanidade.
Faz vinte anos que escrevi o texto que se segue:

"Não havia trabalho em que ele (o negro escravizado) nõo seja aproveitado. Ele derruba a mata, limpa os campos, prepara o sôo, limpa o roçado, faz o corte, carrega os frutos, movimenta as máquinas, vê a qualidade do produto, cuida dos animais, acompanha o movimento das galinhas, limpa os animais, pesca, caça, prepara a comida, carrega a água, cozinha os alimentos, lava os pratos, corta a lenha, costura, engoma, prepara o coxim, dá banho nas crianças, cuida dos velhos, prepara os remédios, carrega os recados, rema os barcos, conta história para as crianças dormirem, canta pra embalar, leva os dejetos para fora de casa, vende os produtos do engenho, produz doces, prepara bolos, vende o corpo, etc. A lista é cansativa."

Creio que hoje eu poria algumas atividades a mais. Joaquim Nabuco escreveu que não há nada nesse país que não tenha sido tocado pela mão do negro, embora a sociedade tenha se recusado a reconhecer essa enorme contribuição dos povos que foram trazidos do continente africano e, ainda que contra os seus desejos, construíram, juntamente com os índios e com os seus senhores, o que hoje se conhece como Brasil. Nessa soma social, o reconhecimento maior tem sido para os descendentes do grupo de tradição européia, em detrimento dos descendentes dos muitos povos indígenas e dos muitos descendentes dos povos africanos. Esse não reconhecimento exige dos não reconhecidos um comportamento atento e ativo, um constante lembrar de sua existência e de sua dignidade, maneira que se desincumbam de mais essa tarefa: cuidar da unidade da nação, forçando o grupo dominante a diminuir o fosso que quer aumentar a separação entre os brasileiros.

A escravidão, ensinava Joaquim Nabuco, trouxe malefícios para todos no Brasil. Ainda temos que conviver com o desrespeito que herdamos daqueles tempos no qual, homens e mulheres eram tratados como coisas; ainda teremos que muito realizar para que nos alimentemos orgulhosamente do nosso passado. As marcas que trazemos desde a nossa formação, antes de nos libertarmos do Império português, as marcas que nós mesmos criamos, durante o Império brasileiro, por termos mantido o regime escravocrata, deve ser superadas com a mesma ginga, com a mesma sagacidade de nossos antepassados recentes, que se impuseram gradativamente “ao mundo que o português criou”.

Nas escolas, quase sempre aprendemos que a contribuição dos negros para a formação do Brasil está ligada à culinária, aos lazeres, seja nas danças, seja nas músicas. Claro que nos orgulhamos de termos construído a química das feijoadas, dos acarajés, do vatapá, do xinxim de galinha, do bobó, das buchadas, e de tantas outras delícias, criadas pela inteligência de nossas antepassadas e dos nossos antepassados. Mas essas são contribuições sem autores, pois elas são resultados de trabalhos coletivos, realizados no anonimato das cozinhas das casas grandes, ou dos terreiros das senzalas. Sim, nos orgulhamos da dança guerreira da capoeira, gestada nos engenhos e nas cidades, a partir do balanço do corpo, utilizando-o como arma contra aqueles que desejam o corpo apenas como máquina de produção de riqueza; também temos orgulho da cores que pusemos nos cortejos das procissões de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e os transformamos nos Maracatus de Baque Virado que enchem as ruas e o ar de cores, movimentos e sons; ficamos orgulhosos quando acompanhamos os Afoxés, levando os orixás para passear, agora sem a necessidade de estarem sincretizados com as tradições religiosas católicas, embora não se renegue de todo a dupla pertença religiosa, pois sabemos que cada um tem o direito de escolher a sua própria religião, pois a religião não é coisa de cor; mesmo porque, orixás de povos inimigos nas terras africanas aqui tiveram que conviver entre si e com os espíritos que já habitavam aqui bem antes dos santos trazidos pelos europeus dos orixás vindos da África. E se nos desfiles do Maracatu de Baque Virado encontramos um Taxua ou Arreamá, são muitos os negros e mestiços que lá encontramos. E até decisões esdrúxulas dos que se arvoraram no direito de definir o que é maracatu, puseram no cortejo dos caboclos as calungas do Baque Virado .

É nosso orgulho saber que muitas palavras que usamos no dia a dia de nossas vidas foram trazidas por nossos antepassados e antepassadas que vieram forçados, da África. São muitas as palavras e, principalmente, o esse jeito meloso de falar, esse português que não é mais o de Portugal, uma vez que a convivência conosco tirou o travor dos senhores que foram seduzidos pelo jeito de falar de quem não freqüentou a escola. Sabemos de onde vem esse adocicamento dos diminutivos que tornaram a língua portuguesa falada no Brasil uma montanha de carinho gerada em um universo de dores e sofrimentos. Talvez isso veio a ocorrer pelo fato de os portugueses não terem criado escolas nessas terras porque eles não queriam que nós nos tornássemos o que hoje somos: um povo que inventou a sua própria maneira de falar, de cantar, de dançar, de relacionar-se, etc. Gilberto Freyre chegou a dizer que nós já temos uma civilização que nos diferencia das demais, indo mais além que Darcy Ribeiro que nos chama de Povo Novo.

Mas talvez já seja o tempo de nos apoderarmos de nossa história, a História do Povo Brasileiro, esse povo mestiço; somos um povo e uma civilização com nossas crenças mestiças, com nossas expressões lingüísticas mestiças, com nossas epidermes mestiças, com nossos andares mestiços, com nossos brinquedos mestiços, com nossas tradições mestiças. Será que há algo nessa nossa vida que não seja mestiço? Sim, ainda há muita coisa entre nós que se recusa mestiçar-se. Uma delas, importantíssima, é a escola e o que ela ensina. Enquanto tudo ao nosso redor é mestiço, a escola, e o que ela produz e reproduz (mais reproduz que produz), se recusam a serem mestiças, pois ela só deseja ensinar a tradição européia. As outras tradições ela rejeita, põe em segundo plano. E isso acontece no idioma e na história.

Essa primeira opção, a do idioma, foi uma decisão tomada na época em que Portugal ainda dominava essas terras; foi uma decisão do primeiro ministro português, o Marquês do Pombal, que proibiu o ensinou de outro idioma além do português. Temia, o ministro de dom José I, que a Língua Geral, falada em todo o Brasil, viesse a ser um ato de separação da principal colônia do Império Português. Assim. Desde o século XVIII foi definido que não se podia ter outra forma oficial de expressão lingüística que não aquela utilizada pelos portugueses. Agora, essa disposição pombalina acabou por ser um caminho comum para nos comunicarmos e promover mudanças, ao mesmo tempo em que nos deu um idioma comum para tratar com as regiões de onde vieram alguns de nossos antepassados. Ainda hoje, com uma explicação de que devemos manter nossos povos unidos, vivemos a realizar acordos ortográficos nos quais os portugueses ainda pretendem nos impor o seu jeito de falar, como se ainda fôssemos sua colônia. Lamentavelmente ainda há quem pense assim nos escalões decisórios.
Mas a segunda opção, a que definiu qual é a nossa história, deve ser creditada aos que dirigem o Brasil desde 1822, pois desde aquele ano os portugueses não têm mais poder sobre as leis e os costumes dos brasileiros. Mas aqueles brasileiros que proclamaram a independência ao puseram fim à escravidão, libertaram-se de Portugal, mas não libertaram os trabalhadores brasileiros. E é por isso que os trabalhadores brasileiros não entram nos livros nem nas aulas de história. Muitos de nós sofemos muitos para entrar na escola e sofremos ainda dentro delas, especialmente se não nos curvamos aos sistemas de favores que ela ensina.

Durante anos os heróis brasileiros eram portugueses: Dom Manuel, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Frei Henrique, Dom João III, Mem de Sá, Manuel da Nóbrega, José de Anchieta, Marques do Pombal, Domingos Jorge Velho, e outros. Foram muitas as gerações de brasileiros que aprenderam a gostar dessas pessoas, mas analisando bem, veremos que todas elas sempre estiveram pensando em como arrancar o maior lucro possível do Brasil para o bem de Portugal. E como nos contaram pela metade essa história!!! Pode-se observar esse encaminhamento na obra Pequena História do Brasil, escrita pelo Dr. Joaquim Maria de Lacerda, que teve a sua segunda edição publicada em 1880 , mas que foi utilizada nas nossas escolas até os anos cinqüenta do século passado.

E aí, de vez em quando aparecia na lista dos heróis das escolas algumas pessoas que não estavam cem por cento interessadas no bem do Império português, mas essas pessoas eram apresentadas de maneira oblíqua, e seus nomes vinham sempre acompanhados de pequenas histórias que diminuíam as suas estaturas, os seus feitos. Os homens portugueses que escreveram a história do Brasil, assim como os seus representantes atuais, sempre contaram a nossa história de maneira a nos humilhar, a nos fazer ter vergonha de sermos brasileiros. Por isso quase não se mencionava Ganga Zumba e seu sobrinho Zumbi (nesse caso, quem fala de Zumbi, agora definido como Herói nacional, esquece de dizer que ele nasceu no Brasil e não na África), poucos sabem da existência e ensina da bravura e valentia do negro Henrique Dias (morto em 1662), na guerra da Restauração de Pernambuco, enquanto se berra ao mundo o senhor de engenho João Fernandes Vieira; do mestiço André Vidal de Negreiros(1606-1680), naquela mesma guerra; da Vida de Chico Rei (século XVIII, Congo – Minas Gerais), organizador da grupos de negros nas Minhas Gerais; pouco conhecidos são os negros Manuel Faustino dos Santos, João de Deus, Luiz Gonzaga das Virgens, mentores e mártires da Conjuração Baiana de 17998; superficialmente se fala da liderança do Manoel Francisco dos Anjos – o Negro Manoel Balaio, na luta contra os coronéis da Guarda Nacional do Maranhão; do Pedro Pedroso de Paudalho, resistente na defesa dos interesses de Pernambuco, quando os grandes proprietários já haviam desistido de uma independência ligada com os interesses dos não proprietários; do mestiço Antonio Borges da Fonseca, intelectual da Revolução Praieira; da criatividade e competência do engenheiro Cruz de Rebouças, construtor de pontes no Brasil e na África; do heroísmo de do negro Marcilio Dias na batalha do Riachuelo, defendendo solitariamente o seu navio e a sua pátria; das lutas pelo fim da escravidão do negro José do patrocínio e de Luiz Gama; poucos sabem que Castro Alves (1847- 1871), o poeta do Navio Negreiro, é um mestiço como sangue negro; são tão poucos os que se lembrar de que o maior escritor brasileiro, Machado de Assis (1839-1908), é um mestiço; e quem já ouviu falar no poeta Cruz e Souza (1861-1898. E que dizer do “Almirante Negro” o marinheiro João Cândido que enfrentou, com seus companheiros, à marinha brasileira, vinte anos após 1888, para dizer que homens livres não recebem castigos físicos. São tantos os negros e mestiços, negras e mestiças que tiveram papel importante na formação de nossa nacionalidade.

Há outros construtores do Brasil, gente como ainda pouco conhecida, de um panteão de artistas que traduzem as nossas angústias em poesia, canções e danças. Criadores de nossa cultura, uma cultura mestiça, criadores de maneiras novas de tocar instrumentos, arranjar músicas, pessoas como Pixinguinha, Cartola, Paulinho da Viola, Lupercínio Rodrigues, mais conhecidos porque foram tocados nas emissoras de rádio e televisão, esses outros criaram um mundo que, no dizer de Vinícius de Morais, “se é branco na poesia, é negro demais no coração”.

E o que poderíamos dizer e quantos nomes escreveram e escrevem a história dos muitos esportes brasileiros, desde o mais popular futebol até à ginástica ritmica e artística. São muitos os nomes, são muitos os espaços que estão sendo ocupados ppor muitos negros e mestiços brasileiros. É tempo de dizermos essas realizações em tom mais malto, em "tom maior" como já nos chamou a fazer, o sambista Martinho da Vila.

E se nos voltássemos para o que se decidiu não ensinar sobre as nossas tradições mais antigas, a dos nossos avós índios, é que veremos aumentar a nossa consciência de que a nossa escola nos ensina ser apenas brasileiros de um terço, o terço europeu. Quase ninguém sabe quem foi Aimberê, Piragibe, Junduí, que lutaram até a sua morte na defesa de sua terra, na defesa da liberdade de suas tribos e de seus povos. Temos que parar de repetir o que os europeus disseram nos séculos passados como o objetivo de que nós tivéssemos vergonha de nós mesmos. É tempo de mudar essa história, essa maneira de contar a nossa história.

Para se ter uma idéia do que a escola é capaz de fazer, tomemos o exemplo do Marechal Rondon (1865-1958). Ele nasceu em uma tribo, filho de pai Bororo e mãe índia Terena, mas foi criado por um militar no Rio de Janeiro. Embora Rondon seja o grande defensor dos índios da Amazônia, desde o Mato Grosso, onde nasceu, ele não se dizia índio.

O que eu estou pretendendo dizer é que devemos exigir que nossas escolas ensinem todas as nossas tradições de maneira igualmente respeitosa. Os professores e as professoras de história, as professoras e professores das séries iniciais, os autores de livros didáticos, devem parar de ensinar-nos que tal grupo é preguiçoso, que aquele é dado a festas, etc. Todos os povos só trabalham com alegria quando podem usufruir das riquezas que produzem. Não trabalhar quando não se recebe o pagamento; recusar-se a ser explorado indefinidamente não é preguiça, é coragem! Essa é uma ação que afronta a vontade do opressor que se vê diante da ação voluntariosa daquele oprimido que se levanta contra a ordem opressora.
Somos mestiços devemos saber quais as nossas origens para poder nos orgulharmos dela. Temos direito aos nossos heróis.

O título dessa nossa conversa é a “participação dos africanos na história do Brasil”, e esses termos nos levam a meditar de maneiras múltiplas. Vamos considerar o que nos disse José Bonifácio de Andrade e Silva a respeito da vida e da permanência dos africanos no Brasil. Dizia ele, em 1823, um ano após a independência do Brasil, que entre 1817 e 1823, haviam entrado no país, quarenta mil escravos, sem que esse fato causasse aumento significativo na população de escravos. Podemos entender que havia tão grande número de mortes de escravos que não poderia haver crescimento de sua população. Autores como Celso Furtado e Caio Prado Junior, Roberto Simonsen, calculam que um africano que aqui chegava como escravo, levado ao eito constante do trabalho, vivia em média entre 7 e 8 anos. Nesse período, o período do Império português, a principal contribuição do africano foi principalmente a produção de riqueza, seja na lavoura da cana, seja na coleta de metais e pedras preciosas. Embora não muito, é provável que após a chegada dos reis portugueses ao Brasil e, principalmente depois de 1831 e 1845, as condições de trabalho tenham tido algumas modificações e criado condições para uma reorganização das condições de vida dos negros. As exigências da Revolução Industrial inglesa, as pressões humanitárias, o crescimento da concessão e compra de alforrias, geraram novas maneiras de sociabilidades nas relações entre nossos avoengos.

Essas novas maneiras fizeram crescer o número de alforrias concedidas, de maneira que, estudos recentes mostram, o aumento de homens livres nos engenhos, especialmente esses da Mata Norte de Pernambuco. Embora a principal mão de obra dos engenhos fosse escrava, havia em seu entorno um mundo de homens livres e libertos, produtores da alimentação imediata dos engenhos. Manuel Correia de Andrade, em seu famoso livro, A terra e o homem no Nordeste já aponta nesta direção, fazendo coincidir esse fenômeno com a expansão da cultura do algodão na região. Estabelecimento das usinas não foi tão eficaz quanto se desejou, mas, ao contrário, fez crescer o fenômeno de uma modernização conservadora que, mais tarde, favoreceu o crescimento do latifúndio em uma região que tendia às pequenas e médias propriedades, ainda no início do século XX. A existência de uma cidade como Vicência, é resultado de uma economia de comerciantes e não de latifúndio. Dona Vicência, que em sua casa albergava comerciantes vindos desde a Paraíba e o Ceará em direção das grandes feiras que ocorriam em Goiana, são símbolos de uma época anterior ao Pró-álcool e ao Bio-combustível. Mas, desde o tempo dos engenhos de bangüê, que se tornaram de fogo-morto na época dos engenhos centrais e das primeiras usinas, sabemos que a mão de obra que trabalhavam nessas fábricas de açúcar eram de negros e mestiços. Necessário que sejam feitos estudos para realçar a presença desses homens e mulheres que, saídos do eito da cana, para onde voltam a cada dia, vêm construindo novas maneiras de viver, dançar e cantar as ações humanas. Mestiços como Baracho, popularizador na Ciranda; mestiços e negros como Manoel Ribeiro, Aprígio Pinobá. João Paulino, Zé Liberato, Boquinha, Antonio Dias, Euclides Bolo, Zé Berto, Aprígio Gabriel, Biu Pequeno, Cobrinha, Caúca, Manoel Trapiné, Zé Duda, Mane Salustiano, Luiz Paixão, Zé Batista, Biu Roque, Biu Alexandre e muitos outros que são conhecedores do seu povo, intelectuais, cantadores e artistas de seu povo. Eles que mantêm as tradições das Cirandas, dos Cavalo Marinho, do Maracatu de Baque Solto e tantas outras brincadeiras e aspectos de nossa cultura.

Tudo isso é o que somos. A participação do negro na história do Brasil não se dá, nem ocorreu apenas nos trabalhos físicos, no mundo trabalho. E, verdade, o mundo do trabalho é que produz a cultura. Quem não se envolve ou é envolvido no mundo produtivo produz poucas idéias. Em todos os aspectos da vida brasileira há a participação dos negros, índios e mestiços. A rigor somos os construtores do Brasil e sua cultura, embora o sistema estabelecido seja o de expropriação do trabalhador e do resultado do seu trabalho, até mesmo no mundo do simbólico. A semana da Consciência Negra deve ser, e será cada vez mais. a Semana da Consciência Brasileira. Um dia teremos uma primeira dama que não buscará outra nacionalidade para seus filhos. Um dia bastará ser brasileiro, como já basta para os brasileiros que conhecem e se orgulham do presente dos seus avós e lutam para que seus filhos venham a se orgulhar de seu presente.

Como escreveu o mestiço João Ubaldo: VIVA O POVO BRASILEIRO!!!!!




BIBLIOGARFIA


LACERDA, Dr. Joaquim Maria de. Pequena História do Brasil. Edição atualizada. 2º edição. Rio de Janeiro; São Paulo; Belo Horizonte.
ROMANELLI, Otaiza de Oliveira. História da educação no Brasil. 11 º edição. Petrópolis: Vozes, 1989.
SILVA, Severino Vicente da. O negro ao longo da história do Brasil, In Caderno de Educação Municipal, volume 1. Recife: Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura Municipal do Recife, 1988.

terça-feira, novembro 18, 2008

E se Oboma fosse africano..

Recebi esta matéria e a ponho aqui por muitas razões, sendo uma delas um texto posto aqui celebrando a vitória da mestiçagem.



Por Mia Couto (escritor Moçambicano)

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles.
Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor.
Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão:
habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África.
Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato.
Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas - tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.
6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos.
Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões
Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos – as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa. Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política.
Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

Semanário Moçambicano "SAVANA" - 14 de Novembro de 2008